sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Lembranças

Estou num boteco da Cristóvão Colombo tomando umas cervejas e observando o movimento. Pessoas vão. Pessoas vêm. Pessoas passam, e depois voltam. Entre essas pessoas, há coisa de cinco minutos, passaram duas velhinhas de braços dados, dando passos lentos. Velhinhas. Cabelos brancos. Braços dados. Passos lentos. É absolutamente impossível não lembrar de minha falecida avó, Noely.

Indubitavelmente, ela foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. São muitas as lembranças. Muitas mesmo. Quando eu era criança, "pequetitinho", era ela quem me cuidava para que minha mãe pudesse trabalhar e ajudar meu pai a sustentar a casa. E não posso reclamar. Enquanto pôde, cuidou-me com um carinho e uma devoção absolutamente fantásticos.

Ela andava comigo, pra lá e pra cá. Enquanto teve condições, andava comigo por todo o bairro. Andávamos bastante, íamos ao antigo Dosul, e muitas e muitas eram suas amizades. Recordo-me, a princípio, sem maiores esforços de memória, de duas: Dona Nely e Dona Rosa. Mas havia mais. Muito mais. A cada esquina ela parava para conversar com alguém. Era extremamente querida por todos. Eu chegava a ficar de saco cheio, pelo tanto que tinha que esperar ela conversar com cada conhecido que encontrava.

Benzia. Benzia a mim, benzia aos filhos dos vizinhos. E curava. Não fosse assim, não teria, quase que diariamente, gente batendo à porta, pedindo uma benzedura para sapinhos nas crianças, e outros pequenos males.

Certa feita, eu tinha uns cinco anos, logo de manhã cedo, eu queria assistir aos meus seriados japoneses. E ela, queria ver o "Bom dia, Brasil". Sei lá eu por que, mas, furioso por não ter sido atendido, ataquei minha avó com uma unhada no rosto. Mas meu remorso foi instantâneo, imediato. Pedi-lhe desculpa, mais do que isso, perdão, do fundo de minha alma. E ela imediatamente me abraçou, com carinho e amor indescritíveis. Ela me acolheu. Aquele abraço foi de um efeito balsâmico.

Dona Noely também cozinhava bem, enquanto o corpo e a mente permitiram. Cozinhava com gosto. Cozinhava simples. Mas maravilhosamente bem. Adorava seu espinafre com farinha, as sopas batidas, o feijão mexido. O tempo, impiedoso, a limitou, em muitas e muitas coisas. É o ciclo da vida. Muitos foram injustos, imersos no imediatismo irrefletido. Inclusive eu.

Da última vez que a vi em vida, estava lúcida. Lúcida como há muito tempo eu não via. Estava numa clínica geriátrica, há meses. Pegou-me pela mão, na despedida, e pediu que eu rezasse por ela. Meio bobo, meio idiota, meio imbecil, não conferi àquele momento toda a real importância que ele tinha. Haveria outras vezes, pra mim era óbvio, ora bolas. Pois é. Não houve.

Desde sua morte, não chorei sequer uma lágrima em relação ao assunto. Era como se tudo tivesse ficado escondido numa gaveta, que eu me recusava a abrir, em lugar bem inacessível. Sério mesmo. Talvez por um estado absoluto de choque, não chorei nada. Nadica. Até hoje. Até minutos, talvez segundos atrás.


Um comentário:

cleuzavaleria disse...

Desculpe pela falta de tempo q não me permite desfrutar desses dilemas,mas com certeza sempre q consigo é extremamente gratificante....Parabéns pela sensibilidade q nos dias de hoje euma raridade entre nós.....bj grande
Dinda