segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Parabéns ao Flamengo, campeão brasileiro de 2009

O Flamengo se sagrou campeão brasileiro na tarde de ontem, e da minha parte, recebe as sinceras congratulações. O time rubro-negro, que começou a rodada com 61 pontos, terminou com 67 (três da vitória de ontem, contra o Corinthians, e três da vitória do próximo fim de semana, contra o Grêmio), não podendo, dessa forma, ser alcançado por nenhum dos concorrentes.

O Inter, em sua partida contra o Sport, não jogou nada demais. Aliás, só começou a realmente jogar a partir da metade do segundo tempo. Ganhou, fez o máximo que estava ao seu alcance, e está na Libertadores do próximo ano. Agora, no próximo fim de semana, o time colorado jogará contra o Santo André na busca do vice-campeonato. Haja visto que há poucas rodadas atrás até o famigerado G4 estava escorrendo pelos dedos, seria um belo prêmio de consolação em uma competição em que o colorado abusou do direito de errar e jogar pontos preciosos no lixo.

Não foi ontem que o Inter perdeu o título, claro que não. Foi no momento em que, durante a maldita janela não trouxe um lateral-direito de ofício. Foi no momento em que vendeu Nilmar sem reposição à altura. Foi quando demorou uma eternidade para demitir Adenor Bacchi do comando técnico. Foram equívocos em excesso.

Mas, mesmo com essa série de erros escabrosos, o Inter se classificou para a Libertadores. Não deve comemorar isso como um grande feito. Comemorar vaga é coisa pra time pequeno. E agora pode chegar, em caso de vitória, ao terceiro vice-campeonato nacional nos últimos cinco certames. Não é título, não é glória, não dá taça nem volta olímpica. Mas, mordiscando, mordiscando, de repente uma hora o colorado ganha o tal de Brasileirão.

Me despeço por hoje mais uma vez saudando o Flamengo, merecido campeão brasileiro de 2009, e avisando aos irmãos de continente: saiam da frente, que em 2010 o Inter vem quente em busca do Bi da Libertadores e do Bi Mundial.

domingo, 29 de novembro de 2009

Inter: fazer a sua, sem pensar no resto

O Inter tem uma obrigação, hoje, contra o Sport, e domingo que vem, contra o Santo André: fazer a sua parte. Ganhar as duas partidas. Se o São Paulo vai perder, o Flamengo empatar, isso é secundário. Em um campeonato em que muitas vezes o colorado deixou de fazer o seu, enquanto tudo dava certo nos resultados paralelos, a ordem tem que ser somente essa: baixar a cabeça e fazer a sua. De resto, o que tiver que ser, se tiver que ser, vai ser.

Continua muito difícil ganhar o Brasileirão. O Flamengo vai pegar dois times que, digamos, não farão maiores esforços para não serem derrotados. O São Paulo, sim, corre perigo: o jogo diante do Goiás dos eternos Iarley e Fernandão vai ser cascudo. Para o time do Morumbi, é a grande final. Ganhando, é campeão. O que não daria para aceitar é se, por alguma ironia dos deuses, os resultados propícios viessem a acontecer e o Inter negasse fogo nesses seus dois jogos.

A Libertadores está praticamente garantida. O Internacional teria de ser o supra-sumo da incompetência para deixar essa bendita vaga escorrer pelos dedos. O título, é um sonho que se reavivou nas últimas rodadas. O sobrenatural de Almeida conspirou de todas as formas possíveis e imagináveis para o colorado ser campeão. Haja visto que poderemos ter um campeão com 65 pontos! 65 pontos! Medíocres 65 pontos!

Agora não adianta lamentar os (muitos) erros cometidos durante a temporada. Rocambolicamente, o Inter está vivo. E tem pela frente dois jogos contra mortos e/ou moribundos, com todo o respeito que Sport e Santo André merecem. É hora de esquecer o que passou, e unir torcida, direção, jogadores e comissão técnica nessa meta pra lá de alcançável: seis pontos nos dois próximos jogos. Depois, no fim do ano, com ou sem taça no armário, aí sim, o colorado terá que se repensar. E profundamente.

sábado, 28 de novembro de 2009

O homem e as intimidades

O sol brilha, dando um colorido especial ao gramado, às árvores, às folhas. Isso faz todo o sentido para Gustavo. Ele está sentado num parque, pensando em seu passado. Banhava-se nos raios solares com paz interior e uma tranquilidade que parecia até então não ter experimentado.

Deitou-se, fechando os olhos. Sonhava, criava cenários mentais, ouvia a harmoniosa sinfonia do canto dos pássaros. Ele gostava disso. De repente, quando abriu os olhos e voltou a sentar, deu de cara com uma moça deitada, pernas flexionadas, um vestido mais do que curto, e uma calcinha vermelha, cavadíssima, atochadíssima. De frente.

Era casado. E aquilo parecia um ímã para seus olhos. O gramado, o sol, as árvores, tudo tornara-se moldura daquela imagem íntima, intimíssima, da moça. Aquilo era canalhice pura, uma verdadeira cafajestagem. Sentia-se constrangido, sentia-se observado. Mas seus animalescos e carnais instintos remetiam seus globos oculares, inevitavelmente, para aquele corpo exposto, as nádegas brancas, macias e sobressalentes, a calcinha tão reveladora, úmida do calor que fazia no local.

Gustavo imaginava-se cheirando aquela calcinha. O odor daquele suor vaginal havia de ser um perfume dos deuses, um tanto hipnótico. Sentia vontade de beijar cada centímetro daquelas intimidades, despudoradamente. Gustavo sentia-se um sortudo. A sorte de observar aquele corpo de ângulo tão incrivelmente privilegiado era tão grande quanto ganhar uma Mega Sena.

O ímã continuava lá, remoendo-o, lembrando-o com certa vergonha de que tinha uma esposa, um casamento, instigando-o, deixando todas aquelas sensações primitivas em estado de nudez. Aquele corpo feminino não só revelava as curvas e carnes de uma mulher. Revelavam o homem por de trás de toda a moral, bons costumes e normas. As normas, a moral, afinal, servem também como uma forma de cercear os instintos humanos, já que suprimi-los é impossível.

Ali, naquele gramado, Gustavo e as intimidades da moça criavam uma espécie de relação conflituosa interior no homem. Era um duelo sangrento do id com o super-ego. Às vezes, é inevitável: o id vence.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As três grandes potências futebolísticas do continente

Tem muita gente que olha atravessado para a LDU do Equador. Simplistamente, utiliza-se o argumento de que a equipe só ganha por causa da altitude, e outras balelas que tais. É óbvio que a altitude faz diferença. Mas não faz tanta diferença a ponto de transformar a equipe na potência que hoje ela é. Fosse tanta a discrepância, o The Strongest da Bolívia seria octa-campeão da América.
A verdade é que os anos 2000 serviram para afirmar três grandes potências no futebol do continente: Boca Juniors, Inter e LDU. O Boca, apesar de evidentemente já ser um grande clube, obteve suas maiores glórias na década presente. O Inter, um gigante em seu país, finalmente ultrapassou o âmbito doméstico, assim como a Liga Deportiva Universitária. Com o eminente título da Copa Sul-Americana, apenas estes três clubes poderão se gabar de possuírem a tríplice coroa continental: Libertadores, Sul-Americana e Recopa. São, precisamente por isso, a força que são.
Isso só serve para respaldar o valor que sempre dei às competições continentais. Cansei de defender, e continuarei defendendo, que a Copa Sul-Americana é mais importante do que qualquer campeonato nacional. Quantos países assistiram ao jogo da última quarta? Quantos países assistirão, por exemplo, a última rodada do Brasileirão? Essa é a grande diferença. E é uma questão geográfica mesmo: o continente é maior que o país, ora bolas.
Não é à toa que o slogan das chamadas da Sul-Americana na Fox Sports é "La otra mitad de la gloria". É uma competição que vem ganhando cada vez mais charme, dá status, e apenas o arrogante futebol brasileiro a considera um incômodo. O fato de a Libertadores ser mais importante não torna a Copa Sul-Americana uma competição desprezível.
Vencer, aparecer no cenário continental, é sempre prestigioso. É por pensar assim, grande, que Inter, Boca e LDU possuem essa espécie de hegemonia. E enquanto os outros continuarem pensando pequeno, a tendência é que venham a dominar ainda mais o cenário do futebol continental.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Estética e alienação

