domingo, 28 de fevereiro de 2010

Novelas e eleições: duas faces da mesma moeda global

Segundo a Folha de São Paulo, a atriz Paola Oliveira, que interpreta uma vilã na novela das seis da Rede Globo, vem sendo ameaçada nas ruas em função de seu papel. O engraçado disso tudo é a naturalidade com que esse tipo de coisa é encarado. Tudo é levado na brincadeira, enquanto há uma questão de certa gravidade que merece uma reflexão muito séria.

Esse fatos provam ainda mais o poder que a emissora do plim-plim exerce sobre as pessoas. A Globo e sua programação aparecem como detentora de um poder sobre a opinião pública que chega a assustar. Alguns sujeitos criam um verdadeiro mundo paralelo! Tanto é assim que confundem tramas de novelas com a realidade em si.

A Rede Globo possui um poder de agenda que nem o presidente da República possui. Buenas, o histórico desse veículo de informação só faz comprovar sua capacidade manipulatória. Não nos enganemos jamais: a Globo colocou Collor no poder. E depois, assustada com o monstro por ela mesma criado, mobilizou as massas para limá-lo, despudorada e dissimuladamente.

Estamos em 2010, ano eleitoral. Devemos ficar muito atentos a como a grande mídia em geral, com foco especial para a empresa da família Marinho, movimentará as peças sobre o tabuleiro. Muita coisa já está sendo colocada no subconsciente coletivo, de forma bem perspicaz até. As críticas contra Lula por este manter relações amistosas com os governos cubano, venezuelano, boliviano, iraniano, entre outros, sempre associados pelos grandes órgãos de imprensa a expressões como ditadura, falta de liberdade e violação de direitos humanos (expressões estas vomitadas desavergonhadamente sem, no entanto, embasamento concreto sob o solo da realidade), não são à toa. Configuram-se como munição para as mais vis e lamentáveis apelações de uma oposição que começa a se desesperar com o rápido crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas pré-eleitorais. Invocarão todo o tipo de entidade demoníaca para associá-la a um terceiro mandato petista.

Lula passou goela abaixo, muito mais pelo seu carisma e pela inapelabilidade de sua popularidade perante as massas do que por qualquer tipo de simpatia por parte dos chefes de redação dos jornalões. Mesmo assim, tomou muita pancada, e continua tomando sempre que possível, adiantando a agenda dos debates eleitorais ao bel-prazer das elites, que imploram pela volta da farra das minorias em nome da dor e do sangue das maiorias excluídas.

Resta apenas ficarmos bem vacinados. E bradar quando algo de estranho surgir no "neutro" discurso da grande imprensa.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Covardia

Leio no E-band uma notícia daquelas que não deveriam mais me deixar estarrecido, mas ainda me deixam assim, indignado. Em Palhoça, Santa Catarina, uma adolescente de 14 anos foi agredida pelo irmão de uma colega com a qual teria discutido e trocado tapas na cara. Primeiro detalhe: o agressor tem 24 anos de idade. Segundo detalhe: a menina está internada em estado grave, com rompimento do baço e sem poder se movimentar.

O agressor, cujo rosto ou palavras não preciso nem conhecer para afirmar que é um imbecil mongolóide, foi de covardia ímpar. Só parou quando um homem na rua o chamou de covarde (santa obviedade), segundo a vítima. Uma certeza eu tenho: esse cara tem que ser punido com o rigor máximo que a lei permitir. Não é possível que se passe impunemente por uma situação em que um marmanjo de 24 anos agrida a socos e chutes uma menina de 14. E não há justificativa nenhuma que seja plausível para uma atitude dessa natureza. Nenhuma.

É nessas horas que me pergunto: que sociedade é esta que estamos criando? Ainda essa semana fiz aqui no DC uma discussão a respeito de hierarquias e dignidade humana. E acho que o caso de Palhoça é emblemático desse tipo de relação. Nele, não há hierarquia institucionalizada, é verdade. Mas há uma hierarquia da força bruta. Num mundo individualista, em que cada um lança mão de todo e qualquer mecanismo para obter benesses e vantagens em relação a seus pares, a força bruta é apenas mais uma modalidade da mesma direção. Seria mais um tipo de "capital", diferente do cultural, por exemplo, um pouco menos simbólico, mas tão imperativo e tão individualista quanto os tipos de capital encarados na perspectiva bourdieusiana.

Quando veremos o fim desses tipos de atos? Não sei. Não tenho nenhuma convicção a respeito de até que ponto o ser humano poderia abrir mão de seus interesses individuais mesquinhos em nome de uma vocação coletivista. Mas, se há uma gota de esperança, é exatamente esta: a horizontalização das relações, o respeito de cada um para com cada um e sua respectiva trajetória. Somente numa sociedade em que ninguém se ache mais do que ninguém, pelo menos dentro de certos parâmetros e no trato com o próximo, esse tipo de cenário pode ser revertido.

Na prática, quando se defendem hierarquias de viés semi-autoritário, e são essas as hierarquias que condeno, hierarquias nas quais tudo é despido de racionalidade em nome de relações puramente baseadas no poder, originado em qualquer critério que seja, defende-se também a violência tanto física como simbólica. Tais violências podem ter nascentes diferentes, mas desaguam na mesmíssima foz. Não há como fugir disso. E quem é tão sábio a ponto de afirmar qual tipo de violência e imposição de vontades de uns sobre os outros é mais legítimo? Confesso, eu é que não sou. Por isso, as coloco no mesmo saco.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Latas

Aquele rapaz de feições cansadas e maltratadas, barba na cara, trapos no corpo, anda indefinidamente sozinho. Revira lata por lata, abre todas as sacolas. Encontra de tudo um pouco. Papel, papelão. Carcaças apodrecidas de galinha. Garrafas de vidro e de plástico. E continua a sua procura...

Fora obrigado, pela vida e pelas pessoas, a estar ali, remexendo em todas aquelas coisas, cuja maioria era inutilizável. As mãos estavam sujas, o mau odor alcançava um nível praticamente insuportável. Era sol, era chuva, era cabeça rachada, era corpo molhado. De água. De suor. De lágrimas.

Mas ele não desistia. Buscava decididamente, e ia continuar buscando o que procurava, dia após dia, hora após hora. Essa era sua saga. Essa era sua sina. Como se fosse um ente fantasmagórico, nebuloso, detestável, as pessoas limpas e asseadas olhavam-no em misto de reprovação e desprezo. Como se elas nada tivessem a ver com sua sujeira e seu suor.

Outrora, ele se preocupava e se chateava com esse tipo de reação das pessoas que cruzavam seu caminho. Agora, não mais. Aquilo que buscava era maior que tudo, mais precioso e importante do que a mera manutenção de uma imagem aceitável. Ele tinha essa certeza. E por isso, continuava a andar convicto. Revirando lata por lata. Abrindo todas as sacolas.

A vida ensinou-lhe a crer e descrer, amar-se e odiar-se, querer e desistir, tudo isso com inassimilável velocidade e crueza. Restavam-lhe apenas as forças de suas pernas e a persistência de sua alma. Respirava fundo a cada procura frustrada e tomava novo impulso, nova injeção de ânimo. Revirava mais latas. Abria mais sacolas.

