segunda-feira, 21 de junho de 2010

O dia diferencial

Os dias e noites são iguais. Todos os dias e noites daquele sujeito de cerca de 40 anos tem sido gêmeos univitelinos. Está entregue à rotina. Acorda, toma café, come um pão com manteiga, escova os dentes, toma banho e sai, com a pastinha debaixo do braço.
Trabalha, trabalha, trabalha, e volta para casa. Vê um pouco de tv e vai dormir. Nem falo dos finais de semana, em que ele se dedica a só dormir. Os anos vão passando assim.
Ele tem algum tipo de esperança. Algum dia o que ele faz será suficiente. E então, ele aproveitará a vida. Por enquanto, segue aquela toada, repetitiva e massacrante.
Em casa, contas a pagar. Consome-se tudo o que ele faz. Não consegue ver resultado em nada. Ele trabalha para sobreviver. E só.
Então, chega uma manhã em que ele percebe isso. Vê que nada tem sentido nisso tudo. Trabalha feito condenado para seguir vivo e saudável, para continuar trabalhando feito um condenado. É um círculo vicioso. A cortina de fumaça se dispersa.
Se olha no espelho. Observa as rugas, e o tempo perdido. Quando foi a última vez que sentiu genuíno prazer, desnudo de preocupações? Não lembra. Não sabe. Resolve mudar de vida, pelo menos por um dia, naquele dia. Não pode ficar para depois, porque foi o depois que o enganou por tanto tempo. O depois é um mentiroso descarado.
Esquece o trabalho, esquece o dinheiro, esquece as preocupações. Sai andando por aí. Olha para o sol e o céu azul, enfeitado por algumas nuvens brancas. Respira fundo e nota toda a beleza que outrora passava despercebida. Nem lembrava que existiam árvores, que existiam flores, que existiam cores. Sabe que amanhã tudo voltará ao normal. Exatamente por isso, fica apenas com o hoje, deitado na grama, banhado pela luz do sol, confraternizando consigo mesmo e com toda aquela vida em seu redor.
Anoitece, e ele percebe que foi um dia, nada mais do que isso. No entanto, isto não é pouco. Foi um dia, e não um somatório de horas modorrentas. Ele descobre que pode viver, que isso não machuca, não dói, não mata.
Tudo pode ser mais bonito. Nos entregamos demais para as grandes coisas, que são tão pequenas, tão microscópicas, e esquecemos as pequenas coisas, que são as maiores e mais substanciais. É uma grande armadilha da vida. Estamos presos, sim. Mas, ainda assim, há espaço para o movimento. Movimentemo-nos, ora pois. Antes que a vida sorrateira invente de acabar.

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