segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ao telefone

- Olá! Meu nome é Juliana, gostaria de falar com o senhor Rodrigo Salvador.
- Sim, sim, é ele mesmo.
- Senhor Rodrigo, o senhor já conhece a buzina de avião da Air Super Company?
- Não, moça. Nunca ouvi falar.
- Pois bem, senhor. Estou aqui lhe oferecendo uma grande oportunidade. O senhor poderá comprar a nossa buzina de avião pela metade do preço!
- Obrigado, moça, mas acontece que sequer tenho um avião!
- A nossa buzina de avião apresenta um design inovador, além de ser toda cromada! É lindíssima!
- Agradeço muito, mas não tenho interesse.
- O senhor não pode perder esta oportunidade. São 50% de desconto! 50%!
- Olha, moça, Juliana, né?, realmente não quero a tal buzina. Não está entre os projetos imediatos da minha vida ter um avião.
- A buzina de avião da Air Super Company é realmente inovadora, senhor.
- Mocinha, desculpe a grosseria, mas não quero a buzina!
- O senhor não quer porque não a viu! Estarei mandando imediatamente uma foto da buzina, as opções de cores e todas as suas funcionalidades, senhor.
- Moça... er... não!
- O senhor está online neste momento?
- Sim, estou!
- Abra o email, por favor, senhor.
- Mas, mas...
- Já abriu?
- Tá, abri.
- O senhor está visualizando os modelos da buzina da Air Super Comany, senhor?
- Sim, estou.
- O senhor pode ficar à vontade para escolher o modelo que mais gostar, ok? Estou aguardando na linha.
- Acho que você não entendeu, Juliana: não quero a buzina.
- Me desculpe, senhor Rodrigo, mas o senhor acaba de aceitar a compra da buzina. Já temos o seu número de cartão e identidade em nosso cadastro, e acabei de preencher uma autorização de compra virtual. Só falta escolher o modelo.
- O quê???
- Escolha o modelo, por favor, senhor.
- Eu quero desfazer isso! Que absurdo é esse?
- Senhor, agora não poderei mais estar cancelando. O cancelamento só pode ser feito após o pagamento de no mínimo cinco parcelas. Está no contrato, senhor.
- Hã??
- O senhor já escolheu o modelo?
- Não! Nem vou escolher porcaria nenhuma!
- Então nós estaremos lhe mandando o modelo padrão, prateado, da buzina Air Super Company. Alguma dúvida, senhor?
- Não... Quer dizer, só uma... Vocês por acaso também fabricam aviões?
- Sim, senhor.
- Vou querer um, por gentileza...

domingo, 30 de maio de 2010

Força e subversão

Obedecemos às suas ordens. O senhor sabe, o senhor manda. Falou, tá falado. Estamos proibidos de pensar. Alternativas, pra quê? Mudar as ordens das coisas? Não sejamos tolos. Ajoelhemo-nos e masturbemos suas vontades mais íntimas.

Estamos aqui entre a desistência e a revolta. De repente, do nada, revertemos as expectativas, e fazemos a segunda opção. Cuspimos na sua cara. Cara imunda que nos proíbe de viver. Fazemos, então, as coisas do nosso jeito. Exercitamos a subversão. Você fica desesperado, arranca os cabelos. Só porque estamos felizes? Só porque descobrimos a liberdade?

Tenta fazer das coisas mais grosseiras, com sua vontade de nos esmagar. Mas sua força não nos intimida. Sabe por quê? Porque você, meu senhor, na verdade é fraco. Nossas almas transcendem sua pequenez. Você, meu senhor, não consegue compreender nossa força. Por isso, perderá.

Não precisamos do que você apregoa. Nossa lógica é outra. Então, deitados pelos cantos com uma cerveja na mão, gargalhamos gostosamente. Não precisamos mais de suas ordens. Não queremos mais as suas regras. Malditas regras que em vão tentam conter o nosso amor e as nossas vontades.

Não há nada como a delícia de ser um outsider. Nossa diversão reside em seu rosto de pavor e incredulidade. Com nossas flores, nossa paixão pela vida errante, nosso romantismo anacrônico, estamos enlaçados como se fôssemos todos uma mesma coisa, uma mesma energia. Retomamos o nosso direito de sorrir.

sábado, 29 de maio de 2010

Os nomes cogitados para o lugar de Fossati

Confirmada a demissão de Jorge Fossati, o Inter passa a trabalhar nomes para comandar a equipe na sequência do Brasileirão e na reta final da Libertadores. Alguns me agradam bastante. Outros, nem tanto. Vamos aos treinadores até agora cogitados.

Abel Braga: é um grande treinador. Experiente, vencedor e identificado com o Inter. Melhoraria muito o ambiente interno e o ânimo da torcida.

Luis Felipe: outro nome incontestável. Mas é muito mais utopia do que realidade.

Geninho: não me agrada. Nunca se firmou em clubes grandes. Na minha opinião, é ex.

Mário Sérgio: não é o técnico dos meus sonhos. Mas conhece o grupo de jogadores, e inegavelmente fez um bom trabalho ao levar o colorado ao vice brasileiro do ano passado. Seria uma escolha, digamos, sub-ótima.

Tite: é bom treinador. Mas, ao contrário de Mário Sérgio, saiu do Inter em baixa. Sua imagem desgastada ainda está presente no ambiente colorado.

Cuca: treinador competente. Mas sua instabilidade emocional faz com que se desgaste com relativa rapidez por qualquer clube pelo qual passe. Passo.

Nelsinho Baptista: esse eu não gostaria de ver nem pintado de ouro no Beira-Rio. O que ele fez em 1996, ao abandonar o clube nas primeiras rodadas do Brasileirão, sem mais nem menos, para treinar o Corinthians, foi uma das maiores palhaçadas que já vi no futebol.

Paulo Cesar Carpegiani: apesar de seus últimos fracassos, é um cara experiente, um ídolo histórico. Essa aposta eu faria.

Paulo Roberto Falcão: depõe contra ele a longa inatividade na profissão. Mas, assim como Carpegiani, é um grande ídolo. Sua inteligência, articulação e empatia com a torcida teriam papel fundamental na retomada do rumo do Inter.

O que mais me agrada nisso tudo? Me agrada uma via alternativa e muito arrojada ventilada no ano passado, quando da demissão de Tite. Carpegiani teria elaborado, junto com Falcão, um planejamento estratégico para o futebol colorado, incluindo curto, médio e longo prazo. O time teria, assim, dois treinadores. Seria uma verdadeira revolução no futebol brasileiro.

