quarta-feira, 30 de junho de 2010

Homens de poucas palavras

Os homens de poucas palavras podem ser revestidos de certo mistério. Tenha certeza, eles têm muito a revelar. Eles têm muitas coisas a dizer. Mas precisam ser instigados.

Os homens de poucas palavras não falam fácil. Para eles, as palavras não são vagabundas que se dão ao desfrute a hora que se quer, do jeito que se quer.

Os homens de poucas palavras são românticos, e tratam elas, as palavras, como damas cujas mãos devem ser beijadas, com um tanto de carinho, um tanto de respeito e um tanto de solenidade.

Os homens de poucas palavras podem parecer frios, distantes e alienados. Mas na verdade fervilham, e se encontram permanentemente prestes a entrar em violenta erupção.

Os homens de poucas palavras têm suas emoções à flor da pele. Eles são seres anacrônicos, deslocados. Eles não se satisfazem com as facilidades fornecidas por palavras simplórias e utilitárias.

Os homens de poucas palavras guardam suas palavras porque sabem que elas são o seu bem mais precioso. Eles sabem que tudo se traduz em palavras. E as palavras são as únicas coisas que eles possuem.

Os homens de poucas palavras são capazes de morrer de amor calados. Eles tomam cuidado, até excessivo, porque sabem que amores não são grama: são flores.

Os homens de poucas palavras sentem dor. Tão mais fácil seria resolver tudo com a grosseria típica dos fracos! Mas os homens de poucas palavras adoram a controvérsia. Há um certo prazer sarcástico nisso, afinal, só sente dor quem está vivo. Mas precisava ser tanta?

Os homens de poucas palavras sonham. Sonham com o dia em que às flores seja permitido tomar mais e mais os espaços sempre verdes, sempre iguais, sempre previsíveis destes campos imutáveis e sem cheiros e cores.

Os homens de poucas palavras guardam suas palavras para o dia em que elas já não sejam ordinárias desprovidas de valor. E mesmo que esse dia nunca chegue, terão sempre a certeza de que valeu a pena. Antes elas morram rainhas do que vivam prostitutas.

terça-feira, 29 de junho de 2010

E se...?

O que aconteceria se eu tivesse decretado um novo começo para tudo hoje? Isso seria uma realidade?

E se eu me mantivesse acordado, lutando contra minhas pálpebras? As coisas seriam melhores?

Se eu fizesse tudo certo, os dias, ainda assim, permaneceriam frios e acinzentados?

E se eu tivesse me mantido calado, onde eu estaria agora?

Se nossas bocas manchadas de vinho tivessem se tocado naquela noite surreal, naquele banco, naquele momento, será que estaríamos juntos agora? Estaríamos vivos?

Se eu tivesse agido diferente, será que a vida seria realmente diferente?

E se naquela parada de ônibus, quando estávamos lado a lado, eu tivesse dito tudo o que senti vontade de dizer? Estaríamos entregues, cúmplices e abraçados, como jamais estivemos?

Tantas e tantas coisas já passaram em minha frente... Admirei, contemplei, sonhei, mas não fiz, nada realizei. Não assumi riscos, não me entreguei aos doces momentos caóticos de minha existência.

E se eu tivesse me dado o direito de ser um ingênuo, puro, feliz e romântico bobo da corte quando eu quis ser? Teria ao menos arranjado algum sorriso em seu rosto?

E se eu rasgasse esta folha e escrevesse um novo texto? Será que valeria a pena?

E se eu me violentasse um pouco, se eu deixasse alguma força estranha e indesejável me guiar por alguns passos? Estaria agora com essa falta de ar, esse aperto no peito, esse nó cego na garganta?

Se eu comesse uma fatia a mais daquele bolo, teria saciado meus desejos tão secretos e tão escancarados? Ou teria apenas ficado enjoado, conversando com um baldinho ao lado da cama, uma noite inteira?

E se eu tentasse ser como a multidão que me cerca e sufoca? Tudo isso seria mais primaveril, menos avassalador?

Não sei. Nunca saberei. Esta aqui é a vida que escrevi até hoje, tão concreta, tão palpável, tão real quanto o angustiante passar dos dias.

Posso escrever mais, criar uma reviravolta maluca e inesperada. Mas a minha mão treme, a caneta não tem rumo, ela apenas espera pela última linha desta folha, mas sabe que o meu vocabulário é limitado. Minha mão anseia por palavras que não saem, e a caneta, refém indecisa, volúvel, apenas dança com meus dedos gelados. Pareço fadado a escrever mais do mesmo. E trocar a caneta não vai adiantar nada.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Copa das câmeras

Logo nessa Copa do Mundo, tão pródiga em tecnologia, slow motions os mais avançados, linha de impedimento e tudo o mais, a rodada de ontem foi um show de erros fiasquentos de arbitragem, que poderiam ter sido revertidos facilmente se houvesse a possibilidade do uso destes meios tão avançados. E, convenhamos, nem precisariam ser tão avançados, de tão escancarados que foram tais erros.

No primeiro jogo do dia, a Alemanha vencia a Inglaterra por 2 a 1 quando Lampard empatou para o English Team. Empatou? Que nada! Nem o árbitro, nem o bandeira viram que a bola entrou, e entrou muito, na meta alemã. Sem o gol, a Inglaterra manteve-se largada ao ataque, e tomou mais dois da Alemanha, em contra-ataques. É verdade que o time alemão foi deveras competente, que a Inglaterra não tem goleiro, e que o erro de arbitragem de ontem foi uma espécie de reparação histórica pelo título inglês de 1966... Mas o fato é que, sim, o jogo poderia ter sido outro.

Assim como podia ter sido outra a história do jogo entre Argentina e México. Quando o time verde jogava igual ou melhor que os bicampeões do mundo, Tevez fez um gol na banheira, com sais, pétalas de rosa e tudo o mais, gol este que inaugurou o marcador. O lance apareceu no telão do estádio, ao que tudo indica árbitro e bandeira viram o tamanho da cagada que fizeram, e mesmo assim, graças à burocracia apregoada pelos velhinhos da FIFA, não puderam reverter o que eles mesmos sabiam que devia ser revertido. Isso é o cúmulo da irracionalidade: os caras viram que erraram, claramente, e NÃO PUDERAM anular o gol em nome da predição besta de que não podem voltar atrás em uma decisão. Azar do México, que se desestabilizou, levou mais dois gols, e teve quatro anos de trabalho jogados no lixo.

Não eram lances de falta, não eram lances subjetivos. Eram lances claros, cristalinos, berrantes. Neste tipo de jogada, acho, sim, que a tecnologia deve ser usada. Mas só neste tipo, que é mais "espacial": impedimentos, bola entrou ou não, etc. Falta, toque de mão, pênalti, são lances subjetivos, e aí, sou contra o expediente do uso de imagens da televisão. E aí estamos falando, também, das grandes competições, que tem todos os jogos televisionados. Em competições menores, em que há jogos não transmitidos ao vivo, isso se tornaria inviável, pois uns times seriam privilegiados em relação a outros, o que de uma forma ou outra comprometeria o equilíbrio técnico da disputa.

De qualquer forma, urge que sejam tomadas providências para minimizar os erros de arbitragem, principalmente em certames como a Copa do Mundo, que envolve muitos e muitos interesses e atenções. Os jogos de ontem foram uma lição de como os recursos eletrônicos, em determinadas situações, podem reparar erros grosseiros e muito objetivos, e evitar mudanças até mesmo de rumo da história do futebol. Tudo na vida evolui. O futebol também pode.

domingo, 27 de junho de 2010

(Des) Graças

Vamos brindar os nossos prazeres mesquinhos.
Talvez marquemos nossas testas com o ferro e o fogo que esquentam nossas madrugadas.
Preciso parar de queimar.
Preciso de um pouco de gelo.

Me dê um soco no estômago.
Beba, arranque minhas veias e as use como canudinhos.
Beije os pés daquela estátua até que ela te expulse daqui.
Cuspa na minha cara, se for capaz.

Rasgo os papéis, eles não valem nada.
Rasgo minha camisa, eu preciso respirar.
Debocho de mim mesmo.
Todos pedem que eu sorria, ainda que isto seja forçado.

Tudo isso é engraçado, mas não tem graça nenhuma.
O sol é hipócrita, ele sorri para todos.
Quero mais e mais escuridão.
Ela é mais sincera e mais crua.

Quero aprender a me divertir com esta dor.
Marque seu terreno, e deixe-o para os cães.
Coloque seus sentimentos num pote e guarde-os no congelador.
Só assim você será real.

Mostre-me um pouco das suas novidades.
Elas são terríveis, mas ainda assim você está feliz.
Me adianto, já sei tudo o que vai acontecer.
Talvez seja num bar, ou andando por aí.

Diga logo que o mundo vai acabar.
Alguém já escreveu isso.
Será que você só finge que não sabe?
É uma obviedade torturante.

O tempo passa como um traidor.
É nas sombras que ele destrói meus sonhos, um após o outro.
O tic-tac está desregulado.
Já vou preparando os detalhes da dolorosa cerimônia.

sábado, 26 de junho de 2010

O dia em que eu tentei viver

No dia em que eu tentei viver, acordei com vontade de brilhar.
Eu só precisava caminhar e inflar os pulmões.
No dia em que eu tentei viver, estive cheio de fé e certezas.
Eu era outro, mas acreditei em minhas próprias mentiras.

No dia em que eu tentei viver, fui pisoteado como uma barata.
Sou uma barata envenenada, tonta pelo inseticida.
No dia em que eu tentei viver, comi o manjar dos deuses para vomitá-lo em seguida.
Sou uma laranja mecânica de verdade.

No dia em que eu tentei viver, me bati contra todas as paredes.
Me joguei no concreto e urinei minhas calças.
No dia em que eu tentei viver, peguei uma metralhadora.
E não consegui matar meus fantasmas.

No dia em que eu tentei viver, corri para conhecer a mim mesmo.
E encontrei somente ossos e carne podre.
No dia em que eu tentei viver, o canto dos pássaros me atordoou.
Fui estrangulado pelas cordas de uma doce harpa.

No dia em que eu tentei viver, coloquei meu coração no alto da prateleira.
E alguém jogou pela janela.
No dia em que eu tentei viver, sequer tentei recolher os cacos.
O lugar deles é no fundo da terra.

No dia em que eu tentei viver, pintei os azulejos do banheiro de vermelho.
É a minha obra mais bela.
No dia em que eu tentei viver, desisti de tentar viver.
Somente tentei dormir em paz.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Realidade

Espere mais um pouco, amigo.

Não, ainda não é a sua vez.

Você tem certeza de que precisa ser feliz mesmo?

Você tem certeza de que alguém um dia olhará para você, mesmo?


Coma e beba mais um pouco.

Prove um pouco mais desta angústia azeda.

Prove dela até vomitar no chão.

Banhe-se de lama, junte-se aos porcos.


Todos em sua volta sorriem e esfregam isso em sua cara.

Ajoelhe-se e peça uma fatia de pão.

Tome um banho de ácido.

Acenda um cigarro enquanto derrete.


E continue a esperar.

As nuvens se dispersam, mas sempre voltam.

Elas choram sobre nossos cadáveres vivos.

Desista de rastejar sobre o terreno infértil.


Lá do alto, ele lhe observa com ar de desprezo.

Você é o fantoche preferido.

Dance mais, pule mais: faça-o gargalhar.

Seu papel já está definido.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Dia sem Globo

Cresce no Twitter a campanha do "Dia sem Globo". Trata-se de uma mobilização para que se boicote a emissora da família Marinho no dia 25 de junho, dia do jogo entre Brasil e Portugal. É um protesto simbólico contra a postura rasteira da Rede Globo quando do episódio dos palavrões proferidos por Dunga contra Alex Escobar, da referida emissora (http://www.youtube.com/watch?v=Jeu7Dlov7gY&feature=related).

Dunga talvez tenha se passado um pouco pelo fato de ter feito o que fez no meio da entrevista. Mordeu a isca global. A maior empresa de comunicação do país agora se faz de coitadinha. Mas está, na verdade, profundamente rancorosa contra o treinador da seleção.

Dunga cortou a série de privilégios que a emissora historicamente tem possuído nas coberturas da seleção brasileira (http://www.consciencia.net/dunga-da-uma-surra-na-tv-globo-os-meninos-mimados-perderam-privilegios/); (http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=9337); (http://botafogoemdebate.forumeiros.com/coluna-do-jim-f1/dunga-mesmo-se-perder-de-goleada-j-e-um-vencedor-t1395.htm). Mexeu com gente grande. Agora, a Globo volta toda a sua fúria contra o treinador gaúcho.

A grande questão, no entanto, é que os globais já não são detentores do monopólio da informação e das fontes que moldam a opinião pública. A internet, por exemplo, tem servido cada vez mais para tensionar, positivamente, esta relação. É pouco ainda, e o efeito prático possivelmente será irrisório. Mas já serve para mostrar que existe, sim, uma fatia crescente do público com consciência crítica, e que abre progressivamente os horizontes para manifestá-la. E isso é absolutamente positivo e democrático.

Ademais, não esqueçamos o lado humano da questão. Dunga há vinte anos é execrado pela imprensa nacional, liderada pela "vênus platinada", que, como todos sabemos, possui um "muito forte poder de agenda", desde o fracasso na Copa de 90, maldosamente chamado por este setor de "era Dunga". A vitória de 94, capitaneada por Dunga, tão somente serviu para velar as relações tensas.

Dunga nunca foi querido pela imprensa nacional. É tosco, não gosta de sorrisinhos interesseiros e tapinhas oportunistas nas costas. Por isso, desperta muitas antipatias. Mas é um cara sincero, autêntico, que segue somente a sua cabeça e as suas convicções. Dunga, acima de seus acertos e erros, é um sujeito de caráter. Por isso, cada vez mais o admiro. E torço ferozmente para que vença a Copa e esfregue na cara desta bandalha. Seria um tapa de luva. No caso de Dunga, um tapa de luva de boxe, é bem verdade.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Cintilando

Este momento é bastante diferente, minha querida. Positivamente diferente. Posso dispensar as entrelinhas. Posso gritar aos quatro ventos tudo o que sinto por ti. Estou livre. Estou leve. Estou feliz.

Sinto-me transbordando de pura alegria. Foi-se a fumaça. Foi-se a neblina. Tudo está claro. Consigo, enfim, respirar. A verdade reveste-se de beleza. Sinto a tua presença. Tu, minha linda, estás cintilando em meu peito. Cintilando... Pois é... Desejo cintilar cada vez mais.

Tenhas a certeza de que estou te abraçando forte. Nossas almas, tal qual um quebra-cabeças dos mais complexos, se encaixam. Daqui a pouco poderão se transformar numa só energia, que nos fortaleça e nos faça mais felizes e completos.

Me sinto vivo. Sinto, através de ti, toda a motivação de que preciso para seguir. Expurgo os teus medos, e os meus também. Podemos, sim, nos entregar. Podemos, sim, fazer valer a pena. E bem sabes que tu vales a pena, mais do que todo o ouro, mais do que todo o prestígio deste mundo.

Quero compartilhar minha integridade contigo. Quero sentir junto contigo. Quero respirar no teu tempo, o teu ar. Hoje, vejo que a vida pode ser doce, e que a esperança jamais fora utópica, mesmo quando me senti mais fraco e beirei à desistência de tudo. Hoje vejo que tenho o direito de ser feliz.

Acordei, mas ainda estou sonhando. O dia lá fora está lindo, como nunca antes esteve. A atmosfera, o ar, tudo está diferente. Parece que todos estão alegres, cheios de luz. E o sol está mais dourado, brilhante, luminoso do que nunca. Será o sol ou o teu sorriso?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Masmorra

Lá estava ele, preso naquela masmorra. Ousou levantar-se contra o status quo. Mexeu com quem não devia, despertando a fúria da corja. Ou melhor, devia, sim. Sabe que fez o certo. Por isso, não se arrependia de modo algum. Dane-se a masmorra se ele seguiu seu senso de justiça.

A corja, periodicamente, cercava-o com seus chicotes. Batiam com toda a força sobre suas costas. Catapleft! Catapleft! Corre o sangue. De alguma forma, aquele homem em estado pleno de degradação se comprazia. Gritava, sim, mas aquela dor aguda lhe purificava. Gritava, então: "Mais! Mais! Mais!"