Estava vendo agora no site Globo.com uma matéria sobre um garoto romeno de 5 anos que se notabiliza por ser musculoso (http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,,MUL1355224-6091,00-MENINO+DE+ANOS+EXIBE+MUSCULOS+DE+RAMBO+E+QUER+RECORDE.html). É, no mínimo, estranho, um tanto assustador. Assim como é assustadora a transformação dos valores sociais em geral (sim, é muito complicado falar em valores gerais. Entretanto, no mundo globalizado, não chega a constituir de todo um absurdo), a desvalorização de muitas e muitas coisas importantes em detrimento de futilidades superficiais.
Nesse mundo cada vez mais midiático, irracional, guiado meramente pelos sentidos, os valores estéticos, músculos, bunda, silicone ganham um relevo inacreditável. Já não se busca mais a intelectualização, a gentileza, o bem viver da essência do espírito, da alma, da existência, ou chame como quiser. Definitivamente não importa mais ser. Somente parecer. E aparecer. Lamentavelmente.
Ocorre uma brutificação da imagem masculina, e uma sexualização da imagem feminina. No fim das contas, salvo raríssimas exceções pensantes que, ainda bem, ainda existem, o ser humano, no prisma das culturas de massa e alienantes, tornou-se puro pedaço de carne, tal qual uma chuleta ou uma alcatra exposta na vitrine do açougue. Os homens lutam para parecer estúpidos bolos de carne e músculos, rasos e rasteiros até para diferenciar um livro de um repolho.
As mulheres, por sua vez, tem como referência célebres figuras do feminismo pós-moderno como Mulher-melancia, Mulher-melão, Sabrina Sato e a mais nova sub-celebridade Geisy Arruda (fique claro, com isso não quero nem de longe legitimar a imbecilidade de seus colegas de Uniban, os quais critiquei enfaticamente aqui mesmo no DC). O que está na pauta é: que fenômeno é esse de a-valoração ou re-valoração que estamos vivendo nos dias de hoje?
Criticar os indivíduos médios da sociedade beira à covardia. Eles são mais produtos do que produtores. No máximo, são reprodutores dessa contelação de novos e contestáveis sistemas valorativos. Há, isso sim, uma violenta influência midiática sobre a sociedade. A pauta da vida das pessoas é a pauta escolhida pelos grandes veículos de informação, comunicação e entretenimento, cujos donos pertencem a um recorte social bem definido e específico.
Esses setores tem em mente que as massas estão entregues exatamente às suas mãos. Não quero aqui, de nenhuma forma, defender que as pessoas são desprovidas de capacidade de determinar o que lhes serve e o que não lhes serve. Mas elas são, sim, limitadíssimas, porque tem acesso a meios escassos de informação e entretenimento, que por sua vez compartilham objetivos e estratégias de progressivamente tornar o conjunto das pessoas das classes menos abastadas mais e mais ignorantes e distantes de todo e qualquer senso crítico.
O esvaziamento da dimensão intelectual exige um novo preenchimento. Aí, entram os fatores estéticos. Amigo telespectador, não tenha cérebro, é muito complicado: tenha bíceps e abdômen! Amiga de todas as tardes, não reflita sobre nada, esqueça os políticos e donos do poder: exercite os seus glúteos! É ou não é esse tipo de bombardeio que se vê na construção promovida pelos meios de comunicação?
Se ainda tiver dúvidas, caro leitor, tire cinco minutos do seu fim de tarde para ver Malhação (mais do que cinco minutos podem causar danos irreversíveis à massa cinzenta, por isso, não recomendo, sob hipótese alguma). Você verá exatamente do que estou falando. Lá está uma aula do tipo de socialização e de formação imagética do adolescente dos dias de hoje: estúpido, fútil, incapaz de pensar com uma profundidade que ultrapasse um centímetro.
Sorte é que, e essa é a minha gota de esperança, que ainda há algumas mentes pensantes por aí. Pessoas com quem somos capazes de falar coisas minimamente importantes e relevantes. Não faço uma apologia à feiura. Somente acho isso secundário, secundaríssimo. É uma cereja do bolo. No máximo. E só.
Entre Kafka e Bruna Surfistinha, fico com o primeiro. E tenho dito.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ensaio sobre o cocô

Não sabemos se nos próximos dias, nas próximas semanas e nos próximos meses estaremos tristes ou felizes, no paraíso ou no inferno, motivados ou deprimidos. Mas sabemos que, de um jeito ou de outro, faremos cocô. O cocô é uma das poucas certezas que temos na vida.

O cocô é nojento e fede. É uma obra de arte bizarra do nosso organismo. O ânus e as nádegas também contribuem, esculpindo a plasta marrom. Claro, há os dias em que o corpo se recusa a tornar tal ato em obra burilada. Às vezes sai, e pronto. Sem forma mesmo, em estado líquido. É arte pós-moderna.

Quando soltamos o bendito barro, principalmente quando tomados de incontrolável desejo, ah, é sublime. Um verdadeiro ato libertário. Vaso sanitário ou morte! Quando, no trono, nos livramos daquele negócio agora inconveniente, que ontem ou anteontem era uma saborosa lasanha ou um delicioso pudim de leite condensado, aquilo, somente aquilo, configura todo o sentido da vida.

Além disso, o cocô é democrático. Da minha bunda sai cocô. Da bunda da Sabrina Sato sai cocô. Da bunda do Lula sai cocô. Da bunda do Serra sai cocô. Da bunda do Sarney sai cocô. Da bunda do Obama sai cocô. Da bunda do Hitler também saía. É claro que, merda por merda, tem gente que a tem na cabeça. Tem gente que fala merda. E tem gente que escreve merda. Tipo, eu.

O cocô também sabe, e como sabe, constranger. Exame de fezes, por exemplo. É um constrangimento e um incômodo duplo. Primeiro, quando se tem que encaixar o bendito copinho no rabo e mirar. E não pode ser muito grande, sob pena de o copinho não aguentar e aquele merdelê, argh, bater na mão. Não bastando isso, depois ainda temos que levar o tal copinho de mousse de chocolate para o laboratório. Oi, moça! Tá aqui o meu cocô.

O cocô é um mal necessário. Não há como viver sem o cocô. Agorinha mesmo, tenha a certeza fatal, caro leitor: há pelo menos um pouquinho dele dentro de você. E quando você for à praia admirar belas bundas em minúsculos biquinis, lembre-se, pelo menos por prazer sádico: aquelas belas bundas em minúsculos biquinis também cagam.