A questão aí reside na vaidade de Fernando Carvalho. Aceitaria o maior dirigente colorado de todos os tempos ter a sua imagem ofuscada por dois grandes ídolos da década de 1970? Tenho sérias dúvidas a respeito disso. Por isso, acredito que o Inter fará uma contratação conservadora para o comando técnico. Isso não é necessariamente um mal. Mas, que eu gostaria de ver o Inter fazer algo realmente diferente, de impacto, que criasse uma nova lógica para o estado atual de coisas, ah, gostaria. O Inter precisa se oxigenar um pouco.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fora, Fossati

Paciência tem limite. E a minha acabou. Jorge Fossati não pode mais ser o treinador do Inter. Na partida de ontem, ficou mais uma vez evidente que o uruguaio não tem mais nenhuma condição de permanecer no cargo. Se permanecer, o Inter vai perder a Libertadores e brigar contra o rebaixamento no Brasileirão.
Ontem, contra o Vasco, o que se viu, de novo, foi um time covarde e apequenado, refletindo o que Fossati projeta quando escala três zagueiros e dois volantes. O Inter achou dois gols, ficou com a faca e o queijo na mão, e no segundo tempo conseguiu tomar uma virada constrangedora.
Teve a expulsão do Eller? Teve. O pênalti foi mal marcado? Foi. Mas isso não justifica o treinador, com um a menos, tirar o único atacante de verdade para colocar o fraquíssimo Juan, quando deveria ter tirado o ridículo Alecsandro para colocar um meio campista, o que é trivial no futebol nessas situações. Isso não justifica a postura de time pequeno que o Inter teve no São Januário, e tem em qualquer partida, contra qualquer adversário, fora de casa. E, diga-se de passagem, o time do Vasco fede de tão ruim, o que torna a derrota de ontem ainda mais fiasquenta.
Agora, Fernando Carvalho terá que tomar uma atitude. Urge demitir Jorge Fossati. Seu trabalho até agora foi algo próximo do lamentável. Desde Gallo o Inter não tem um treinador com um trabalho tão constrangedor (e olha que o Gallo ganhou uma Recopa!). Perdeu o Gauchão, luta contra o rebaixamento no Brasileiro, e está na semifinal da Libertadores muito mais por obra do acaso, da sorte e da camisa do que por competência e bom futebol. Não se enche os dedos de uma mão com o número de atuações realmente boas e convincentes do Inter sob o comando de Fossati, que, entrando o mês de junho, não conseguiu sequer definir um esboço de time e esquema.
É hora de agir. Agora, sem postergar. Depois pode ser tarde demais. A temporada pode ser salva. Mas Píffero, Carvalho e cia terão de se mexer. E rápido.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Daqui

Te vejo daqui. Sim, estou te acompanhando. Não é nada fácil. A fórmula mágica é dar tempo ao tempo, deixar as coisas simplesmente acontecerem, uma de cada vez. Mas de simples isso não tem absolutamente nada. Isso me lembra um verso dos Engenheiros do Hawaii que diz assim: "Esperei chegar a hora certa por acreditar que ela viria". É isso! Exatamente isso! A dinâmica da vida e dos sentimentos é desgraçadamente incontrolável e desregulada. O rápido pode ser muito lento. O lento pode ser muito rápido.
Se por um lado quero ser racional, evitar ser ridículo, por outro fico ansioso, sedento, com medo de ser atropelado por outras oportunidades que cheguem à sua vida num prazo mais curto do que o "tempo certo".
Como posso achar um termo médio da razão se estou entregue à intensidade avassaladora dos sentimentos? Como posso ser paulatino nas minhas atitudes se o meu coração está saindo pela boca?
Não sei administrar minhas emoções. Isso é traço da minha personalidade. Por mais que eu tente bancar o durão, me estraçalho a cada vez que te vejo.
Não faço a mínima ideia do que é o certo a fazer. Mas há algo certo a fazer quando esta força me arremessa, e quase me impede de viver? Há algo certo a fazer quando te procuro por qualquer canto feito um bobo? Há algo certo a fazer quando, totalmente sem jeito e sem tato, tento te mostrar o quanto gosto de ti, e o quanto és importante para a minha vida?
Fato é que tu continuas aí, e tudo continua igual. Desastradamente igual. Queria que tu pensasses em mim 10% do quanto eu penso em ti. Já seria muito. E eu já estaria feliz.
Sigo a contagem regressiva. Mais uma vez, o mundo vai acabar.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Deitado na cama

Bernardo está deitado em sua cama. Pensa em Frida. Ele putrefa ali, entre o travesseiro, os lençóis e o edredon. Cansou-se da realidade. Ali, ele encontra-se consigo mesmo. Ali, onde somente os pensamentos e sonhos comandam, ele está com Frida. Abraça ela forte. Beija sua boca. Vive seu mundo.
O rapaz, atirado na cama, jogado às moscas e à irrealidade, apenas deixa o tempo passar. Pensa em todas as possibilidades. Sabe que existe para ela. Não sabe se existe para ela o suficiente. Do que podia ser algo bom, sobra apenas o veneno de pensamentos malditos que não lhe permitem libertar seu peito. De suas imaginações, virtuais mas tão reais, escorre o ácido que lhe corroi o coração.
Bernardo é um cara bom. Talvez bom demais. Ele vive numa outra dimensão. Numa dimensão em que se pode amar sem receios. Numa dimensão em que se entregar para o que se sente não é um mal. Numa dimensão em que dizer "eu te amo" não é ridículo nem motivo para remorsos.
Dessa maneira, a realidade o violenta o tempo todo. Seu espírito é incongruente com o mundo em que vive. Ele é o cara que, ou grita, ou cala. Não sabe sussurrar nem falar hábil e maciamente. Coisas típicas de quem é escravo do coração.
Bernardo, por dentro, está mais exposto e frágil do que nunca. Externaliza força, confiança e auto-suficiência quando sai à rua. Quando volta para casa, quando volta a si mesmo, chora feito uma criança.
Tentou se enganar. Esforçou-se para se manter sóbrio. Está, agora, ébrio pensando em Frida. Frida, seu terremoto, seu furacão, sua avalanche. Frida despertou em Bernardo uma verdadeira fúria da natureza. E quando ela passa por ele, restam apenas escombros.
Para onde ela vai? Quem são seus amigos? Qual é sua vida? Ele não sabe. Frida tem amigos. Frida tem amigo. Um amigo de noites e manhãs, de fins-de-semana, de jantas, telefonemas ocultos. Bernardo o percebe nas entrelinhas. Um amigo.
Bernardo se convence do pior. Esmaga-lhe o coração a ideia de sentir em vão. Luta contra si mesmo, contra os malditos pensamentos, contra os talvez malditos sentimentos. Mas não tem o que fazer. Então, tudo para sem se acalmar. Fervilha internamente. Falta-lhe o ar, as pernas não dão sustentação. Restam-lhe a cama, os lençóis, o edredon e o travesseiro. Resta-lhe a putrefação.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Bancos azuis

Estou sentado num dos bancos azuis. Bancos velhos de guerra. São mais do que um ente paisagístico de descanso. São uma espécie de observatório. Então, presto-me a simplesmente observar.

