segunda-feira, 14 de junho de 2010

Dia especial

Bernardo teve uma noite mal dormida. Não conseguiu se desvencilhar de seus pensamentos. Encontraria Frida na tarde daquele dia. Acordou já com certo brilho nos olhos, e frio no estômago. Que dia importante!
Há dias que valem por uma vida toda. Para Bernardo, aquele seria um destes. Planejava milimetricamente cada movimento, a ordem das palavras, os trejeitos, a naturalidade necessária. Não sabia a dimensão que aquele dia teria para Frida. Não sabia sequer se ela realmente se importava.
Bernardo sempre fez de tudo para demonstrar para Frida que gosta dela. O coração está acelerado, quase saindo pela boca. Aquela manhã é lenta. Os minutos parecem horas, e as horas parecem dias. Bernardo está mais ansioso do que nunca.
Toma um café em cima do outro. Passa, tempo, seu malvado pregador de peças! Meio da manhã. Fim da manhã. Almoço. Agora falta pouco para as três da tarde, a grande hora. A angústia aumenta.
São duas e meia, e Bernardo está lá, no ponto de encontro que fora marcado. Os minutos passam arrastados, não há sequer saliva para engolir. Bernardo anda para lá e para cá. Tenta pensar em algo diferente. Não consegue. E, assim, chega o horário crucial. Três da tarde.
Passam um, dois, cinco minutos. Bernardo olha para o relógio. Talvez esteja adiantado. Atrasos são normais. E aquilo é só o prelúdio para a felicidade. Fosse fácil, não teria a menor graça.
Passam vinte minutos. E Frida aparece, ao longe. A angústia passa, a alma alivia. Finalmente, Bernardo, seja feliz! Os dois se abraçam. Sempre desajeitado e desorientado, Bernardo, tentando em vão transparecer domínio de si, sugere um bar ali perto.
Bernardo e Frida chegam, sentam. Trocam meia dúzia de palavras, e o telefone dela toca.
- Ok! Estamos aqui na rua Pereira de Albuquerque, no Bar Kafka!- disse ela, animada, para o interlocutor.
Sorrindo, Frida anuncia que um amigo dela, que ela pensa ser amigo dele, também viria. E veio.
Aquela tarde, ou o que sobrou dela, se arrastou. Para Bernardo, aquilo era uma espécie de pesadelo, tortura psicológica mesmo. Tentava mostrar-se satisfeito e confortável. Tentava conversar e dizer coisas novas. Mas era corroído por dentro. Na despedida, Frida e o amigo foram para um lado. Bernardo, para o outro.
Estava terminado, ali, o dia da vida de Bernardo. A expectativa da manhã agora era frustração pura, desânimo em estado bruto. Nada aconteceu. Nada. Para variar um pouco.
Alguém, algum dia, sabe-se lá qual, disse a Bernardo que a vida era bela e a felicidade uma hora chegaria. Chega para todos. Isso parece uma mentira deslavada para ele. A sua hora nunca chega. Nunca.
Na volta, no ônibus, com a cabeça encostada na janela, Bernardo lacrimeja. Frida arde em suas entranhas, mais do que nunca. O corpo é tomado de choro, raiva, angústia e amor. Tudo ao mesmo tempo. Não foi dessas vez que ele teve o dia que vale por toda a sua vida. Foi mais um dia igual ou pior aos anteriores. Apenas mais um dia igual ou pior.
E ele continua esperando o seu grande dia. O dia em que todos os pensamentos, todas as noites sem sono, todas as mágoas e lacunas do seu vazio sejam preenchidos. Ele continua esperando o dia outrora prometido. A fila anda, anda, anda. Mas sua vez nunca chega. E a esperança, essa ilusionista safada que não tem noção do mal que faz a tantas almas, permanece viva. Estupidamente viva.

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