Bom, por enquanto chega. Esse texto ficou uma merda. E estou cagando e andando pra isso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Teimar

Não há mais remorsos.
Tudo o que devia, tudo o que podia, foi feito.
Sabe que não há mais nada, não há mais esperas ou esperanças.
Ou há?
Ah, sempre há!

Teimar, por vezes, é virtude.
Querer, ora, não é crime.
Ainda não é.
Mas as ambições e sonhos parecem sempre uma mesquinhez egoísta e inalcançável.

Há como se buscar o que se deseja, de um jeito ou de outro.
Deve-se ressurgir, ressuscitar.
Onde houver um sopro de chama, haverá um doido, lunático, sincero sonhador.
E é bom que haja.

É isso o que buscamos, é isso o que realmente alimenta.
É guardar, sim e sim, o improvável e o imprevisível.
É não desistir.
O bálsamo está no coração.

Com ou sem sinceridade, de algum jeito valeu.
Mentiras sinceras me interessam, diria Cazuza.
Valeu sim, tenham certeza.
Isso é alegrar-se com alguma motivação.
A motivação de deitar a cabeça no travesseiro pensando no amanhã.
E sonhar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Inter x Atlético Mineiro: o jogo mais importante de 2010

Não, caros leitores, eu não estou maluco, nem tampouco errei na digitação do título desse texto. O jogo dessa noite entre Inter e Atlético é o jogo mais importante de 2010. É hoje que vai se traçar o ano que vem do clube vermelho e branco. Ou vamos para a Libertadores da América, ou vamos para a Copa do Brasil, jogar contra potências como Rondonópolis, Anapolina, Joinville e CRB de Alagoas.

É decisivo, sim. Vencendo, ou até mesmo empatando, graças ao empate do Cruzeiro ontem, o time colorado estará na próxima Libertadores. Claro, parto da premissa de que é obrigação absoluta ganhar do Sport rebaixado na Ilha do Retiro, no Beira-Rio, na Bombonera ou no Santiago Bernabeu. E depois, no Gigante, contra o provavelmente também rebaixado time de masters do Santo André, nem falo.

Mas para isso, teremos de ver um time corajoso, disposto, com espírito de final no Mineirão. Hoje, os fracos, cagalhões e pusilânimes não tem vez. É jogo pra macho. Como diria o pastor, filósofo e garoto-propaganda do Grecin 2000 Tite, é jogo pra quem tem cabelo no peito. Se tem neguinho a fim de só aparecer pras "Orópia", que nem se habilite a jogar (viu, seu Sandro?): inventa uma dor de cabeça, uma unha encravada ou um prurido anal incontrolável. Mas postura desinteressada, ninguém que adentre o gramado na partida de hoje pode ter. É o Inter. É pelo Inter. Só pelo Inter.

E não esqueçamos: do outro lado está o Rubinho Barrichello dos treinadores, Celso Roth, com sua carinha de galã bizarro de filme pornô. Eu sei, eu sei que o nosso treinador, Mário Sérgio, também não passa de um Fisichella pilotando uma Ferrari 2009. O Inter realmente tá com um jeitão de Ferrari 2009: grande, forte, respeitável, mas irregular, instável, sem o acerto ideal, meio rengue-rengue. Mas hoje, como diria o pai do Cacá Bueno, é dia de colocar a faca entre os dentes e partir pra cima.

Claro, com suficiente consciência para não bater na traseira de uma Force Índia qualquer e liquidar com a nossa corrida. Digo, partida.

sábado, 21 de novembro de 2009

Rotinas

Leio no Globo.com notícia a respeito de uma adolescente que foi espancada até desmaiar na porta de uma escola em Guarulhos, São Paulo. Tudo isso foi devidamente filmado por colegas, em meio a risadinhas joselíticas. Novidade? Espanto? Claro que não. Isso é cada vez mais recorrente na rotina escolar brasileira.

Infelizmente, o ambiente escolar é um ambiente cercado de violência física e psicológica. Num momento em que está em voga a formação do caráter de crianças e adolescentes, o cenário é exatamente este: salvo exceções, e sempre há exceções, o cenário é de retardo mental absoluto. Claro que isso não é culpa exclusiva de crianças e adolescentes. É todo um contexto que se torna propício à formação desse tipo de personalidade. Alguns escapam. A maioria, não.

Começamos tudo pelos processos de socialização ocorridos fora da escola, que acabam por praticamente condicionar os padrões comportamentais distorcidos de hoje em dia. Essas crianças e adolescentes crescem sob uma estrutura de valores muito bem determinada: competição a todo custo, dinheiro, tênis e roupa de grife, estética, superficialidade, rotulação e segregação de "vencedores" e "perdedores". Ou não é isso que se vê na televisão? Ou não é isso que se percebe sensivelmente na sociedade como um todo?

Pois bem. Sobra para o ambiente escolar tentar reverter tudo isso. Sobra um ambiente escolar com professores (pelo menos na esfera pública) mal pagos, desmotivados, sem estrutura, falando com crianças e adolescentes que, em sua esmagadora maioria, não estão nem aí, e só se fazem presentes por obrigação e, por vezes, para fazer uma merenda que em casa não tem. O que acontecerá, então, senão mera reprodução dos valores extra-escolares? Como a escola virará esse jogo se ela não tem recursos materiais suficientes, em meio à grande negligência educacional verificada nas políticas públicas brasileiras?

É essa constelação de fatores que nos faz ver em jornais e sites, presenciar também, cenas grotescas protagonizadas por crianças e adolescentes nesse Brasilzão de meu Deus. Pura e simplesmente culpá-los por tudo isso é hipocrisia em estado primário. É, mais do que isso, desonestidade intelectual, ou burrice mesmo, por não se levar em conta uma série de ingredientes que faz desses sujeitos produtos de uma sociedade embebida em valores distorcidos e anti-humanos.

Punir crianças e adolescentes é pouco. Pouco que provavelmente desembocará em resultado nulo. Reestruturar a educação é um pouco mais, e pode resultar em avanços significativos. Tal tipo de medida não pode ser perdido de vista. Subverter a lógica da sociedade é árduo, um tanto utópico: mas é a única forma de se mudar verdadeiramente a substância, a essência, desses processos de socialização autodestrutivos e segregadores. Mude-se a lógica então, ou pelo menos tente-se, em microespaços de convivência, que seja. Pode ser um começo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

E fez-se a luz!

Passei praticamente o dia todo de ontem às escuras. Após o breve passeio de início de tarde dos cavaleiros do apocalipse por Porto Alegre, lá pelas quinze horas faltou luz para somente voltar hoje no meio da manhã.

O lado bom disso é que fui dormir cedinho, e acordei com a bateria totalmente recarregada. Mas, confesso, desde pequeno fico um tanto angustiado quando falta luz, e os raios e trovões ocupam os espaços dos meus pensamentos. A sensação que me dá é que a CEEE esqueceu completamente que eu existo, e que nunca mais a luz vai voltar. Mas volta. A luz volta. O sol volta.

Talvez seja uma tendência intrínseca à minha pessoa encarar a vida exatamente dessa forma, como nos dias de temporal e de convidativo sol. Quando a coisa tá preta, e os raios cortam o céu, sinto como se jamais eu fosse sair das profundezas do abismo. Mergulho em minhas tristezas e, um tanto medroso, superficializo minhas alegrias. Quando a situação é boa, sinto-me como no prelúdio da tragédia. Como se a mim não fosse reservado o direito de ser verdadeiramente feliz. É como se houvesse uma preponderância inevitável daquilo que é negativo. Como se tudo de bom que se vive fosse tão somente uma ilusão, uma trapaça da vida para tornar a queda ainda mais dolorosa.

