sábado, 14 de novembro de 2009

Na loja de roupas

Renato e Cláudia estão numa loja de roupas, no shopping. São um jovem e bonito casal. 1 ano de namoro, talvez um pouco mais, um pouco menos. Cláudia, como mulher que se preza, demora-se horas para escolher suas roupas. Ir à loja de roupas, com qualquer mulher que seja, é sempre um exercício de resistência. Renato resolveu, então, ir ao segmento masculino, apenas para olhar camisas, sapatos, bonés, qualquer coisa que fizesse o tempo passar. Tal segmento ficava do outro lado da loja, mas de modo que ainda tornava visível o todo. Exatamente por isso, Renato fitou, de longe, o atendente que era seu amigo de tempos atrás, Sérgio.

Enquanto Renato olhava os tênis Nike e Adidas, do outro lado, Sérgio atendia Cláudia. Renato, de longe, apenas olhava. Sérgio, muito simpático e solícito, apresentava diversos tipos de roupa a Cláudia. Conversavam os dois. Renato, a essas alturas, estava somente observando aquele estranho movimento, aquela assaz incômoda conversa dos dois. Não era simpatizante da simpatia entre homem e mulher. Muito menos quando a mulher em questão era a sua. Pareciam combinar alguma coisa. A distância permitia-lhe, apenas, conjecturar sobre o que falavam Sérgio e Cláudia. Na despedida dos dois, beijos no rosto. Malditos beijos no rosto. "Vá beijar a puta que te pariu, Sérgio!", pensou um já nervoso e irritadiço Renato.

Voltou, após a descontraída conversa de sua mulher com outro homem, para perto dela. Ela havia escolhido a roupa que o tão benevolente e solícito Sérgio havia lhe indicado.

- Mas... é o gosto dele que lhe interessa, Cláudia?- indagou Renato.
- Claro que não, Renato! Ele apenas me alertou, e realmente gostei da roupa.- respondeu a moça.

O mal-estar àquelas alturas dos acontecimentos já era absolutamente inevitável. Sérgio viu Renato conversando com Cláudia. E se aprochegou novamente. Cumprimentou entusiasticamente o amigo. Para Renato, já, ex-amigo. Friamente apertou a mão e olhou secamente para os olhos de Sérgio, como quem diria: "O que você está querendo, afinal?".

- Vamos, amor, antes que a fila aumente.- convidou Renato à namorada.
- Vamos, sim!- disse ela, não sem antes dar mais um beijo no rosto de Sérgio.
- Foi bom vê-los por aqui! Voltem sempre!- disse o animado e simpático atendente.

Aquilo soou como uma imensa provocação para Renato. Mas, assim, foram. Pagaram a tal roupa, e foram ainda comer uns pastéis. Renato não escondia a perturbação. Cláudia não percebia, ou fingia não perceber. Isso irritava ainda mais o rapaz. Ele, ali, estraçalhando-se por dentro, e ela com aquele dissimulado olhar, que nada dizia! Renato não falava. Mal conseguia comer os pastéis, mesmo que com micro-mordidas embebidas em litros de saliva produzidas pela sua boca. Não descia. Simplesmente não descia. Tudo o que podia fazer é silenciar a angustiante sensação um tanto infundada de que algo de ruim estava por acontecer. A vida sempre reserva algum golpe baixo.

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