quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Até quando a esquerda vai dar tiros no pé?

Quando abro os sites de algumas organizações esquerdistas brasileiras, ainda fico estupefato com a postura sectária e muitas vezes descabidamente crítica das mesmas aos governos de esquerda na América Latina, como de Hugo Chávez, Evo Morales e (em menor escala de esquerdismo, reconheçamos) Lula.

Às vezes parece que esses setores não aprenderam certas lições. E não são poucos os casos em que posturas sectárias, por vezes até mesmo entre os setores mais à esquerda da esquerda, levaram a derrotas constrangedoras, abrindo flanco para as forças reacionárias de direita.

É lógico que há arestas para se aparar. Ninguém duvida disso. A esquerda é plural. Bem mais plural que a direita. Entretanto, essa pluralidade não pode servir de entrave para o avanço daqueles que objetivam uma profunda transformação social, dirimindo desigualdades, democratizando as esferas políticas e AGINDO no sentido de melhorar a qualidade de vida da maioria da população.

Há, para mim, um grande erro estratégico dos setores radicais. Primeiro, ataca-se as demais forças de esquerda. Depois, se pensa no resto. Como se, ao abalar as estruturas da esquerda que compõe o poder, essa esquerda mais ortodoxa tivesse por si só o poder de absorver os ativistas "menos revolucionários" e travar um embate corpo a corpo sério com a direita.

Ao invés de primeiro se buscar pontos de consenso, de convergência, o que a esquerda ortodoxa, que ainda vive no início do século XX, faz, é divergir de cara, romper a priori, e lutar, batendo com a cabeça na parede, sozinha. Enquanto isso, as forças demotucanas vêem abrir-se solenemente não flancos, mas latifúndios eleitorais, ao passo que a esquerda reformista se encontra tomando porrada dos dois lados: da direita e da mídia reacionária, por um lado; e pela esquerda ortodoxa que, por vezes, parece recusar-se a entender que o panorama atual é, sim, um panorama voltado à democracia "burguesa", e é nesse cenário que a esquerda deve, pelo menos por hora, disputar espaços, por outro.

Não vejo revolução nas ruas do país. Não vejo revolução nos olhos dos cidadãos de massa. O que a esquerda deve fazer, então? Isolar-se e bater numa democracia que, em sua dimensão difusa, já criou raízes na sociedade brasileira, até que, num passe de mágica, de uma hora para a outra, as massas façam um levante orientado por forças que até então não conseguiram com elas dialogar verdadeiramente, vivendo num mundo paralelo de faz-de-conta? Ou trabalhar para ganhar espaços cada vez mais amplos no poder instituído, e corroer por dentro os próprios vícios das instituições políticas brasileiras?

Respeito opiniões contrárias. Mas estou a cada dia mais convencido de que a segunda opção é a mais plausível.

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