quarta-feira, 31 de março de 2010

Imperfeições

A vitória de Dourado no BBB foi emblemática. Não só no aspecto que foi discutido ontem aqui no DC, mas também por representar talvez uma mudança, sutil que seja, na mentalidade das pessoas. A glória de Dourado foi uma glória da imperfeição.
Poder-se-ia, ontem, ter votado no bom moço Cadu, o chapa branca que não briga com ninguém. Poder-se-ia, ontem, ter votado em Fernanda, uma patricinha de classe média alta, totalmente enquadrada nos padrões e estereótipos do mundo estético. Mas não! Votou-se em Dourado, o mais controverso personagem da edição!
Faz-se algumas simplificações um tanto bobas a respeito de sua vitória. "Teve uma segunda chance, conhecia o jogo!", dizem uns. "Jogou para o povão!", proclamam outros. Outros, mais lunáticos, berram que "foi tudo armação, porque a Globo queria que ele ganhasse!"
É lógico que ele jogou, como todos na casa o fizeram. Mas jogou limpo, falando o que tinha de falar na cara, mesmo que para isso pagasse o preço de ser taxado de grosseiro, homofóbico, machista, etc, etc, toda essa balela toda que foi levantada aqui, na "vida real". Foi isso o que cativou o público. Já o "conhecer o jogo", bem, é relativíssimo: de fato, todos "conhecem o jogo", pois o BBB estava em sua décima edição. Quer conhecer melhor o jogo do que estar aqui fora acompanhando, compartilhando o imaginário coletivo das massas? A experiência prática conta para manter o sangue frio: mas não é substancial para se decretar a vitória de um participante. O BBB já foi suficientemente observado para que os jogadores alinhavassem suas estratégias e dirimissem qualquer "vantagem" potencial de Dourado.
Dourado virou o jogo com muita categoria, pois, de fato, para os demais jogadores, um impopular, um azarão a ser eliminado. E foi assim até a finaleira, encarando paredões e se fortalecendo perante o público que rejeitava padrões impostos. E daí, a piada maior, de que a Globo manipulou o jogo em favor dele. Tudo que a Rede Globo fez foi dar o contra, o tempo todo, por exemplo, com um editorial indiretamente direto às vésperas da final, "contra a homofobia e a favor da diversidade". E a raiva global ficou explícita no discurso final de Pedro Bial, que fez de tudo para diminuir o lutador, dando a entender que ele provavelmente só tenha "feito tipo" durante o programa. Ora bolas, a Globo, tão liberal e "prafrentex" não iria querer um cara tosco, taxado de homofóbico, ganhando o BBB!
Fica desse Big Brother, quem diria, uma lição: bonequinhos de plástico, estereótipos perfeitos, personalidades adequadíssimas a novelas insossas do horário das nove já não colam mais. O público quer mais crueza, mais controvérsia, porque, afinal, é isso que, maravilhosamente, somos: imperfeitos, tão cheios de defeitos e vícios como o somos de virtudes. Dourado jogou limpo, colocou a cara pra bater. E isso contou muito.

terça-feira, 30 de março de 2010

Dourado contra a hipocrisia

Sou um crítico do BBB. Não gosto da alienação vazia que ele provoca na grande massa. Mas, confesso, o atual Big Brother cativou meu interesse. Pelo alto índice de gays na casa, e pela presença de Marcelo Dourado, taxado de homofóbico, a discussão realmente ficou bem instigante. Talvez pela primeira vez em sua existância, o programa transcende os vazios significados simbólicos da futilidade e superficialidade como valores em si mesmos para trazer à tona um debate realmente social. E tenho o meu lado nessa história toda: sou Dourado desde criancinha.
Não há dúvidas de que os gays ainda sofrem muito preconceito em nossa sociedade. Disso não discordo, e por isso mesmo, sou contra a homofobia. Mas também sou contra a ignorância do avesso: respeitar os gays não significa concordar com o que eles fazem, não significa gostar de fazer o que eles fazem, ou mesmo achar legal o que eles fazem. Qual o problema nisso?
Posso não gostar de comer bife de fígado. Se alguém gostar de comer bife de fígado, vou respeitar. Mas vou continuar não gostando de comer bife de fígado. E posso até dizer pra pessoa: putz, não sei como você consegue gostar disso. Isso quereria dizer, sei lá, que sou "figadofóbico"? E mais: o povo gaúcho é um dos que mais são alvo de piada no Brasil. Dourado é gaúcho. Poderia, dentro dessa lógica, argumentar que esse povo que força a barra contra ele é "gauchofóbico". Ou não?
É essa, pois, a grande discussão do BBB. Dourado não é simpatizante do movimento. Mas em nenhum momento desrespeitou nenhum dos gays da casa. No máximo, chamou um veado de... veado! Homofobia é quando você tenta intervir diretamente sobre a opção de uma pessoa, via coerção física ou psicológica. Não consigo elaborar nenhuma outra definição muito diferente dessa. E não vi, em momento nenhum, Dourado tentando forçar alguém a ter os mesmos gostos dele, e muito menos, tratar com nojo ou desprezo qualquer um dos homossexuais da casa.
Fato é que se criou um anti-douradismo ignorante e vazio de significado. O cara, sem saber, vem sendo acusado aqui fora de uma série de coisas que ele não demonstrou factualmente na casa: homofóbico, nazista, machista, etc, etc. Tudo isso por não compartilhar um universo simbólico diferente do seu. E, mesmo assim, tendo uma postura verdadeira, com o jeitão tosco dele, cativou uma imensa torcida, exatamente por isso, por mostrar que não se precisa ser "politicamente correto" o tempo todo, se policiando em cada vírgula do que se fala. Ainda há espaço para se divergir sem ser ofensivo.
Por esses motivos, estou torcendo para que Marcelo Dourado vença o BBB hoje à noite. A rejeição que ele colheu até agora é baseada tão somente em distorções e relações hipócritas de uma sociedade que está passando da tolerância para a paranoia e para uma espécie de ditadura da diferença, em que a diferença da diferença também sofre com uma série de preconceitos e rotulações, exatamente o que vem ocorrendo com Dourado, exatamente, ora, o que estes grupos miniritários sempre repudiaram. Então, amigos, o panorama é este: é Dourado contra a hipocrisia.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Realização

Estou em minha recreação. A certas alturas dos fatos, a tortura é prazerosa. É uma questão de chegar a certo nível de transcendência. Tudo meio que se nivela.

Olho, então, para os incômodos como se já não fossem tão incômodos. Sou até cavalheiresco. Vale mais a pena deleitar-se com a própria força e a própria fraqueza. Força e fraqueza estão intimamente próximas. Se não forem a mesmíssima coisa.

O que são as lágrimas? Não são nada. Nada! Observo e sorrio. Disfarço. Sentir dor não tem graça. Estou tristemente alegre. Satisfeito com o auto-conhecimento. Gratificado por ter noção exata de minhas limitações.

Perdoem-me se vejo graça na desgraça. É o costume. Doce amargo déjà vu. No fim de tudo só restam mesmo as nossas verdades. Raivosas, dolorosas, intensas, apaixonadas.

Não sei se há sentido para além dos sonhos. A realidade é tão pragmática e opaca! Definitivamente não é ela que nos mantém vivos.

domingo, 28 de março de 2010

Delícia

De pé.
Vivo.
Cá estou.
Com gana.
Com fé.

Não que seja tudo fácil.
Não é.
Mas tenho meu próprio controle.
Tenho luz em meus olhos.
Tenho a mim e a minha força.

As pancadas fortalecem.
Não há o que provar, nem para quem provar.
Somente a gana.
Somente a paixão.
Somente a honra.

Sorrio e olho para os lados.
Há sabor em tudo o que vejo.
É esse sabor que dá a graça e a aventura de tudo.
Delícia e amor.
Tudo está aqui.

sábado, 27 de março de 2010

Absurdo

Leio no Globo.com que em São Francisco, estado da Califórnia, nos Estados Unidos, um professor universitário abusou de uma menina com a permissão da mãe dela. Detalhe: a menina tem 13 meses. Isso mesmo: 13 meses! Um ano de idade!

Já falei da verdadeira ojeriza que tenho por quem comete esse tipo de crime, de abuso sexual. E não me venham falar em patologia: os dois, mãe e tarado, eram doentes? Isso aí é safadeza mesmo, e não tem cromossomo torto que justifique, não para mim!

E é nessas horas que nós, ocidentais, temos que pensar no tipo de sociedade que estamos criando, ensejando a prática desse tipo de monstruosidade. É muito legal a liberalização do comportamento humano numa série de sentidos. Mas tudo tem um limite. O limite de uma expressãozinha que parece estar meio esquecida por aí: bom senso.

Não defendo um moralismo cristão e hipócrita. Não quero aqui ser um paladino dos bons costumes. Agora, o tipo de valor que é introjetado no nosso convívio social, pela tv com suas novelas, pela valorização cotidiana da satisfação individual acima de qualquer escrúpulo remete a esses casos extremos, em que um grandíssimo filho da puta abusa sexualmente de um bebê indefeso, com o consentimento da mãe, que nem merece ser assim chamada, pois nada mais é do que uma vagabunda, uma biscate sem-vergonha. Por isso, digo e repito para os pós-modernos: é, sim, necessário um código comum de convivência, para evitarmos o caos de um mundo avalorativo.

Se não freiarmos esse tipo de coisa estabelecendo uma espécie de contrato moral mínimo, cada vez mais absurdos desse naipe acontecerão. Falo de coerção social mesmo: ela é necessária, claro, na medida em que as atitudes de um indivíduo interfiram diretamente na vida alheia. Sou contra a coerção em relação aos atos do indivíduo para consigo mesmo e para com seus pares que compartilham seus códigos morais específicos, sem extrapolar os limites do indivíduo ou para além do grupo, ou subgrupo em questão.

Deve haver uma legislação específica para isso nos Estados Unidos, e não me cabe dar palpite sobre isso, até porque não tenho formação na área. Mas, mesmo assim, o meu bom senso diz uma coisa que transcende a letra fria da lei: cortem o bilau desse cara e joguem pros cachorros. E a mãe, que mofe na cadeia. Sem mais para o momento.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Porto sempre Alegre

Porto Alegre. 238 anos. Sou suspeito para falar. Nasci aqui. Desde então, vivo aqui. Amo essa cidade. Tem problemas, muitos, típicos das grandes cidades. Mas é, acima de tudo, uma capital acolhedora.

Só Porto Alegre tem o Gigante da Beira-Rio. Só Porto Alegre tem o pôr-do-sol do Guaíba, de beleza inigualável. Só Porto Alegre é... Porto Alegre!

Caminhemos pelo centro, pela Andradas. Vamos até a Usina do Gasômetro tomar um chimarrão, ou andar pelo calçadão. Se não tiveres a fim, vamos dar uma volta no Marinha, no Parcão, na Redenção das tribos e dos pedalinhos. Há o Laçador, singelo e cheio de simbolismo. A Borges, seu viaduto, suas paredes mijadas.

Podemos tomar uma cerveja nos bares da Cidade Baixa. Goles gelados de Polar, o ar magrão do jeito porto-alegrense de ser em cada mesa, a cada tragada no cigarro.

Há, ainda, se estiveres descornado, a Farrapos, suas casas e suas avulsas. Porto Alegre também é submundo. Imersa num mundo capitalista, deixaria de ter pobres, famintos e mulheres da vida?

Mesmo com tudo isso, é Porto Alegre. Porto, para os mais chegados. Cidade que apaixona à primeira vista quem por aqui se abanca. Porto dos Casais, mas também dos solteiros e canalhas. Porto sempre Alegre, com seus navios e almas cheios de romantismo e esperanças.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A mão suja de Bush

Bush limpou a mão no terno de Bill Clinton após cumprimentar um popular haitiano. Quem deveria ter limpado a mão era o haitiano.

As mãos de George W. Bush são sujas. Sujas por uma série de circunstâncias nebulosas de seu lamentável governo na Casa Branca. Sujas da ganância e ambição de quem fez a guerra em nome de seu próprio interesse, e de suas relações escusas com a grande indústria armamentista. Sujas de sangue de civis que sofreram, e sofrem até hoje, com a truculência ianque no Oriente Médio.

Bush é uma caricatura, um arremedo de político. Terminou seu governo moralmente defenestrado. Introjetou oportunisticamente após o fatídico 11 de setembro um clima de paranoia e perseguição ao mundo árabe. Sua "guerra ao terror" configura terrorismo em si mesmo. Mas tudo bem: é em nome do nobre valor da democracia. Sei, sei...

Os Estados Unidos sempre se colocaram como "O Bem", isso não é novidade. Não só se colocam nessa posição, que já não engana mais ninguém, como acreditam poder fazer o que bem querem na política interna alheia. São intrometidos. Isso é histórico. Não esqueçamos da Operação Condor, e os fortes indícios de que os norte-americanos financiaram as sanguinárias ditaduras dos militares no continente latino-americano. Tem ainda o embargo a Cuba, o caso de Honduras, financiamento ao fracassado golpe contra Chavez na Venezuela... Entre otras cositas más...

E assim, do alto da arrogância de quem se coloca como dono do mundo, George W. Bush mostrou seu nojo desse povo negro, terceiro-mundista e miserável do Haiti. Protagonizou não apenas uma "gafe", mas sim uma das cenas mais patéticas, ridículas e constrangedoras dos últimos anos na política mundial, naquela grande encenação que para ele deve ter sido um saco. Por falar em saco, cá entre nós: esse Bush é um escroto.

terça-feira, 23 de março de 2010

Espancador

Leio no R7 que o atacante Orlinov, do CSKA Sofia, da Bulgária, sequestrou e espancou a apresentadora e modelo Katrin Vacheva, quando esta lhe deu carona, mas recusou-se a adentrar sua casa (http://esportes.r7.com/futebol/noticias/atacante-do-cska-sofia-e-preso-por-sequestrar-e-espancar-apresentadora-20100323.html). O bonzão não gostou da atitude dela, e bateu na moça, mantendo-a refém por 10 horas.

Nada, absolutamente nada, justifica uma atitude deste tipo de um homem para com uma mulher. Sinto ânsia de vômito apenas ao imaginar que um cara tenha tal prepotência a ponto de querer obrigar uma garota a entrar em sua casa, e para isso inclusive se atrever a bater impiedosa e covardemente nela. Essa é uma atitude de barbárie. É atitude de babaca.

Esse sujeito tem que passar um bom tempo de "reciclagem" na cadeia. Se tiver um grandalhão, daqueles que tatuam até a face, pra dar um trato no brioquinho do covardão, tanto melhor. Covarde tem que apanhar mesmo, e ser até sodomizado pra aprender. Na hora de espancar a modelo, ele foi machão, não é? Pois que o seja também para arcar com as consequências.

Não tenho nenhum tipo de pena dessa espécie de ser humano. Sou contra todo o tipo de violência, principalmente quando se dá contra mulheres ou crianças. Sinto nojo dessa postura egoísta e imbecil de querer obrigar pessoas a fazer as coisas, principalmente quando envolve o direito humano sobre o seu próprio corpo e sua intimidade. Pra mim, essa é a mais vil das violências. Por isso mesmo, estuprador e espancador de mulher e criança, eu não perdôo. E acho que para que esses seres escatológicos aprendam a lição, tem que ser na língua que eles entendem mesmo: na porrada.

Pode parecer feio e ignorante. Pode parecer um rebaixamento ao nível do idiota em questão. Mas é o que me parece realmente justo. Fazer o quê?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Hipocrisias

Cobram-lhe a perfeição.
Mas erram a todo momento.
Covardemente atacam, são impiedosos.
E seguem com seus venenos.

Ele não pediu nada.
Quer, tão somente, afirmar sua autenticidade.
Ele joga.
E quem não joga?

A apelação é grande.
Mas o apelo é maior.
Que essa gente seja soterrada!
E se engasgue com as maledicências.

Às vezes, fazer parte da minoria é fácil.
Por trás do rótulo, escondem-se os pecados humanos.
Línguas presas e verborreias.
Diarreia de quem insiste em ver um mundo distorcido, e vão-se as tripas junto.