Os gestos violentos apoiavam-se em desculpas esfarrapadas e argumentos tacanhos e irracionais. Entretanto, toda a ditadura precisa de alguma bobagem para legitimá-la, e assim a corja tratava de esmagar aquele rapazote insolente que se meteu a desafiá-la.

Os cataplefts aumentavam enquanto o priosioneiro sorria, gritava e se deleitava. Sentia certo prazer em estar ali. A poça vermelha que se formava no chão era a materialização de sua dignidade. E dignidade, caríssimo leitor, não se compra na padaria.

Seres humanos pequenos não sofrem porque escolhem os caminhos mais cômodos. Somente aos grandes homens são reservados o direito de chorar lágrimas verdadeiramente doloridas e derramar o mais puro e rubro dos sangues. Aquele homem que apanhava da corja era um destes escolhidos a dedo. Não baixou a cabeça para a empáfia dos reis da coroa de papelão. A cada chicotada que cortava cada vez mais fundo a sua carne, ele sabia que aumentava sua força, sua justiça, seu legado.

A rebeldia com causa vale a pena, sim, e nos faz mais humanos. A escolha punida com dor e sofrimento, mas baseada nos anseios do coração vale infinitamente mais do que a escolha utilitária premiada com ouro e sorrisos cínicos. Possivelmente aquela hemorragia matará o prisioneiro da masmorra. Mas ele morrerá com o coração leve, um tanto feliz e deveras dignificado. A corja viverá, com sua falsa e nojenta satisfação, brindando sua covarde glória com taças de sangue alheio, banhada em sua hipocrisia característica. Mas, quando morrer, e um dia morrerá, será à míngua, envenenada pelo líquido de sua própria essência.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O dia diferencial

Os dias e noites são iguais. Todos os dias e noites daquele sujeito de cerca de 40 anos tem sido gêmeos univitelinos. Está entregue à rotina. Acorda, toma café, come um pão com manteiga, escova os dentes, toma banho e sai, com a pastinha debaixo do braço.
Trabalha, trabalha, trabalha, e volta para casa. Vê um pouco de tv e vai dormir. Nem falo dos finais de semana, em que ele se dedica a só dormir. Os anos vão passando assim.
Ele tem algum tipo de esperança. Algum dia o que ele faz será suficiente. E então, ele aproveitará a vida. Por enquanto, segue aquela toada, repetitiva e massacrante.
Em casa, contas a pagar. Consome-se tudo o que ele faz. Não consegue ver resultado em nada. Ele trabalha para sobreviver. E só.
Então, chega uma manhã em que ele percebe isso. Vê que nada tem sentido nisso tudo. Trabalha feito condenado para seguir vivo e saudável, para continuar trabalhando feito um condenado. É um círculo vicioso. A cortina de fumaça se dispersa.
Se olha no espelho. Observa as rugas, e o tempo perdido. Quando foi a última vez que sentiu genuíno prazer, desnudo de preocupações? Não lembra. Não sabe. Resolve mudar de vida, pelo menos por um dia, naquele dia. Não pode ficar para depois, porque foi o depois que o enganou por tanto tempo. O depois é um mentiroso descarado.
Esquece o trabalho, esquece o dinheiro, esquece as preocupações. Sai andando por aí. Olha para o sol e o céu azul, enfeitado por algumas nuvens brancas. Respira fundo e nota toda a beleza que outrora passava despercebida. Nem lembrava que existiam árvores, que existiam flores, que existiam cores. Sabe que amanhã tudo voltará ao normal. Exatamente por isso, fica apenas com o hoje, deitado na grama, banhado pela luz do sol, confraternizando consigo mesmo e com toda aquela vida em seu redor.
Anoitece, e ele percebe que foi um dia, nada mais do que isso. No entanto, isto não é pouco. Foi um dia, e não um somatório de horas modorrentas. Ele descobre que pode viver, que isso não machuca, não dói, não mata.
Tudo pode ser mais bonito. Nos entregamos demais para as grandes coisas, que são tão pequenas, tão microscópicas, e esquecemos as pequenas coisas, que são as maiores e mais substanciais. É uma grande armadilha da vida. Estamos presos, sim. Mas, ainda assim, há espaço para o movimento. Movimentemo-nos, ora pois. Antes que a vida sorrateira invente de acabar.

domingo, 20 de junho de 2010

Para fechar torcedor e time

A vitória da seleção brasileira neste domingo sobre a Costa do Marfim foi muito emblemática. É como se hoje, apenas hoje, o Brasil tivesse estreado na Copa. Hoje, a seleção teve espírito, cara de Copa do Mundo, ao contrário da burocrática e insossa partida contra a Coreia do Norte.

Foram imensas as dificuldades no primeiro tempo contra a seleção africana. Mesmo assim, o Brasil jamais se viu ameaçado. E numa bela jogada ofensiva, "achou" o primeiro gol, com uma bomba de Luís Fabiano. No segundo tempo, o mesmo Luís Fabiano fez um gol monumental, com direito a "mano de Dios" e tudo. Elano fez o terceiro e Drogba descontou. Duas coisas foram as mais marcantes do jogo de hoje, e acho que ambas contribuem para trazer o torcedor para o lado da seleção.

A primeira é o fato de Luís Fabiano, o centroavante Luís Fabiano, ter desencantado. Esse cara merece. Ele não é badalado. Ele não se acha um craque de futebol. Ele é "apenas" um goleador, um cara que tem o instinto do gol. É o tipo de cara que não deve conseguir dormir direito quando não faz gol. É um obstinado e faminto leão em busca das suculentas redes adversárias. É a cara da seleção de Dunga. É um guerreiro que valoriza a grandeza da missão que tem.

O segundo aspecto importante do jogo de hoje é que o Brasil enfrentou um time verdadeiramente maldoso. A Costa do Marfim se mostrou a equipe mais violenta, anti-desportiva e mau caráter dessa Copa. Bateu muito, bateu pra machucar mesmo. E, mesmo quem não torce apaixonadamente pela seleção brasileira, sentiu o sangue ferver, sentiu vontade de entrar em campo e dar uma voadora nos jogadores marfinenses. Isso criou uma identidade, nos fez torcer de verdade pelo Brasil. Nesse sentido, a Costa do Marfim serviu para criar um comprometimento do torcedor para com o time do Brasil.

Agora, aguardamos a sequência de uma Copa pródiga em jogos ruins. Brasil e Portugal, em tese, deve ser um jogo interessantíssimo. Em tese. Porque realmente muitos jogos que criaram enormes expectativas acabaram sendo um constrangedor reino da mediocridade. Tomara que esta Copa melhore. Que brasileiros e lusitanos contribuam para isso. Pelo bem do futebol.

sábado, 19 de junho de 2010

Gênios

Os gênios vão além do corpo físico. Por isso, os gênios não morrem. Não morrem porque são diferenciados. Não morrem porque aquilo que eles fizeram não se apaga. Os gênios são um pouco mais do que humanos. Eles guiam a humanidade.

Os gênios não competem por nada. Eles apenas o são. Inapelavelmente. Os gênios somente são gênios porque não percebem que são gênios. Perdessem a simplicidade, perderiam a genialidade. Faz parte do ser gênio não ter tal percepção.

Por isso, não entro em desespero quando os gênios se vão. Na verdade, eles não se vão: ficam, mais presentes e vivos do que nunca. Eles dão cor a tudo aquilo que fazemos, nos tiram da insossa monotonia. Todo gênio é um tanto louco. Pessoas normais não são portadoras da dádiva da genialidade. A loucura dos gênios é que permite que nós, mortais, continuemos aqui vendo algum tipo de motivo nisso tudo.

Os gênios não se vendem às mesquinharias. Não são reféns do seu corpo, de sua beleza, de suas fugacidades. O que de belo eles possuem não está na aparência que o tempo sempre degrada: está em suas características singulares e excêntricas, está em suas almas, em suas mentes que insistem em ser um oásis de deliciosa diferença frente aos tacanhos sensos comuns.

Repito: os gênios não morrem. Eles permanecem agregando verdadeiro valor às nossas vidas, mesmo que não percebamos. Há neles uma aura enriquecedora, uma verdade que mesmo que desmentida pelas vãs ciências, jamais poderá ser falsificada. Os gênios são singelos. Os gênios são nossa eterna inspiração, talvez os únicos que sejam reais portadores da essência fundamental que tanto Parmênides procurava.