Passam todos tão iguais e medíocres. Diferentes em forma, iguaizinhos em conteúdo. Ou falta de. O repouso substitui a repulsa. Desisto de compreendê-los. Nunca conseguirei.

Sabem bem o que querem. Fazem tudo certinho. Sem sombra de dúvidas, atingirão seus objetivos tacanhos. Resultado, resultado e mais resultado. Cálculos, aparências, capacidades oratórias. São, na verdade, pobres de espírito.

Rebelo-me por um momento. Recuso-me a estar dentro destes padrões nojentos. Não quero o que eles querem. Não quero só o dinheiro e o sucesso, não como fins em si mesmos. Quero, mais do que tudo, poder sonhar. Quero amar, quero sorrir, quero deitar na grama, encher os pulmões de ar e me sentir vivo. Mais do que existir, eu quero ser.

Então, volto a mim mesmo, ao banco azul, às pessoas ao redor. Acabou-se a erupção do espírito. Estou preso a uma existência que não escolhi. Não, não pense que falo de escolhas erradas: a questão é que simplesmente não há escolha. Se escolhemos algo, é entre o ruim e o pior. Optei pelo ruim. O bom não existe. O bom é pura abstração de almas inconformadas. O bom é o sonho. O ruim é a realidade.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Medos e projeções

Não consigo tirar você dos meus pensamentos.
Você é minha força maravilhosa, mas escorre por entre os meus dedos.
O que sinto é concreto, mas o que acontece é fluido.
Não queria estar assim, mas estou.
Tenho medo de te perder, medo dos descaminhos da vida.
Sinto vontade de chorar ao imaginar a fugacidade de nossa existência.
Tento evitar ser ridículo, me lanço aos poucos.
Mas o tempo e a inércia me apavoram.
Tudo e todos constituem ameaças.
Meu coração aperta insuportavelmente, gostaria de arrancá-lo.
Reitero minhas indesejáveis intensidades.
Não consigo aprender a ser frio.
Imploro uma felicidade que não depende só de mim.
Peço a Deus e a todos os santos e anjos que me ajudem a acertar.
Porém, fico sempre incerto entre o excesso e a omissão.
Meu sentir é complicado, e dispensa meios termos.
E quando me arrepio, será que você pensa em mim?
Quando encho os olhos d'água, será que você me afaga à distância?
Como posso fazer isso sem me machucar?
Como posso dizer sem falar?
Falta uma peça fundamental no meu quebra-cabeças.
Falta seu cheiro, cheiro que me fascina e faz bem.
Falta tornar você real.
Não conseguirei dormir bem. De novo.

domingo, 23 de maio de 2010

Bullying

Leio no Vírgula uma história absurda ocorrida nos Estados Unidos (novidade?). Quatro homens entre 18 e 20 anos, além de um menor de idade de 15 anos, obrigaram um garoto de 14 anos a tatuar um pênis em suas nádegas. Isso ocorreu em New Hampshire. O garoto tinha dificuldades de aprendizado, e sofria bullying na escola por possuir dificuldades de aprendizado. Sob ameaça e coação, se submeteu à situação constrangedora. Os debiloides foram presos sob as acusações de agressão simples, tatuagem sem licença e injúria.

O absurdo, o lamentável, o nojento disso tudo é a capacidade do ser humano em ser covarde, principalmente na cultura ocidental. Tais atitudes, aliás, refletem nada mais do que o sistema econômico capitalista, cuja estrutura e funcionamento se baseiam na exploração do homem pelo homem, na falta de solidariedade, e na competição desenfreada em que os mais fortes amassam e massacram os mais fracos.

Tal nível de desrespeito pelo ser humano desemboca em atitudes de coerção psicológica que são absolutamente comuns e rotineiras no âmbito escolar de padrão ocidental. Crianças gordinhas, magrinhas, de óculos, desprovidas dos padrões de beleza arbitrariamente estabelecidos, sofrem com as grosserias e deboches das crianças comuns, médias, medíocres. São crianças covardes, que muito provavelmente não tiveram uma educação humanista, e se prevalecem de ser maioria. Aliás, os medíocres tendem a se dar bem nessas questiúnculas que envolvem padrões e enquadramentos por um motivo muito simples: eles, os medíocres, são esmagadora maioria.

Eis o mundo em que a chacota predomina. Eis o (i) mundo que valem mais cinco minutos de risadas do que uma vida toda afetada pelos verdadeiros dramas psicológicos irreversíveis que tais situações provocam. Seres humanos: definitivamente, esta expressão está perdendo seu conteúdo.

sábado, 22 de maio de 2010

Democracia das colmeias

O presidente do Gutiministão decidiu implantar a democracia em todas as colmeias do país. Criou um sistema eleitoral complexo. Dentro dos mais altos padrões da Europa avançada. Era um grande passo rumo ao primeiro mundo! O lançamento da democracia das colmeias foi pomposo. Finalmente as abelhas rainhas seriam decididas pelo voto!

Passaram alguns meses de enorme expectativa naquele país. Abelha: o mais novo bicho democrático. E chegou o dia do pleito. Uma urna, junto com uma caneta e um montão de cédulas, fora pendurada ao lado de cada colmeia do Gutiministão. O horário de votação seria amplo: das oito da manhã às oito da noite. Doze horas da mais pura e doce democracia.

Televisões, jornalistas de todos os cantos do mundo tomaram o Gutiministão naquele dia. O país estava em festa. Era um momento histórico. Tudo perfeitamente formatado e devidamente importado. Mas, por estranho que pareça, as horas começaram a correr, e nenhuma abelha, em nenhuma colmeia, resolveu votar. Nada, nadica. Tudo lá, prontinho, perfeito, e aquelas abelhas não votavam!

Chegou o horário de fechamento do pleito. Nenhum voto fora depositado. Nenhum. Um fiasco completo. Perplexos, todos os governantes não conseguiam entender o porquê daquele vexame. Desencadeou-se, dali, uma série de pesquisas em todas as universidades do Gutiministão. Porque aqueles procedimentos tão perfeitamente colocados, colmeia por colmeia, não deram resultado?

Decepção geral, tristeza de uma nação em parafuso. E as abelhas continuavam com sua monarquia, funcionando de forma irritantemente harmônica. As abelhas não chegaram ainda ao nível de cidadania desejável para todos os animais do planeta, permaneciam no seu atraso, na sua exploração absurda. Ô bichinhos antidemocráticos!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Classificação heroica

Não há outro adjetivo mais adequado ao feito do Inter ontem em Quilmes, contra o Estudiantes. Heroico. Foi uma vitória, acima de tudo, da camisa. Sim, porque o time teve uma atuação lamentável, horrorosa, até os 40 do segundo tempo.

Mas é nessas horas que aparecem os times vencedores. Quando a vaca estava indo para o brejo, surgiu o épico gol de Giuliano. O Inter, apesar de ter se esforçado para ser eliminado, não conseguiu. Está na semifinal para encarar o São Paulo de Fernandão. Baita ironia do futebol.

Bendita será a Copa do Mundo. Graças a ela, o colorado pode, e deve, se repensar em muitos aspectos. Fato é que o Inter ainda não jogou convincentemente na Libertadores. Está passando aos trancos e barrancos, muito mais na gana e na marra do que pelo bom futebol. Precisará melhorar, e muito, para encarar o São Paulo.

Primeiro, tem que contratar um atacante de qualidade. Um companheiro para Walter. Alecsandro não dá. Em segundo lugar, Fossati deverá repensar alguns de seus conceitos táticos. Ou o Inter terá de repensar Fossati.

O que não pode mais é entrar em campo com um esquema covarde, sem nenhuma presença ofensiva, sem finalizações e criação de jogadas, apenas trazendo o adversário para o nosso campo. O que não pode é um lerdo e mal posicionado Alecsandro ser titular em detrimento de um Walter em grande fase. Walter, por sinal, deve ter ido ao banco por ter jogado muito contra o Goiás. Não consigo encontrar outra explicação minimamente racional para a aberração que foi a escalação colorada no jogo de ontem.

Ademais, vale muito, e isso tem que ser ressaltado, que o Inter passou por um grande time. O Inter se classificou sobre o atual Campeão da América, tomou pau de tudo que é lado graças ao destempero e chilique de um time que não sabe perder (com destaque para Desábato, que não passa de um zagueirinho perna-de-pau de quinta categoria), e está na semifinal.

O Inter passou pelo melhor time argentino do momento, aquele mesmo que vendeu muito caro o Mundial ao Barcelona no ano passado. E antes, o colorado tinha passado pelo Campeão Argentino. Motivos de sobra para a torcida I.D.I.O.T.A. (Imitadora Direta e Intransferível Oficial da Torcida Argentina) ficar louca da vida, com vontade de sapatear e sair gritando no meio da rua. E para nós, colorados, comemorarmos intensamente.

Agora é curtir o momento, acompanhar a Copa, e aguardar ansiosamente os confrontos contra o São Paulo. Vai sair faísca. E digo mais: desse confronto, sai o campeão.


quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eu e ela

Tudo à minha volta se moderniza. Maquininhas, fichas eletrônicas, câmeras, portas com controle remoto, essas coisas todas aparecem até nos lugares mais simples, como o boteco que eu frequento em frente ao Campus do Vale.
Não há nada de errado nisso, claro que não. Mas, se já me sentia anacrônico antes, vou me sentindo assim cada vez mais, e mais, e mais, e mais... Estou fora do meu tempo. Tudo é excessivamente rápido. O mundo tem uma dinâmica que não consigo acompanhar. Me perco no meio de tudo.
Entretanto, continuo o mesmo. Eu, minhas loucuras, meus sonhos, minhas projeções, e minha cerveja. Antiga companheira, continua a mesma. Loira, gelada e compreensiva. É bem verdade que ela é uma prostituta: pago para que ela me faça companhia. Mas, e daí? Uma vez paga, ela me acompanha, não sai da mesa com desculpas esdrúxulas, e compartilha minhas lamúrias e amarguras.
A cerveja continua no meu tempo. Fora do tempo real, fora da corrida pelo ouro. Recrio meu mundo, minhas horas já não possuem sessenta minutos. Escorrego nas obrigações, sigo trilhas incertas.
Sou inexatidão cristalizada no segundo mais movediço do universo. Ninguém me interrompe, fico mais seguro. Certo e incerto. Liquido a mim mesmo com o líquido. Dane-se. Tudo fica muito mais simples. Não há julgamentos, ninguém violenta minha personalidade.
Apenas quero amar um pouco. Em paz. Com meu silêncio. Com minha cerveja.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sereia à prova

Mesmo quem não torce por nenhum dos dois times que entrarão em campo hoje à noite, na Vila Belmiro, como é o meu caso, tem motivos de sobra para acompanhá-lo. Num jogo em que precisam somente de um placar simples, os meninos da Vila estarão em xeque: a partir das 21:50 h, será definido, de uma vez por todas, se o time sereia é ou não, uma constrangedora farsa.

Passando de fase o Santos, mantém-se a aura, ainda que um pouco arranhada pelos últimos maus resultados, do time comandado por Dorival Júnior. Em caso de eliminação, ora, ficará comprovado no campo de jogo que o atual Santos é um time de meia pataca, com bons jogadores do meio para a frente, péssimos jogadores do meio para trás, e que tremeu no primeiro no primeiro desafio meia-boca que ultrapassou os limites do estado de São Paulo.

Por isso mesmo, a centralidade do jogo de logo mais. O circense Santos é capaz de ser um time de futebol, competitivo, guerreiro, vencedor? Ou ficará marcado por um fracasso grandioso e de sérias consequências?

A sereia está à prova. Sua única opção é vencer. A pergunta que fica é se vencerá. Os admiradores do futebol arte que me desculpem, mas resultado é fundamental.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Rendição

Chove forte. Aquele sujeito está deitado na lama. Ficará gripado, certamente. Mas não se importa. Se entregou. Não há nada que faça as coisas melhores. Espera pelo nada, porque sabe que ao nada, só a ele, poderá chegar.

