quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Descontrolada

Estou eu "youtubando" na gloriosa internê, quando me deparo com a chamada de um vídeo de uma mulher descontrolada no aeroporto de Aracaju. Curioso, abri o tal vídeo. Esse tipo de caso geralmente suscita uma série de reflexões. O caso era o seguinte: ao chegar atrasada para o embarque em sua lua-de-mel, a Amy Winehouse tupiniquim soltou os cachorros (e as cadelas, por que não?) sobre um funcionário da Gol, chamando-o de morto de fome, analfabeto, "nego", dentre outras coisas.

Eis um típico caso antropológico, característico da cultura brasileira. Como já disse Roberto DaMatta, vivemos no país do "você sabe com quem está falando?". O carteiraço rola solto, mais solto que pinto em cueca samba-canção. Essa mulher fez exatamente isso ao pisotear sobre o funcionário da Gol. Demonstrou racismo e uma insensibilidade social das mais repugnantes.

Se ela não chegou dentro do tempo previsto, infringindo uma norma estabelecida pela companhia aérea que, acredito, deva ser relativamente clara para uma pessoa tão abastada e acostumada a viajar de avião, ela não pode reclamar de absolutamente nada. É por essas e outras que o Brasil se notabiliza internacionalmente como o "país da malandragem", do "jeitinho". E sabe o que é pior? Tem gente que se orgulha disso.

Segundo a queridíssima médica, presumo, todos os passageiros que chegaram dentro do horário deveriam solenemente esperar a madame rumo à sua lua-de-mel. E recebê-la com aplausos e pétalas de rosas. Aqui não discuto se a lei é cumprida efetivamente ou não. Isso não está na pauta, embora seja, sem dúvida, seja fator determinante nesse tipo de acontecimento. A questão que coloco é relativa tão somente à cultura e a relação que determinados sujeitos estabelecem em no que concerne às regras e normas.

No país da impunidade, realmente quando se cumpre alguma norma, causa-se estranheza. Ser ético, por essas bandas, é aberração. Caso para colocar numa jaula e vender para algum espetáculo circense. O "morto de fome" só fez cumprir com sua obrigação. E, ali, cumprindo com seu dever profissional, não interessa se ele é morto de fome ou um empanturrado de caviar. Nem deveria interessar se a médica chiliquenta fosse a esposa do dono da Gol, se fosse o caso.

A corrupção e o "jeitinho", infelizmente, estão não só institucionalizados no Brasil, como arraigados e quase naturalizados na cultura do cidadão comum. A moral coletiva, a cidadania, que talvez jamais tenha efetivamente existido em nosso país, em que até a independência foi realizada por meio de conchavos elitistas, está soterrada.

Ah, o caso não deu em nada. O delegado entendeu que "não houve flagrante" de racismo no referido caso. Ô, beleza. Mas não tem problema. Em fevereiro, ali, batendo na porta, já tem carnaval. Viva a cultura brasileira. Ô esquindô, esquindô!

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