Saramago vive.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O lixo e o prazer

Estou no meio do lixo me deliciando. Você tem noção do prazer que isso representa? Você sabe quando me tirarão daqui à força? Aguardo o fim de tudo, sorridente.

Coma aquela carcaça antes que os ratos cheguem. Eles sempre chegam. Não há mais fedor nem nojo. Esfrego essas porcarias no meu corpo. Esse é o jogo. Essa é a regra.

Quantos daqueles olhares doces foram de verdade? Quantas das minhas palavras você não entendeu? Não preciso mais de ilusões. Me deixe soterrado por aqui mesmo.

Quando tudo perde o sentido é que a brincadeira começa. É aí que misturo todos os meus sentimentos com a carniça e todas as coisas emporcalhadas e sujas. Afinal, a não ser para mim, eles nunca foram mais do que isso mesmo.

Talvez eu simule um orgasmo na presença da morte. Talvez eu cuspa naquelas imagens sacrossantas. No final, saímos todos derrotados. Viraremos lixo, insuportavelmente fétido. E o sorriso ficará mais marcado e exposto do que nunca.

Vamos começar isso tudo pelo agora. Posso arrancar meu coração para você devorá-lo. Sua boca lambuzada do meu sangue parece tão adorável! Seu deleite acaba por me satisfazer plenamente.

Então, de mãos dadas mergulhamos em um mar de lâminas. Estamos nos purificando, acredite. Sorrindo um para o outro, descobrimos que somos a mesma coisa nauseante. Isso daria um lindo retrato para a nossa sala de estar, querida!

Deitamos na poça. Estamos expostos, deliciosamente entregues à nossa verdade mais profunda. Debochamos de tudo o que se encontra acima de nós. O prazer está do lado do avesso de nossas peles.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Cavaleiros do Zodíaco

Uma das melhores recordações que tenho da minha infância refere-se ao seriado que foi um dos maiores fenômenos em termos de público infanto-juvenil em todos os tempos: os Cavaleiros do Zodíaco. Num exercício de reavivamento da memória, tão importante principalmente nos momentos em que me encontro meio chateado, estava revendo os longa-metragens dos defensores da Deusa Athena.

Os Cavaleiros realmente eram um negócio maravilhoso. Tem muito da "velha e boa ultra-violência", a qual, em termos de produção artística, nunca escondi, me atrai. Mas o seriado ia além. Trazia lições de vida incríveis, às vezes até um pouco piegas, mas, de qualquer maneira, belíssimas. À sua maneira, o desenho de Masami Kurumada fazia questão de mostrar o quão importante é a determinação humana, a força frente às adversidades, a superação para não se desistir nunca, mesmo nos momentos de maior fraqueza e sensação de derrota, e lutar até as últimas forças por aquilo que queremos e acreditamos.

Do Bruno de 10 anos que assistia fielmente a todos os episódios para o Bruno de 24 anos que reviu os filmes, algumas opiniões permaneceram. Principalmente no que diz respeito ao protagonista, Seiya de Pégasus. Nunca gostei do excessivo destaque dado a ele na trama. Me parece mais um cabeça-dura meio mimado que apanha que nem bicho pra sempre ser o grande herói da história. Sempre achei isso injusto.

Mas me chama a atenção é que antigamente, naquelas brincadeiras de criança, meu grande ídolo, aquele que eu sempre queria ser, era o Shiryu, de Dragão. Gostava, e continuo gostando do jeito discreto dele. Sempre preferi os discretos dentro destes grupos de heróis japoneses. Mas hoje já teria, digamos, certas restrições a ele. Preferiria ser o Ikki, de Fênix. Shiryu era excessivamente certinho, disciplinado, politicamente correto. Ikki não. Ele era um outsider endurecido pela vida, não fazia nenhuma questão de estar junto ao grupo, ser simpático, e fazer as coisas certinhas. Ficava sumido no canto dele e só aparecia na hora em que o bicho pegava mesmo, com sua força e seu senso de justiça, mostrando que lealdade não significa babação de ovo. Ikki era o cavaleiro mais fodão, hoje tenho essa certeza.

Preferências e mudanças de opinião à parte, certo é que é sempre bom tirar essas horas mais terapêuticas para alimentar a alma, lembrar momentos da infância, rever revistinhas, filmes, vídeos no You Tube... Para mim, isso é fundamental. Faz eu me desligar um pouco do mundo real, e me vincular a um mundo em que o bem existe, sim, e em que o amor, a paz, a lealdade, alguns dos valores mais caros ao ser humano não foram ridicularizados, diluídos e até mesmo destruídos pela pós-modernidade e pelo relativismo exacerbado e irracional. E me motiva a queimar o meu cosmo até o sétimo sentido. Sim, eu precisarei disso.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sala de espera

Aquele rapaz é o primeiro da fila. O primeiro a chegar àquela sala de espera. Ali, são distribuídos remédios para problemas de coração. Uns parentes que já haviam passado pelo mesmo tipo de enfermidade indicaram-lhe o local. Ágil, rápido, fácil. Cada um da fila preenche um cadastro bastante simples com a recepcionista. O rapaz posta-se, confiante, numa das cadeiras, bem à frente do balcão central. Chamariam cada um pelo nome.

Era bastante gente. Mas, como havia sido o primeiro da fila, aquele moço estava absolutamente tranquilo. Ele era prevenido, sabia de toda a necessidade de ter aquelas pílulas, que seriam a sua grande chance de sobrevivência. Por isso, adiantou-se.

De forma muito rápida, coisa de 15 minutos, já começaram a chamar os sujeitos. Ele não foi o primeiro a ser chamado, a despeito de ter sido o primeiro a ter chegado. Deixou passar. Não entendia muito bem do funcionamento das coisas por ali. A recepcionista chamou então o segundo, o terceiro nome. Nada do dele. Então, ele reivindicou:

- Moça, perdão, mas gostaria de saber porque outras pessoas estão passando na minha frente se fui o primeiro a chegar. Inclusive, acredito ser um dos casos de maior urgência.- disse, com falsa paciência e incompreensão no tom de voz.

- Acalme-se, já, já o senhor será atendido. Tudo depende de uma triagem interna que define a ordem de chamada.- respondeu ela.

Ele tornou a se sentar. Mais nomes eram chamados. E as pessoas iam saindo com um imenso sorriso no rosto. Num mundo de tão poucas oportunidades, ali estavam elas em uma quase redenção, de alguma forma. Aqueles remédios significavam muito para muitas delas. É bem verdade que sempre há os trambiqueiros, que não precisam daquelas pílulas, burlam as regras e saem feito comerciantes. Utilitarismo extremado, talvez um tanto covarde. Dizem que havia muitos destes por ali. Mas, enfim, quem saía dali, saía satisfeito, feliz. Pela sobrevivência ou pela contravenção malandra.

O rapaz observava. A manhã ia passando sem ser chamado. Voltava ao balcão, e tudo o que a moça lhe respondia é que seria atendido, na hora certa. Ela fazia questão de deixar claro que ele não estava esquecido. Mas ele se sentia, sim, esquecido.

Ao final daquela manhã, todos os rostos que haviam adentrado o recinto com ele, atrás da fila, já haviam saído dali. Chegavam outros, e outros, e outros. E iam passando à frente. E iam saindo satisfeitos. E o rapaz permanecia sentado, bem em frente ao balcão central.

O rapaz, àquela altura dos acontecimentos, já estava deveras angustiado. Por que sua vez nunca chegava? O que havia de errado? Tornou a falar com a recepcionista, que disse que falaria com o pessoal de lá de dentro para resolver a situação. Na volta, ela fez um sinal de positivo, dizendo que ele já iria ser atendido.

Não foi, porém, o que aconteceu. A tarde virou noite. Havia mais umas três pessoas. Todas foram chamadas e atendidas. Eram oito da noite, e a recepcionista pediu que ele se retirasse, pois era hora de fechar o estabelecimento. Perplexo, o rapaz perguntou:

- Mas... e eu? Fui o primeiro a chegar, estou aqui desde as primeiras horas da manhã, e todo mundo passou na minha frente. Por quê?

- Desculpe, senhor. É chegada a hora de fecharmos. Volte aqui amanhã, que certamente você será devidamente atendido.

