terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O quarto da pensão

Marcos vivia sozinho num quarto de uma pensão vagabunda. Lá por perto passavam, durante dia e noite, prostitutas, malandros e gangsters. O rapaz trabalhava num escritório no centro da cidade e, ao final do dia, ia para seu quarto. A tal pensão ficava relativamente perto do centro. Perto o suficiente para que Marcos não gastasse dinheiro com condução.

Num dia qualquer, após mais uma jornada dura de trabalho, ao chegar ao seu quarto, Marcos deparou-se com um cara. Sim, um cara que ele nunca tinha visto na vida. Estava sentado em sua cama, assistindo à sua televisão. Marcos, um tanto embasbacado, limitou-se a perguntar seu nome:

- João.- respondeu, para em seguida emendar: - Daqui a pouco vou embora, não se preocupe. Só estou fazendo um tempo.

Marcos, meio abobalhado, concordou. Mas aquilo era incômodo. E ele não fazia nenhuma questão de esconder. As horas iam passando. João pegou um saco de batatas fritas que estavam na despensa e passou a comer, deitado, em cima da cama de Marcos. Este, por sua vez, recolheu uma cadeira e pegou um livro para ler.

A bem da verdade, não conseguia se concentrar na leitura. Vez por outra tossia, como quem mostra que estava presente, e com o anoitecer gostaria de deitar, na cama que era sua de direito. João assistia a um humorístico na tv e gargalhava irritantemente.

Estava frio por aqueles dias. E Marcos resolveu ligar o ventilador na velocidade mais alta, e não obstante colocou-o a circular, de modo que atingisse frontalmente o inconveniente intruso. João passou a sentir. Dava pra ver que, agora ele estava incomodado. Finalmente tomaria vergonha na cara e iria embora, para os cafundós do Judas de onde nunca devia ter saído. Mas não foi isso que aconteceu. Ele pediu um cobertor. E Marcos consentiu.

Marcos adentrou o banheiro e começou a chorar, copiosamente. Quem era aquele desgraçado que aparecera para liquidar com sua vida, esmigalhar sua existência? Por que ele não morria? "Maldito filho da puta", pensava consigo mesmo o rapaz. Resolveu deitar, no chão mesmo, para ver se João se flagrava. E nada. Nadica de nada. Marcos pegou no sono.

Amanhecido o novo dia, João roncava na cama. Marcos não queria deixar seu quarto sozinho com aquele sabe-se-lá-quem. Esperou. Esperou. Esperou. Por mais que se esforçasse, fizesse todo o tipo de barulho, João não acordava. Dormia profundamente. E Marcos teve de ir, mesmo atrasado. Daria alguma justificativa para o chefe. Tinha que trabalhar. E João ficou, dormindo na cama de Marcos.

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