terça-feira, 29 de junho de 2010

E se...?

O que aconteceria se eu tivesse decretado um novo começo para tudo hoje? Isso seria uma realidade?

E se eu me mantivesse acordado, lutando contra minhas pálpebras? As coisas seriam melhores?

Se eu fizesse tudo certo, os dias, ainda assim, permaneceriam frios e acinzentados?

E se eu tivesse me mantido calado, onde eu estaria agora?

Se nossas bocas manchadas de vinho tivessem se tocado naquela noite surreal, naquele banco, naquele momento, será que estaríamos juntos agora? Estaríamos vivos?

Se eu tivesse agido diferente, será que a vida seria realmente diferente?

E se naquela parada de ônibus, quando estávamos lado a lado, eu tivesse dito tudo o que senti vontade de dizer? Estaríamos entregues, cúmplices e abraçados, como jamais estivemos?

Tantas e tantas coisas já passaram em minha frente... Admirei, contemplei, sonhei, mas não fiz, nada realizei. Não assumi riscos, não me entreguei aos doces momentos caóticos de minha existência.

E se eu tivesse me dado o direito de ser um ingênuo, puro, feliz e romântico bobo da corte quando eu quis ser? Teria ao menos arranjado algum sorriso em seu rosto?

E se eu rasgasse esta folha e escrevesse um novo texto? Será que valeria a pena?

E se eu me violentasse um pouco, se eu deixasse alguma força estranha e indesejável me guiar por alguns passos? Estaria agora com essa falta de ar, esse aperto no peito, esse nó cego na garganta?

Se eu comesse uma fatia a mais daquele bolo, teria saciado meus desejos tão secretos e tão escancarados? Ou teria apenas ficado enjoado, conversando com um baldinho ao lado da cama, uma noite inteira?

E se eu tentasse ser como a multidão que me cerca e sufoca? Tudo isso seria mais primaveril, menos avassalador?

Não sei. Nunca saberei. Esta aqui é a vida que escrevi até hoje, tão concreta, tão palpável, tão real quanto o angustiante passar dos dias.

Posso escrever mais, criar uma reviravolta maluca e inesperada. Mas a minha mão treme, a caneta não tem rumo, ela apenas espera pela última linha desta folha, mas sabe que o meu vocabulário é limitado. Minha mão anseia por palavras que não saem, e a caneta, refém indecisa, volúvel, apenas dança com meus dedos gelados. Pareço fadado a escrever mais do mesmo. E trocar a caneta não vai adiantar nada.

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