Fato é que a luz sempre volta. O sol sempre volta. E eu tenho que de alguma forma me acostumar com isso: tanto as tristezas quanto as alegrias sempre voltam. Com novas capas, novos embrulhos, mas sempre voltam. O negócio, então, é ter sempre esperança e humildade. Esperança para ter a certeza de que tudo passa, tudo melhora. Humildade para saber que o que é bom também passa, não somos senhores do tempo nem do espaço. Mesmo assim, vivamos, simplesmente vivamos. Curtindo o que há de melhor, e esperando as tempestades passarem, quando estas venham a surgir no céu.

Tenham certeza, caros leitores, isso não tem nenhuma pretensão de auto-ajuda, até porque eu jamais seria alguém indicado para isso. É simples constatação empírica.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Leilão

Quem dá mais? Quem dá mais? Está em bom estado, vejam só! Observem, observem! O lance inicial é de quinhentos reais! Foi pouco usada! Estou ouvindo mil? É isso mesmo? Milzinho? Mil, mil, mil! Quem dá mais?

Olhem só, vale a pena! Vale muito a pena! É barbada! Não vai ser fácil achar outra dessas! Quero ouvir mais ofertas! Duas milhas! Dois mil reais, vejam só! Ouvi sete mil? Nossa! Sete mil, sete mil! Dou-lhe uma! Dou-lhe duas! Opa! Dez mil! Isso mesmo, dez mil! Vejam bem, vejam bem! É extraordinária! Quinzinho? Quinze mil! Quinze mil, senhoras e senhores! Dou-lhe uma... Viiiiinte mil! Vinte mil reais! Tá valendo mesmo! Acho que vale mais! Vale mais! Vale mais!

Trinta e seis mil, o amigo ali! Trinta e sete! Tá subindo, tá subindo! Quarenta mil da moça ali! Quem dá mais? Quem dá mais? Não percam tempo! Ofertas, mais ofertas, por favor! Vocês não vão se arrepender! Sessenta! Sessenta e cinco ali no canto! Opa! Cem mil do senhorzinho ali! Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Cento e cinquenta mil! E vale mais! Vale mais e vocês sabem que vale mais, senhoras e senhores!

Maravilha! Duzentos e cinquenta mil! Vejam bem, é maravilhosa! O jovem magnata da esquerda disse quinhentos mil? É isso mesmo? Que beleza! Um milhão praquele senhor de gravata cinza! Quem dá mais? Quem dá mais? Cinco milhões pra madame! Cinco milhões! O jovem magnata ofereceu a alma? É isso mesmo, a alma do jovem magnata!

O senhor da gravata cinza? Estou ouvindo bem? Dez milhões mais a alma? Quem dá mais? Alguém dá mais? Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Dou-lhe três... Vendido! Vendido! Parabéns ao senhor de gravata cinza! Por dez milhões e mais a alma, o senhor acaba de comprar a felicidade! O senhor fez uma ótima aquisição!

Ladrões de sonhos

Os ladrões de sonhos estão por toda parte. Eles se disfarçam. Parecem aconchego. São lâmina. Em qualquer coisa que façam, estão prontos para a tortura, a morte psicológica diária. Eles se camuflam tal qual um soldado em guerra no meio da floresta.
Os ladrões de sonhos sorriem. São verdadeiros saqueadores da essência humana. Os ladrões de sonhos estão rodeados de seguidores. São gangsters conscientes e bem treinados. Eles são intocáveis. Eles preponderam, de um jeito ou de outro.
Aliar-se a eles ou contrapor-se e ser furtado: os dois caminhos possíveis. Furtem-me, então! Renego e cuspo sobre suas malditas intenções. Os ladrões de sonhos são, a bem da verdade, seres patéticos sem verdadeiros e próprios anseios. São reprodução incolor e sem graça.
Sonhos, afinal, não se roubam. Eles tentam, levam, agem. Mas, na verdade verdadeira, sonhos não se roubam mesmo. No máximo, se postergam. Não há como arrancá-los de nossas entranhas. Eles sempre estarão lá, mesmo que momentaneamente apagados ou imperceptíveis.
No fim das contas, continuamos com nossos sonhos, apenas em uma espécie de letargia. E eles, os ladrões de sonhos, continuam sem nada, vivendo na superficialidade de objetivos vazios. Eles, os ladrões de sonhos, estão acordados. Por isso, na verdade, nada faz sentido para eles.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O jantar

Estela estava cheia de expectativas. Era uma quarta-feira, e ela pediu ao chefe para sair mais cedo e preparar um jantar especial. Naquele dia, ela completava 10 anos de casamento com Paulo.

Chegando em casa, tratou de preparar com as próprias mãos um verdadeiro banquete. Lasanha de quatro queijos, macarronada, uns cinco tipos de saladas, vinho do Porto. Ela tinha prazer em fazer aquilo. Cuidadosamente, atentou para cada detalhe para que tudo fosse perfeito, simétrico. Tinha de ser especial. Tinha de ser inesquecível.

Acendeu velas na mesa, deixou os pratos perfeitamente dispostos, e foi tomar banho. Vestiu seu mais lindo vestido, vermelho, revelador na medida exata. Maquiou-se delicadamente. Ficou lindíssima, o máximo que seria capaz de ficar, e realmente é uma mulher de boas feições. Tratou de ficar fatalmente estonteante.

Tudo pronto, apagou as luzes e ficou aguardando. Dali a pouco, Paulo chegaria. E assim foi. Passaram-se cerca de dez minutos, e o barulho da chave na porta denunciava a chegada do amado. Ao chegar, Paulo olhou com fria surpresa. Sim, existe essa modalidade: a fria surpresa. Apagou as velas e acendeu as luzes.

- Amor, hoje fazemos cinco anos de casados, né?- disse Estela, como que justificando o cenário.
- Ah, é mesmo...- respondeu Paulo.

Comeram, beberam o vinho, silenciosamente. Tudo o que Paulo limitou-se a dizer é que estava com dor de cabeça. Só. Não sinalizava gostar ou desgostar da lasanha, do macarrão ou das saladas. Mas comeu tudo. Ao terminar de comer, Paulo dirigiu-se ao banheiro, para banhar-se. Estela dirigiu-se ao quarto.

A moça vestiu seu lindo baby doll novo, comprado durante o horário de almoço daquele mesmo dia, e aguardava na cama, recostada sobre o braço direito. Paulo chegou, ainda com a toalha na cintura, e vestiu seu pijama. Desejou boa noite, deitou, virou-se, e dormiu. Estela ainda teve de apagar a luz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cansaço

O espetáculo, meus caríssimos amigos, acabou.
Quando se está perdido, sem rumo, tudo é ridículo.
Ainda corre nas minhas veias a ingênua vontade de prosseguir.
Tudo, amicíssimos, digníssima plateia, pode ser resumido em uma palavra: cansaço.

Cansaço dos julgamentos, dos jogos de certo e errado.
Cansaço das lágrimas patéticas.
Cansaço de fingir estar tudo bem, quando, por dentro, estou implodindo.

Não riam, amigos, de mim.
Já não tem mais graça.
Faço muito o que (não) devia.
Este sou eu.
Cru, cruel, sem cortes, este sou eu.