Então, conformado e esperançoso do dia vindouro, saiu. Sequer voltou para casa. Dormiu ali, pela rua mesmo, na frente do local. Na manhã seguinte, de novo era o primeiro da fila, com o brilho da expectativa pelo novo nos olhos. E o roteiro permaneceu o mesmo.

Foram tantos os dias, que se tornaram meses, que se tornaram anos, naquela espera pelo remédio que nunca veio, que certa feita morreu ali, na fila mesmo, no primeiro lugar dela, para variar, ironicamente pelo mal que afetava seu coração, e cuja solução estava exatamente dentro daquele estabelecimento.

Quem foi que disse que a vida é justa?



segunda-feira, 14 de junho de 2010

Dia especial

Bernardo teve uma noite mal dormida. Não conseguiu se desvencilhar de seus pensamentos. Encontraria Frida na tarde daquele dia. Acordou já com certo brilho nos olhos, e frio no estômago. Que dia importante!
Há dias que valem por uma vida toda. Para Bernardo, aquele seria um destes. Planejava milimetricamente cada movimento, a ordem das palavras, os trejeitos, a naturalidade necessária. Não sabia a dimensão que aquele dia teria para Frida. Não sabia sequer se ela realmente se importava.
Bernardo sempre fez de tudo para demonstrar para Frida que gosta dela. O coração está acelerado, quase saindo pela boca. Aquela manhã é lenta. Os minutos parecem horas, e as horas parecem dias. Bernardo está mais ansioso do que nunca.
Toma um café em cima do outro. Passa, tempo, seu malvado pregador de peças! Meio da manhã. Fim da manhã. Almoço. Agora falta pouco para as três da tarde, a grande hora. A angústia aumenta.
São duas e meia, e Bernardo está lá, no ponto de encontro que fora marcado. Os minutos passam arrastados, não há sequer saliva para engolir. Bernardo anda para lá e para cá. Tenta pensar em algo diferente. Não consegue. E, assim, chega o horário crucial. Três da tarde.
Passam um, dois, cinco minutos. Bernardo olha para o relógio. Talvez esteja adiantado. Atrasos são normais. E aquilo é só o prelúdio para a felicidade. Fosse fácil, não teria a menor graça.
Passam vinte minutos. E Frida aparece, ao longe. A angústia passa, a alma alivia. Finalmente, Bernardo, seja feliz! Os dois se abraçam. Sempre desajeitado e desorientado, Bernardo, tentando em vão transparecer domínio de si, sugere um bar ali perto.
Bernardo e Frida chegam, sentam. Trocam meia dúzia de palavras, e o telefone dela toca.
- Ok! Estamos aqui na rua Pereira de Albuquerque, no Bar Kafka!- disse ela, animada, para o interlocutor.
Sorrindo, Frida anuncia que um amigo dela, que ela pensa ser amigo dele, também viria. E veio.
Aquela tarde, ou o que sobrou dela, se arrastou. Para Bernardo, aquilo era uma espécie de pesadelo, tortura psicológica mesmo. Tentava mostrar-se satisfeito e confortável. Tentava conversar e dizer coisas novas. Mas era corroído por dentro. Na despedida, Frida e o amigo foram para um lado. Bernardo, para o outro.
Estava terminado, ali, o dia da vida de Bernardo. A expectativa da manhã agora era frustração pura, desânimo em estado bruto. Nada aconteceu. Nada. Para variar um pouco.
Alguém, algum dia, sabe-se lá qual, disse a Bernardo que a vida era bela e a felicidade uma hora chegaria. Chega para todos. Isso parece uma mentira deslavada para ele. A sua hora nunca chega. Nunca.
Na volta, no ônibus, com a cabeça encostada na janela, Bernardo lacrimeja. Frida arde em suas entranhas, mais do que nunca. O corpo é tomado de choro, raiva, angústia e amor. Tudo ao mesmo tempo. Não foi dessas vez que ele teve o dia que vale por toda a sua vida. Foi mais um dia igual ou pior aos anteriores. Apenas mais um dia igual ou pior.
E ele continua esperando o seu grande dia. O dia em que todos os pensamentos, todas as noites sem sono, todas as mágoas e lacunas do seu vazio sejam preenchidos. Ele continua esperando o dia outrora prometido. A fila anda, anda, anda. Mas sua vez nunca chega. E a esperança, essa ilusionista safada que não tem noção do mal que faz a tantas almas, permanece viva. Estupidamente viva.

domingo, 13 de junho de 2010

Roth

Não vou emitir um comentário sobre a contratação de Celso Roth para ser o treinador do Inter. Apenas vou cumprir um compromisso com a coerência e resgatar alguns dos comentários que fiz sobre ele até hoje no DC. Daí, vocês, amigos leitores, concluam se aprovo ou desaprovo tal contratação. E, fique claro, independentemente de qualquer coisa, torcerei muito para que dê certo, e o Inter conquiste o Bi da Libertadores.

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"O treinador do Grêmio, Celso Roth, sempre caracterizou-se por ser um sujeito humilde. Mas, talvez por estar disputando o título brasileiro com chances reais, o que seria um feito para um treinador que jamais ganhou nada maior do que Gauchão, esteja dislumbrado, e dando declarações polêmicas, como a que diz que o Inter gostaria de estar no lugar do Grêmio, despeitado que está pela eliminação que o Inter impôs ao bicho-papão Boca Juniors na Bombonera." (09/11/2008).

"Os fatos comprovam que Celso Roth falou uma gloriosa bobagem ao comparar o incomparável, querendo, ainda por cima, colocar seu clube, tão inferiorizado pelo Inter nos últimos anos, numa condição de uma superioridade arrogante que os resultados desmentem. Então, só me resta dizer ao técnico aspirante-a-quem-sabe-um-dia-campeão-de-algum-título-maior-que-estadual: cala a boca, Roth!" (09/11/2008).

"Do lado azul, pra variar um pouco, muita bobagem está sendo dita, principalmente pelo técnico Celso Não-ganho-nada Roth." (01/03/2009).

"Os times entram em campo, o Grêmio sua sangue, cria chances, e o Inter vai lá, com sua qualidade visivelmente superior, faz os gols de maneira quase blasé, o jogo termina, e Celso Roth e os dirigentes do imortal-copero-peleador-argentino-de-boutique-que-não-ganha-títulos-e-comemora-vagas-para-competições-que-não-ganha falam um monte de bobagem.
Quem ouve Roth falando pensa que se trata de um treinador multicampeão, tipo Ferguson ou Mourinho, e que o Grêmio é o Manchester ou a Inter de Milão. Quem ouve Roth e os dirigentes gremistas pensa que o tricolor da Azenha está por cima da carne seca." (05/04/2009).

"Acabo de ouvir, enquanto escrevo este texto, que Celso Roth caiu... Oh, ele caiu... O treinador que após o jogo de hoje disse que importante era Libertadores e que ironicamente parabenizou o Inter pela vitória no Gauchão está fora da Libertadores, vejam só! Desejo boa sorte a Celso Roth, esse gênio que o Grêmio não soube compreender. E ao clube que contratá-lo. Do fundo do coração." (05/04/2009).


sábado, 12 de junho de 2010

Caros amigos

Quinta-feira me remeti às pessoas que me dão náuseas. Fiz referência àquelas pessoas pelas quais não nutro nenhuma simpatia, e com as quais não faço nenhuma questão de me relacionar. E isso não muda, claro que não. Mas hoje sinto vontade de falar o contrário, porque há, sim, pessoas maravilhosas na minha vida. Meus caríssimos amigos.

Se sinto ânsia de vômito com determinadas pessoas, ao mesmo tempo sinto-me plenamente acolhido por outras. São vocês, meus caros amigos. Vocês não são muitos. Sempre dei prioridade à qualidade em relação à quantidade. Mas vocês são ótimos. Eu digo: são os melhores.

Deixar claro quem me serve e quem não me serve tem o ônus de não chamar grandes simpatias em termos gerais. Mas talvez isso não seja um ônus. É um bônus, porque gosto de fazer as coisas às claras. E é mais bônus ainda porque acabo me cercando de pessoas que sei que possuem verdadeira empatia em relação à minha pessoa. Isso vale muito. Isso vale tudo.

