quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meios e fins

Juro que não são poucas as vezes em que penso, e reflito, reflito, reflito, sobre o que, afinal, tornou a atual sociedade ocidental tão absurdamente vazia. Talvez seja mania de cientista social que acredita poder compreender tudo por meio de um caminho lógico. Mas o fato é que isso me intriga, de verdade. O que faz estarmos envolvidos por tanto lixo? É o pós-modernismo? É algum tipo de decadência moral? É o estabelecimento de um modelo desenfreadamente competitivo e atomista? Acredito que é um pouco disso tudo. Resumir as explicações a isto ou aquilo seria de um ingênuo reducionismo. O que ocorre é a famosa "constelação de fatores". O estabelecimento de n motivos que associados de uma ou outra maneira, deram nesse mundo kafkianamente desprovido de sentido. Por isso, simplesmente me darei ao luxo de devanear. Não quero desenhar nenhum modelo teórico. Apenas me proponho a refletir, mesmo que compartimentadamente, sobre alguns desses potenciais motivos. Não quero obter respostas, e sei que não vou obtê-las mesmo. Quero, talvez, modestamente, e tão somente isso, sofisticar um pouco minhas inquietações. Comecemos pelo tão... Tão sei-lá-o-quê que é o tal pós-modernismo.

O pós-modernismo é uma praga dos dias de hoje, daquelas que grudam tal qual uma nojenta sanguessuga no todo das relações sociais. É, talvez, uma praga que há de se agravar nos próximos anos, décadas, talvez séculos. Não sou muito otimista quanto a acreditar realmente na possibilidade de destruição desse contexto amoral. O pós-modernismo é barbárie travestida de novidade e liberalidade. É a regra do tudo pode. Como se se pudesse desvincular todas as coisas de outras matrizes que fazem algumas coisas "poderem" mais que outras.

O pós-modernismo se retro-alimenta. Talvez seja um efeito colateral da moderna sociedade capitalista e neoliberal, que se sustenta através do agravamento de um individualismo exacerbado, que afasta progressivamente os sujeitos de qualquer perspectiva de coletividade e senso de todo. O tecido social se fragmentou, e está em melancólica decomposição. O todo social, que pela própria lógica capitalista já não é dos mais orgânicos, torna-se mais e mais inorgânico e incompatível em seu próprio funcionamento. As peças são progrssivamente mais hostis entre si.

O ser humano possui um imenso potencial para fazer coisas belíssimas. Mas também possui uma facilidade extraordinariamente incrível de se mediocrizar e se nivelar cada vez de forma mais rasteira. Em meio à verdadeira decadência moral verificada no ocidente, e agravada nos países de terceiro mundo, graças às dramáticas lacunas existentes entre os diferentes estratos sociais, perdem-se os valores, perdem-se as bases. Perdem-se, ora pois, as referências.

Chegamos, então, a este nojento "vale-tudo-que-sou-mais-malandro" vivido nos dias de hoje. O ser humano se desvalorizou deveras. Aqui, não quero, de forma alguma, fazer apologia a qualquer tipo de autoritarismo ou mecanismo de imposições que restrinjam a liberdade individual. A liberdade individual é fundamental e necessária. É de uma riqueza potencial inigualável. Apenas acredito, e disso não abro mão, que para se viver em sociedade é necessário, sim ou sim, estabelecer parâmetros comportamentais. Há que se ter algum tipo de base para se definir, de alguma forma, o que é certo ou não, o que é moral ou não, mesmo que o certo e o moral não existam por si só, flutuando num céu de brigadeiro. Eis a arte de ser racional, pombas. É saber discernir, dentro dos mais variados contextos da vida coletiva, o que vale e o que não vale.

Acatar o discurso fácil, besta, imbecil e burro de que tudo é imposição hierárquica e, por isso mesmo, nada deve ser recriminado como errado, é assinar o atestado final de irracionalização do Homem. É assumir que não temos capacidade de chegar a consensos e viver civilizadamente, com normas que sejam mais ou menos aceitas de maneira comum. Chamem-me de chato, retrógrado, conservador, o que quer que seja. Mas não vou deixar de defender que precisamos, sim, retomar valores morais e padrões mínimos de convivência. Não só nas poltronas mais macias ocupadas por corpos envolvidos pelos mais luxuosos tecidos. Há que se ter moral, também, no baixo clero, meus amigos caras-pálidas. E tenho dito.

Nenhum comentário: