terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Platônico

Manoel era um adolescente de dezesseis anos. Tinha um hábito diário, desde seus quatorze anos, todo o final de tarde dos dias de semana, em época letiva: ia para a janela de sua casa. Todo o dia aquela menina bonita voltava do colégio. Era morena, altura média, dona de lindos olhos e corpo em fase de belíssima e delicada maturação. Manoel a tinha visto algumas vezes em sua escola, durante os recreios. Mas jamais havia falado com ela. Sequer sabia seu nome. Mas a admirava. Em sua cabeça, aquela adolescente era a musa maior. Tanto era assim que, todas as noites, na penumbra do quarto e nos emaranhados de lençóis e cobertores, era ela a homenageada.

Manoel vivia um amor platônico. Motivava-se com aquilo, e ao mesmo tempo não avançava em nada, em sentido algum. E em todos aqueles finais de tarde, salvo raras exceções, lá estava ela, a menina sem nome, com as mais variadas roupas, jeans, lycra, vestidos, tênis, Havaianas, blusas decotadas, camisetas largas, saias curtas, pernas mais ou menos à mostra, e lá estava ele, Manoel, sempre o mesmo, observando-a tomado de ternura e admiração.

Algumas vezes ele pensava em se encorajar e sair quando a visse, falar com ela, falar daquilo que sentia, descobrir seu nome, se tinha namorado, do que gostava. Por vezes, Manoel chegava mesmo a dar um ou dois passos para trás. Mas invariavelmente desistia.

Então eis que, em certa semana, a menina não passou na segunda-feira. Nem na terça, Tampouco na quarta, na quinta ou na sexta. Ela não passou nunca mais. Doíam o coração e a alma de Manoel. Chorava todas as noites. Não sabia o endereço, o nome, nada, absolutamente nada daquela menina. Uma ou duas vezes, andou tardes inteiras pelo seu bairro e arredores para ver se, por sorte, em algum momento, defrontava-se com ela. Em vão.

De fato, nunca mais a viu. Durante uns três anos teve naquela garota todo o amor e toda a paixão de sua vida. Dedicou minutos, infinitos minutos, no somatório certamente horas, talvez dias, a ela. Ela foi tudo para ele. Agora, estava sabe-se lá aonde. Foi amada ao extremo por um garoto habitante de uma daquelas casas pelas quais passava distraidamente todos os dias. E nunca soube disso.


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