Vocês, meus caríssimos amigos, são o meu bem verdadeiramente precioso. Vocês me fazem forte. Vocês eu sei que estarão do meu lado. Sempre, de um jeito ou de outro. E tenham a mais cristalina certeza de que eu estarei com vocês sempre que me chamarem, ou quando eu encontrá-los em adversidade.

Há os deslumbrados por um lado. Os reis da empáfia. Os purgantes insuportáveis. Há também os deslumbrados, que não estão lá, mas estão quase. Querem estar lá. Fizeram escolhas erradas, e, ainda assim, provavelmente nunca consigam estar lá. Mas continuam admirando inexplicavelmente os primeiros, como se fossem uma classe média louca para emergir e criar um novo habitus.

Mas há, do lado de cá, os meus. Aqueles que tornam as coisas mais amenas, que fazem o fardo ficar mais leve com sua simplicidade e com suas verdades. Fico feliz demais com a existência de vocês. São vocês, meus amigos, que me fazem ver que isso tudo, de alguma maneira, vale a pena. E, quando tudo for trevas, vocês serão meus pontos de luz, que podem me guiar e dar referência. Muito obrigado. Por tudo.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

E começou a Copa

Confesso que sou destes caras que se realmente se empolgam com Copa do Mundo. Apesar de não ser um fanático torcedor da seleção brasileira, ou de qualquer outra, acho o ambiente de Copa uma coisa maravilhosa. É todo dia um futebolzinho na tv, grandes seleções, grandes jogadores, partidas decisivas. É impossível ficar alheio ao Mundial.

E hoje tivemos a primeira partida, entre África do Sul e México. O jogo empatou, e com isso acredito que os donos da casa estejam virtualmente eliminados da competição. A chance, que já era mínima, passava pelo confronto contra a terceira força do grupo. Contra Uruguai e França, a seleção sul-africana, que é tecnicamente medíocre, não deve se criar.

O primeiro tempo da partida de abertura foi marcado por um leve domínio mexicano. A equipe da América Central mantinha a posse de bola e pressionava, principalmente por meio dos pés do excelente Giovanni dos Santos, sem, no entanto, ser efetiva. A África do Sul apostava em contra-ataques, mas, visivelmente nervosa, pouco ameaçou.

Já a segunda etapa foi bem melhor. Os bafana-bafana resolveram partir pra cima, se impuseram fisicamente, na base do entusiasmo, e marcaram o primeiro gol da Copa. Em um contragolpe fulminante, a África do Sul tocou com muita velocidade, numa linda jogada coletiva, e Tshabalala finalizou com um chute forte, de canhota, certeiro, no ângulo esquerdo de Peres, o baixinho goleiro mexicano.

E o ritmo continuou acelerado, com o juiz sonegando um pênalti de concurso para os sul-africanos. O México não tinha mais pernas, nem objetividade. Mesmo assim, a experiência pesou. Num erro infantil e primário da defesa dos bafana numa bola parada, Rafa Marquez ficou sozinho, cara a cara com o goleirão da África do Sul, e fuzilou. 1 a 1.

No desespero, os sul-africanos tentaram fazer o segundo gol, chegaram perto com uma bola na trave de Mphela, mas não conseguiram. Ficou tudo igual mesmo. Apesar de ter jogado bem, dentro de suas limitações, e merecido melhor sorte, o time treinado por Parreira praticamente se despediu de suas chances de seguir para a próxima fase da Copa.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Caros inimigos

Pois bem, caríssimos inimigos, cá estou para vomitar em suas caras o que tenho a lhes dizer. Passei do tempo de agradar a todos e tentar ser simpático. Estou noutra dimensão da minha vida. Por isso, sinto-me suficientemente à vontade para dizer que não gosto de vocês. Isso mesmo: não vou com as suas caras.

É pouco o tempo. Alguns poderão me chamar de injusto ou destemperado. Azar! Já tenho definido para mim quem é dos meus e quem não é. E vocês, meus rapazes, não são.

Não quero um pingo de simpatia de vocês (como se vocês fossem capazes disto). Mas não exijam, jamais, em momento nenhum, um espasmo de simpatia de minha parte para com vocês. Não terão.

Assim, as coisas são bem mais fáceis e simples. Não há nem haverá reciprocidade positiva alguma. E acho isso maravilhoso, porque me liberta, e permite que eu dê atenção e apoio apenas àqueles que estão do meu lado.

Seus narizes empinados podem parecer um tanto sedutores, atrativos, atraentes à primeira vista para os ingênuos que não tem a (in) felicidade de sacar quem realmente vocês são. Vocês se colocam num outro mundo, como se superiores fossem, mas não passam do mais fétido lixo humano.

Não faltarão lá seus defensores. Há, sim, quem goste de vocês. Como há quem goste de salada de rúcula. Ora, dirão que vocês no seu hábitat natural são gente boníssima. Se são, informo-lhes e para quem mais interessar possa, que são gente boníssima de quem não gosto. E digo mais: se os esdrúxulos argumentos de quem ainda se digna a tentar defender o indefensável forem verdadeiros, recomendo-lhes que procurem um bom psiquiatra, pois sofrem de dupla personalidade.

Como sou grosso e tosco mesmo, não compro estes argumentos. Para mim, caráter é um só. E se vocês exercem seu pseudo-poder da forma tão patética, arrogante e ridícula como o fazem, isso é reflexo do seu caráter e da sua índole covarde.

Só não esqueçam, meus caros inimigos, que ainda existe gente atenta nesse mundo. Eu diria que é uma quantidade significativa de pessoas. E isso me consola muito.

As cartas estão na mesa, e o jogo está rolando. Agora é que a coisa está começando a ficar divertida.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Derretimento

Estou forte. Senhor de mim mesmo. Você não me abala mais. Tenho esta certeza. Tudo parece muito mais claro. Ora bolas, como eu era bobo! Rio das minhas tolices. Rio de ter sentido o que senti.

Já não resta mais nenhuma dúvida. Pronto, é tudo simplíssimo. Confraternizo esta vitória comigo mesmo. Continuo aqui! Estou em pé. Estou livre de você. Estou livre daquelas angústias! Estou mais vivo do que nunca!

Como foram bons aqueles dias longe! Estou novinho em folha. Pronto para fazer tudo diferente. Pronto para buscar novos horizontes. Livre para caminhar com meus pés descalços, sem temer qualquer caco de vidro. Tudo é cíclico. Você já era.

Aqui de volta, me regozijo. Pulmões inflados. Tudo está completamente diferente. Experimento a doce liberdade. Tudo passa. Até uva passa. Não ligarei para mais nada. Tive a revelação, e as amarras se soltaram. Ergo a cabeça. Sou um titã. Uma rocha indestrutível.

Então, você adentra a sala. Então, você readentra meu coração. Resistência? Rochas? Muros? Nada disso. Com a facilidade de quem abre uma torneira, você me invade sem pedir permissão. Meu exército se rende. Sem luta. Sem armas. Sem fogo. Seus olhos fugidios são os mesmos. Seu cheiro, suas palavras. Tudo igual. De volta à estaca zero.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Mal-estar

O estômago queima.
São bolas de fogo flutuantes.
As entranhas parecem retorcidas.
O ácido esguicha forte, corroendo tudo, fazendo-me arder.

Sempre existe o depois do nojo.
A vida não perdoa.
As obrigações permanecem implacáveis.
Não se pode perder jamais, não sem lutar.

Há mais pela frente.
O estômago insiste, parece estar num sono raso.
Gostaria de descansar um pouco.
Mas não posso.

O mal-estar ameaça.
Busco forças, as recolho em migalhas, em cada cantinho.
Há muito por se fazer.
Ainda não morri.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Nojo

Eu devo ser um babaca, um verdadeiro mané. Ainda fico extremamente chocado e enojado quando leio notícias como esta do G1 (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2010/06/paciente-registra-queixa-por-suposto-abuso-sexual-em-hospital.html). De acordo com a paciente de um hospital do Rio de Janeiro, um enfermeiro aproveitou-se de que ela estava dopada, devido a uma sinusite, para cometer o ato de abuso sexual, caracterizado como estupro de vulnerável.
Confesso que não há crime que me deixe mais indignado do que estupro. Nas condições relatadas, então, a coisa fica mais nojenta ainda. Um sujeito tem que ser muito escroto para fazer uma coisa dessas. Chamar um canalha destes de animal seria uma ofensa à fauna.
Crimes sexuais despertam em mim uma mistura de fúria e náusea muito peculiar. Não consigo perdoar esse tipo de coisa. Não deve haver humilhação maior para um ser humano do que ser violado naquilo que de mais íntimo nele existe, de forma covarde e forçada. Trata-se de uma violência que ultrapassa, e muito, o aspecto físico. É uma violência psicológica insuperável.
Tudo o que se pode esperar é que a situação seja devidamente investigada e a polícia e a justiça ajam com rapidez. Esse tipo de coisa não pode ficar impune jamais. Que o vagabundo que fez isso seja preso e sofra na cadeia o mesmo tipo de consequência que provocou nessa mulher. Até mesmo os bandidos tem sua "ética" própria. Sei que dizer isso não é politicamente correto. Mas foda-se o politicamente correto. É simplesmente o que penso.

domingo, 6 de junho de 2010

Viagem

Estou no ônibus, viajando a Pelotas, enquanto escrevo este texto. Sempre que viajo, penso: "viajo, mas ela está ficando". Isso é algo sistemático. E penso: "quando voltar, muitas coisas vão acontecer". E nunca acontecem.

As viagens são como um bálsamo, um doce suspiro, um encher convicto de pulmões. Como se, num passe de mágica, elas tivessem o poder de mudar o meu eu e a minha vida.

O fato cru, no entanto, é que as viagens são nada mais do que movimentação dos corpos no espaço. Os mesmos corpos. Os mesmos amores. As mesmas angústias. Nada muda. E quando eu voltar, nada será novo. Os problemas serão os mesmos. Ou piores.

Pode parecer pessimista, amargo, mas não é. É a pura verdade. Digo isso porque me vieram os mesmos pensamentos e sentimentos que sempre me vêm quando estou nas minhas viagens de ida. Sinto-me sempre otimista, cheio de vida, de amor, de vontade de voltar renovado, e renovado, lutar pelo que quero de mais precioso. Mas dessa vez resolvi não me enganar. Não vou cair nessa armadilha.

Essa viagem não mudará a minha vida, não substancialmente. Verei pessoas de quem gosto, passarei bons momentos, é claro. Mas voltarei, como sempre, triste e com o já costumeiro vazio no peito. E na volta, tudo estará insuportavelmente do mesmíssimo jeito. Continuarei vendo ela, e continuarei compartilhando, quando muito, momentos tensos com ela. Porque enquanto ela for tão incerta, incerto e angustiado continuarei. Na certa, ela é um engodo. Eu sei disso. Mas eu preciso disso, desses engodos, para sobreviver.

Pior do que não ser feliz é não ter esperanças de ser feliz. Por isso, de um jeito ou de outro, as mantenho. Preciso de algum motivo, por mais enganoso que seja, para querer continuar vivo.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Efeito Lolita

Reproduzo aqui um texto do jornalista Marcos Aurélio Ruy, intitulado "Efeito Lolita: como a mídia forja sexualidade juvenil de mercado", publicado no Portal Vermelho (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=130641). Nele, o autor faz uma resenha do livro de Meenakshi Gigi Durham, que trata da dominação midiática sobre as pessoas, enfocando a influência exercida sobre as jovens, ao criar estereótipos estéticos e comportamentais.

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No livro O Efeito Lolita: a sexualização das adolescentes pela mídia, e o que podemos fazer diante disso, Meenakshi Gigi Durham diz que é necessária a criação de grupos de discussão com participação efetiva dos jovens como forma de combater esse trabalho cruel feito pela mídia convencional.

É imposto às crianças e jovens um único padrão de beleza possível. E, como as imagens de garotas estampadas nas revistas são irreais, as meninas têm que comprar produtos que vão de cosméticos à cirurgias plásticas para atingir a perfeição de serem sexies e outros aspectos de suas vidas são relegados a segundo plano. A socialite Paris Hilton é a principal modelo a ser seguido assim como o grupo Pussycat Dolls.

Grifes como Victoria’s Secret e cantoras com Christina Aguilera, Britney Spears e Lady Gaga e suas similares pelo mundo afora apresentam como objetos sexuais. O nome Lolita deriva do livro homônimo do escritor russo Vladimir Nabokov: uma menina de 12 anos que é um tipo de garota especial, seduz sem ter consciência disso, passa a ter relacionamento amoroso com um adulto.

No livro Educar para a submissão, o descondicionamento da mulher, a pesquisadora italiana Elena Gianni Belotti, já havia mostrado como é um traço cultural a submissão da mulher. “A tradicional diferença de caracteres entre macho e fêmea não é devida a fatores congênitos, e sim, aos condicionamentos culturais a que o indivíduo é forçado no curso do seu desenvolvimento”.

No caso do Efeito Lolita, Durham também faz uma abordagem demonstrando como a natureza não dita as regras no comportamento humano, sendo que a mídia destinada aos jovens é em boa parte dirigida por mulheres mas sujeitam-se à vontade maior do deus mercado. “O verdadeiro problema com o Efeito Lolita é que as garotas não têm controle sobre essa situação.” Ele consiste “numa fantasia masculina adulta.” E a mídia usa essa fase de descobertas das adolescentes inculcando-lhes ainda mais insegurança, simplesmente para vender mais produtos.

Durham deseja fornecer as ferramentas necessárias para se reconhecer e reagir de modo proativo. “Examinar com rigor o ‘Efeito Lolita’ permitirá desvendar os mitos que compõem o espetáculo da sexualidade das garotas na cultura pop convencional.” É muito comum em revistas na atualidade “a ninfeta com rosto de criança e curvas voluptuosas que posa de modo provocativo em capas de revistas. A sexualização das meninas nos ambientes aparentemente seguros, não realistas e fantasiosos da mídia e da publicidade age com o fim de legitimar, e até de tornar glamuroso, o uso da sexualidade das garotas para fins comerciais”, afirma.

As imagens difundidas pela mídia não são reais nem realizáveis; “corrigidas” por softwares de computador, essas imagens criam perfeições inexistentes. Páginas sempre acompanhadas de anúncios de produtos de beleza, entre outros. A mídia é tão persistente que a confusão fica ainda maior na cabeça das adolescentes e o apelo já é feito para crianças de até 8 anos de idade. Segundo Durham há brinquedos nos Estados Unidos da “Dança do Poste (uma dança erótica usada em cabarés) para meninas de 1 a 2 anos.

As meninas como objeto sexual

Há programas na tevê brasileira que apresentam mulheres de biquínis fio-dental, mostrando seus atributos físicos. Existe até um quadro num programa considerado de comédia que é chamado “a miss beleza interior”, ou seja pessoas que fogem do padrão caucasiano de beleza. Outros, supostamente menos incautos, mostram crianças muito pequenas, na imensa maioria meninas, imitando seus ídolos com roupas provocativas e com dança sensual.

O apelo sexual é tão presente que um certo programa “para mulheres” de manhã, da Rede Globo, levou duas jovens a andarem nas ruas de São Paulo, uma loira outra morena. A loira estilo Barbie e a morena apresentada como um tipo mais brasileiro. Elas andavam pelas ruas e a repórter ia perguntando aos homens qual era mais atraente. Tudo para justificar uma “matéria jornalística” sobre como manter a cintura fina.

Recentemente, a Associação Americana de Psicologia (APA, sigla em inglês) apresentou um relatório no qual afirma que a exposição em revistas, televisão, videogames, videoclipes, filmes, letras de música e internet, são nocivos para o desenvolvimento de garotas adolescentes.
Segundo a APA isso pode levar “à perda de auto-estima, depressão e anorexia”, entre outros aspectos. A pesquisadora Meenakshi Gigi Durham mostra que na mídia convencional já “não se diferencia mais anúncios de matérias jornalísticas”.

Cinco mitos para perpetuar a dominação

Em seu livro, Durham detecta cinco mitos nos quais a mídia se baseia para vender “produtos de beleza” e para apresentar as garotas como seres sexualizados que existem apenas para favorecer o sexo oposto, sem vontade própria e, pior ainda, sem valorizar nenhum outro aspecto das garotas a não ser o de serem sexies, sempre com o objetivo de agradar ao “olhar masculino”. E o pior: rebaixam cada vez mais a idade das garotas.

O primeiro mito é Se você tem, exiba. Este mito valoriza apenas a aparência sexy das meninas. “Chelsea, de 4 anos, elogia a aparência hot da amiga”, diz a autora, e acrescenta Lexi, 9 anos, veste uma camiseta do Pussycat Dolls com os dizeres “você não gostaria que sua namorada fosse ‘hot’ como eu?”. O mito então vê como “hot” (sexy) como a feminilidade ideal. Até em programas da Disney essa temática aparece como em Hannah Montana, destinados à jovens pré-adolescentes.

Para Durham “as mensagens sobre sexo que as garotas têm recebido por intermédio desses veículos de mídia, exploram a consciência sexual e a ansiedade que caracterizam os anos de adolescência e pré-adolescência.”

Uma pesquisa publicada no ano passado no Jornal Brasileiro de Doenças Sexualmente Transmissívei” apontou como emissoras mais assistidas a Rede Globo e a MTV, entre os jovens no período das 18 às 22 horas. Na pesquisa as duas emissoras de TV apresentam alto teor erótico nos seus programas e propagandas.

A volência sexual contra meninas

O segundo mito é Anatomia de uma deusa do sexo. O modelo visto como ideal para as garotas tem de ser magra, loira, cabelos longos, ao estilo da boneca Barbie. Para isso os publicitários chegam ao desplante de vender cremes para branqueamento de pele na África e na Ásia.
Também pretendem vender silicone para aumento do tamanho dos seios, entre diversos outros produtos. Segundo Durham até produtos proibidos nos países do Primeiro Mundo por ameaças à saúde, são vendidos no Terceiro Mundo. “As indústrias da moda, das dietas, dos exercícios físicos, dos cosméticos e da cirurgia plástica geram lucros anuais de bilhões de dólares”, afirma Durham, e confirma “a publicidade é a espinha dorsal da mídia”.

No terceiro mito As garotas bonitas, “em 2007, uma garota de 12 anos chamada Maddison Gabriel causou frisson no desfile de moda Gold Coast, da Austrália”. Um noticiário da emissora norte-americana ABC afirmou que Gold teve inspiração em Lolita. Um blogueiro observou, com cinismo indisfarçável: “crianças também conseguem ser ‘hot’”.

A cantora “Britney Spears, aos 16 anos, exibiu-se movimentando-se de modo ostensivo, vestida com um uniforme de escola católica e rabo de cavalo de menininha, em seu primeiro vídeo musical”. Para Durham a roupa clássica de Lolita é o ”leitmotiv predileto da pornografia infantil”.

Em maio a apresentadora Xuxa foi saudada pela mídia por aparecer ladeada por duas jovens gêmeas negras, de 14 anos, desfilando com pouca roupa e, segundo a mídia, tornou-se espécie de madrinha das meninas para tornarem-se modelos. Essa carreira tem sido apresentada em novelas e programas de tevê como ideal para as “meninas bonitas”. Só não falam dos problemas dessa profissão, nem de como as meninas que supostamente não são assim tão “bonitas” devem fazer? Resta a frustração apenas.

Ser violento é sexy é o quarto mito definido pela escritora. Em diversos filmes, a violência sexual contra garotas é apresentada como natural e punitiva. Nesses filmes tanto as garotas “boas” quanto as “más” são assassinadas com o mesmo prazer.

Uma série de filmes de terror, muito apreciada por jovens, Sexta-feira 1, apresenta as garotas que fazem sexo como libertinas que, portanto, devem ser severamente punidas, da mesma forma que os garotos viciados em drogas. O mais pesado, porém, se dá contra as meninas. É a mão de Deus punindo os pecadores.

“Praticamente a cada vez que há uma cena de relação sexual, em que são mostradas longas cenas com garotas adolescentes seminuas, o matador mascarado ataca.” O filme American Pie, apresentado como de libertação sexual, mostra as meninas como instrumentos do sexo e meros objetos a serem usados pelos meninos. No videogame da série Grand Theft Auto os jogadores têm oportunidade de estuprar, espancar e assassinar prostitutas.

Também peças publicitárias apresentam a violência contra mulher como sexy. “As imagens de violência contra as mulheres estão em toda a parte: nos outdoors, nas revistas, na televisão. Um anúncio da Dolce & Gabbana exibe um homem fazendo sexo com uma mulher, enquanto outros homens estão parados em pé, assistindo. A cena sugere um estupro sendo praticado por uma gangue. No anúncio, a modelo é bonita, tem olhar ardente e aparenta estar excitada. O estupro pela gangue é implicitamente justificado”, afirma Durham.

Outro anúncio da Cesare Paciotti “mostra um homem pisando sobre o rosto de uma bela mulher que usa batom vermelho.”

O quinto mito criado pela mída é do que os rapazes gostam. As revistas feitas para meninas invariavelmente dizem que os “rapazes sabem muito a respeito das garotas” e também sabem muito bem o que querem, ao contrário das garotas que não sabem nada, portanto, precisam aprender a satisfazer os desejos dos garotos... com a mídia.
As revistas “ensinam” as meninas a serem atraentes. Manchetes do tipo estampados pela revista norte-americana Seventeen mostram isso claramente: “Experimente esse visual, testado por garotas e aprovados por rapazes”, formam a essência desse mito.

Controlar a volúpia da mídia

“Temos de aprender a ter controle sobre a mídia e a usá-la de modo que melhore nossa vida, em vez de lhe dar total liberdade de ação tanto no espaço público quanto no privado”, afirma Durham. Ela diz ainda que o marketing das empresas está transformando as crianças pequenas em “iscas de sexo”.

Por isso, para ela “a sexualidade deve ser protegida, as pessoas devem ter controle sobre ela, livres de qualquer violência ou coerção. As garotas devem ser amparadas social e culturalmente, de modo que contribua como seu desenvolvimento sexual e o seu bem-estar.”

“O Efeito Lolita está presente nas revistas para adolescentes, nos programas de tevê, nos shopping centers, na pornografia e nas ruas. Às vezes é difícil distinguir uma imagem da outra”, afirma Durham. Ele age dentro de um contexto corporativo e comercial. Em razão disso, não há ética em jogo: “ele é movido pela busca do lucro”.

Principalmente porque a parte mais promíscua e violenta sobra para as meninas pobres que, sem dinheiro para comprar os tais produtos milagrosos e se tornarem “sexies”, tornam-se presas fáceis para a face mais cruel desse contexto: o tráfico sexual de crianças. O Departamento de Drogas e Crimes da ONU descreve o tráfico sexual de crianças como a atividade criminosa de maior expansão no mundo.

“Em certo sentido, o Efeito Lolita superestima e subestima o sexo, ao mesmo tempo: ele dá uma ênfase excessiva à necessidade das garotas de ser sexies, mas não leva o sexo suficientemente a sério a ponto de lhes fornecer informações adequadas sobre como lidar com ele na vida real”, diz Durham. Por isso, ela defende a inclusão do “uso crítico da mídia” na grade curricular “desde o período da pré-escola até o final do ensino secundário”.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Papel

Papel, querido papel. Papel passivo. Papel que pode constranger. Papel guardanapo ou higiênico. A cada boca, seu devido papel. Talvez em alguma caixa de papelão eu me esconda. Marcha, soldado, cabeça de papel!

Papel de tantas palavras. Papel das cartas de amor. Papel do jornal que todos os dias me (des) informa. Papel, dinheiro: do 2 ao 100, o mesmo papel, mas tão diferente! Papel das doces palavras. O papel da minha fúria, marcado com força pela caneta. Papel com batom. Papel da angústia. Papel reciclado.

Papel do contrato que muda a vida. Papel da carta de demissão. Papel do cartão de natal. Papel definitivo, do bilhete de despedida. Até nunca mais! Papel do óbito.

Papel do autógrafo: nomes que valhem muito mais do que pessoas. Papel da foto que já não se quer mais ver. Mas que, ainda assim, sabe se lá por que, não é queimado. Papel desenhado. Meus sonhos, e os teus também, ali, no papel. Papel passado. Papel amassado.

Papel do recibo: paguei sim! Papel do exame: pais, filhos, discórdias... Papel comprometedor. Papel do ingresso ao paraíso, talvez só meu paraíso. Papel nunca entregue, dos sentimentos guardados. Papel que expõe e esconde nossa alma. Papel que aceita tudo. Papel em branco, papel com vida. Papel singelo, condenado à prisão perpétua em meu bolso. Meu papel de otário.