terça-feira, 22 de junho de 2010

Masmorra

Lá estava ele, preso naquela masmorra. Ousou levantar-se contra o status quo. Mexeu com quem não devia, despertando a fúria da corja. Ou melhor, devia, sim. Sabe que fez o certo. Por isso, não se arrependia de modo algum. Dane-se a masmorra se ele seguiu seu senso de justiça.

A corja, periodicamente, cercava-o com seus chicotes. Batiam com toda a força sobre suas costas. Catapleft! Catapleft! Corre o sangue. De alguma forma, aquele homem em estado pleno de degradação se comprazia. Gritava, sim, mas aquela dor aguda lhe purificava. Gritava, então: "Mais! Mais! Mais!"

Os gestos violentos apoiavam-se em desculpas esfarrapadas e argumentos tacanhos e irracionais. Entretanto, toda a ditadura precisa de alguma bobagem para legitimá-la, e assim a corja tratava de esmagar aquele rapazote insolente que se meteu a desafiá-la.

Os cataplefts aumentavam enquanto o priosioneiro sorria, gritava e se deleitava. Sentia certo prazer em estar ali. A poça vermelha que se formava no chão era a materialização de sua dignidade. E dignidade, caríssimo leitor, não se compra na padaria.

Seres humanos pequenos não sofrem porque escolhem os caminhos mais cômodos. Somente aos grandes homens são reservados o direito de chorar lágrimas verdadeiramente doloridas e derramar o mais puro e rubro dos sangues. Aquele homem que apanhava da corja era um destes escolhidos a dedo. Não baixou a cabeça para a empáfia dos reis da coroa de papelão. A cada chicotada que cortava cada vez mais fundo a sua carne, ele sabia que aumentava sua força, sua justiça, seu legado.

A rebeldia com causa vale a pena, sim, e nos faz mais humanos. A escolha punida com dor e sofrimento, mas baseada nos anseios do coração vale infinitamente mais do que a escolha utilitária premiada com ouro e sorrisos cínicos. Possivelmente aquela hemorragia matará o prisioneiro da masmorra. Mas ele morrerá com o coração leve, um tanto feliz e deveras dignificado. A corja viverá, com sua falsa e nojenta satisfação, brindando sua covarde glória com taças de sangue alheio, banhada em sua hipocrisia característica. Mas, quando morrer, e um dia morrerá, será à míngua, envenenada pelo líquido de sua própria essência.

Nenhum comentário: