quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O triste fim de "Toma lá dá cá"

"Toma lá dá cá" é certamente uma das melhores coisas que a Rede Globo produziu em termos de programas de humor nessa década. Apesar de alguns personagens um tanto desnecessários, como Isadora (Fernanda Sousa) e Copélia (Arlete Sales), o humor falabelliano se saiu muito bem, com personagens marcantes e carismáticos como Bozena (Alessandra Maestrini), Dona Álvara (Stela Miranda) e Dona Deise (Norma Bengell), além de ótimas atuações de Miguel Falabella, Adriana Esteves e Diogo Vilella, sem contar a grata revelação George Sauma.

Infelizmente, o excelente programa global também foi marcado, não poucas vezes, por traços de preconceito de classe, político e de opção sexual. O viés político reacionário do texto de Miguel Falabella ficou notório, por exemplo, na sequência de episódios em que um morador lunático revoltou-se contra a gestão de Dona Álvara no condomínio do Jambalaya, e passou a protestar e fazer um monte de loucuras. Lógico, o lunático, numa analogia com o mundo real, era um esquerdista revolucionário. Não foi preciso ser muito atento para perceber claramente tal relação.

Ontem, encaminhou-se o final do seriado, que ainda terá dois episódios. Os "favelados" das redondezas do condomínio estão prestes a invadi-lo, saqueá-lo. Uma das moradoras da tal favela adentrou, em um dos últimos momentos do capítulo de ontem, o apartamento de Celinha (Adriana Esteves) e Mário Jorge (Miguel Falabella), e preparava-se para roubar uma mesa, que a princípio iria comprar, aproveitando-se que o pessoal todo estava trancado no banheiro, sequestrados que foram por um personagem paraibano (eis o preconceito contra nordestinos).
Ao que tudo indica, o bom programa humorístico encaminha-se para um final de lamentável mau gosto, criminalizando os pobres, colocando-os como a escória que impede a classe média e média alta de bem viver. É óbvio que, apesar desse tipo de deslize, o saldo de "Toma lá dá cá" é altamente positivo. Nem muito escrachado, nem muito bobalhão, o humor leve, irreverente, por vezes surreal, com pitadas de inteligência, deve ficar como um legado na Rede Globo, que ultimamente vem se sustentando em sua programação do gênero com uma porcaria absolutamente ridícula como "Zorra Total", um já desgastado e manjado "Casseta e Planeta", e um popularesco, no máximo engraçadinho, "A Grande Família, além de programas fracos, passageiros, que não deixaram saudades, nem sequer lembranças, nos últimos anos.

"Toma lá dá cá" merecia um desfecho mais brilhante do que parece que vai ter (tomara que eu esteja errado), limitando-se a uma visão preconceituosa e mesquinha do povo, e legitimando a tacanha mentalidade da classe média representada pelos seus personagens. Mostrar tal mentalidade numa perspectiva crítica, seria uma boa, já que até agora, tudo o que se viu foi reprodução pura e irrefletida de determinados preconceitos de setores da população brasileira. Isso me lembra a ótima letra da música "Classe média", do Max Gonzaga (http://www.youtube.com/watch?v=KfTovA3qGCs):

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida*

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