Ele já sonhou. Já quis fazer coisas boas e certas. Acreditou em tudo o que lhe prometia felicidade. Mas não acredita mais. Desistiu, porque a vida lhe ensinou que a felicidade não existe.

Mentiram-lhe, revelaram-se, mentiram mais, e ele continuou a crer cegamente. Hoje se sente um trouxa, um palhaço, um joguete.

Restam-lhe somente as gotas do céu, a sujeira pelo corpo. Ele se rende como um cordeiro que já não consegue mais correr dos leões. Sangra, sangra muito. Mas se conforma a isso. Aguarda que a morte venha buscá-lo definitivamente.

É a regra da cadeia alimentar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A senhorinha

É uma senhorinha com seus setenta e poucos anos. Vestimentas simplórias. Poucos dentes na boca. Bíblia na mão. Ela vai passando por cada pessoa no terminal de ônibus, pronunciando algo como "Jesus virá salvá-lo". Ninguém lhe dá maiores atenções. Alguns, inclusive, fazem cara de querer livrar-se rapidamente da incômoda face cansada. Mas eu, de certa forma, me sensibilizei. Não falei nada, e talvez minha reação mesma tenha sido deveras semelhante à das outras pessoas. Mas, por dentro, de alguma forma, aquela velhinha me tocou.

Não estou discutindo, aqui, o teor do que ela fazia, do que ela dizia. Para mim, sinceramente, isso é o que menos importa. O que me chamou a atenção foi exatamente o fato de uma pessoa com aquela idade estar disposta a andar por aí, com uma bíblia na mão, proferindo aquilo que ela acredita, mesmo sabendo que 99% das pessoas não vão estar nem aí.

O conteúdo humano da atitude daquela senhorinha, sua obstinação por defender aquilo que para ela é o certo e o justo, independentemente do que seja, de fato, este certo e este justo, e o que esteja por detrás dele, é muito forte. Com as pernas cansadas, a voz trêmula e as palavras mal articuladas, ela segue obstinadamente, sem ser ouvida, mas fazendo a sua parte.

Admiro muito esse tipo de pessoa. Pessoas de fé no mais livre e amplo sentido da palavra. Pessoas que perseguem aquilo em que crêem passando por cima de todo o tipo de limitação. Pessoas que, sem recompensas, às vezes mesmo sem perspectivas, continuam a andar, por vezes contendo por dentro as lágrimas do cansaço, da espera de uma resposta que nunca vem, de lugar nenhum. Pessoas que não desistem mesmo quando tudo as espreme e as tenta a desistir. Pessoas que chegam ao limite, e, chegando ao limite, ultrapassam-no em nome de algo que dá sentido às suas vidas. Pessoas que estão acima das cifras e da frieza prática que tentam transmitir-lhes goela abaixo, dia após dia.

domingo, 16 de maio de 2010

Você, meu sol...

Começo meu dia da melhor maneira possível.
Você existe!
É como se tudo antes de você não tivesse existido, ou como se tivesse sido um pálido prelúdio.
Você dá beleza a tudo, dama e mulher, combinação paradoxal e harmônica.

O coração transborda, não há como esconder.
Tento ainda manter as coisas em certa ordem, medir as palavras.
A vida me ensinou a não mergulhar de cabeça sem ter a certeza de que a piscina está suficientemente cheia.
Mas, o que eu faço se isso é tão poderoso e avassalador?

Quando me sinto algo para você, respiro melhor.
Tudo se descortina, se ilumina, ganha significado.
Chove forte, trovoa, escurece.
Vem então você, meu sol, e torna meu mundo claro e lindo, lindo como cada traço de seu rosto.

Quero seu abraço, seu colo.
Amo tudo o que vem de você.
Fecho os olhos sonhando com o dia, talvez virtual, em que estejamos realmente juntos.
Saiba que tudo fica incrivelmente melhor quando você está comigo: aqui, aí ou lá.

sábado, 15 de maio de 2010

Convocação

Não sou exatamente o que se poderia se chamar de entusiasta ou torcedor fanático da seleção brasileira. Em Copa, até torço, mas não rola "aquela química". Entretanto, o contexto da convocação do selecionado nacional para a Copa do Mundo, chamou a atenção de todos, inclusive da minha pessoa. E Dunga acertou muito mais do que errou.

Dunga foi execrado por parte da imprensa por não ter convocado Paulo Henrique Ganso e Neymar. Mas, e por que deveria convocá-los? Porque jogaram bem um campeonato estadual? Menos, caros amigos. Muito menos.

Ganso eu acho um jogador apreciável. Fosse técnico da seleção, talvez até apostasse umas fichinhas nele. Mas eu jamais apostaria, nesse tipo de contexto, em Neymar. Confesso que não o acho grande coisa. Por enquanto, não passa de um bom jogador. Só e nada mais do que isso.

Dunga fez uma convocação para uma Copa do Mundo. Já não é hora de testes nem de brincadeiras, sejam de bom ou mau gosto. Dunga chamou os jogadores pelos quais adquiriu maior confiança. Não montou um ajuntamento de bons atletas. Montou um grupo. Uma equipe focada, determinada. Para mim, isso é um acerto.

Chama-me muito a atenção é o oportunismo de alguns setores da imprensa. Os mesmos que criticaram o oba-oba e a falta de espírito coletivo de 2006 agora crucificam Dunga por ter montado um grupo de espírito coletivo, e colocam como fator central e decisivo de uma convocação a presença ou não de duas individualidades que nunca fizeram parte do grupo e cairiam de pára-quedas na hora do bem bom.

A despeito das críticas, Dunga provou ser um sujeito coerente com aquilo que era consenso geral em termos de princípios quando ele assumiu o posto de técnico do Brasil. Pode até perder por ter feito algumas escolhas tecnicamente equivocadas. Mas não vai perder por falta de profissionalismo, comprometimento e seriedade. Pode até perder, mas se isso ocorrer, será pensando somente com sua própria cabeça, e não por se deixar levar por pressões midiáticas.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vitória colorada: e a imprensa, como fica?

Foi importantíssima a vitória do Inter sobre o Estudiantes na primeira partida das quartas da Libertadores. O colorado teve o controle total das ações durante todo o tempo, e foi premiado com um gol de cabeça de Sorondo, no finzinho, gol este que leva a uma importante vantagem para o jogo da volta.