Tenho fraquezas mil, e quem não as tem?
Vivo mergulhado num remorso de um crime que cometi e não sei ao certo qual é.
Desculpas e desconhecido.
Desconhecido eu mesmo, o que faço, o que vivo.

Já não adianta mais rezar.
O martelo está batido.
Culpado!
Matei, roubei, amei?
Não interessa! Culpado!

Não gostaria de estar aqui.
Ah, cansaço! Cansaço que me corrói.
Já não posso me olhar no espelho.
Não consigo digerir a mim mesmo.

Perdi a noção e o tempo de tudo que acontece.
Não há como nascer de novo, melhor, mais adequado.
Por favor, não me observem mais.
Tirem-me da maldita jaula, não sou e não quero ser um espetáculo circense.
Levem-me para longe.
Para um lugar onde eu não precise pedir desculpas.

domingo, 15 de novembro de 2009

Inter, não te peço esse campeonato

Algumas coisas se desenham como certas, escritas nas estrelas. Não adianta mais nós colorados, se é que ainda há alguém que pensa assim, sonharmos com o título. A taça está caindo no colo do São Paulo, o time menos incompetente do certame. Nos resta pedir, como um mendigo implora 50 centavos para a pinga, uma vaguinha na Libertadores 2010. Nosso prêmio de consolação passa pela noite de hoje, contra o Santos, no Beira-Rio. O momento é de tanta frustração e desolação, que não sei direito nem a quem me remeter.

Para quem poderia, eu, pedir os três pontos de hoje? Quem seria capaz de me ouvir ou ler e dar uma resposta? Píffero e Carvalho, nossos protótipos de Eurico? Não, não. Mário Sérgio, o maluco beleza da casamata? Pois é, também não. Lauro, o melhor goleiro-de-nível-de-Portuguesa da história do Inter? É brabo. Índio, o lenhador de braços cansados? Na-na-ni-na-não. Kléber, o bom e displicente lateral-esquerdo colorado? Não. Guiña, atualmente mais loco do que perro? Infelizmente, não rola. Taison, o artilheiro que não faz gols? Tsc, tsc... Alecsandro, o Steven Seagal que se acha Al Pacino? Muito menos.

Hoje recorro, e é a única coisa que me sobra, à instituição Sport Club Internacional. O que me resta é isso, o S, o C e o I entrelaçados. A situação é tão complicada que até a Guarda Popular ficará em silêncio no início do jogo. Píffero e Carvalho conseguiram o que até hoje nenhum adversário conseguiu: calar a Popular. Pois é à mística da camisa vermelha, que poucos ali vem honrando nos últimos meses, que faço essa espécie de oração.

Ganha, Inter! Busca essa vitória, tenta resgatar um pouco da dignidade já perdida! Apesar dos desalmados que te implodiram, tu, colorado, ainda és grande. És o único time gaúcho campeão mundial aprovado pelo Inmetro. Já não te peço mais esse campeonato. Mas te peço essa vaguinha na Libertadores, pra tirar um pouco do gosto ruim da boca. Ainda dá.

sábado, 14 de novembro de 2009

Na loja de roupas

Renato e Cláudia estão numa loja de roupas, no shopping. São um jovem e bonito casal. 1 ano de namoro, talvez um pouco mais, um pouco menos. Cláudia, como mulher que se preza, demora-se horas para escolher suas roupas. Ir à loja de roupas, com qualquer mulher que seja, é sempre um exercício de resistência. Renato resolveu, então, ir ao segmento masculino, apenas para olhar camisas, sapatos, bonés, qualquer coisa que fizesse o tempo passar. Tal segmento ficava do outro lado da loja, mas de modo que ainda tornava visível o todo. Exatamente por isso, Renato fitou, de longe, o atendente que era seu amigo de tempos atrás, Sérgio.

Enquanto Renato olhava os tênis Nike e Adidas, do outro lado, Sérgio atendia Cláudia. Renato, de longe, apenas olhava. Sérgio, muito simpático e solícito, apresentava diversos tipos de roupa a Cláudia. Conversavam os dois. Renato, a essas alturas, estava somente observando aquele estranho movimento, aquela assaz incômoda conversa dos dois. Não era simpatizante da simpatia entre homem e mulher. Muito menos quando a mulher em questão era a sua. Pareciam combinar alguma coisa. A distância permitia-lhe, apenas, conjecturar sobre o que falavam Sérgio e Cláudia. Na despedida dos dois, beijos no rosto. Malditos beijos no rosto. "Vá beijar a puta que te pariu, Sérgio!", pensou um já nervoso e irritadiço Renato.

Voltou, após a descontraída conversa de sua mulher com outro homem, para perto dela. Ela havia escolhido a roupa que o tão benevolente e solícito Sérgio havia lhe indicado.

- Mas... é o gosto dele que lhe interessa, Cláudia?- indagou Renato.
- Claro que não, Renato! Ele apenas me alertou, e realmente gostei da roupa.- respondeu a moça.

O mal-estar àquelas alturas dos acontecimentos já era absolutamente inevitável. Sérgio viu Renato conversando com Cláudia. E se aprochegou novamente. Cumprimentou entusiasticamente o amigo. Para Renato, já, ex-amigo. Friamente apertou a mão e olhou secamente para os olhos de Sérgio, como quem diria: "O que você está querendo, afinal?".

- Vamos, amor, antes que a fila aumente.- convidou Renato à namorada.
- Vamos, sim!- disse ela, não sem antes dar mais um beijo no rosto de Sérgio.
- Foi bom vê-los por aqui! Voltem sempre!- disse o animado e simpático atendente.

Aquilo soou como uma imensa provocação para Renato. Mas, assim, foram. Pagaram a tal roupa, e foram ainda comer uns pastéis. Renato não escondia a perturbação. Cláudia não percebia, ou fingia não perceber. Isso irritava ainda mais o rapaz. Ele, ali, estraçalhando-se por dentro, e ela com aquele dissimulado olhar, que nada dizia! Renato não falava. Mal conseguia comer os pastéis, mesmo que com micro-mordidas embebidas em litros de saliva produzidas pela sua boca. Não descia. Simplesmente não descia. Tudo o que podia fazer é silenciar a angustiante sensação um tanto infundada de que algo de ruim estava por acontecer. A vida sempre reserva algum golpe baixo.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ser e esperar

A persiana ainda está fechada. Dentro de mim, sinto tão somente a mais forte das pulsações. Daquelas realmente perturbadoras. De todos os lados, o aleatório diz a mesmíssima coisa. Talvez esse tipo de sensação, a falta de controle sobre os fatos, a expectativa em si mesma, seja tudo o que há para ser guardado da vida.

Soluções definitivas não existem. Somos condenados a uma eterna angústia. Isso é existir. Ser resume-se a esperar. Pelo melhor ou pelo pior. Mas sempre esperar. Podemos buscar algo de essencial, algo que realmente nos motive. E isso é realmente tudo o que podemos buscar. Mas, tenham certeza, caros leitores, nunca estaremos plenamente satisfeitos. Sempre há um gosto de quero mais. Cabe a nós determinar a fórmula. Se guardaremos na boca um gosto de quero muito mais, ou um gosto de quero um pouquinho mais. Sempre será, no entanto, mais. Seria demasiado presunçoso e determinista dizer que isso está na essência humana. Pensando bem, mais nem sempre é mais. "Não menos" cabe melhor no que digo. E mesmo a conservação exige algum tipo de ação, pois, presumo, sempre haverá algum tipo de força externa pronto para tentar desestruturar tudo aquilo que conquistamos, que temos.

