segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vinte para as onze

Esqueçam o que de mais santificadamente certo e o que de mais diabolicamente errado foi feito. Sou a morte do que não presta e a vida do que não existe. Sou a controvérsia mais racional. A verdade mais límpida. Mas sou, também, poluição. Certeza entre ser e não ser, sem nenhuma questão.

Sou o plágio mais original. Sou pureza, sujeira, arrependimento e verdade. E elas, as verdades, podem doer, mas são fantasticamente reais. Não sou suprassumo ou infravioleta. Sou a hipótese confirmada que a ciência não sabe explicar. Simplesmente sou. Simplesmente sou eu. Eu. Eu. Sou a mediocridade mais genial de que se tem notícia. Não tenho vocação para ser "um". Sou "o". Simples como dizer o que se pensa.

Sou cansaço, estafa, matança. Sou um formigueiro exposto e frágil. Sou força vital una e insuportável. Sou dor aguda e crueza absoluta. Sou vergonha transparente, e orgulho por si só. Sou Heráclito, Parmênides, dialética absurda e real. Como ser diferente?

Sou suave morbidez. Quero continuar e largar tudo o que não existe. O amor, o ódio e a mágoa, são tudo e o mesmo. Sou cicatriz que sangra. E sangra. E sangra. E sangra.

O medo, a coragem, a embriaguez, o grito convicto e o choro desesperado de minhas entranhas, tudo se mistura. Queimo no mais ardio fogo do inferno ciente de que fiz o que devia ser feito. O amanhã é escondido, incerto, promissor e desgraçado.

Sinto-me deslocado no tempo e no espaço. Sinto-me indesejável invitabilidade. Sou dor e anestésico. Lucidez é suicídio. A virtude é um atentado à moral estabelecida. Choro sem ombro. Não há colo nem à direita, nem à esquerda. Me importo com tudo que não importa.

Sou pequeno e mesquinho. Mas sou humanamente verdadeiro. Existir é morrer, e não existe essência sem seu oposto simétrico. Quero fazer emergir toda a força oculta e inexistente. Quero ser tudo que não é, jamais foi, e nunca vai ser. Quero a fórmula mágica que ninguém inventou.

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