Eu quero ver, agora, é a reação da digníssima (?) imprensa gaudéria perante a vitória colorada. Quero tanto ou mais estardalhaço do que foi feito quando da vitória do Grêmio sobre o time do Santos. E argumentos, não faltam.

Primeiro, o Inter ganhou do atual Campeão da América, time que deu muito trabalho para o badaladíssimo Barcelona no Mundial Interclubes. O Grêmio, por sua vez, ganhou de um time que é o atual Campeão... Paulista. E digo mais: esse time do Santos é um timezinho nota 5. Tem um ataque nota 9. E uma defesa nota 1. Na média, 5. Adianta algo? Na minha concepção de futebol, não. O Santos não é peixe nem baleia: é o time sereia. Metade, uma bela moça. Metade, um fedido e escamoso peixe. O Santos é uma mulher com uma teta só. O Santos é o parnasianismo futebolístico: a arte pela arte, sem consequências. Mas, bem, tem gosto para tudo nessa vida...

Em segundo lugar, o Inter ganhou por um placar que lhe dá uma substantiva vantagem para a volta: fazendo um gol, o Estudiantes terá de fazer três. O Grêmio, por seu turno, ganhou com a mesma vantagem no placar, mas levando três gols em pleno Olímpico. E todos sabemos: gol sofrido em casa, nesse tipo de mata-mata, é algo a ser profundamente lamentado.

Por último, o Inter ganhou um jogo de Libertadores. O Grêmio, por sua vez, ganhou um jogo pela gloriosíssima Copa do Brasil, a copa dos times pequenos, aquela mesma que Criciúma, Santo André, Juventude e Paulista de Jundiaí ganharam. Não há como comparar no mesmo patamar, com um mínimo de isenção e seriedade, as duas competições.

Por essas e outras, vou ficar de olho nas manchetes de sites e jornais de amanhã. E sugiro que todo o torcedor colorado que puder, também o faça. E se perceber desigualdade de tratamento, que coloque a boca no trombone, comentando notícias, mandando e-mails e cobrando fortemente uma postura digna dos nossos jornalistas. Não é questão de coloradismo ou gremismo. É questão de justiça e imparcialidade.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Menina

É, menina, cá estou.
Sinto-me um tanto feliz, outro tanto apreensivo.
Isso não é o ideal, e sempre volto ao mesmo patamar.
Tento evitar, não pensar, distrair minha mente: em vão.
E o que devo fazer, menina, se sou escravo dos meus pensamentos?
O que devo dizer quando não tenho nada a declarar?
Menina, me ajude, me salve, me abrace um pouco.
Ofegante, tenso, preocupado, te observo de longe.
E o que devo fazer, menina, quando você brinca e sorri com os outros?
O que devo fazer se fico incomodado e me remoendo por dentro?
Puxo raiva e desgosto do fundo da minha alma para me proteger.
E então você volta, doce, sorridente, me vendendo um pouco mais de ilusão.
Derreto-me, mas não há ensaio, menina, não há nada que me faça acreditar no acerto.
Pareço condenado a caminhar sozinho por essas ruas.
Pareço fadado a me limitar aos meus sonhos, só a eles.
Mas o que fazer, menina, se o meu sonho é você?
Imploro, menina, que você ouça meus olhos e veja minhas palavras.
Você, menina, é minha hipótese sem conclusão.
Você, menina, me faz consumir meu espírito no ciúme remoto e angustiante, e na incerteza.
Menina do aroma e fino sabor do cravo e da canela, menina que queima meus olhos e minha boca.
E o que devo fazer quando perder seu cheiro, menina?
O que eu faço, menina, se você sumir ou abraçar algum outro?
O que eu faço, menina, quando você for o sentido de tudo e tudo deixar de fazer sentido sem você?
Menina, minha bela, viva um pouco em mim, para mim.
Por favor, seja algo realmente bom em minha vida.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Tinga, teu povo te ama!

A tão esperada volta de Paulo César Tinga ao Internacional foi oficialmente confirmada ontem à noite. Poderia falar aqui das imensas virtudes deste jogador, sua ampla movimentação, velocidade, capacidade de marcar e armar jogadas de ataque... Mas a contratação de Tinga transcende tudo isso.
Está voltando ao nosso convívio um grande ídolo. Retorna ao Inter o cara que fez o gol do título da Libertadores de 2006, e saiu dizendo, a despeito dos muitos anos de Azenha e do respeito pelo clube que o lançou para o futebol, que é, sim, mais do que um jogador, um torcedor do Inter. Tinga é colorado da gema. Tinga é um jogador vencedor.
Talvez a posição em que joga nem fosse prioritária em termos de carências técnicas do elenco colorado. O meio-campo é o ponto mais forte do atual Inter. Mas, e daí? Agregar qualidade é sempre algo a ser louvado. Grandes jogadores sempre serão recebidos de braços abertos pela torcida.
No entanto, os homens do futebol colorado devem estar cientes de que a grande contratação de Tinga não é suficiente. O plantel do Inter necessita de reforços no setor de ataque, em quantidade, e, principalmente, em qualidade.
Apesar de ser inegavelmente eficiente, Alecsandro não é um jogador diferenciado, capaz de desquilibrar um jogo complicado. Walter pode ser esse jogador, mas ainda é novo e instável. Depositar todas as esperanças nele seria uma demasia, e uma carga muito pesada para ele. Urge, então, a chegada de um centroavante acima de qualquer suspeita.
Mas, voltemos à alegria do momento: Tinga está voltando! Que seja bem-vindo nesse retorno aos braços da torcida colorada. Tinga, teu povo, o povo colorado, te ama!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Quando a formalidade se torna estupidez

Fiquei estupefato com essa história da Boeing, que li no G1, descartando o desenho de um garoto de oito anos. Em suma: um garotinho chamado Harry Winsor mandou um inocente desenhinho do seu avião preferido para a Boeing, desenho de criança, quase uma homenagem. Até aí, beleza. O bizarro foi a resposta da empresa: uma carta padrão e formal, informando que a proposta foi analisada por engenheiros especialistas e descartada.
O óbvio: engenheiro nenhum analisou nada. Nem poderia ser diferente disso, porque era, ora bolas, um desenho de uma criança, e não uma proposta de engenharia de aeronave! O absurdo: a burocratização absoluta da empresa, incapaz de fazer uma carta específica para crianças que mandam desenhos de aviões, ou mesmo de não responder. Sim, porque uma resposta padrão tão ridícula soa como uma piada pronta.
A formalidade da Boeing, sua falta de bom senso e de sensibilidade, foi de uma estupidez incrível. Mas isso é uma consequência do tipo de sociedade em que vivemos. Tudo é muito burocrático, às vezes excessivamente impessoal. Na visão capitalista, empresarial, tudo é medido através de números. Pessoas são meras cifras. O capitalismo é desumanizador.
Este sistema econômico, que se estende a praticamente todas as esferas da vida cotidiana, é tão voltado à impessoalidade, que o único ser que parece ter vida, sentimento, impressão, é este ente chamado "mercado". O mercado fica nervoso, o mercado fica tenso, o mercado fica chateado, o mercado fica animado, o mercado fica assanhado. No fim das contas, é só isso que conta. Pessoas? O que são pessoas, mesmo? Sugiro, nessa lógica, aos executivos, que beijem o mercado, abracem o mercado, transem com o mercado, e deixem suas mulheres em paz. Esses caras devem ser um pé no saco mesmo.

domingo, 9 de maio de 2010

Mãe

Mãe é a origem de tudo.
Mãe é a coisa mais subjetiva que existe no universo.
Ela não pode ser definida só pela genética, não quando consideramos a substância, o significado da palavra.
Existem mães que não são mães; existem não-mães que são mães no sentido mais puro.

Mãe é ternura infinita.
É o sacrifício, a abnegação, a doação em nome de um amor completamente desinteressado.
Mãe é acalento, paciência, pilar, sustento e sustentação.
Ela sabe que se enraizou de alguma forma.

Mãe não tem mágoa.
Ela supera tudo, ela se entrega aos instintos.
Mãe quer o bem do filho acima de qualquer coisa, mesmo que muitas vezes de forma errada e chata.
Um pouco dela está conosco.

Mães são malucas, colocam prioridades estranhas e irracionais.
Para elas, todo o sentido é o que sentem.
Parariam o mundo, removeriam montanhas, abririam oceanos pelo nosso sorriso.
Mãe: tudo o que se diga ou escreva é insuficiente.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Perdido, desajeitado...

Paro, te olho, te escuto, falo coisas sem sentido.
Sou assim mesmo, uma espécie de anti-herói, daqueles que torcem o tornozelo descendo do ônibus ou tem uma crise de torcicolo se espreguiçando.
Trombo em tudo e todos, derrubo coisas.
E me pergunto, então: por que tamanho desajeito?

Talvez seja a sua presença, a sua complexa simplicidade.
Você desorganiza o meu mundo.
É como se todas as leis da física virassem do avesso.
Torna-se impossível racionalizar até mesmo as coisas mais óbvias.

Seus olhos, seu jeito de falar, tudo conspira contra mim... Ou a meu favor...
Quando tropeço, não é na pedra: é no que começo a sentir.
Quando derrubo carteiras ou livros, não derrubo carteiras e livros: derrubo a imagem de uma segurança que já não consigo transmitir quando te vejo.
Não sei se isso terá jeito, ou se desajeitado permanecerei.

De repente, tenho de novo meus 15 anos.
Mas como é que vou me entregar se nem sei como se faz isso?
Você deve estar rindo disso tudo.
Na verdade, tudo é muito doce, mas muito difícil de assimilar.

Vou lutar contra tudo, contra todos, até contra o frango desobediente sobre a bandeja.
Gosto de você, amo suas palavras.
Na tentativa de me acomodar, você me deixa mais desalinhado.
São coisas de sentimento, coisas impossíveis de controlar.

Baixo a cabeça porque estou com vergonha, uma vergonha boba e verdadeira.
Tento me organizar, mas fico mais perdido ainda.
Devo ou não te olhar, devo ou não me apaixonar?
Sei lá, já era.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Bye, bye, Banfield

Não foi fácil. Mas o Inter cumpriu a missão da noite. Passou pelo Campeão Argentino vencendo por 2 a 0. Lutou muito. Mereceu a vaga.

Confesso que estava preocupado no primeiro tempo. O Inter não criava quase nada, não conseguia superar o ferrolho argentino e impacientava a todos no estádio. Mas, mesmo não jogando bem, o colorado fez o gol no finzinho da primeira etapa, com Alecsandro sozinho, completando jogada espetacular em que D'alessandro, a grande figura do jogo, encontrou Andrezinho livre dentro da área.

Já no segundo tempo, o Inter voltou com força total. Pressionou muito, insistiu nas jogadas ofensivas, e com Walter, de cabeça, alcançou o placar que precisava. 2 a 0. Então, o colorado recuou preocupantemente e até deu alguns sustos, mesmo depois da justa expulsão de um atleta do Banfield. Mas não tinha o que os argentinos pudessem fazer. Estava escrito nas estrelas. Inter nas quartas de final da Libertadores da América.

Beleza, mas os desafios que estão logo ali na frente são enormes. O Estudiantes será uma verdadeira prova de fogo. O colorado terá de mostrar muita raça, e precisará muito da torcida para apoiá-lo no primeiro jogo. É importante sair do primeiro confronto com vantagem, confortável, de preferência, para que se faça somente a administração em La Plata. Há muito o que melhorar ainda, e pouco tempo hábil para fazê-lo. Ou seja, não esperemos de jeito nenhum maiores brilhantismos colorados na partida do Gigante. Vai ter que ser no abafa, na superação, mais uma vez.

Sigamos em frente. O sonho do Bi da América segue vivo. Vamo, Inter!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Liga

Foi simplesmente brilhante a estreia do jornalístico "A Liga", na noite de ontem na Tv Bandeirantes. "Liderado"por Rafinha Bastos, junto com Thaíde, Débora Villalba, e Rosane Mulholland, o programa teve uma sensacional primeira edição (http://www.band.com.br/aliga/).
O tema tratado era a vida dos moradores de rua. Os quatro integrantes, cada um a seu modo, foram às ruas testemunhar o que cerca a vida destas pessoas muitas vezes invisíveis aos nossos olhos. Rafinha, inclusive, "vestiu-se" a caráter e passou um dia nas ruas, vivenciando todas as dificuldades para a obtenção de alimentação, para se conseguir um banheiro para satisfazer necessidades fisiológicas, e para dormir, dentre outras coisas.
A estreia foi realmente promissora. O programa mostrou-se dinâmico, interessante durante todo o tempo. Não deteve-se apenas em mostrar os bastidores, assim como não fez uma análise macro, fria e distanciada. Essa é a proposta, afinal. "A Liga" constituiu-se exatamente como a combinação de informação e vivência, apresentando o átomo sem no entanto deixar de ilustrar a gravidade orgânica representativa dos átomos.
Serviu, também, para refletirmos sobre toda a desigualdade existente neste país, e o absurdo que é pensarmos que existem, às pencas, pessoas vivendo em condições sub-humanas nas grandes cidades brasileiras, pessoas que, lamentavelmente, para muitos, tornaram-se algo como "objetos cenográficos indesejáveis". Convivemos com níveis inaceitáveis de pobreza com uma assustadora naturalidade. E o primeiro passo para a mudança é exatamente o que o programa fez: desnaturalizar isso, indignar-se com a situação muitas vezes indigna vivida pelos moradores de rua. Não é natural. Não é irreversível. Não é aceitável.