Provavelmente sua procura fosse vã e inglória. Porém, estava disposto a não desistir jamais. Procurava seu coração, que fora jogado no lixo, em algum lixo, que está em algum canto desta imensa, fria e calorenta selva de pedra. Mas sua determinação era de tal força que o transformava numa rocha. Com momentos de argila, é bem verdade, seguidos, no entanto, pela rápida recomposição de sua essência original, de rocha. E assim, como uma rocha inabalável, seguia sua busca. Lata por lata. Sacola por sacola.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

As imorais lições de moral de William Waack

Ah, o Jornal da Globo! Sempre ele! Sempre com suas lições de moral e dogmas do doce mundo do livre mercado! Ontem, William Waack bradava, com a dissimulação global característica, contra a visita de Lula a Fidel Castro. Afirmava o sapientíssimo âncora que o regime cubano é ultrapassado. E mais: lá violam-se direitos humanos, direitos de liberdade! Lá, segundo Willianzinho, houve uma morte política! Por greve de fome! Somente esqueceu de avisar que o vivente não foi obrigado por ninguém a fazê-la. Greve de fome, até onde eu saiba, é atitude da qual o único responsável é o próprio grevista. Imaginem se Garotinho tivesse morrido em 2006...
Resta-me perguntar para William Waack, o medíocre jornalista global: porque a Globo não fala da violação de direitos humanos nos regimes políticos "prafrentex"? Definitivamente, a empresa da família Marinho é um veículo de informação relativista. Relativiza a liberdade. Relativiza direitos humanos. Relativiza a própria verdade. Tudo, claro, de acordo com seus interesses.
No regime ultrapassado cubano, as pessoas não passam fome. A não ser que resolvam fazer uma grevezinha. No regime ultrapassado cubano, há educação pública de qualidade. No regime ultrapassado cubano, o sistema de saúde é de primeiro mundo. As limitações cubanas, claro que elas existem, são fruto em grande medida do embargo liderado pelos queridíssimos Estados Unidos da América. É óbvio que não defendo um sistema fechado, e defendo, sim, valores democráticos como fundamentais para a integridade da vivência humana. Mas, cabe perguntar: até que ponto o regime de Cuba é fechado por vontade própria, e até que ponto esse fechamento é um mecanismo de defesa contra a natureza fagocitótica do capitalismo global?
Aí, para complementar a série de verdades de William Waack, surge com sua pseudo-sabedoria arrogante o intelectualóide Arnaldo Jabor. Ele e sua verborreia servem para tentar conferir certo aval, certo charme opinativo à tosquice global. Mas Jabor é um idiota, e as besteiras que ele profere são em vão, pelo menos para quem tem um mínimo de esclarecimento a respeito do que acontece de fato e do tratamento dado pelos grandes veículos de imprensa aos fatos de seu interesse.
Para a turminha global, o livre mercado, solução de todos os (seus) problemas, não desrespeita direitos humanos. Que o digam os povos do Oriente Médio, para os quais os soldados estadunidenses são uns doces. Tudo em nome da democracia! No capitalismo de Willianzinho, Jaborzinho e seus amigos, tudo é maravilhoso. Ah, nada como a liberdade!
Fome por fome, o capitalismo mata muito mais. Só que nele, as greves são forçadas. O modelo maneirinho dos ursinhos carinhosos do plim-plim explora e verticaliza tudo. E o que seria dessa corja se fosse nivelada com a gentalha, não é mesmo? Melhor nem pensar mesmo. O importante é limar o Brasil de qualquer pensamento ou aproximação de pensamento "subversivo". É um trabalho árduo dos grandes órgãos de (des) informação manter o estado de coisas. Maldita mania desses malucos de querer igualdade social!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Uma vitória do fundo da alma

A estreia do Inter na Libertadores não foi fácil. O Emelec, se não é um time dos mais apurados tecnicamente, é um time matreiro, catimbeiro, chato, que complicou deveras a vida colorada no Beira-Rio. Lembremos: o tradicional Newells Old Boys da Argentina fora eliminado por essa equipe equatoriana na fase preliminar da competição continental.

No primeiro tempo, o Inter, apesar de manter a posse de bola, era inoperante ofensivamente. Giuliano estava muito mal tecnicamente, e assim foi durante todo o jogo. O ataque encontrava-se especialmente isolado, principalmente pela falta da presença ofensiva de Kléber, bloqueada de forma competente pela marcação equatoriana.

No segundo tempo, mudou a atitude. Mas, como um geladíssimo balde, caiu sobre o Gigante o gol do Emelec. O ingrediente definitivo para tornar a estreia colorada um ato de incontestável dramaticidade. Mas daí que o Inter tirou forças hercúleas do fundo da alma. Daí, o caldeirão ferveu. E Nei fez um gol antológico, desferindo um petardo de fora da área.

Apesar do crescimento colorado, impulsionado principalmente pela entrada de Taison, e depois de Andrezinho, o tempo passava sem o gol da virada colorada. O Inter pressionava, amassava o adversário, sem, no entanto, colocar a redonda na caixinha. Mas no apagar das luzes, Andrezinho deu um passe genial para o menino Valter, que, cara a cara com o goleiro Elizaga, foi inteligente e só rolou para Alecsandro, como bom centroavante, como camisa 9 de carteirinha, rolar para o fundo das redes. 2 a 1. Primeira missão: cumprida.

Foi difícil, foi suado, foi de arrebentar o coração? Foi. Mas Libertadores é isso. Teremos que aguentar arbitragens coniventes com a violência, teremos que aguentar ceras pra lá de irritantes. O que resta ao colorado? Usar esse ambiente ao seu favor. Catimbar quando tiver que catimbar, principalmente em partidas longe dos seus domínios. Utilizar-se de lances viris quando necessário, afinal, é do jogo, para todos os lados. Fique claro: não se deve confundir virilidade com ignorância e irracionalidade, que só fariam resultar em expulsões e prejuízos ao colorado. Eis a receita para ganhar a Copa.

A primeira batalha passou. Vencemos. Agora, o Inter segue, mais confiante do que nunca. Há erros a serem corrigidos. É óbvio. Mas a vitória dá todo o aval e tranquilidade necessários para se encaixar a equipe e arredondar detalhes. E isso é fundamental.

Entre a prepotência e a dignidade humana

Ontem saí com três amigas para tomar umas cervejas. Estava precisando disso, um pouco de suco de cevada e boas doses de boa conversa. E, como talvez até fosse de se prever, nesse papo vai, papo vem, entre um copo e outro de Polar, fui dissecado tal qual uma rã numa aula de biologia num laboratório qualquer. As mulheres possuem o quase diabólico dom de espremer palavras e opiniões dos recôncavos da alma masculina. E nós, pobres homens, ficamos indefesos e expostos, como se nossas cascas e armaduras se dissolvessem nessas horas.

Saí mais rotulado que macacão de equipe de Fórmula 1. Fizeram as moças um amplo diagnóstico sobre o meu ser. Com a maioria deles, até, confesso, concordei. Mas dentre as tantas etiquetas colocadas sobre a minha pessoa, uma me chamou a atenção, e verdadeiramente me inquietou. Fui chamado de prepotente. Isso mesmo, amicíssimo leitor: pre-po-ten-te.

Nem preciso dizer que discordei frontalmente de tal conclusão sobre a minha personalidade. Jamais fui prepotente, nem megalomaníaco, nem presunçoso. Isso soou mais ou menos como se chamassem Pelé de alemão. Ao meu ver, não tem fundamento.

Esse rótulo me foi impingido apenas porque acredito em relações horizontais entre os seres humanos. Aí reside uma imensa confusão, uma distorção gritante que não poucas vezes observo por aí. As pessoas confundem respeito com baixar a cabeça, adotar uma postura submissa mesmo quando se está com a razão perante uma figura hierarquicamente superior. Confunde-se, assim, dignidade humana com arrogância, invertem-se papéis transformando-se injustiçados em megalomaníacos, e megalomaníacos em injustiçados. Confunde-se cascalho na funda com baralho na segunda. Confunde-se bife à milanesa com bife ali na mesa.

