quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A carta

Para Aurélio, nada nunca foi exatamente fácil. Era um já calejado homem de 33 anos. Sua vida foi nada mais do que um acúmulo quase fatalista de decepções. Tinha uma filha, Patricia, de quem cuidava sozinho, abandonado que fora pela ex-mulher. Materialmente, estava restrito, limitado, mal conseguia sobreviver e manter a dignidade e o bucho cheio da menininha de três anos.

Aurélio estava, pois apaixonado. Boba e inexplicavelmente apaixonado. Beatriz era o alvo dos afetos advindos de seu coração. A via praticamente todos os dias, no ônibus de volta para a casa, após os estafantes dias de trabalho intenso. Conversavam algumas vezes. Ela falava sobre a vida, o ex-marido que ela ainda dizia amar, o trabalho. Aurélio ouvia, por vezes aconselhava, tentava dar a visão masculina nesse tipo de relação, e não poucas vezes dava à moça esperanças em relação ao ex, mais para não vê-la chorar, e também para não correr o risco de dar a entender que era um gavião pronto a dar o bote, embora pensasse, decididamente, que aquele cara de quem ela falava era um cafajeste que não merecia tão linda e incomparável mulher. Queria, ora, mostrar que era confiável, mesmo que mentindo, pura e simplesmente para não parecer um canalha oportunista.

O homem se corrroía por dentro a cada vez que via Beatriz. Era inevitável como a expressão de dor quando uma afiada navalha lambesse sua barriga. Ele sonhava com ela, e queria ser algo mais. Ele queria provar ser merecedor de Beatriz. Tinha um tanto de medo, temor mesmo, afinal, não queria estragar a confiança um dia conquistada. Não queria correr o risco de comprometer a já bonita amizade que ali estava desenhada. Afinal, seria melhor ser um amigo que despertasse simpatia do que um pretendente melancolicamente desprezado.

Mesmo assim, certo dia Aurélio encorajou-se. Ao subir no ônibus e fitar Beatriz, entregou-lhe um envelope com uma singela carta que havia escrito. Tentava ser direto, sem, no entanto, dar subsídios para que ela o magoasse. Ali, dizia adorar Beatriz, e que ela era uma mulher especial, admirável. Ela lia e sorria, talvez meio consternada. Aurélio estava, àquela altura, vermelho, com o coração disparado, saindo pela boca. Tinha quase certeza de que havia feito uma bobagem sem tamanho. Tanto era assim, que pensou inclusive em pedir desculpas para Beatriz, que ela esquecesse aquele equívoco, que ela deixasse de lado tal momento de fragilidade. Pensou, mas não falou.

Os olhos de Beatriz marejaram. Sorria com surpresa na face. Aurélio olhava para baixo, a perna incontida, o ônibus, as pessoas em pé. Aquilo tudo era uma espécie de fiasco surreal. Estava quase em transe. De repente, o mundo todo pesava sobre seus ombros e cabeça, que instantaneamente começava a doer. Era um apocalipse espiritual, um dia depois de amanhã. Minutos de apneia. Já não havia mais oxigênio, apenas constrangimento e espera amarga pelo riso, pela piada, pela nova tristeza, pela repetição das limitações e soterramento das esperanças. Mais uma vez.

Eis que, então, a moça olhou docemente para Aurélio. Passou os dedos pelo seu rosto, aconchegando-o, acalmando-o. Beijou-o. Suas línguas se encontravam e acariciavam de forma lenta, meiga. Já não havia mais cobrador nem motorista. Não havia mais nenhum passageiro. Não havia barulho, nem trânsito na rua. Rua? Que rua? Olharam-se, então, e sorriram mutuamente. Aurélio radiava de meio descrente felicidade. Ela existia! A vida dele fazia sentido! Estava, agora, tudo certo e calmo. Valeu a pena! O amanhã é imprevisível. O eterno amanhã, finalmente era hoje. Hoje. Viver é esperar e ter esperança. Angustiada esperança, por vezes. Neblina, escuridão. Mas há, e sempre há, um sol por nascer. Tem de haver. Todos merecem sorrir.

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