Esfreguem-se no chão.
São seres menores por definição.
Entreguem-se ao que de mais vil existe.
Vis são vocês mesmos.


domingo, 21 de março de 2010

Senna

Hoje, Ayrton Senna da Silva estaria completando 50 anos, se estivesse vivo. Isso não é pouca coisa. Senna foi um grande mito da história da Fórmula 1. Tri-campeão mundial, poderia ter feito muito mais não fosse aquele fatídico 1° de Maio de 1994, que decretou o fim da trajetória do maior ídolo da história do automobilismo brasileiro (Últimas corridas e funeral de Senna: http://www.youtube.com/watch?v=af9HI3pyDBU).

Senna não era o tipo médio de brasileiro, não era um cara vindo do povão. Mas era brasileiríssimo. Tinha orgulho de a cada vitória mostrar a bandeira brasileira para quem quisesse ver. Senna representava um Brasil que pode dar certo. E nos seus triunfos, dizia, não com palavras, mas com gestos: "Vocês aí, no Brasil: sou um de vocês. Brasileiro não é menos do que ninguém."

Ayrton Senna da Silva enchia as manhãs de domingo de alegres expectativas. Ele era o cara. Ele despertava os melhores sentimentos de ser brasileiro até para mim, que era uma criança, mas vivia toda aquela aura gloriosa proporcionada pelo grande Senna.

Por fina ironia do destino, uma dessas manhãs de domingo, mais uma daquelas em que Senna era pole position, trouxe a desagradável e kafkiana notícia: Senna acidentara-se com gravidade. Lá pelo meio da tarde, o anúncio oficial: Ayrton Senna da Silva, o grande tri-campeão, o maior piloto da história do automobilismo brasileiro, e possivelmente o maior da história da Fórmula 1, estava morto.

Seguiu-se a isso uma enorme comoção. O Brasil perdia um filho ilustre. Senna saía de cena. O desfile do caixão no caminhão de bombeiros provocou uma mobilização do tamanho do que representava o ídolo. Chorávamos todos. Se não por fora, pelo menos interiormente soluçávamos de choro, e de inconformidade. Por que logo com ele?

Senna continua em nossos corações. Foi um exemplo de correção, devoção, paixão, profissionalismo, perfeccionismo e tantos mais adjetivos positivos. Ayrton Senna era um ser humano de outro planeta.

sábado, 20 de março de 2010

Mesquinhez

A direita é uma graça. E uma desgraça. A burguesia lançará um manifesto contra o Plano Nacional de Direitos Humanos, elaborado por entidades empresariais e de classe presentes no Fórum Permanente de Defesa do Empreendedor. Tudo isso porque o Estado vai cercear a liberdade de imprensa. Que tristeza. Vai haver fiscalização sobre os lixos produzidos em larga escala pelos meios de comunicação. Vai se buscar qualificar a programação da tv, atentando-se para as violações de direitos humanos, como situações constrangedoras que ridicularizam seres humanos perante milhões de telespectadores. É trágico. Realmente comovente o apelo direitista. Estou inclusive com os olhos marejados só de pensar nessas políticas ditatoriais que esse governo de comedores de criancinhas quer impor sobre os meios de comunicação.

Imposto sobre grandes fortunas, então? Neca de pitibiribas. Querem limar o empreendedorismo? Cadê a liberdade? Vão punir quem trabalha duro para enriquecer? Estranho é que meu pai trabalha duro há mais de trinta anos e nunca enriqueceu! Estará o velho errado? Ou será o sistema mesmo? E se o sistema está errado, não é de se esperar que se faça uma correção, para se redistribuir parte dessa grana espremida do suor alheio para medidas públicas? Tipo, para que o Estado ofereça um sistema de saúde mais eficiente para quem trabalha feito um cão, não enriquece e mesmo assim se expõe a toda uma série de doenças, para continuar recheando os cofres dos "empreendedores"? Não é justo, ora bolas?

Nessas horas, percebo o quão mesquinha é a elite dominante desse país. Não que eu não a ache mesquinha naturalmente. Mas me chama a atenção a profundidade, o verdadeiro descaramento desta mesquinhez.

Quando, hipocritamente, de quando em quando, esses setores falam em bem-estar social, referem-se ao SEU bem-estar social, enquanto classe. Estão se lixando para o povo, que sofre, luta, e os enriquece sem retorno efetivo. E qualquer mexidinha que se queira dar no seu queijo para minimizar os gritantes contrastes sociais brasileiros provoca chiliques de proporções inacreditáveis. Fred Astaire arregalaria os olhos com o sapateado da elite desse Brasil varonil.

A direita é uma piada. De mau gosto.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Proporções

Quem somos, afinal? Temos nossas faces, nossas identidades, nossos CPFs, nossos rótulos. Temos nossas obrigações e anseios. Mas isso é o que realmente somos, ou é tão somente uma casca, um código de barras?

Somos tanto e tão pouco! Ao mesmo tempo! O cara que passou agora na minha frente pode ser um estudante de Arquitetura, porto-alegrense, filho de um comerciante, que deseja se formar, ganhar dinheiro e construir um lar, com um ou dois bacuris. Pode ser. Ou pode não ser nada disso. Para mim, é um cara que passou de camisa verde e bermuda azul. Só isso.

E essa guria que passou sorrindo? Tem namorado? Como é a sua casa? O que ela faz da vida? Pra onde está indo? O que ela deseja? O que ela sonha? Não sei! Nunca vou saber! É uma menina de blusa preta que passou sorrindo. Só isso. Ou tudo isso, sei lá.

No caso, eu sou o outro. Ora, no fundo essas pessoas são, digamos, irrelevantes para mim. E, óbvio, eu sou irrelevante para elas. Então, por que nos preocupamos tanto, e com tantas coisas, se ao fim e ao cabo, só prestamos contas a nós mesmos? Por que essa maldita mania de atribuir significados tão pesados às nossas máscaras sociais?

Está longe de minhas intenções apregoar um discurso niilista, ou mesmo de desprezo às regras e convenções sociais. Elas são chatas, inquietantes, mas necessárias. Não fossem elas, estaríamos mergulhados num caos ainda mais caótico do que o caos no qual vivemos. Mas devemos relativizar um pouco. Adquirir o equilíbrio necessário para verificar o verdadeiro valor das coisas. Não são poucas as vezes em que quase enlouquecemos por estarmos quase que obsessivamente atrás de realizações que nem são tão nossas. O negócio mesmo é ter a serenidade para fazer as coisas uma de cada vez. Sem atropelos nem arroubos desproporcionais.

Pode ser clichê, mas, no fim, tudo dá certo. Mesmo que seja a sete palmos abaixo do chão.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Podia ter sido bem melhor

Não foi bom o empate do Inter contra o Cerro do Uruguai, em R ivera. Claro, se considerarmos a frieza da tabela, não foi nada trágico. Mas, convenhamos, num estádio repleto de colorados, caía de madura uma vitória "fora de casa". E não aconteceu.

O time colorado fez um bom primeiro tempo e não se saiu tão bem no segundo. Controlou o jogo, teve mais posse de bola, mas foi pouco objetivo. No segundo tempo, cedeu mais terreno para o time uruguaio.

Abbondanzieri mais uma vez foi bem: em todas as ocasiões em que foi exigido, saiu-se com êxito. Os laterais, por sua vez, estiveram pouco inspirados: Kléber inclusive sofreu bastante com as investidas uruguaias pelo seu setor. No meio-campo, os volantes estiveram mal, assim como Giuliano, que não conseguia dar sequência à grande maioria das jogadas que tentava. D'alessandro foi quem se salvou, driblando, dando ritmo às articulações ofensivas e sendo o cérebro da equipe. No ataque, Edu se esforçou e fez algumas boas jogadas, enquanto Alecsandro morreu de fome.

Ficou, pelo menos pra mim, um gosto de quero mais. O Inter ainda precisa crescer, e muito, nesta Libertadores. O setor ofensivo é o que mais preocupa, falta presença desses jogadores, faltam opções para a articulação dos meias, que tocam, tocam, tocam, e no máximo encontram um Edu pela ponta esquerda. É pouco, muito pouco para as pretensões coloradas. É pouco, muito pouco para um time que almeja o título. É o fim do mundo? Não, claro que não. Mas algo tem que ser feito para mudar o panorama ofensivo. Algum coelho deverá ser tirado da cartola. Seja por Fossati, seja pela direção.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Grito

Grite, porque gritar é preciso.
Se pisarem em você, grite.
Se lhe machucarem, se surrarem seu coração e sua alma, grite.
Se a hipocrisia reinar, não hesite: grite.

Grita, amigo.
Grita, que teu grito te liberta.
Não abaixe a cabeça para nada nem ninguém: apenas grite.
Se o esgotamento bater, se a hipocrisia alheia cansar, grite.

Grita, amigo.
Grita, que teu grito te faz vivo.
Mesmo que a solidão esmague, que todos façam vistas grossas, grite.
Mesmo que a apatia geral comece a lhe contaminar, grite.

Grita, amigo.
Grita, que teu grito revoluciona.
Se todos morrerem ou desistirem, ainda assim grite.
Grite com todo o fogo, toda a raiva, toda a revolta, toda a vontade de ser feliz.

Grita, amigo.
Grita, que teu grito há de ser ouvido por alguém, em algum lugar.

terça-feira, 16 de março de 2010

A tragédia e a pureza

Sinto um pouco da fome. Observo essa miséria toda. Lamento tudo que vejo, choro pelos choros alheios. Tudo aqui é destruição e dor.

Do lixo surge a sobrevivência. Do caos nasce uma flor. Ainda há o sol no céu, pouco se importando com tudo aqui embaixo, simplesmente brilhando e iluminando estes rostos suados.

Deparo-me com uma criança. Deve ter uns dois ou três anos. Ela está suja. É uma menininha. Corre pra lá e pra cá. Está indiferente à tragédia e à angústia. Sorri, brinca, olha para tudo com a pureza dos anjos.

No meio da morte e da devastação, aquela menininha está alheia. Ela é uma graça imersa naquela desgraça toda. E vê graça naquilo, não na tragédia ou na destruição, mas na vida em si. Aquela menininha, com sua simplicidade infantil, não vislumbra todo o horror que está em sua volta. E como é lindo seu sorriso, sorriso de verdade, sorriso gostoso, olhos vivos e brilhantes!

Ela está em meio à mais nojenta e escrota injustiça. Mas insiste em rir, brincar, correr e dar risadas. E isso é bom. O amanhã, ela não sabe, não imagina, e realmente é melhor que seja assim.

As dores e amarguras ficam para a sua mãe e o seu pai, que a observam, a amam, e encharcam os olhos por não saberem o que poderão dar-lhe para comer amanhã, e depois, e depois... E por não saberem até quando poderão admirar aquele sorriso e aquela pureza...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Mamilos

Leio no R7 que agora tem site vendendo mamilos postiços! Isso mesmo! Mamilos, para deixar os seios mais "levantadinhos"! Confesso, essas invencionices estéticas me assustam um pouco. São calças que levantam a bunda, sutiãs com enchimento, silicone, batom que deixa os lábios mais grossos... Que é isso, mulherada?

Algumas mulheres de hoje em dia me lembram aqueles brinquedos montáveis, em que se vai comprando as peças paulatinamente, construindo aquilo que se quer, até chegar num ponto ideal, ao qual, obviamente, nunca se chega. Esse ar artificial que as coisas adquirem é desestimulante. Que o diga Ângela Bismarck. Ô mulherzinha brochante!

Uma única vez transei com uma moça que tinha silicone nos seios. E confesso, não foi uma experiência agradável. É duro, é sem graça, não dá nem vontade de "brincar". O nível de estímulo sexual do silicone é parecido com o de uma folha de alface.

Muitas e muitas vezes acho que sou um cara fora de época. Certas modernidades não me atraem. Sair com uma Susan Boyle travestida de Angelina Jolie, por exemplo, não me motiva nem um pouco. Gosto de mulheres de verdade. Com seus defeitos e qualidades. Já disse aqui: adoro uma celulitezinha (em pequena quantidade, claro). É prova de que ali está uma mulher de verdade, poxa vida, que aquela bunda é dela mesmo! Não tem pirotecnia, não tem efeitos especiais: tudo o que ali tem de belo, é original de fábrica!

Não gosto de levar gato por lebre. A perfeição não existe. A perfeição é chata pra caramba!

domingo, 14 de março de 2010

Apagando...

Sussurros ao meu ouvido. Verdades ou mentiras? Cada gesto e palavra escancara e esconde tudo. Os pedaços de pão estão jogados por todos os lados, desordenadamente. Hesito, ando, paro, volto, me perco cada vez mais.

Qual o discernimento que posso ter? Sou bombardeado por visões, ruídos e pensamentos. O que há neste copo? Um doce e refrescante suco? Ou cicuta? Sou confundido, e em meio a essa imensa violência psíquica fico aturdido, estático, sem saber o que fazer ou pra onde ir. Sem saber se choro, rio ou me mato.

A angústia corre em minhas veias porque não sei o que sou ou o que tenho. Luz ou trevas? Purgatório. Como uma grande vela, sou consumido lentamente pela minha própria chama. Sinto-me invisível, apagado. Já não me alegro nem me entristeço. Sou quase vegetativo, apenas espero. Espero pelo mais previsível dos nadas. De nada sou feito. Nada é a vida.

Jogo meus valores no ralo. Eles só fizeram me trazer a esta cama, a este travesseiro, a esta acomodação opaca. Estou guardado numa gaveta, esquecido. Nela, acham contas, acham cartas, acham badulaques, mas nunca me percebem. Apenas ocupo espaço, apenas estou lá, sem serventia nenhuma, apenas visto quando atrapalho a visão de algo mais importante. E tudo é mais importante, não é mesmo?

Meus olhos insistem em fechar, cansados disso tudo, enfastiados das mesmas e torturantes reprises. Espero ser mais frio e ter menos apego, menos afeto. Desprezo a mim mesmo, ou me odeio. Não consigo entender nada do que se passa, já não consigo controlar evento nenhum.

Não sei se sou dia ou noite. Pareço-me mais com um melancólico crepúsculo...

sábado, 13 de março de 2010

Ainda Cuba

Leio na Carta Maior um brilhante texto escrito por Emir Sader, em seu blog no site. Ali, ele faz uma série de questionamentos interessantíssimos acerca daquela tecla na qual canso de bater: a parcialidade da grande mídia.

O que os Estados Unidos e o grande capital fazem é, se não legitimado, no mínimo jogado para debaixo do tapete. Torturar no mundo árabe pode. Matar civis em nome de uma guerra "ao terrorismo" é aceitável. Isso como se "o terrorismo" fosse um ente, uma divindade do avesso a ser atingida, completamente descontextualizada de suas raízes históricas. O que se vê nos jornais da Globo por aí são somente as benesses do grande capital. Eletro-eletrônicos, carros, modernidade. Esse é o capitalismo: a liberdade de comprar o que não se pode.

Já de Cuba, tudo o que se vê é uma infernalização daquele país. Fidel Castro é a encarnação do capeta. Lá não se tem liberdade! Lá não se pode comprar uma Ferrari! E aqui, embebidos de capitalismo, podemos? Pior, o que lá não falta, e que é básico, como educação, saúde, alimentação para todos, aqui ainda falta, ainda grotescamente. Para quem não entende isso, sugiro que assista o já batidíssimo, mas brilhante "Ilha das Flores" (http://www.youtube.com/watch?v=KAzhAXjUG28).

Para a "imparcial" grande mídia, meia dúzia de rebeldes repercutem muito mais do que a grande massa que apoia o regime comunista. Por quê? Os crentes no grande capital, nos benefícios do "livre" mercado valem mais do que os esquerdistas? Seriam eles iluminados, que encontraram o caminho da Verdade? Qual o critério disso?


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Os fariseus e a dignidade

O que sabem os leitores dos diários brasileiros sobre Cuba? O que sabem os telespectadores brasileiros sobre Cuba? O que sabem os ouvintes de rádio brasileiros sobre Cuba? O que saberia o povo brasileiro sobre Cuba, se dependesse da mídia brasileira?

O que mais os jornalistas da imprensa mercantil adoram é concordar com seus patrões. Podem exorbitar na linguagem, para badalar os que pagam seu salários. Sabem que atacar ao PT é o que mais agrada a seus patrões, porque é quem mais os perturba e os afeta. Vale até dar espaco para qualquer mercenário publicar calúnias contra o Lula, para, depois jogá-lo de volta na lata do lixo.

