sábado, 21 de novembro de 2009

Rotinas

Leio no Globo.com notícia a respeito de uma adolescente que foi espancada até desmaiar na porta de uma escola em Guarulhos, São Paulo. Tudo isso foi devidamente filmado por colegas, em meio a risadinhas joselíticas. Novidade? Espanto? Claro que não. Isso é cada vez mais recorrente na rotina escolar brasileira.

Infelizmente, o ambiente escolar é um ambiente cercado de violência física e psicológica. Num momento em que está em voga a formação do caráter de crianças e adolescentes, o cenário é exatamente este: salvo exceções, e sempre há exceções, o cenário é de retardo mental absoluto. Claro que isso não é culpa exclusiva de crianças e adolescentes. É todo um contexto que se torna propício à formação desse tipo de personalidade. Alguns escapam. A maioria, não.

Começamos tudo pelos processos de socialização ocorridos fora da escola, que acabam por praticamente condicionar os padrões comportamentais distorcidos de hoje em dia. Essas crianças e adolescentes crescem sob uma estrutura de valores muito bem determinada: competição a todo custo, dinheiro, tênis e roupa de grife, estética, superficialidade, rotulação e segregação de "vencedores" e "perdedores". Ou não é isso que se vê na televisão? Ou não é isso que se percebe sensivelmente na sociedade como um todo?

Pois bem. Sobra para o ambiente escolar tentar reverter tudo isso. Sobra um ambiente escolar com professores (pelo menos na esfera pública) mal pagos, desmotivados, sem estrutura, falando com crianças e adolescentes que, em sua esmagadora maioria, não estão nem aí, e só se fazem presentes por obrigação e, por vezes, para fazer uma merenda que em casa não tem. O que acontecerá, então, senão mera reprodução dos valores extra-escolares? Como a escola virará esse jogo se ela não tem recursos materiais suficientes, em meio à grande negligência educacional verificada nas políticas públicas brasileiras?

É essa constelação de fatores que nos faz ver em jornais e sites, presenciar também, cenas grotescas protagonizadas por crianças e adolescentes nesse Brasilzão de meu Deus. Pura e simplesmente culpá-los por tudo isso é hipocrisia em estado primário. É, mais do que isso, desonestidade intelectual, ou burrice mesmo, por não se levar em conta uma série de ingredientes que faz desses sujeitos produtos de uma sociedade embebida em valores distorcidos e anti-humanos.

Punir crianças e adolescentes é pouco. Pouco que provavelmente desembocará em resultado nulo. Reestruturar a educação é um pouco mais, e pode resultar em avanços significativos. Tal tipo de medida não pode ser perdido de vista. Subverter a lógica da sociedade é árduo, um tanto utópico: mas é a única forma de se mudar verdadeiramente a substância, a essência, desses processos de socialização autodestrutivos e segregadores. Mude-se a lógica então, ou pelo menos tente-se, em microespaços de convivência, que seja. Pode ser um começo.

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