Ora bolas, não estou aqui dispensando a hierarquia. Acredito ser ela um componente fundamental para a organização social, principalmente num sistema capitalista que presume em sua raiz mesma a desigualdade mal-explicada e consequente insatisfação proveniente dos lados excluídos. Entretanto, numa relação respeitosa, a hierarquia serve como uma espécie de "critério de desempate". Não pode ser ela a premissa e o nascedouro de todas as relações. Sincera e honestamente, não acredito nisso.

As pessoas devem respeitar-se mutuamente, e abandonar os grilhões de critérios meritocráticos pra lá de discutíveis. Numa sociedade desigual por natureza, simplesmente não há parâmetros respeitáveis para se impor uma hierarquia tão rígida e legítima quanto alguns espíritos crêem poder existir. Pontos de partida diferentes levarão a caminhos e posições completamente diferentes. Isso é fato racional. Simples como mascar um chiclete.

É exatamente por isso que sou contra qualquer tipo de submissão em questões relativas que não comprometem o funcionamento orgânico das coisas. Disciplina, organização, respeito, estão numa certa ordem de coisas. Submissão, aceitação inelutável de posições tirânicas baseada num fatalismo pusilânime, estão noutra ordem de coisas totalmente distinta.

Respeito e bom senso devem permear a convivência humana em todas as suas dimensões. Lembremos Ortega y Gasset, quando diz que um homem é ele e suas circunstâncias. Todos nós chegamos aos pontos aos quais chegamos porque nosso caminho foi desenhado de uma determinada maneira completamente diferente. Mal e mal poderíamos medir alguma coisa se numa espécie de mágica pudéssemos viver as mesmas situações e circunstâncias das pessoas de posições hierarquicamente diferentes das nossas. Como isso "non ecziste", resta apenas amenizar esse tipo de parâmetro esdrúxulo que só serve para legitimar imposições autoritárias pessimamente formuladas. Ora, fossem tais imposições bem formuladas, sequer seria necessário invocar as relações hierárquicas, não é mesmo?

Talvez eu seja um último romântico quando falo dessas coisas, e quando tento compreender a completa virada de valores que algumas pessoas impõem ao analisar a vida e as relações sociais. Se respeitar e exigir ser igualmente respeitado é sinal de arrogância, sou arrogante, e convicto. Se não baixar a crista para titulações relativas e carteiraços é ser prepotente, pois bem, que seja assim, sou um prepotente descarado. Na minha ótica, tais associações são absurdas. São uma inversão dessas que com minha limitada capacidade intelectual, não consigo compreender. Apenas sinto que há algo de muito errado. Algo verdadeiramente podre no Reino da Dinamarca.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Assaltos

Não só na noite. Não só na penumbra. Não só em lugares inóspitos. Os assaltos podem ocorrer em qualquer lugar. À luz do dia. Em estádios de futebol. E transmitidos ao vivo para todo um estado. Foi o que aconteceu ontem, no Beira-Rio.

O Inter foi escandalosamente assaltado pelo árbitro com nome de cafajeste francês, Jean Pierre, contra o Novo Hamburgo. Mas o assalto veio ainda antes por meio de atos bastante claros e questionáveis da RBS e da Federação Gaúcha de Futebol, comandada, que ironia, por um conselheiro do Inter.

A Federação Gaúcha e a RBS querem enlouquecidamente que o Grêmio ganhe o único campeonato que tem alguma chance de ganhar na presente temporada. O referido veículo de comunicação não esconde sua torcida, e tem contatos, digamos, bastante íntimos com o clube da Azenha.

Fizeram de tudo para derrotar o Inter. Obrigaram o colorado a escalar reservas na semifinal da Taça Fernando Carvalho, haja visto a esdrúxula marcação do jogo para dois dias antes da partida contra o Emelec, na Libertadores. Conseguiram prejudicar o Internacional.

Tudo isso culminou, como um assassino que dá o golpe de misercórdia sobre um moribundo rastejante, com a arbitragem ridícula deste péssimo árbitro chamado Jean Pierre. Ele marcou um pênalti que só ele viu. Muriel atingiu a bola, só ela, a redonda, limpinha. Mas esse pilantra que veste preto inventou, tal qual um Professor Pardal das regras do futebol, o pênalti. A partir dele, fez o Novo Hamburgo, com titulares entrosados, crescer sobre os reservas desentrosados do Inter.

Apesar de tudo isso, a vida continua. Agora, é Libertadores. Nela, a RBS não pode interferir. E é ela o grande foco. Lembremos que em 2006 o Inter perdeu o Gauchão para depois ganhar a América e o Mundo. Você, colorado, faria essa troca? Eu faço, agorinha mesmo. Então, vamos lá que terça-feira o bicho vai pegar. De verdade. Sem Federação Gaúcha. Sem RBS. Sem Jean Pierre. Sem interesses escusos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Racismo no futebol

A imprensa, com a chegada de Abbondanzieri ao Inter, começa a desenterrar um suposto caso de racismo do goleiro contra o lateral-direito Baiano, quando este jogava pelo Boca. Primeiro, foi Fernando Becker, da RBS, aquele mesmo que disse que o Grêmio deu espetáculo contra o São Paulo de Bento. Agora, Neto, em seu blog (http://blogdoneto.blog.uol.com.br/) aparece também falando do caso, chamando Abbondanzieri de frangueiro, e afirmando que vai torcer pelo fracasso do Inter na Libertadores.

Em relação a Neto, admiro nele somente a sua sinceridade. Ponto. Como comentarista, é um merda. De cada dez coisas que ele diz, dá pra se aproveitar, quando muito, uma. Como jogador, foi craque de uma camisa só, que fracassou ridiculamente com a camisa da Seleção Brasileira. Um verdadeiro fiasco.

Já a RBS, todos nós sabemos que tem posições muito claras não só na política, mas também no futebol. É um veículo de informação extremamente tendencioso. Dizem que a emissora possui consideráveis percentuais de lucro sobre a marca Grêmio. Sua cúpula é toda gremista.

Mas uma coisa me intriga nisso tudo: agora, com Abbondanzieri, a imprensa invejosa e recalcada chega com toda a força para atacar o Internacional. Porque essa mesma imprensa se calou quando certa torcida dessas mesmas plagas imitou macacos para um jogador do Cruzeiro? Não li uma linha sequer. Assim como não leio uma linha de referência e repúdio a cânticos racistas e neo-nazistas entoados pela mesma torcida, que, dentre outras coisas, profere palavras contra os adversários do tipo "macaco imundo". Isso não é racismo? Porque ninguém fala disso? Tem medo? E o bonzão do Neto? Porque nunca se pronunciou a respeito? Na Europa, isso seria caso para rebaixamento e exclusão dos clubes praticantes. Mas aqui não. A omissão e os interesses escusos falam mais alto.

Estou louco, ou há um tratamento gritantemente diferente da imprensa em relação aos clubes?

Por fim, apenas tenho a dizer que acho maravilhoso que a imprensa do centro do país, incluindo aí Neto, esteja se colocando contra o Inter. Foi exatamente assim em 2006. Chamavam o Inter de fogo de palha e cavalo paraguaio. Diziam que o São Paulo amassaria o colorado no Morumbi. E aconteceu o que todo mundo sabe. Depois, claro, vieram puxar o saco e bajular. Mas todos nós sabemos o verdadeiro ódio que a imprensa daquelas bandas tem em relação ao futebol gaúcho. Todos nós lembramos, ou pelo menos deveríamos lembrar, do que a imprensa paulista falava do Inter.