No circo dessa imprensa recentemente realizado em São Paulo, os relatos dizem que os donos das empresas – Frias, Marinhos – tinham intervenções mais discretas, – ninguem duvida das suas posiçõoes de ultra-direita -, mas seus empregados se exibiam competindo sobre quem fazia a declaração mais extremista, mais retumbante, sabendo que seriam recolhidas pela mídia, mas sobretudo buscando sorrisinho no rosto dos patrões e, quem sabe, uns zerinhos a mais no contracheque no fim do mês.

Quem foi informado pela imprensa que há quase 50 anos Cuba já terminou com o analfabetismo, que mais recentemente, com a participação direta dos seus educadores, o analfabetismo foi erradicado na Venezuela, na Bolívia e no Equador? Que empresa jornalística noiticiou? Quais mandaram repórteres para saber como países pobres ou menos desenvolvidos conseguiram o que mais desenvolvidos como os EUA ou mesmo o Brasil, a Argentina, o México, náo conseguiram?

Mandaram repórteres saber como funciona naquela ilha do Caribe, pouco desenvolvida economicamente, o sistema educacional e de saúde universal e gratuito para todos? Se perguntaram sobre a comparação feita por Michael Moore no seu filme "Sicko" sobre os sistemas de saúde – em particular o brutalmente mercantilizado dos EUA e o público e gratuito de Cuba?

Essas empresas privadas da mídia fizeram reportagens sobre a Escola Latinoamericana de Medicina que, em Cuba, já formou mais de cinco gerações de médicos de todos os países da América Latina e inclusive dos EUA, gratuitamente, na melhor medicina social do mundo? Foi despertada a curiosidade de algum jornalista, econômico, educativo ou não, sobre o fato de que Cuba, passando por grandes dificuldades econômicas – como suas empresas não deixam de noticiar – não fechou nenhuma vaga nem nas suas escolas tradicionais, nem na Escola Latinoamericana de Medicina, nem fechou nenhum leito em hospitais?

Se dependesse dessas empresas, se trataria de um regime “decrépito”, governado por dois irmãos há mais de 50 anos, um verdadeiro “goulag tropical”, uma ilha transformada em prisão.

Alguém tentou explicar como é possivel conviver esse tipo de sociedade igualitária com a base naval de Guantánamo? Se noticiam regularmente as barbaridades que ocorrem lá, onde presos sob simples suspeita, são interrogados e torturados – conforme tantas testemunhas que a imprensa se nega em publicar – em condições fora de qualquer jurisdição internacional?

Noticiam que, como disse Raul Castro, sim, se tortura naquela ilha, se prende, se julga e se condena da forma mais arbitrária possível, detidos em masmorras, como animais, mas isso se passa sob responsabilidade norteamericana, desse mesmo governo que protesta por uma greve de fome de uma pessoa que – apesar da ignorância de cronistas da família Frias – não é um preso, mas está livre, na sua casa?

Perguntam-se por que a maior potência imperial do mundo, derrotada por essa pequena ilha, ainda hoje tem um pedaco do seu territorio? Escandalizam-se, dizendo que se “passou dos limites”, quando constatam que isso se dá há mais de um século, sob os olhos complacentes da “comunidade internacional”, modelo de “civilização”, agentes do colonialismo, da escravidão, da pirataria, do imperialismo, das duas grandes guerras mundiais, do fascismo?

Comparam a “indignação” atual dos jornais dos seus patrões com o que disseram ou calaram sobre Abu-Graieb? Sobre os “falsos positivos” (sabem do que se trata?) na Colômbia? Sobre a invasao e os massacres no Panamá, por tropas norteamericanas, que sequestraram e levaram para ser julgado em Miami seu ex-aliado e então presidente eleito do país, Noriega, cujos 30 anos foram completamente desconhecidos pela imprensa? Falam do muro que os EUA construíram na fronteira com o México, onde morre todos os anos mais gente do que em todo tempo de existência do muro de Berlim? A ocupação brutal da Palestina, o cerco que ainda segue a Gaza, é tema de seus espacos jornalisticos ou melhor calar para que os cada vez menos leitores, telespectadores e ouvintes possam se recordar do que realmente é barbarie, mas que cometida pela “civilizada” Israel – que ademais conta com empresas que anunciam regularmente nos orgãos dessas empresas – deve ser escondida? Que protestos fizeram os empregados da empresa que emprestou seus carros para que atuassem os servicos repressivos da ditadura, disfarçaados de jornalistas, para sequestrar, torturar, fuzilar e fazer opositores desaparecerem? Disseram que isso “passou de todos os limites” ou ficaram calados, para não perder seus empregos?

Mas morreu um preso em Cuba. Que horror! Que oportunidade para bajular os seus patrões, mostrando indignação contra um país de esquerda! Que bom poder reafirmar diante deles que se se foi algum dia de esquerda, foi um resfriado, pego por más convivências, em lugares que não frequentam mais; já estão curados, vacinados, nunca mais pegarão esse vírus. (Um empregado da família Frias, casado com uma tucana, orgulha-se de ter ido a todos os Foruns Econômicos de Davos e a nenhum Fórum Social Mundial.
Ali pôde conhecer ricaços e entrevistá-los, antes que estivessem envoldidos em escândalos, quebrassem ou fossem para a prisão. Cada um tem seu gosto, mas não dá para posar como “progressista”, escolhendo Davos a Porto Alegre.)

Não conhecem Cuba, promovem a mentira do silêncio, para poder difamar Cuba. Não dizem o que era na época da ditadura de Batista e em que se transformou hoje. Não dizem que os problemas que têm a ilha é porque não quer fazer o que fez o darling dessa midia, FHC, impondo duro ajuste fiscal para equilibrar as finanças públicas, privatizando, favorecendo o grande capital, financeirizando a economia e o Estado. Cuba busca manter os direitos universais a toda sua população, para o que trata de desenvolver um modelo econômico que não faça com que o povo pague as dificuldades da economia. Mentem silenciando sobre o fato de que, em Cuba, não há ninguem abandonado nas ruas, de que todos podem contar com o apoio do Estado cubano, um Estado que nunca se rendeu ao FMI.

Cuba é a sociedade mais igualitária do mundo, a mais solidária, um país soberano, assediado pelo mais longo bloqueio que a história conheceu, de quase 50 anos, pela maior potência econômica e militar da história. Cuba é vítima privilegiada da imprensa saudosa do Bush, porque se é possivel uma sociedade igualitária, solidária, mesmo que pobre, que maior acusação pode haver contra a sociedade do egoísmo, do consumismo, da mercantilizacao, em que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra?

Como disse Celso Amorim, o Ministro de Relações Exteriores do Brasil: os que querem contribuir a resolver a situação de Cuba tem uma fórmula muito simples – terminem com o bloqueio contra a ilha. Terminem com Guantanamo como base de terrorismo internacional, terminem com o bloqueio informativo, dêem aos cubanos o mesmo direito que dão diariamente aos opositores ao regime – o do expor o que pensam. Relatem as verdades de Cuba no lugar das mentiras, do silêncio e da covardia.

Diante de situações como essa, a razão e a atualidade de José Martí:

“Há de haver no mundo certa quantidade de decoro,
como há de haver certa quantidade de luz.
Quando há muitos homens sem decoro, há sempre outros
que têm em si o decoro de muitos homens.
Estes são os que se rebelam com força terrível
contra os que roubam aos povos sua liberdade,
que é roubar-lhes seu decoro.
Nesses homens vão milhares de homens,
vai um povo inteiro,

vai a dignidade humana…

sexta-feira, 12 de março de 2010

Empate nas alturas

O resultado conquistado pelo Inter em Quito foi bom. Não é fácil jogar na altitude. Por isso, o ponto colorado deve ser valorizado. E o jogo foi, de fato, complicadíssimo.

