quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Estética e alienação

Estava vendo agora no site Globo.com uma matéria sobre um garoto romeno de 5 anos que se notabiliza por ser musculoso (http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1355224-6091,00-MENINO+DE+ANOS+EXIBE+MUSCULOS+DE+RAMBO+E+QUER+RECORDE.html). É, no mínimo, estranho, um tanto assustador. Assim como é assustadora a transformação dos valores sociais em geral (sim, é muito complicado falar em valores gerais. Entretanto, no mundo globalizado, não chega a constituir de todo um absurdo), a desvalorização de muitas e muitas coisas importantes em detrimento de futilidades superficiais.
Nesse mundo cada vez mais midiático, irracional, guiado meramente pelos sentidos, os valores estéticos, músculos, bunda, silicone ganham um relevo inacreditável. Já não se busca mais a intelectualização, a gentileza, o bem viver da essência do espírito, da alma, da existência, ou chame como quiser. Definitivamente não importa mais ser. Somente parecer. E aparecer. Lamentavelmente.
Ocorre uma brutificação da imagem masculina, e uma sexualização da imagem feminina. No fim das contas, salvo raríssimas exceções pensantes que, ainda bem, ainda existem, o ser humano, no prisma das culturas de massa e alienantes, tornou-se puro pedaço de carne, tal qual uma chuleta ou uma alcatra exposta na vitrine do açougue. Os homens lutam para parecer estúpidos bolos de carne e músculos, rasos e rasteiros até para diferenciar um livro de um repolho.
As mulheres, por sua vez, tem como referência célebres figuras do feminismo pós-moderno como Mulher-melancia, Mulher-melão, Sabrina Sato e a mais nova sub-celebridade Geisy Arruda (fique claro, com isso não quero nem de longe legitimar a imbecilidade de seus colegas de Uniban, os quais critiquei enfaticamente aqui mesmo no DC). O que está na pauta é: que fenômeno é esse de a-valoração ou re-valoração que estamos vivendo nos dias de hoje?
Criticar os indivíduos médios da sociedade beira à covardia. Eles são mais produtos do que produtores. No máximo, são reprodutores dessa contelação de novos e contestáveis sistemas valorativos. Há, isso sim, uma violenta influência midiática sobre a sociedade. A pauta da vida das pessoas é a pauta escolhida pelos grandes veículos de informação, comunicação e entretenimento, cujos donos pertencem a um recorte social bem definido e específico.
Esses setores tem em mente que as massas estão entregues exatamente às suas mãos. Não quero aqui, de nenhuma forma, defender que as pessoas são desprovidas de capacidade de determinar o que lhes serve e o que não lhes serve. Mas elas são, sim, limitadíssimas, porque tem acesso a meios escassos de informação e entretenimento, que por sua vez compartilham objetivos e estratégias de progressivamente tornar o conjunto das pessoas das classes menos abastadas mais e mais ignorantes e distantes de todo e qualquer senso crítico.
O esvaziamento da dimensão intelectual exige um novo preenchimento. Aí, entram os fatores estéticos. Amigo telespectador, não tenha cérebro, é muito complicado: tenha bíceps e abdômen! Amiga de todas as tardes, não reflita sobre nada, esqueça os políticos e donos do poder: exercite os seus glúteos! É ou não é esse tipo de bombardeio que se vê na construção promovida pelos meios de comunicação?
Se ainda tiver dúvidas, caro leitor, tire cinco minutos do seu fim de tarde para ver Malhação (mais do que cinco minutos podem causar danos irreversíveis à massa cinzenta, por isso, não recomendo, sob hipótese alguma). Você verá exatamente do que estou falando. Lá está uma aula do tipo de socialização e de formação imagética do adolescente dos dias de hoje: estúpido, fútil, incapaz de pensar com uma profundidade que ultrapasse um centímetro.
Sorte é que, e essa é a minha gota de esperança, que ainda há algumas mentes pensantes por aí. Pessoas com quem somos capazes de falar coisas minimamente importantes e relevantes. Não faço uma apologia à feiura. Somente acho isso secundário, secundaríssimo. É uma cereja do bolo. No máximo. E só.
Entre Kafka e Bruna Surfistinha, fico com o primeiro. E tenho dito.

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