Por isso, todo o veneno destilado contra o colorado só serve para aumentar a motivação de cada colorado em busca do Bi da América. Vamos levantar a taça! E esfregar na cara de Neto e companhia, que certamente estarão chorando a derrocada do São Paulo e, principalmente, do Corinthians na Libertadores. Por sinal, eu, particularmente, adoraria que a final fosse exatamente contra o time do comedor de travecos. Uma vitória contra o time mais bajulado da hora me proporcionaria orgasmos múltiplos. E tenho dito.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Podridão

Abrace o que há de pior no mundo.
Entregue-se, afinal.
De nada adianta lutar, lutar, lutar, para morrer no final.
E eis que tudo está soterrado.

Deite na lama.
Não se arraste mais, é patético.
Mate todos os seus sonhos, um por um.
Coma um pouco do lixo e das fezes.

Humilhe-se um pouco mais.
Estamos à toa nos deliciando com nossas próprias fraquezas.
Apenas esperando o tempo passar e as ondas levarem tudo.
E elas sempre levam.

De nada adianta querer.
A condenação é certa e vem antes de tudo.
Nos escondemos de fantasmas que nos perseguirão a vida toda.
Resta apenas quebrar e destruir tudo.

Bata-se contra as paredes invisíveis.
Beba um pouco do meu veneno.
Estupre a si mesmo como se fosse o pior dos calhordas.
Vomite sua própria alma num vaso emporcalhado.

Desista de procurar um sentido nas coisas.
Submeta-se à podridão.
Somente tome mais alguns copos e pílulas.
E tudo estará resolvido.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quando eu era criança...

Quando eu era criança, meu mundo era diferente.
Naquele tempo, existia a rua.
Naquele tempo, existia a liberdade.

Quando eu era criança, existia a minha avó e seu espinafre com farinha.
Naquele tempo, havia Danettes e Yoplinhos na geladeira todos os dias.
PAIrmalat.

Quando eu era criança, esperava ansiosamente às sete da noite durante a semana.
Era a hora de ver minha mãe.
E quando batia sete e vinte, meu coração já se angustiava.

Teria ela me abandonado? Sumido? Teria sido levada para a dimensão paralela dos guarda-chuvas?
Havia seus abraços e afagos.
E há quanto tempo não a abraço de verdade?

Quando eu era criança, havia os bonecos e os seriados.
Jiraiyas, Jibans, Spielvans.
Havia manhãs intermináveis na frente da tv.

Quando eu era criança havia o Mega Drive.
E minha maior preocupação era descobrir como virar o jogo do Sonic.

Quando eu era criança, havia o Dosul.
Naquele tempo, a vida era brincadeira.
As responsabilidades não ultrapassavam 50 metros.

Quando eu era criança, chorava por bobagens... bobagens?
Invertessem-se as visões de mundo, e para uma e para outra, tudo estaria deturpado.
A liberdade se tornaria inelutável limitação, mordaça; e as cercas seriam pura sensação de plenitude e ar enchendo os pulmões.
As bobagens se tornariam mortalmente sérias; e as seriedades seriam de pequenez e desimportância incalculáveis, minúsculas dízimas periódicas.

A vida é melhor do que parece.
É só uma questão de saber os momentos certos para trocar e destrocar os nossos óculos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Alucinação

Já falei diversas vezes aqui no DC sobre aspectos bons e aspectos perversos da internet e da excessiva tecnologização de tudo ao nosso redor.

Dentre aquilo que há de bom, certamente está a democratização de muitas coisas que outrora ficavam nas mãos de apenas alguns. Este blog aqui mesmo é prova disso, do maior espaço que há para todo o tipo de pensamento, para a pluralidade, uma verdadeira democratização de informação e criação artística proporcionada pela internet, ferramenta não poucas vezes sub-utilizada.

É nesse contexto que gostaria de indicar o seriado "Alucinação", realizado por jovens e talentosas artistas da Cia Corpo em Cena, de Porto Alegre, cujos episódios serão disponibilizados no You Tube todas as quartas-feiras, às 20 horas. O primeiro episódio, inclusive, já está no ar (http://www.youtube.com/watch?v=c_bZXLxraBE).

Vale a pena dar uma conferida, oxigenar as ideias, conhecer novos conceitos de criação e produção e, acima de tudo, se dar conta que existe vida além da Globo.

É um trabalho independente, caprichado, de gente que ama o que faz nesse meio tão maltratado, dos atores de teatro, que muitas vezes por não terem todo o lobby de grandes mídias para dar o suporte, passam por imensas dificuldades para fazerem aquilo que lhes dá prazer. Fica então a dica, prestigiem.

Xis

Uma das melhores coisas que tive como legado no meu feriadão de carnaval na praia foi o xis de um quiosque de Capão da Canoa. Infelizmente, descuidado e desatento que sou, não me recordo do nome. Parece ser um negócio de família, às vezes o pessoal parecia até ter alguma dificuldade em dar conta da demanda. Entretanto, o atendimento foi excelente, com o pessoal muito atencioso e prestativo.

Sempre à noite, e sempre morrendo de fome, pude comer lá duas vezes. Na primeira, quando a fome estava mais apertada, recorri ao xis calabresa. O xis calabresa é o lanche ideal para se matar aquelas fomes medonhas, mas matar mesmo, torcendo a faca e tudo. É o mais incisivo, o mais agressivo dos xis, picante, saboroso, suculento. O xis calabresa é o Guiñazu dos xis.

Da segunda vez, comi um xis coração. Esse já é um xis para quando estamos priorizando mais o apreço do paladar do que a fome em si, embora eu estivesse, naquela noite, com uma fome de moderada para incômoda. Coraçãozinho de galinha é um negócio espetacular. Esse xis já faz um tipo mais D'alessandro: nos ganha pela classe, pela suavidade, não pela força ou pelo ímpeto

O fato é que ambos estavam excelentes. Ainda faltou degustar o xis frango, o xis salada... Esses, espécies de Índios ou Bolívares: ao mesmo tempo básicos e clássicos, sem maiores virtuosismos, mas sempre eficientes no combate à fome, principalmente aquela do tipo mais chatinho, tal qual um centroavante ruim e perigoso de time do interior.

Já tive minhas fases de matar fome com cachorro quente, pastel e churrasquinho. Mas quando a fome aperta demais, bom mesmo é o xis, é ele que me satisfaz plenamente. Talvez exatamente por isso, por já não me saciar com pastéis (a menos que venham em dúzia), com os fugazes e ordinários espetinhos, e com cachorros quentes (honrosas exceções aos cachorros do Kurtz, do Bigode e da padaria de perto de minha casa), que estou passando por um processo bem, digamos, consistente, de engorda nesses últimos meses.

Buenas, esse papo todo atiçou a minha fome. Lá vou eu fazer meu macarrãozinho com bastante molho. E tome quilos a mais! No final das contas, por a+b, vale a pena. Hoje em dia estou mais preocupado com meus próprios prazeres do que com os pensamentos ou olhares alheios. Que venham mais e mais quilos! Se for pra colocar um sorriso no meu rosto, fazer minhas papilas gustativas bailarem alegremente e meu estômago regozijar-se, que quebrem todas as balanças das farmácias por onde eu passe.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Abbondanzieri

Chego do feriadão de um carnaval muito bem aproveitado no litoral gaúcho e me deparo com uma surpreendente notícia. Pato Abbondanzieri estaria sendo contratado para defender o Inter na Libertadores.

Não vou ficar em cima do muro: para mim, é uma grande contratação. Apesar de achar que Lauro passa longe de comprometer, ter um goleiro do nível de Abbondanzieri dá um plus maravilhoso na busca do título da maior competição do futebol sul-americano.

Alguns comentários dizem que o goleiro está em fase decadente, velho. Não sei como vinha jogando o Pato no Boca. Mas a posição de goleiro é diferente. Ali, a longevidade conta muito. Abbondanzieri tem bagagem, é um vencedor, e, ora bolas, é uma lenda no Boca Juniors, que não é um timinho de fundo de quintal. É um goleiro com "pedigree".

Com essa contratação, acredito que o grupo colorado está fechado para a Libertadores. Em tese, as carências estão supridas com o goleiro argentino e com o centroavante Kléber Pereira. Claro: toda a contratação inclui riscos, até por não se tratar de jogadores em grande fase. Mas lembremos: Abbondanzieri foi o goleiro titular da Argentina na última Copa, e Kléber Pereira há dois anos foi artilheiro do Brasileirão. O Inter, afinal, contratou caras experientes, e que sabemos, conhecem bastante dos seus respectivos ofícios. Agora, é torcer fervorosamente para dar certo. E vai dar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pão e circo

Estava lendo um excelente artigo de autoria de Paulo Pastor no site "Fazendo Media". Ali, ele trata com imensa felicidade da alienação promovida pelos meios de comunicação de massa no contexto brasileiro, traçando um paralelo com a política do pão e circo promovida no Império Romano.

E, realmente, quando verificamos cuidadosamente o fenômeno que se passa com os reality shows, com novelas, e a forma como as notícias realmente importantes (não) são tratadas, percebemos toda a manipulação que envolve a maioria da população, e como os focos são completamente deslocados.

As pessoas não lembram em quem votaram para vereador há dois anos. Mas lembram em quem votaram para ganhar o BBB. Ora, há uma séria distorção de valores aí, não? As pessoas se recusam a ver meia hora de horário político, ou de se informar sobre o que ocorre nas esferas governamentais. Mas ao mesmo tempo, não hesitam em perder duas horas, assistindo à decisão de um paredão do Big Brother, que em nada influencia nas suas vidas.

Abaixo, reproduzo o texto de Paulo Pastor (http://www.fazendomedia.com/?p=2330).

O PÃO E CIRCO DE CADA DIA


Será, que vivemos em um repetição da política que ocorria no tempo dos Césares?

Um pouco de história: A política do pão e circo foi a forma encontrada pelo Estado Romano para controlar as massas que, mesmo em face à miséria e exploração que viviam, não se revoltavam devido à distração proporcionada pelo pão barato e os jogos, como os de gladiadores, que o Império oferecia. O aprendizado: as massas podem ser controladas, independente do grau de penúria em que se viva, basta oferecer algo que ocupe as mentes delas e afaste o pensamento dos reais e graves problemas que as afligem diretamente.

Li alguns artigos comentando que a cobertura jornalística e atenção do público para a tragédia sobre o Haiti acabaria perdendo espaço para outros assuntos, digamos, com um grau de importância relativamente menor. Alguns exemplificam apontado o Big Brother Brasil como um dos prováveis novos assuntos pautados e abordados pela grande mídia.

Nas páginas dos principais provedores, as chamadas de matérias e fotos referentes ao país mais pobre da América Latina já perdem lugar para o rosto dos “brothers” que estão no paredão ou a última briga da casa. Em um dos textos, havia um comentário de um leitor lembrando da política do pão e circo – por isso a introdução – para explicar esses fenômenos de alteração de foco, os quais acontecem por aqui com uma incômoda frequência. Será, que vivemos em um repetição da política que ocorria no tempo dos Césares?

As diferenças com o passado

Assim como em Roma, existe uma grande massa a ser controlada e boa parte dos meios de comunicação funciona, na sua essência, da mesma forma que o palco da luta dos gladiadores. Mas, será que naquela época havia tantas pessoas que, conscientemente, queriam o “pão e o circo” para ignorarem ou substituirem os problemas a sua volta, para lidar melhor com a realidade?

Se antes os imperadores romanos precisavam conquistar outras terras e fazer diversos acordos para manter a alta produção e o baixo preço do trigo, hoje é boa parte da população que escolhe entretenimentos que ignoram ou tratam a realidade com superficialidade. É verdade, que parte considerável da população não consegue ver a estrutura usada para controlar a sociedade. Pode-se acusar a falta de formação, porém não foram só as pessoas com pouca educação formal e crítica que transformaram Avatar no filme mais visto da história.

Mesmo os que percebem o quão pouco o BBB acrescenta no seu cotidiano, perdem algumas horas do seu dia vendo algum ‘acontecimento importante’ da casa. As novelas com as praias do Leblon e com carros luxuosos são a última preocupação, antes de ir para a cama,da maioria das famílias brasileiras. Por que isso acontece? Por que um desastre que mata mais de 100 mil pessoas só merece atenção da mídia televisa durante duas semanas e osrealities shows conseguem repetidas edições que duram dois ou três meses?

Vivemos em uma sociedade que ensina valores como a conquista sobre os outros, a vitória do mais forte, o individualismo, a ostentação, a alegria fácil e rápida, tudo é uma mercadoria que pode ser comprada com meu esforço. Passar muito tempo voltado para questões como a vida de 80 % da população de um país abaixo da linha da pobreza ou pessoas que não têm onde dormir e que perderam filhos por causa de desabamentos não combina com o ideal de realidade que as televisões, jornais e revistas desejam vender. Quando essas questões saltam aos olhos, afinal não podem ser ignoradas sempre, o tratamento é cosmético, superficial. Dessa forma, fica fácil acalmar e tranquilizar o público com as maravilhas tecnológicas doCampus Party.

Seguindo o mesmo roteiro?

Os grandes veículos de comunicação que deveriam cumprir a função de alertar a sociedade, parecem estar esperando ocorrer novos deslizamentos, no próximo ano, para, seguindo o script de sempre, chocar a sociedade com o choro de mães, filhos e pais e o olhar desolado de quem perdeu o pouco que tinha.

Será que algum repórter que, hoje, visita os bairros pobres vai acompanhar o planejamento – ou a falta dele – para se evitar novos desastres e mostrar para as pessoas o que está ou não está sendo feito? Ou a cobertura jornalística, assim como em um circo, tem servido para distrair por algumas horas e simplificar a realidade. Não seria o ideal ir até a raiz do problema, contextualizá-lo? No caso do Haiti, quem faz um acompanhamento um pouco mais ligeiro das notícias, pode ficar com a sensação de que o terremoto do dia 12 é o culpado de toda miséria e falta de estrutura do país, quando sabe-se que a história do país está ligada à exploração imperialista das nações mais poderosas militarmente.

Não dá para isentar de culpa nem os comunicadores que informam sem criticidade, ou o público que tem uma ‘distorção’ das prioridades. Mas, a responsabilidade dos que têm os canais de informação não pode ser relativizada, são eles que oferecem o conteúdo com o qual a população toma ciência do mundo. Infelizmente, a opção escolhida é de alienar a sociedade com doses de divertimento sem sentido ou notícias de baixa qualidade e pouca profundidade.

(*) Paulo Pastor Monteiro de Carvalho é estudante de Jornalismo da Unesp.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Para todos os colorados

Meu caro amigo, meu caro irmão colorado. Na madrugada de ontem, finalmente ficou integralmente formado o grupo do Inter na Libertadores 2010. Nossos adversários da primeira fase serão Cerro do Uruguai, Deportivo Quito e Emelec, ambos do Equador. O grupo é aparentemente fácil. Dá pra passar com um pé nas costas.

E agora, com o grupo definido, finalmente sinto-me à vontade para fazer um apelo a ti, colorado de fé. Esteja com o Inter incondicionalmente durante a nossa caminhada na maior competição do continente. Dê todos os votos de confiança que tem de ser dados. Temos dirigentes que nos deram as maiores glórias da história desse clube: depositemos nossas fichas e confiemos em suas convicções, então.

Temos um treinador de primeiríssima linha, extremamente vencedor, que já treinou a lendária Celeste Olímpica, que ganhou dois títulos continentais em 2009 e ajudou a tornar a LDU a grande força que é hoje na América do Sul: confie nele, esse cara sabe o que faz.

E temos um elenco que no ano passado, além de conquistar dois títulos, sendo um deles de nível internacional, foi vice-campeão da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro, que está sempre nas cabeças. Agora, mais do que nunca, esse elenco encarna o que é o Sport Club Internacional. É com ele que vamos para a reconquista da América. Jogue fora todas as broncas e implicâncias, pelo menos até o final da Libertadores: agora, eles são Os Caras. E se não forem, terão de ser, no grito e na marra. Porque o que nós queremos é muito maior do que qualquer indivíduo.

Claro, há os inquestionáveis que nos passam genuína esperança, como Eller, o deus da raça Guiñazu, o craque D'alessandro, o fundamental Giuliano, o excelente Sandro... Mas há também aqueles que precisarão de uma reciclagem nossa, exatamente de nós, torcedores. Jogadores que precisarão de um suporte para se superar nessa competição. Lauro é o maior goleiro do mundo, é sinônimo de segurança e qualidade debaixo de nossas traves: acredite nisso, pelo Inter. Alecsandro e Kléber Pereira são jogadores com faro de gol. Eles são as nossas esperanças, nossos heróis em potencial. Repita isso mentalmente como se entoasse um mantra interior. Taison é uma promessa de craque. Sim, nos esforcemos para acreditar nisso. Edu passou pela Seleção Brasileira, e é ídolo até hoje da torcida do tradicional Betis da Espanha: tem tudo para arrebentar nessa Libertadores. Escrevamos isso num pedacinho de papel e coloquemos debaixo do travesseiro, se necessário.

Meu amigo, meu irmão colorado: tu quer a Libertadores? Eu quero. Todos os colorados querem. Então, façamos esforços quando necessário. No estádio, na frente da tv, no rádio à pilha durante a aula da faculdade, mandemos boas vibrações para o nosso time, para os nossos jogadores. Releve possíveis erros, acredite em cada um que vá envergar o nosso glorioso manto. É ele, o manto, que agora importa. E tudo, tudo de mais fundamental, é a nossa vontade de vermos o Bicampeonato colorado. Exatamente como foi em 2006, quando, para exemplificar o que estou dizendo, jogadores como Michel e Gabiru tiveram momentos em que foram decisivos. Por que foram decisivos? Porque são jogadores espetaculares? Não. Porque nós acreditamos e demos o suporte, criamos a aura necessária para que eles se superassem e fizessem o seu melhor. Façamos, dentro de todas as possibilidades, de 2010 um glorioso remake de 2006, pelo menos dentro do que cabe a nós, enquanto torcedores.

Agora, torcedor colorado, é operação de guerra. Nós queremos a Libertadores. Somos muito mais do que indivíduos. Entregamo-nos a um sonho coletivo, a uma energia transcendente que explodirá nas noites de Copa como explodiam os fogos sobre o Beira-Rio naquele 16 de agosto de 2006. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. E a alma colorada não é pequena. É gigante.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Maniqueísmo

O advento do Big Brother traz à tona algumas coisas bem claras, talvez inerentes à maioria dos seres humanos (prestem bem atenção às palavras "talvez" e "maioria"). As pessoas sentem uma vontade quase que incontrolável de dar pitacos sobre a vida alheia. Mais do que isso: o fazem de forma incrivelmente maniqueísta.

Ontem em casa presenciei um discurso fabuloso de minha mãe após a eliminação de sei-lá-quem do programa: "Isso é um absurdo!", dizia ela. E seguia: "O público é burro! Eliminou fulano que era do bem!"

Vem cá, cara-pálida: o que ser realmente "do bem" num programa imbecil de televisão cheio de gente confinada numa casa?

Não me filio aos que acham que tudo é relativo. Vivemos em sociedade, e em sociedade devemos estabelecer parâmetros de convivência. Digamos que daí partem um "bem" e um "mal" meio forçados, mas deveras necessários. Caso contrário seria soco na cara, dedo no cu, e salve-se quem puder.
Por outro lado, a menos que naquela "casa mais vigiada do Brasil" alguém cometa um grave desvio de conduta sobre regras formais ou de moralidade social, ninguém pode, em absoluto, ser definido como bom ou mau, ora bolas.

Na visão distorcida de bem e mal de minha mãe, em seu inflamado discurso, permeiam ideias de que uma pessoa "do bem" não briga; fala o tempo todo e tem que estar com cara de feliz aniversário até quando está com diarreia; apresenta uma imagem de bom moço; e sai abraçando todo mundo como se estivesse num episódio dos "Ursinhos Carinhosos". Em suma, o tipo ideal de gente "do bem" que parece ser defendido por dona Sônia é vazio, sem personalidade, sem vontade própria, e falso.

Em minha conceituação de bem e mal, com a qual não tenho nenhuma presunção de que alguém concorde, as coisas se desenham de maneira muito diferente. Acho muito mais "do bem" uma pessoa que oscila de humor, que dá respostas atravessadas quando necessário, que fica quieta quando está a fim de ficar, e que fala apenas quando tem algo para falar.

E digo mais: tenho extremas restrições para com pessoas boazinhas e sorridentes demais. E por um motivo muito simples: somos seres humanos, e enquanto seres humanos, nem sempre estaremos felizes e dispostos, nem sempre estaremos de bom humor. Ora, quem está sempre feliz e de bom humor, para mim, tem uns 99,99% de chances de ser uma pessoa falsa e fingida, que manipula as situações apenas para conquistar uma determinada imagem e, por consequência, determinadas benesses provenientes dessa imagem.

Não entendo bulhufas dessa porcaria de Big Brother, e acho que esse programa presta um desserviço à sociedade brasileira ao propagar valores superficiais e de competição exacerbada entre as pessoas, alienando completamente seu público. Mas confesso, mesmo sem saber nada dessa merda, fiquei incrivelmente feliz e satisfeito ao ver que o "bonzinho" distorcido da visão de mundo míope de minha mãe fora eliminado pelo público.

Talvez, por mais bizarro que isso seja, ainda haja uma pontinha de bom senso, lucidez e racionalidade na sociedade brasileira. Mesmo naqueles que assistem ao tal do Big Brother.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Jornal da Globo

O pior dos telejornais da Globo, é sem sombra de dúvidas, o Jornal da Globo. Talvez se aproveitando da sonolência dos expectadores, que então se vêem mais vulneráveis às manipulações ideológicas e até mesmo, digamos, no nível do "subconsciente", a emissora da família Marinho destila ali todo o seu veneno e ódio contra a esquerda, os governos alternativos às estratégias imperialistas, e os movimentos sociais.

No Jornal da Globo vemos, ela, a Globo, em seu estado mais cru, completamente sem máscaras, máscaras estas que para muitos, por incrível que pareça, ainda não foram desvendadas.

Travestida de neutralidade, a Globo mostra em seu jornal de fim de noite tudo aquilo que pensa da forma mais escancarada possível. Ontem, Cristiane Pelajo e Heraldo Pereira conversavam sobre o temor, segundo eles, "unânime", de que o governo brasileiro se aproxime de governos "isolados", como o iraniano, o cubano, o venezuelano e o boliviano.

Que isolamento é este que tem progressivamente levado, por exemplo, o continente latino-americano a novos caminhos políticos e econômicos, voltados a uma dimensão mais social, solidária, de irmandade entre seus governos e habitantes? Que isolamento é este que apregoa uma integração dos países latino-americanos, e seu fortalecimento frente à dominação dos ditos países de primeiro mundo?

A Globo, grande empresa privada que é, defende um outro Brasil. Para ela, a Globo, o Brasil tem que manter-se subjugado à lógica destrutiva de um capitalismo assassino e exacerbado, esperando migalhas ianques.

É essa a Globo, dos acordões de elites, que esteve intimamente ao lado de um governo militar que assassinou e torturou da forma mais nojenta possível uma penca de ativistas de esquerda. É essa a Globo que criminaliza movimentos sociais como os Sem-Terra, e defende apaixonadamente uma propriedade privada baseada no roubo, na exploração e na opressão ideológica, econômica e pela força, de uma classe sobre a outra.

É essa a Globo que defende a liberdade... de poucos continuarem subjugando muitos, de preferência com todo o apoio do aparato estatal: Estado mínimo nos âmbitos econômico e de serviços; Estado máximo na repressão das massas exploradas. Eis o tão sonhado Estado globalizado.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

As pessoas que se acham

Tenho uma bronca danada de quem se acha. Algumas pessoas dizem que me acho. É intriga da oposição. Quem diz isso não conhece algumas das pessoas que conheço. Aí, essas pessoas veriam que sou de uma modéstia franciscana.

Esse tipo de gente, que se apega a tudo, busca se auto-afirmar a todo e qualquer custo, cria um mundo particular em que se é todo-poderoso, apesar de um tanto enjoativo, é necessário. São pessoas folclóricas. Nos permitem dar boas e gostosas risadas.

As pessoas que se acham, inclusive, servem para elevar a auto-estima de nós que somos reles mortais. Na sua tentativa de aparentar ser mais, muito mais, do que realmente são, essas pessoas mostram o seu quinhão de pobreza de espírito. E aí nós, os reles mortais, vemos que não temos esse tipo de necessidade psicanaliticamente patológica.

Essas pessoas que se acham são uma verdadeira comédia. São perfeitos esterótipos do que de mais megalomaníaco há sobre a face da Terra. Resta algo diferente do que simplesmente rir dessas pobres almas?

Fernando Henrique Cardoso, aquele abraço!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

As pirotecnias do futebol brasileiro

Vivemos no futebol brasileiro uma imensa onda pirotécnica. Ronaldo, Roberto Carlos, Adriano, Robinho, Fred... Contratos milionários, marketing a milhão, babação de ovo da Rede Globo e ingenuidade de quem não entende nada do mercado da bola e exige dos clubes que não adotam tais medidas espalhafatosas, que o façam.

Tal medida é suicida. Por um lado ou por outro. Ao contrário do que se pensa, esses jogadores não "se pagam", nem com as medidas de marketing. Tanto é assim, que os clubes recorrem a parceiros para ajudarem no pagamento dos exorbitantes salários.

O maior exemplo do verdadeiro descalabro que configura essas aventuras do futebol brasileiro é o Corinthians, que tapou a sua camisa com patrocínios nos quais quem lucra é... Ronaldo. E com Ronaldo foi campeão da Copa do Brasil. Só. Com Ronaldo, ficou atrás do Inter, de Alecsandro, no Campeonato Brasileiro. O Inter, de Alecsandro, por sinal, conquistou a mesma coisa que o time paulista se gabou com a Copa do Brasil: uma vaga na Libertadores. Ou Copa do Brasil vale mais do que isso?

E ainda tem mais: clubes como o Flamengo, por exemplo, não possuem uma situação financeira exatamente confortável. E se o clube vier a, em um momento ou outro, atrasar salários dos demais atletas? Como fica a relação no interior do vestiário, haja visto todos os privilégios de Adriano? Não só a parte administrativa, mas o rendimento prático em campo pode ficar absolutamente comprometido, graças a possíveis ronhas entre jogadores.

Essa política de futebol "da modinha" no Brasil pode até dar certo a curto prazo. Pode render um ou outro título. Mas, e o futuro? O Vasco é exemplo clássico. Sob o comando de Eurico Miranda ganhou títulos importantes, entupiu-se de dívidas com os grandes times que formou (e também com os "por fora", é bem verdade), liquidou seus cofres, se viu obrigado a montar times ridículos, de baixo orçamento, por alguns anos, e culminou tudo isso com o vergonhoso rebaixamento de 2008.

E quando essas loucuras administrativas estourarem nos clubes que hoje adotam essas práticas arriscadas? Terá valido a pena?

Futebol pode e deve ser feito, acima de tudo, com planejamento e convicção. O Inter, quietinho, sem alarde, montou um time certinho, com um treinador vencedor, e com contratações pontuais como Nei e Kléber Pereira, um dos maiores artilheiros do Brasil, com mais de 80 gols marcados em 2 anos e meio de Santos. É o centroavante dos sonhos? Talvez não seja. Vai dar cartaz? Vai ser matéria diária no Globo Esporte? Claro que não. Mas tem tudo, tudo mesmo, para fazer o que dele se espera, sem dever para Ronaldos, Adrianos ou Robinhos em termos práticos: gols, muitos gols. Kléber Pereira é a cara desse Inter 2010: pouco badalado, visto com ar de desconfiança, e que, comendo o mingauzinho pelas beiradas, vai dar a resposta.

A Libertadores está chegando. O quietinho Inter estará nela. Os badalados Corinthians e Flamengo também. Que tipo de política de futebol vai prevalecer no final das contas? Não só agora, mas também, e principalmente, daqui a alguns anos, veremos onde cada um desses times terá chegado. Quem viver, verá.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Cirurgias plásticas e o esvaziamento humano

Quando leio notícias de que alguém morreu fazendo lipoaspiração e outros procedimentos cirúrgicos de finalidade plástica, quase chego a pensar: bem feito. Quase.

Esse talvez seja o tipo de morte mais estúpido que pode haver. Claro que há casos e casos, como por exemplo em recuperação de queimaduras e acidentes que desfiguram as pessoas. Mas, pelo menos do meu ponto de vista, não existe razão plausível para um vivente esteticamente "normal" ou "aceitável" se submeter aos riscos de uma cirurgia em nome da vaidade.

A vaidade e o esvaziamento humano estão chegando a patamares cada vez mais absurdos. Na era dos reality shows e do photoshop, cada vez mais se prioriza o parecer em detrimento do ser. As pessoas não se importam em ser imbecis, retardadas, idiotas, burras, incompetentes. Só não podem ser feias!

A pergunta que me faço é: será que realmente essa ideologia da estética vai acabar prevalecendo? E, se assim for, qual o futuro de uma população desprovida de vida inteligente? Não teremos, quem sabe, quase que num passe de mágica, um surto de bom senso?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Calorão

Eita, calor dos infernos! Ventilador faz vento quente! A bebida, um minuto fora da geladeira, fica quente! Estou quente! Só de cueca! E mesmo assim, fervendo!

Já não tenho mais opinião formada entre o frio e o calor. Era adepto do primeiro. Com o tempo, passei a tolerar o segundo. E a gostar dele. Mas tal é o incômodo desse calor porto-alegrense de 2010 que tô virando a casaca de novo. Viva o frio! Congelemo-nos, pelamordedeus!

Nem as sainhas e coxinhas compensam mais. Venham os casacos. A água da torneira quase ferve. Socorro! Socorro!

Está, de fato, insuportavelmente insuportável. Nada adianta. Nada resolve. As noites são mal-dormidas. E como seria diferente?

Estou com raiva do calor e do verão. Estou derretendo, e se pudesse, apagaria o sol. Sei, estou falando de cabeça quente. Mas, poderia não estar assim?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Inferno astral

Em momentos de inferno astral, tudo, absolutamente tudo, tende ao caos. Os mal-entendidos proliferam. Os desencontros se encontram no tempo. As correções erram.

Em momentos de inferno astral, o cachorro mija nas nossas calças. A namorada dá um pontapé na bunda. Os amigos chateiam-se com a nossa chateação. A quentinha do boteco vem fria.