O Deportivo Quito teve o domínio durante praticamente toda a partida. O Inter, por sua vez, tratou de se defender e especular nos contra-ataques. No gol, Abbondanzieri foi espetacular. Fez cera, mostrou toda a sua experiência ao reclamar do árbitro e reverter o pênalti ridículo que havia sido marcado, jogou mais da metade do confronto no sacrifício, com o tornozelo torcido, e salvou. Pegou muito. Pegou demais. A zaga foi caótica, e o meio campo trabalhou muito mais no sentido defensivo do que ofensivo. Os alas foram laterais laterais na partida de ontem: com isso, o Inter atuou praticamente num 5-3-2. Talvez nem isso. Jogou num 5-3-1, porque Edu mais uma vez teve atuação apagadíssima. E aí, o Pato teve que se virar como pode lá atrás.

O saldo é positivo. Lembremos que lá em Quito mesmo, o Inter tomou uma saranda de 3 a 0 para a LDU, então dirigida por Jorge Fossati. E arrancou um empate de um time que foi campeão de um campeonato nacional que conta com a essa mesma LDU, megacampeã do continente.

Valeu. O jogo que eu reputava o mais difícil dessa primeira fase passou, com bom resultado. Agora, é embalar de vez nos dois confrontos contra o Cerro. Duas vitórias são absolutamente possíveis. E com elas, o Inter poderá encaminhar uma classificação tranquila como o canto dos pássaros à beira de um lago azul. Se bem que o azul anda meio fora de moda ultimamente...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Coração

Coração feliz.
Coração partido.
Decoração de coração.
Coração de galinha.

Coração, couraça, couração.
Coração que cora.
Coração que chora.
Coração, miocárdio e coronárias.

Coração complexo.
Coração, tão simples para os médicos.
Coração na mão.
Coração, cor, ação.

Coração de pedra.
Coração gelado.
Coração mole.
Coração frágil.

Coração na boca, boca na boca.
Coração na boa.
Coração disparado.
Coração parado.

Agora congelado.
Esperando um novo corpo.
Esperando um novo cérebro.
Esperando uma nova vida.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Oscar: um confronto entre duas visões de mundo

Não tinha parado para pensar no Oscar. Esse tipo de cerimônia me dá náuseas. O Oscar é tão divertido quanto uma fila de triagem do SUS. Nem estava ligado na concorrência e no contexto da disputa principal. Sabia algo sobre "Avatar", e sabia que tinha algum conteúdo ideológico. Mas é um filme tão amado, vaziamente amado, que fiz questão de odiar. Por implicância mesmo. Implicância tão vazia quanto os amores que o filme desperta nas massas.

Mas hoje, lendo no Portal Vermelho artigo escrito por Luiz Bolognesi, originalmente publicado no Estadão, me dei conta da dimensão dessa disputa, no sentido de confronto implícito de consciência das massas, mesmo.

Ali, o roteirista brasileiro aborda com muita perspicácia o que houve por trás da vitória do filme "Guerra ao Terror", como melhor filme. Há um fundo de conflito ideológico muito claro entre as duas propostas. São duas visões, acima de tudo, políticas. Enquanto "Avatar" critica analogicamente as políticas imperialistas norte-americanas, suas invasões, a postura de política externa da terra do Tio Sam, "Guerra ao Terror" faz um elogio aos militares ianques, "heróis" norte-americanos, bondosos, donos de ideais de nobreza transcendente, que levam o povo iraquiano à luz da democracia e do sonho americano.

Enquanto "Avatar" contesta, "Guerra ao Terror" legitima a truculência norte-americana. Seria James Cameron um comunista, um militante, um sujeito de visão política revolucionária? Muito provavelmente não. Me parece muito mais um cara de bom senso. E bom senso anda faltando nesse mundo pós-moderno, em que todas as soluções são legitimadas e todos os problemas são espectrais e relativizados, como se pudessem até mesmo não se constituir enquanto tais. Por isso, assusta e aterroriza tanto, a ponto de que se monte todo um esquema contra esses ideais "subversivos". Abaixo, o texto de Bolognesi (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=125499):

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Luiz Bolognesi: Venceu o filme a favor da máquina de guerra

Ao contrário do que parece à primeira vista, a polarização entre Avatar e Guerra ao Terror não traduz uma disputa entre cinema industrial e cinema independente, nem batalha entre homem e mulher. O que estava em jogo e continua é o confronto entre um filme contra a máquina de guerra e a economia que a alimenta e outro absolutamente a favor, com estratégias subliminares a serviço da velha apologia à cavalaria.

Por Luiz Bolognesi*

Avatar foi acusado nos Estados Unidos de ser propaganda de esquerda. E é. Por isso é interessante. No filme, repleto de clichês, os vilões são o general, o exército americano e as companhias exploradoras de minério do subsolo. Os heróis são o "povo da floresta". A certa altura, eles reúnem todos os ''clãs'' para enfrentar o invasor americano.

Clãs? Invasor americano? Que passa? É difícil entender como a indústria de Hollywood conseguiu produzir um filme tão na contramão dos interesses do país e transformá-lo no filme mais visto na história do cinema. Esse fato derruba qualquer teoria conspiratória, derruba décadas de pensamento de esquerda segundo a qual a indústria de Hollywood está sempre a serviço da ideologia do fast-food e da economia que avança com mísseis, aviões e tanques. Como explicar esse fenômeno tão contraditório?

Brechas, lacunas na história. Ou como diria Foucault, a história é feita de acasos e não de uma continuidade lógica cartesiana. A necessidade do grande lucro, da grande bilheteria mundial produziu uma antítese sem precedentes chamada James Cameron. O homem de Titanic tinha carta branca. Pelas regras da cultura do "ao vencedor, as batatas", Cameron podia tudo porque era capaz de fazer explodir as bilheterias mundiais.

Mas calma lá, cara pálida, uma incoerência desse tamanho, você acredita que passaria despercebida? O general americano, vilão? As companhias americanas que extraem minério debaixo das florestas tratadas como o império das sombras? Alto lá. Devagar com o andor, mister Cameron.

Aí, alguém chegou correndo com um DVD na mão. Vocês viram esse filme da ex-mulher do Cameron? Não, ninguém viu? Então vejam. É sensacional. Ao contrário de Avatar, nesse DVD aqui o soldado americano é o herói. Aliás, mais que herói, ele é um santo que arrisca sua própria vida para salvar iraquianos inocentes. Jura? Temos esse filme aí? Sim, o pitbull americano é humanizado e glamourizado, mais que isso, ele é santificado.

Então há tempo.

Guerra ao Terror estreou no Festival de Veneza há dois anos. Por acaso eu estava lá como roteirista de Terra Vermelha, do diretor italiano Marco Bechis, e fui testemunha ocular da história. O filme da diretora Kathryn Bigelow foi absolutamente desprezado pelos jornalistas e pelo público. E seguiu assim. Indo direto ao DVD, em muitos países, sem passar pelas salas de cinema. Até ser resgatado pela indústria americana como um trunfo necessário para contestar Avatar e reverenciar a máquina de guerra e o sacrifício de tantos jovens americanos mortos e decepados em campo de batalha.

Trabalhando num projeto para o mesmo diretor italiano, que pretendia fazer um filme sobre os viciados em guerra no Iraque, eu pesquisei o assunto durante alguns meses. Tudo muito parecido com o filme de Bigelow, exceto por um detalhe. O detalhe é que os soldados americanos que se tornam dependentes da adrenalina da guerra tornam-se assassinos compulsórios e não salvadores de vidas.

O sintoma dos viciados em guerra é atirar em qualquer coisa que se mexa, tratar a realidade como videogame e lidar com armas e balas de verdade como um brinquedo erótico. Se Guerra ao Terror representasse nas telas essa dimensão da realidade, seria um filme sensacional, mas não teria levado o Oscar, podem apostar.

Guerra ao Terror venceu o Oscar porque, como nos filmes de forte apache, transforma os assassinos que dizimam outras culturas em heróis santificados. A cena extremamente longa e minimalista em que os jovens soldados americanos em situação desprivilegiada combatem no deserto os iraquianos é o que, se não uma cena clássica de caubóis cercados por apaches?
Sem nenhuma surpresa para filmes desse gênero, os garotos americanos vencem, matam os iraquianos sem rosto, como os caubóis faziam com os apaches no velho-oeste. A cena do garoto iraquiano morto, com uma bomba colocada dentro do corpo por impiedosos iraquianos, que literalmente matam criancinhas, tem a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Propaganda baratíssima da máquina de guerra.