A angústia na qual mergulhamos, e por mais que neguemos, sempre mergulhamos, é exatamente a tonalidade da espera. Não há como se enclausurar. Estamos expostos ao mundo, ao inusitado. E é precisamente por isso que temos que agir, permanentemente. Mesmo que doa um pouco. Mesmo que nos violente um pouco. É necessário. Não é, no entanto, uma fórmula mágica que vá nos blindar do sofrimento e da inescapável angústia da espera. Mesmo as ações guardam, antes de seus efeitos, um período de espera. Tudo o que se pode é encurtar e mudar a essência dessa espera. É tornar a incerteza um pouco menos incerta.

O fazer maquia um pouco a espera. Não elimina, mas disfarça, engana nossos cérebros, tira-nos da sensação de inércia. Sempre fatal inércia. Mudemos, então, a velocidade e as direções, mas tenhamos uma convicção: é continuidade, tal qual o ônibus de "Velocidade Máxima".

Bem, está na hora de abrir a persiana.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A carta

Para Aurélio, nada nunca foi exatamente fácil. Era um já calejado homem de 33 anos. Sua vida foi nada mais do que um acúmulo quase fatalista de decepções. Tinha uma filha, Patricia, de quem cuidava sozinho, abandonado que fora pela ex-mulher. Materialmente, estava restrito, limitado, mal conseguia sobreviver e manter a dignidade e o bucho cheio da menininha de três anos.

Aurélio estava, pois apaixonado. Boba e inexplicavelmente apaixonado. Beatriz era o alvo dos afetos advindos de seu coração. A via praticamente todos os dias, no ônibus de volta para a casa, após os estafantes dias de trabalho intenso. Conversavam algumas vezes. Ela falava sobre a vida, o ex-marido que ela ainda dizia amar, o trabalho. Aurélio ouvia, por vezes aconselhava, tentava dar a visão masculina nesse tipo de relação, e não poucas vezes dava à moça esperanças em relação ao ex, mais para não vê-la chorar, e também para não correr o risco de dar a entender que era um gavião pronto a dar o bote, embora pensasse, decididamente, que aquele cara de quem ela falava era um cafajeste que não merecia tão linda e incomparável mulher. Queria, ora, mostrar que era confiável, mesmo que mentindo, pura e simplesmente para não parecer um canalha oportunista.

O homem se corrroía por dentro a cada vez que via Beatriz. Era inevitável como a expressão de dor quando uma afiada navalha lambesse sua barriga. Ele sonhava com ela, e queria ser algo mais. Ele queria provar ser merecedor de Beatriz. Tinha um tanto de medo, temor mesmo, afinal, não queria estragar a confiança um dia conquistada. Não queria correr o risco de comprometer a já bonita amizade que ali estava desenhada. Afinal, seria melhor ser um amigo que despertasse simpatia do que um pretendente melancolicamente desprezado.

Mesmo assim, certo dia Aurélio encorajou-se. Ao subir no ônibus e fitar Beatriz, entregou-lhe um envelope com uma singela carta que havia escrito. Tentava ser direto, sem, no entanto, dar subsídios para que ela o magoasse. Ali, dizia adorar Beatriz, e que ela era uma mulher especial, admirável. Ela lia e sorria, talvez meio consternada. Aurélio estava, àquela altura, vermelho, com o coração disparado, saindo pela boca. Tinha quase certeza de que havia feito uma bobagem sem tamanho. Tanto era assim, que pensou inclusive em pedir desculpas para Beatriz, que ela esquecesse aquele equívoco, que ela deixasse de lado tal momento de fragilidade. Pensou, mas não falou.

Os olhos de Beatriz marejaram. Sorria com surpresa na face. Aurélio olhava para baixo, a perna incontida, o ônibus, as pessoas em pé. Aquilo tudo era uma espécie de fiasco surreal. Estava quase em transe. De repente, o mundo todo pesava sobre seus ombros e cabeça, que instantaneamente começava a doer. Era um apocalipse espiritual, um dia depois de amanhã. Minutos de apneia. Já não havia mais oxigênio, apenas constrangimento e espera amarga pelo riso, pela piada, pela nova tristeza, pela repetição das limitações e soterramento das esperanças. Mais uma vez.

Eis que, então, a moça olhou docemente para Aurélio. Passou os dedos pelo seu rosto, aconchegando-o, acalmando-o. Beijou-o. Suas línguas se encontravam e acariciavam de forma lenta, meiga. Já não havia mais cobrador nem motorista. Não havia mais nenhum passageiro. Não havia barulho, nem trânsito na rua. Rua? Que rua? Olharam-se, então, e sorriram mutuamente. Aurélio radiava de meio descrente felicidade. Ela existia! A vida dele fazia sentido! Estava, agora, tudo certo e calmo. Valeu a pena! O amanhã é imprevisível. O eterno amanhã, finalmente era hoje. Hoje. Viver é esperar e ter esperança. Angustiada esperança, por vezes. Neblina, escuridão. Mas há, e sempre há, um sol por nascer. Tem de haver. Todos merecem sorrir.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

360 graus

Tento colocar a cabeça no travesseiro e dormir. Fecho os olhos, meio que forçadamente. Reviro-me para lá e para cá. Tudo isso, em vão. Penso em você mais do que nunca. Desejo você, de novo. Já nem sei mais se é um erro, embora até hoje não tenha sido, efetivamente, um acerto.

Quando você disse que eu apresentava algum brilho diferente, e que talvez fosse "culpa" sua, você tinha razão. Quando vejo seus olhos, a agressiva delicadeza de seus traços, fico irremediavelmente encantado. Entenda-me: não há como ser diferente. Sua luz me contagia e fortalece.

Claro que nem tudo são flores. Por favor, não me aponte mais aquilo. Não me interessa nem um pouco. E quero que não lhe interesse nem um pouco. Sei que isso é ciúme bobo do que não tenho. E sei que não faz sentido. Mas, e daí? Me incomoda, sim. Me machuca, sim.

Todos os dias me encorajo para, logo em seguida, recuar. Não quero mais sangrar, embora saiba estar padecendo de dolorosa hemorragia interna. Não quero exagerar. Mas quero feito um maluco existir para você. Meu coração dispara e aperta quando te vejo. Me sufoca. O empate me angustia, pois tenho medo de perdê-la, ou perder minhas ilusões e sonhos. Pareço estar condenado a isso.

Ah, minha amiga, é tão puro e doce o que sinto por você. Abandonaria minhas mais arraigadas convicções e ambições simplesmente pela certeza de tê-la ao meu lado. Com você, e só com você, eu me tornaria um Hércules, o mais forte, o mais aguerrido. Sorria para mim. Amo você e seu sorriso. Você é muito próxima e, inexplicavelmente, distante. Você é intimidade e estranhamento.

Quero, mais do que qualquer coisa, abraçá-la. Pegar, sem medo, em sua mão. Beijá-la, juntá-la ao meu peito, fazer de você, definitiva e inelutavelmente, parte de mim. E, claro, quero ser também parte de você. Quero pertencer, me incorporar, irreversivelmente, à sua alma e à sua existência. Você me desmancha. Desmonta-me e remonta-me ao seu bel-prazer, mesmo que sem perceber. Me tem em suas mãos. Mas, afinal, o que fazer comigo, não é?

Talvez eu não tenha a vocação necessária para conquistá-la. Já diria aquela canção: "amo você até os ossos". Não fique brava. Sei que se tratava, ali, da anorexia. Mas foi impossível não lembrar. Que ironia. Você pode não acreditar, mas é exatamente essa a música que começou a tocar agorinha mesmo no meu Media Player. Silverchair faz mais sentido do que a sua própria licença poética. Espero que seja uma espécie de aviso. Tomara seja, um bom aviso. Talvez isso seja tudo de que preciso por hora.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Senhores salvadores, salvadores senhores

Senhores, caros senhores! A pauta do dia é vocês, meus senhores! Manipulem, dirijam as suas revoluções, meus companheiros! Levem as massas despossuídas e descerebradas à glória! Aleluia! Aleluia!

Embebedem, senhores, seus egos. Inflem-se da pureza proporcionada pela vontade de poder. Sejam mais, sejam tudo, sejam deuses, sejam o futuro e a vitória da humanidade, meus senhores. Empanturrem-se de gordurosa satisfação. Liderem, senhores, essas almas famintas d'água, sedentas por pão.

Falseiem, se necessário, meus senhores. Raposas, lobos e cordeiros são a mesma coisa. Ora, ora. Não quero aqui estragar seus belos discursos, seus nobres sentimentos altruístas. Caríssimos e respeitáveis senhores de tenra idade, vocês, ou vossas majestades, são a salvação. Tudo o que os apequenados e abandonados ao relento esperavam. Levem-nos à luz, senhores! Levem-nos à plenitude da existência, à vigorosa honra da derrubada dos perversos moinhos de vento!

Sejam, senhores, a minha verdade. Mais: sejam a verdade em si, una, absoluta. Porque eu, caros senhores, conheço, e muito bem, as suas verdades. Longe de mim a intenção de contrapor a pureza da determinação virtuosa. Não quero, não mesmo, afrontar suas vaidades. E seria tão e tão previsível, um tanto cruel, insano, leviano, além de absurdamente racional, chamá-los de oportunistas... Ah, vivos, vivíssimos senhores... Viva às suas velhas novidades. Revolução! Agora, em câmera lenta, com lágrimas nos olhos, sangue no canto da boca, em expressão hollywoodiana: re... vo... lu... ção!...!...!...!

Ah, caríssimos senhores, curvo-me perante seu visionarismo e cabeças erguidas. Curvo-me às sangrentas cabeças ostentadas como dignos troféus em suas mãos suadas. Oh, tristeza, sabedoria que não alcanço. Não consigo alcançar. Levem-me, fraco que sou, fraco que estou, humano que ainda sou, à derradeira glória libertadora.

Pois bem, caríssimos senhores, voltemos a nós mesmos, ao nosso chão. Sentem-se em suas carteiras e coloquem suas mediocridades na rinha. O show vai começar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Naufrágio colorado

O atual naufrágio do futebol colorado é multifacetado. São várias as razões para o momento constrangedor vivido pelo Inter no Campeonato Brasileiro. Mas tudo começa por uma diretoria desastrada, omissa e deitada em berço esplêndido. Da dupla Píffero/Carvalho nascem os problemas mais graves do Internacional, não só como time de futebol, mas também como instituição. E dói muito ter de criticar os dois dirigentes que lideraram o clube até o mais alto posto do futebol mundial, tenham certeza. Mas, assim é a vida, e quem vive de passado é museu, já diria Ben Stiller. Restringir-me-ei a três pontos, que acredito serem raízes do mal que tem afligido o colorado, agravando-se nos últimos meses. Vamos a eles.

1. O Inter se acha. A instituição Sport Club Internacional vem se tornando, paulatinamente, elitista e arrogante em termos de imagem e discurso. Me causa profundo incômodo ouvir Vitório Píffero remetendo-se aos (e só aos) associados do Internacional. O discurso colorado hoje despreza sua própria torcida e seu próprio lema de "Clube do Povo". O Inter é de sua torcida. Não é de Píffero, não é de Carvalho, nem mesmo é de 100 mil sujeitos que detêm uma carteirinha de sócio. O Inter é dos colorados. De todos os colorados. O Inter pertence tanto ao associado mais religiosamente em dia quanto ao cara que vende balas na parada de ônibus envergando orgulhosamente a camisa surrada comprada por quinze pilas no camelô da Rua da Praia num domingo ensolarado de 1997. E mais: o Inter é campeão de tudo? Beleza. Sejamos, agora, Bi-campeões de tudo, pô.

2. A direção está fora da casinha. É estarrecedor ler e ouvir os discursos de Píffero e Carvalho. Dizem os semideuses colorados: o Inter vendeu Nilmar porque já tinha a reposição: Alecsandro. Vendeu Alex porque já tinha no elenco o substituto pronto e à altura: Taison. Isso chega a ser uma ofensa à inteligência do torcedor. Das duas, uma: ou Carvalho e Píffero estão mentindo deliberada e discaradamente para a torcida, e, por consequência, para os aclamados 100 mil sócios; ou eles realmente acreditam nas barbaridades que falam. Seja qual for o caso, o negócio é arrancar os cabelos e sair gritando: "Eu sou Napoleão! Bilu, bilu, teteia!".

3. O futebol colorado é omisso. Não há explicação para, desde 2007, desde a saída de Ceará, o Inter não ter, pelo menos, tentado contratar um lateral-direito de qualidade. De lá para cá, ou se tem um improviso na posição, ou uma ruindade daquelas de deixar um torcedor do Íbis ruborizado. Isso quando não se sublima e se coloca uma pereba improvisada na função. Além disso, a direção demorou uma eternidade para demitir o há horas desgastado Tite, e quando o fez, com Muricy e Luxemburgo devidamente empregados, contratou o lunático Mário Sérgio, que, dentre outras peripécias, escala o melhor zagueiro do elenco na... lateral-esquerda!

A verdade, crua, cruel e gritante verdade, amigos, é que o Inter está perdidinho da Silva Sauro. Os dirigentes, outrora grandes vencedores, hoje vivem uma realidade paralela e debocham da cara do torcedor com declarações do naipe de "é muito difícil jogar contra o Barueri fora de casa". Chega a ser um desrespeito com a coloradagem um Fernando Carvalho, que fez esse clube ganhar do Barcelona um Mundial Interclubes, dizer uma coisa dessas. Mas sejamos, afinal, positivos. O Inter está classificado para a Sul-Americana 2010. Uêêêêêba!

domingo, 8 de novembro de 2009

Ouvinte

Dedica-se, hoje, somente a ouvir.
Não sente-se suficientemente instigado a falar ou responder.
Sabe muito bem o que quer. E o que não quer.
O que lhe serve. E o que não serve.

Toda a baboseira falsamente baseada é isso, e só isso: baboseira.
Não fale do sol, quem nunca esteve lá.
Não fale de sonhos, quem nasceu para a insuportavelmente fria realidade.
Não peça que se queira mais, quem jamais soube o que é satisfação.

As certezas são de uma inutilidade desumana.
O discurso de quem não sabe e jamais se atreveu a tentar voar, será para todo o sempre tacanho.
É por isso que só resta ser ouvinte.
Conceder aos espíritos pobres a ilusão da sabedoria crua. É dar tempo ao tempo.

As realidades vividas são paralelas daqui ao infinito.
Por isso, a persistência das incompreensões.
Se estás feliz, caro amigo, sejas feliz, sigas feliz.
Não há ferramenta capaz de medir a plenitude humana.