terça-feira, 4 de maio de 2010

De um angustiado para ella

O que posso fazer se você mexe comigo?
Fico fora do prumo quando você me lança seu maldito bendito sorriso.
Esse sorriso que inegavelmente me derrete, e que derreteria até mesmo uma geleira.
Não sei de quantos amanhãs precisarei, nem de quantas palavras...

E aquele rapaz, quem era ele?
Vi demais ou vi de menos?
Preferi não ver.
Agora fico aqui, remoendo, imaginando, cogitando todo o tipo de absurdo.

No peito, um coração pula entre esperanças bobas e os mais profundos temores.
A ansiedade consome, as frases não se completam.
E eu queria poder fazer mais, ser mais.
A felicidade está cansada de tanto esperar.

Então, cobro promessas que jamais foram feitas.
Acreditando que tudo tem de terminar bem, continuo.
Quero você, quero seu cheiro, quero sua vida.
Quero ter o direito de acertar.

Provavelmente não haja escapatória.
Tento a frieza, busco colocar a cabeça no lugar.
Finjo que não é comigo, mas não consigo.
Estou, sim, pensando em você.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ocasião especial

Estava completamente na beca. Camisa, gravata, terno, sapatos bem polidos. Era o dia dele.
Reuniu-se a família inteira, e também os amigos. Toda ela de origens humildes. Toda ela bem arrumada para a ocasião. Ocasiões como esta ocorrem raramente.
Em todos os cantos daquele salão, o papo corria solto. Os primos contavam piadas. Senhorinhas conversavam recordando saudosos momentos. Até quitutes eram servidos, bons quitutes. Sacrifício necessário.
Claro que não há como negar, estavam emocionados, embora sempre vejamos, num canto ou noutro, oportunistas, aqueles que estão só pelos acepipes e bebidas.
No centro, elegantíssimo, o senhor de terno e gravata, e a família em volta rendendo homenagens. Estava deitado, olhos fechados, algodões nas narinas.
Em uma existência tão difícil, finalmente colocava seu traje de gala. Finalmente descansará. Finalmente, em paz. Morto e livre.

domingo, 2 de maio de 2010

Título constrangido

Não há como negar: o título conquistado pelo Grêmio na tarde de hoje foi um título constrangido. Afinal, o tricolor perdeu em casa para um time misto do Inter. Levantou uma taça cheia de chopp aguado e quente.

O Inter, por sua vez, termina o Gauchão sem o título mas de cabeça erguida. Jogou com extrema dignidade e conseguiu mais uma vitória em Gre-Nais. Perdeu o título ganhando do seu maior rival fora de casa. E isso vale muito. Vale mais ainda ao ver algumas atuações individuais que foram de encher os olhos.

Na defesa, Pato Abbondanzieri foi espetacular. Fez uma série de grandes defesas, constituindo-se em peça chave para o triunfo colorado. Na zaga, chamou a atenção a atuação de Ronaldo Alves. Apesar de um pouco lento, é um jogador forte, tem bom posicionamento, e foi um porto seguro em termos defensivos. No meio, Sandro jogou demais, como há algum tempo não jogava. Desarmou muito, teve lucidez para sair jogando com qualidade, e muita raça nas divididas. Um pouco mais à frente, Giuliano também fez grande partida. Foi o clássico armador, muito presente e atuante em todo o jogo. No ataque, a despeito de um Walter apagado, tivemos um Taison muito a fim de jogo, que incomodou a defesa gremista o tempo todo, até a sua jogada destemperada, que apesar de feia, me agradou por demonstrar que o atleta ainda tem sangue correndo nas veias depois de tantas e tantas atuações apáticas.

Agora, mais do que nunca, o foco é o jogo de quinta-feira contra o Banfield. Não é nenhuma missão impossível. Com o apoio da torcida, apesar da dificuldade inerente de enfrentar a catimba argentina, o colorado pode passar por cima e se classificar. E, digo mais: dependendo do andamento do jogo, dá até pra meter uma goleadinha pra dar moral na sequência da Libertadores. Mas, para isso, a torcida tem que fazer o Beira-Rio fervilhar, e como eu escrevi aqui após o jogo de Buenos Aires, tem que fazer os atletas argentinos se arrependerem de terem nascido. Serão 50.000 contra 11. O Gigante vai rugir.

sábado, 1 de maio de 2010

Trabalhador

Ei, amigo trabalhador, atente ao que lhe digo.
Tu mesmo, que aí estás, com os pés descansando, com a alma em repouso.
Tu, trabalhador, és o cara.
Não fosse por ti, nada existiria, e seu patrão, tão poderoso e senhor da verdade, seria tão somente um ser rastejante.

Tu que suas, tu que comes o pão que o diabo amassou, tu que te matas pelo lucro alheio, levante um pouco.
É tua força que move o mundo, são teus braços que levantam os fardos da desigualdade.
Tu, trabalhador, és espírito sedento e persistente.
Tu, trabalhador, és aquele que segue o caminho com os pés calejados e os sonhos na lua.

Pense, amigo trabalhador, em tudo o que queres e em tudo o que podes.
Teu suor vale muito, teu sangue é o vinho nobre no jarro alheio.
Vá fundo, trabalhador, mergulhe em suas esperanças.
Não espere o amanhã, meu amigo, caminhe até ele.

Tudo pode ser melhor, querido trabalhador dos dias e das noites.
O sol há de nascer de verdade, trazendo quentura e amor aos dias que povoam teus desejos.
Queira mais, lute mais, busque mais.
És o verdadeiro vencedor, dia após dia, gota após gota.

Sejas feliz, porque felicidade é o que mereces.