No filme de Cameron, os na"vi azuis podem ser os apaches que derrotam o general e expulsam a cavalaria americana. Mas isso é apenas uma ficção. Na vida real do Oscar, a cavalaria precisa continuar massacrando os apaches.

*Luiz Bolognesi é roteirista de filmes como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade

Fonte: O Estado de S.Paulo

terça-feira, 9 de março de 2010

Devaneios de uma noite de terça-feira

Somente sei que estou. Nunca saberei se sou. E se sou, ninguém me disse. E, se disse, quando disse, não acreditei. Nem ouvi.

Quis. Sempre quero. Mas antes não queria. Então, não é sempre, ora bolas. Como é fácil me auto-desmentir! Fato é que quero. Quis. Ainda quero. Talvez mais do que nunca.

Olhar. Sentir. Tocar. Querer. Falar. Eis o jogo. Eis o tabuleiro. Sou ruim nesse negócio. Assumo que sou tosco e bobão.

Vale a pena? Talvez valha. Talvez não. Mas é bom. O mistério é bem-vindo. A insegurança torna as coisas mais interessantes. Mas joga-se para ganhar. Não sou hipócrita. Quero vencer.

Isso parece um exercício pobre de vil parnasianismo? Não é. As aparências enganam. Digo o que estou pensando e sentindo. Mesmo que vagamente.

É engraçado se sentir falta do que nunca se teve. Assim é a vida. Alternância de luz, sombras e assombrações. Não sei o depois, o amanhã. Tenho o hoje. Não tenho nada.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Cheiro da morte

Guarapuava, Paraná. Jogo de futsal, torneio festivo. Robson, jogador do Clube Atlético Deportivo, dá um carrinho. No lance, um pedaço de madeira levanta, adentra sua coxa e atinge o seu intestino. Hemorragia. Morte.
É assustador como a vida é imprevisível, e a morte nos ronda a todo o momento. Talvez aí resida o grande sucesso e a grande sacada da série cinematográfica "Premonição", baseada nos esquemas, encadeamentos de fatos, microfatos, que nos levam ao nosso fim, seja normal ou absurdo. A morte e sua foice estão por aí. Andando. Aprontando detalhes. Preparando armadilhas.
É um negócio muito louco saber que estamos tão certos de nossas vidas, dos nossos próximos dias, horas, meses, anos, e estamos ao mesmo tempo tão expostos, tão à mercê do final de tudo isso, de nossas alegrias, de nossas angústias, de nós mesmos. Atos simples como jogar uma partida de futsal, sair de casa para comprar um quilo de açúcar, pegar um ônibus ou escrever em frente a um computador podem ser o imprevisível prelúdio de toda a sorte de fatalidades.
Somos pequenos, ínfimos demais perante a vida. O cheiro da morte está por aí. Nosso fim está por aí, em alguma sala, em algum canto, em alguma rua, em algum beco, simplesmente aguardando o momento certo. De fato, o único pré-requisito para a morte é a vida.

domingo, 7 de março de 2010

Do avesso

As nuvens negras disfarçam o azul do céu e ofuscam a luz do sol.
Há nuvens negras por todos os lados.
Elas me perseguem, são minha sina.

Recuso-me a sonhar.
Não há iguais, não mais.
Sonhos são para tolos e bobalhões.

Vejo e desejo agarrar todas as concretudes.
Dedico-me a debochar de tudo o que não faz sentido.
E faz sentido para tantos, tão cegos, tão surdos, e, principalmente, mudos...

Meu primeiro passo é a indignação e o nojo.
Da minha revolta, renasço, ressurjo, sou uma fênix gloriosa.
Observo a pobreza de espírito que me cerca como quem hoje vê comédia e escarnece do que outrora foi drama e choro.

A destruição e a derrota possuem beleza ímpar.
As vitórias são meras caricaturas.
Sou sócio das minhas conveniências, aliado do meu egoísmo, escravo do meu orgasmo.

Quero ser o palhaço da dor.
A liberdade nessa prisão sem sentido.
O carnaval da melancolia que vejo em todos estes sorrisos em minha volta.

sábado, 6 de março de 2010

Medíocres e patéticos

Quando vejo certas coisas, sinto ânsia de vômito. Sério mesmo. Juro que isso vai contra a minha vontade altruísta. Mas não tenho vocação pra santo. De jeito nenhum.

Confio na minha náusea. Quando a sinto, quando alguma coisa me enoja, como num gesto sadomasô, enfio o dedo na goela. Quero sentir mais e mais náuseas. Há pessoas que merecem ser vomitadas da cabeça aos pés.

A mediocridade me incomoda. Me irrita. Posso ser péssimo em muitas das coisas que faço. Ser ruim em algo é consequência de força maior, que transcende a mera vontade individual. Mas ser medíocre é escolha. Duvidosa e cômoda escolha. Pelo menos para mim, que ainda guardo um pouquinho de romantismo no coração.

Dá uma vontade maluca de rir. Rir muito. Rir alto. Com a perda da inocência e com o desvendamento de certas artimanhas do convívio social, é inegável que acabamos perdendo, piorando mesmo, e isso é de certa forma inevitável. Mas há certas almas que se puxam nesse dom. Quando fazemos um tipo de "antes e depois" com algumas pessoas, uma coisa escandaliza os olhos: elas morreram. Não de fato, mas de direito. Não são mais uma gota do que foram outrora. Incrível. Escolheram o mais fácil. Perderam sua própria essência. Se automediocrizaram inacreditavelmente.

Não é de hoje que defendo que o melhor para os grandes ídolos é que morram no auge. Mortos, viram mitos. Vivos, cedo ou tarde cansam, se dão conta da real, e quase em sua totalidade fazem merda, desmanchando toda a aura anteriormente conquistada. Isso talvez se aplique a mim também, no sentido existencial da coisa, guardadas todas as proporções que me separam das pessoas envoltas em idolatria. Não pretendo me mediocrizar. Se um dia eu sentir que estou perdendo a minha essência, o prazer e a gana daquilo que me move dia após dia, é bem provável que me mate.

Ainda me dou o direito de fazer porcaria, mas porcaria genuína, porcaria sincera, porcaria dos recôncavos da minha alma. Quando for para fazer porcaria pasteurizada, melhor eu não fazer mais porcaria nenhuma.

Sim, o que vejo nesse exato momento é tão patético que inspirou toda essa reflexão...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Alunos rebeldes

Estamos abandonados. Conformemo-nos. Morremos de sede e de fome. Imploramos por um mundo que não nos pertence.

Ainda somos resistência. Mas tudo na vida cansa. Tudo já não é como devia ser. A luta não para, pelo menos por hora; mas ela é ingrata e inglória. Jamais venceremos. Pelo menos não nos parâmetros de vitória do lado mais forte.

Entre picos e depressões, tomamos novamente o fôlego. Mas às vezes a vontade que dá é de simplesmente assistir de camarote à destruição e à nossa autodegradação. Com um copo de cerveja na mão, às gargalhadas.

Como que num intento sadomasoquista, de vez em quando deleito-me com tudo o que vejo. Sinto vontade de cortar minha carne. E rir, rir até me estrebuchar. Seja por prazer ou desespero, rir.

Somos os alunos rebeldes. Os repetentes na escola da vida. Educação sem raiz, vocação equivocada. Temos o talento da subversão.

Ora, todos nos vêem, desde já, como um incômodo, como uma trupe indesejada. Resta entendermos, e sermos isso mesmo: a escória. Nossa graça reside na nossa incapacidade de adaptação a estas fórmulas que foram feitas sem consulta, tiranicamente impostas sem o nosso voto.

A nossa força mora na certeza de que somos fracos. E, por isso mesmo, mais libertos, irresponsáveis no melhor sentido da palavra. O negócio é aproveitar isso, e inventar, inventar, inventar. O maluco beleza está fadado à alegria. Ele já não precisa pensar, não precisa prestar contas de nada. Simplesmente continua. Simplesmente sente.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Dona Noely

Essa noite sonhei com a minha falecida avó Noely. Não são poucas as vezes em que sonho com ela. Aquele 15 de agosto de 2007 ainda não foi inteiramente digerido por mim. Isso é muito estranho. Realmente ainda não assimilei o seu falecimento.

Dona Noely foi a primeira grande perda da minha vida. Antes, só havia perdido minha avó paterna, com quem nunca tive grande contato, na distante Palmeira das Missões, e meu avô Clézio, com quem eu tinha ligação, mas cuja morte nem cheguei a sentir, pois eu era pequeno na época para sacar dessas coisas. O vô Clézio não morreu. Desapareceu. Assim foi na minha cabeça. E assim, incrível, parece ser com a vó Noely.

Os sonhos que tenho com ela são incrivelmente reais. Só me recordo que fico numa alegria que não consigo conter no meu coração. "Ela está viva!" penso eu. E daí eu a abraço. A beijo. A admiro. Digo que a amo e o quanto ela foi importante para a minha vida.

Talvez isso seja psicologicamente explicável: não dei o último abraço, o último beijo. Não me perdôo por isso. Pensava que ela, dramaticamente presa àquela cama da casa geriátrica, com seus 80 anos, esperaria o dia que eu, do alto da minha auto-suficiência e ingenuidade perante às armadilhas da vida, resolvesse dar o abraço, o beijo. Eu guardava esse abraço, esse beijo. Todas as vezes que a via, pensava em fazer isso. Tímido, talvez temeroso da reação dela, adiava, mas pensava que uma hora ou outra, ao meu bel-prazer, poderia fazer isso. Tinha certeza de que o faria. Pois é. Não fiz.

Guardo dela o nosso último toque de mãos. Ela apertou como há muito tempo não fazia. E pediu que eu orasse por ela. Simples assim. Eu, burro, imbecil, limitado que sou, não me flagrei de todo o significado simbólico daquele gesto. Alguns sinais que a vida dá não são aleatórios. Ah, não são mesmo!

De alguma forma, ela vive em mim. Acho que viverá para todo o sempre. Dona Noely não está morta. Não está. E a amo muito, por tudo o que fez, por todo o carinho que me dispensou, me criando com dedicação ímpar mesmo com as limitações impostas pela idade, para que minha mãe pudesse trabalhar mais tranquila. Obrigado, vó. Obrigado pelas sopinhas batidas. Obrigado pelo espinafre com farinha. Obrigado pelas benzeduras. Obrigado até pelos sucos de beterraba. Obrigado pela ternura. Obrigado por ter me amado.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Desesperança

Preciso de um pouco de descanso e água.
Obscureço-me a mim mesmo.
Seguro de tudo que farei.
Certo, no entanto, apenas da falta de respostas.

Sou um insatisfeito irremediável.
Para mim, nada é definitivo, mesmo que assim o seja para todos os que me olham.
Não sei onde vou parar, e guardo todos os receios possíveis e imagináveis.
Encontro-me sempre buscando fazer mais, como que num pedido de desculpas por existir num mundo no qual não me encaixo.

Sei que não sou errado.
Sou o erro.
Em mim mesmo, não encontro motivo de crença ou esperança.
Isso não significa desistência.
Significa apenas que sou a minha própria utopia.

Não sei ser adequado.
Não consigo ser o que de mim esperam.
Não consigo ser o que de mim espero.
Não há saída que não seja a da inércia, inércia ou do congelamento, ou do movimento tresloucado.

Por hora, sigo o segundo tipo de inércia.
Mas não sei a direção que devo seguir.
Apenas sigo, eu, meus fantasmas e minhas inúmeras limitações.

Talvez eu resolva esperar.
Isso seria bem cômodo.
Clamo por forças que parecem desatentas.

Sendo assim, sinto-me fraco e sem chão.
Sem perspectivas de ser uma pessoa melhor.
Pelo menos, para quem me enxerga passar e existir.
Existir?

terça-feira, 2 de março de 2010

Walter

É absolutamente lamentável o que vem ocorrendo no caso Walter, que vem conturbando o ambiente do Beira-Rio nos últimos dias. Walter decidiu, pela sua cabeça (?), não ir mais treinar. Fica trancado no apartamento, não dá explicações para ninguém, e pensa que vai chegar a algum lugar com isso. Supostamente, estaria magoadinho com a declaração de Jorge Fossati, na coletiva após o jogo contra o Emelec, em que o treinador falou que ainda faltava ao jovem atacante se dedicar mais nos treinamentos.

Dizem que Walter quer ser valorizado, e passar do atual salário de 15.000 reais mensais para 150. Não precisa ser um Einstein para saber que não vai ser com essa conduta antiprofissional que o garoto vai conseguir valorização.

O Inter tomou a decisão, corretíssima: Walter está excluído do grupo principal, e voltará a fazer parte do elenco do Inter B. E se ele quer valorização, que treine, se dedique, volte ao grupo principal, e prove que realmente é tudo que pensa ser. Até agora, é uma grande promessa. E só.

Caso não volte a ter uma postura condigna de jogador de grande clube, caberá ao Inter deixar Walter treinando em separado até mesmo do time B, mofando nos gramados suplementares do Beira-Rio, durante os próximos quatro anos, período restante de vigor do seu contrato. Quem estará jogando a carreira fora é ele, o promissor atacante pernambucano. Pura consequência de seus atos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O artista do povo

Aquele homem de meia-idade estava todos os dias naquela mesma calçada, com seu violão, tocando músicas, fazendo um entretenimento para raras almas que paravam para assisti-lo. No boné ao seu lado, algumas moedas, todas largadas pelas pessoas que por ali passavam, e de uma forma ou de outra admiravam o que ele fazia.

Não se preocupava em colher louros de glória, nem tampouco em obter grande reconhecimento. Aprendera que o valor da vida residia nas pequenas coisas, na simplicidade. Alguns eram adeptos fiéis, que sempre que passavam por ali na torturante rotina do dia-a-dia, paravam alguns minutos para vê-lo, com seus dedos ressecados, tocando a velha e arranhada viola e cantando, como se num grande espetáculo estivesse. Para aquele homem, aquilo era, sim, um grande espetáculo, valorizado por aquelas singelas almas que conferiam significado ao que ele fazia, pelo simples fato de pararem dois, três minutos na sua frente. Para ele, não importava se eram fugazes dois ou três minutos. Naqueles dois ou três minutos, ele existia para alguém, fazia-se centro das atenções de alguma vida. E isso valia a pena por si só.

Ele era um artista do povo, e não um artista para o povo. Os artistas para o povo, estes com apelo para as massas, passam pelo filtro elitista, são pasteurizados e criados para o grande alcance, programados para um sucesso na imensa maioria das vezes superficial. O artista do povo é mais modesto em suas intenções. Toma como prioridade seu próprio prazer, sente-se livre para criar conforme seus instintos e intuições, sem interferências externas. Para ele, vale muito mais conquistar uma alma com autenticidade do que conquistar milhões de corações com um alter ego artístico.

É lógico que para isso ele sofre privações. A sociedade, com suas lógicas próprias, faz questão de, como um pai que aponta o dedo para a cara do filho desviante, punir e excluir, mostrar para o infrator das regras hipócritas o quanto ele perde ao não se render e fazer o óbvio, o normal, o esperado. Mas a pureza do seu coração faz com que nem ligue para isso. Se for para conquistar algo, ele quer conquistar genuinamente. Prefere pagar uma passagem de ônibus por ele comprada sacrificadamente com suas forças e sua alma a andar em uma limosine facilmente obtida de forma insossa e artificial, sem as suas verdades e sem a sua alma. Prefere comer o pão que o diabo amassou comprado com suas escassas e suadas moedas a ingerir o caviar comprado ao custo do que de mais genuíno e mais profundo há nele.

Talvez o artista do povo seja um tolo, na ótica de alguns. Mas é um tolo liberto. Um tolo que faz aquilo que quer. Ele já não precisa de picuinhas. Ele dá de ombros para todo o tipo de mesquinhez. É feliz assim, e despreocupado. Todas as provas de que precisa, ele dá a si mesmo. Enquanto a maioria faz a corrida do ouro, e até mata em nome disso, para tarde demais ou quiçá nunca encontrá-lo, ele já fez sua escolha. Não quer o ouro. Não precisa dele para ser feliz. Ele só precisa daquele violão maltratado e da calçada. E por isso, continua a cantar.