Em momentos de inferno astral, há respingos para todos os lados. Infelizes coincidências surgem perturbadoras. Miramos no leão e acertamos a zebra. Os números da loteria brincam em sequências quase perfeitas. Quase. E por isso mesmo, extremamente imperfeitas.

Em momentos de inferno astral, o ônibus quebra no meio do caminho. Mesmo acompanhados, estamos sozinhos. Da churrascada, sobram apenas as pelancas. Dos livros, nenhuma lição nova a tirar.

Em momentos de inferno astral, o limite do cartão está mal-calculado. Pagamos vale no boteco. Mas nem vales temos mais para pagá-lo. O filme de comédia perde a graça. Torcemos os dois tornozelos.

Em momentos de inferno astral, temos que cuidar de tudo em dobro. Esquecer a realidade e sonhar um pouco.

Em momentos de inferno astral, somente resta a cama. E o sono.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A fornalha

Faz uns cinco anos. Helder e Priscilla andavam pelo centro de uma metrópole qualquer. Estavam iniciando um namoro. Era tudo novo e absolutamente maravilhoso. Ele estava completamente apaixonado. E ela demonstrava o mesmo interesse e a mesma intensidade. Beijavam-se, beijavam-se muito. Entrelaçavam suas pernas a cada esquina para darem um novo beijo cinematográfico. A felicidade era transparente nos olhos dos dois, como se o mundo tivesse se tornado um verdadeiro paraíso.

Havia uma verdadeira química entre os dois. A troca de olhares era apaixonada, os sorrisos insistiam em vazar. Via-se, ali, um casal feliz, jovem, promissor.

De mãos dadas andaram, visitaram lojas, contaram piadas, curtiram cada delicioso segundo. Mas a tarde começava a cair, e era chegada a hora da partida. Helder elegantemente levou Priscilla para o ponto de seu ônibus. Logo à frente na fila estavam dois rapazes jovens, desses bem aculturados, no pior sentido da palavra.

Priscilla tirou a blusa ali mesmo, em gesto surpreendente e inusitado. Seus seios estavam desnudos, e ela sorria, enquanto Helder observava toda a sua beleza estupefato, constrangido e amedrontado com os olhares alheios. Eram lindos os seios de Priscilla, redondos e durinhos como se fossem duas bolas de futebol de salão. Os dois rapazes da frente olhavam escancaradamente, e riam com cara de tara, para desespero de Helder.

Passaram os dois rapazes a alisar o corpo de Priscilla. Apertavam os seios, beijavam-nos, mordiam-nos, lambiam-nos. Helder não conseguia ter reação alguma. Priscilla se deleitava, sorria com prazer transparente na luz de seus olhos. Priscilla trazia os rapazes para um cada vez mais íntimo contato físico. Eles baixaram as calças da moça, e passaram a fornicar sua genitália.

Helder, num misto de angústia e ódio, com os olhos marejados das mais salgadas lágrimas, retirou-se. Haveria uma desforra, disso tinha certeza. E logo tratou de viabilizá-la.

Seu plano começou pela instalação de uma enorme fornalha em sua casa. Era grande, muito grande mesmo, grande o suficiente para torrar uma pessoa.

Passou então a investigar os rapazes protagonistas da cena com Priscilla. Conversou com motoristas do ônibus daquela linha, descreveu seus rostos e maneiras de vestir, e obteve informação suficiente para saber por onde moravam.

Pediu para o irmão Juliano o carro emprestado. Não só o carro como também um revólver. E foi-se para as redondezas indicadas pelos motoristas. Com certa rapidez, avistou um grupo de rapazes que fumavam e conversavam em voz alta numa esquina. E lá estavam os dois procurados. Helder saiu do carro, sacou o revólver, e obrigou-os a adentrar o porta-malas, onde com incrível agilidade amarrou-os e lacrou suas bocas.

Levou-os para a sua casa. Jogou-os no chão da sala, e imediatamente acendeu a fornalha. Com o mais puro dos ódios correndo nas veias, chutou-os, cuspiu em seus rostos. Gritava. Pegava-os pelos colarinhos, e batia suas cabeças no chão, com toda a força que a fúria proporciona. Arremessou o primeiro à fornalha. Os gritos e gemidos ecoavam pela casa. Quando o primeiro já não conseguia mais debater-se, e sinalizava estar morto, olhou para o segundo. Este implorava piedade, e chorava descontroladamente, sem, no entanto, gritar. Hélder respondeu aos choros do rapaz:

- Lá, na parada do ônibus, você estava rindo mergulhado em luxúria. Agora chora. Irônico, não? Teve dó de alguém? Parou pra pensar no que eu sentia ao ver minha namorada nua nos braços de vocês?

O rapaz continuou a chorar, e Helder arremessou-o à fornalha, para fazer companhia ao corpo já completamente torrado do amigo.

Diz-se que, depois disso, Helder voltou a procurar Priscilla, e os dois voltaram a namorar, mais fervorosamente e apaixonadamente do que nunca. E para cada um que atravancasse os caminhos de Hélder e sua paixão, lá estava a fornalha, pronta e quente. Reza a lenda que a fornalha ainda nos dias de hoje mantém-se ativa e útil, exatamente na finalidade para a qual fora instalada. Por incrível que possa parecer, ninguém jamais suspeitou de nada...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Para quem não vale a pena

Senhor de todas as verdades, renda-me.
Faça o que pode e o que não pode.
Faça sua própria (in) justiça.

Mediocrize a todos que estão ao seu redor.
Mediocrize até que cheguem ao seu nível de mediocridade.
Cometa seus erros, e faça cara de certeza.

Finja sua moral.
Ela não existe.
Pregue seus dogmas em nossos pulsos.
Mas não os cumpra.
Dê de ombros.

Siga suas paranoias.
Alimente sua doença.
Exercite sua truculência.

Apenas tenho nojo e pena.
Você é muito menor do que pensa ser.
É mesquinho e hipócrita, até o último fio branco de seu cabelo.
Saiba: você é lamentável.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Diversões

O ser humano adora se entreter. Diversão é sempre bem-vinda. O problema é o modo como o faz. Uns se divertem sentados em frente a uma tv. Olhando Faustão. E Big Brother.

Outros se divertem na rua. Olhando bundas. Eu gostcho muitcho. Bundas, são, aliás, a maior fonte de divertimento que um sujeito pode ter. Basta saber explorar todo o seu potencial. Fom-fom, alisadas, tapinhas, tapões, mordidas. Bundas boas são adoráveis. Seios também. Mas sou um bundista convicto e fervoroso.

A diversão também pode estar no papear. De papo pro ar. Falar todas as nossas próprias ideias e devaneios irresponsavelmente para os nossos. É bom. É divertido, ora bolas. Exercita o gogó. E a capacidade de falar merda.

Falar merda é quase que terapêutico. Escrever também. Eu que o diga. Ler também, veja só! Você que o diga!

As melhores coisas da vida residem na descontração, na irresponsabilidade. Não é à toa que nove em dez seres humanos sentem uma ponta de saudade da infância. O um que não sente, é porque foi adultizado cedo demais, por uma razão ou outra.

O ser adulto se resume a acumular uma série de capitais que, no fim das contas, são absolutamente inúteis. Capitais simbólicos, competitividades, capitais monetários, beleza (incerta e relativa, mas ao mesmo tempo, tão certa e dogmática!), a busca de vitórias fugazes e instantaneamente obsoletas. Isso é "o bom" que nos ensinaram a querer.

Ao fim e ao cabo descansamos em paz. E todo o capital acumulado só serviu para pagar um caixão mais vistoso. Até nessas horas, a imagem é o guia. Pena.