Por isso, julgamentos de lugares desconhecidos são insignificantes.
É a pobreza de quem não sabe sorrir, de quem é incapaz de ver além de um metro ou um dia à sua frente.
A verdadeira riqueza não é numérica.
As mais genuínas ambições são simples como uma gostosa risada de um bebê frente à careta de algum bobalhão.
Siga, com suas vontades, anseios e realizações.
O resto é resto.

sábado, 7 de novembro de 2009

Mesmices

O calor, a chuva, as nuvens, tudo isso é cenário da mesmice. No armazém, donas de casa continuam comprando tomates, cebolas e batatas. Nos postos, os carros continuam abastecendo, gasolina, álcool. Nos bares, os bêbados continuam abastecendo, cerveja, álcool...

Em algum apartamento, o ex-casal continua brigando, discutindo, trocando farpas insuportavelmente. Já era. Pra que mais desgastes, afinal? Não deveriam apenas se tolerar e esperar o fim? A vida, ora bolas, é um interminável exercício do ser patético. Na rodoviária, pessoas, muitas pessoas, embarcam e desembarcam de ônibus, e os destinos são os mais variados.

Alguém, em algum lugar, ouve a velha rádio cafona. Alguém, em algum lugar, pensa nos seus amores. Alguém, em algum lugar, chora copiosamente. Alguém, em algum lugar, sorri. Alguém, em algum lugar, luta bravamente para sobreviver. Alguém, em algum lugar, está vendo a Rede Globo. Xuxa? Algum "desafio internacional" de futsal? Tipo, Brasil e El Salvador? Sei lá. A tv está desligada por aqui. E assim continuará, por enquanto.

Há muito o que se fazer. Há uma vida a se viver. Há tanta coisa a se libertar! Há tanta coisa a que queremos nos prender, para todo o sempre! Toda ação inicia pelo começo. Santa redundância que tantas vezes nos recusamos a compreender. Fujamos da modorra e façamos tudo o que está ao nosso alcance acontecer. Pelo menos por hoje. Pelo menos até a semana que vem.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Quando o corporativismo é necessário

Definitivamente, o corporativismo não é um mal em si mesmo, como muitos por aí tentam apregoar. Digo mais: há casos em que ser corporativista é absolutamente fundamental. Meus subsídios vem da Universidade da Malásia. Mais especificamente, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade da Malásia.

Algumas coisas chamam muito a atenção por aquelas bandas. A aberração maior é a falta de cientistas políticos nos referidos programas de pós-graduação. Lá você encontra de tudo: gente do Direito, do Jornalismo, das Relações Internacionais, da Tecnologia em Química Analítica. Mas, quando vai procurar um cientista social, um cientista político, encontra meia dúzia de gatos pingados, quando muito.

O Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade da Malásia só faz autodesvalorizar-se com esse tipo de conduta, talvez até subconsciente. Afinal, as comissões de seleção deste programa são compostas pelos mesmíssimos professores que preparam os graduados em Ciências Sociais, com ênfase na Ciência Política! Há algo muito, mas muito estranho e paradoxal mesmo nisso tudo... Nesse sentido, bato palmas para sociólogos e antropólogos: estes respeitam mais suas profissões, suas áreas. Mas, na Ciência Política da Malásia, não! Acontece uma verdadeira invasão "estrangeira", de gente que não tem absolutamente nada de parecido com a formação de um cientista social e político. Aliás, nas provas de seleção, só falta servirem bolachinhas com chá para os candidatos de outros cursos.

Nesse tipo de caso, o corporativismo é, sim, necessário. Os cientistas políticos da Malásia tem a obrigação de buscar e reivindicar aquilo que lhes é de direito: mais lugares no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade da Malásia! Aliás, muito mais lugares. Ninguém está melhor preparado para ocupar estes postos do que eles, cientistas sociais, cientistas políticos, gente da área. Ou será que estes outros cursos, Direito, Relações Internacionais, Jornalismo, aceitariam, assim, na boa, na boa, uma invasão de cientistas sociais em seus programas de pós-graduação? Por que a lógica não é a mesma?

Os cientistas políticos tem que mostrar a todos que tem, sim, maior aporte para serem cientistas políticos do que jornalistas, advogados e diplomatas. A profissão de cientista político tem de ser mais valorizada pela própria Ciência Política, que por vaidades internas no melhor estilo arigó alienado do terceiro mundo, deixa de incorporar os que possuem um suporte mais sólido de uma área do conhecimento em troca de mestrandos e doutorandos engomadinhos que falam bonito em português, inglês, francês, mandarim e hebraico. Está na hora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade da Malásia esquecer o campo da aparência hipócrita de uma academia empoeirada e apodrecida para chegar ao terreno prático e formar verdadeiros cientistas políticos, que gostem da área, que tenham escolhido a área, e que queiram dela fazer verdadeiramente sua vida e um campo fértil de conhecimento.

Bom, já falei demais da Universidade da Malásia. Ainda bem que na Universidade Federal do Rio Grande do Sul as coisas não acontecem assim...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Descontrolada

Estou eu "youtubando" na gloriosa internê, quando me deparo com a chamada de um vídeo de uma mulher descontrolada no aeroporto de Aracaju. Curioso, abri o tal vídeo. Esse tipo de caso geralmente suscita uma série de reflexões. O caso era o seguinte: ao chegar atrasada para o embarque em sua lua-de-mel, a Amy Winehouse tupiniquim soltou os cachorros (e as cadelas, por que não?) sobre um funcionário da Gol, chamando-o de morto de fome, analfabeto, "nego", dentre outras coisas.

Eis um típico caso antropológico, característico da cultura brasileira. Como já disse Roberto DaMatta, vivemos no país do "você sabe com quem está falando?". O carteiraço rola solto, mais solto que pinto em cueca samba-canção. Essa mulher fez exatamente isso ao pisotear sobre o funcionário da Gol. Demonstrou racismo e uma insensibilidade social das mais repugnantes.

Se ela não chegou dentro do tempo previsto, infringindo uma norma estabelecida pela companhia aérea que, acredito, deva ser relativamente clara para uma pessoa tão abastada e acostumada a viajar de avião, ela não pode reclamar de absolutamente nada. É por essas e outras que o Brasil se notabiliza internacionalmente como o "país da malandragem", do "jeitinho". E sabe o que é pior? Tem gente que se orgulha disso.

Segundo a queridíssima médica, presumo, todos os passageiros que chegaram dentro do horário deveriam solenemente esperar a madame rumo à sua lua-de-mel. E recebê-la com aplausos e pétalas de rosas. Aqui não discuto se a lei é cumprida efetivamente ou não. Isso não está na pauta, embora seja, sem dúvida, seja fator determinante nesse tipo de acontecimento. A questão que coloco é relativa tão somente à cultura e a relação que determinados sujeitos estabelecem em no que concerne às regras e normas.

No país da impunidade, realmente quando se cumpre alguma norma, causa-se estranheza. Ser ético, por essas bandas, é aberração. Caso para colocar numa jaula e vender para algum espetáculo circense. O "morto de fome" só fez cumprir com sua obrigação. E, ali, cumprindo com seu dever profissional, não interessa se ele é morto de fome ou um empanturrado de caviar. Nem deveria interessar se a médica chiliquenta fosse a esposa do dono da Gol, se fosse o caso.

A corrupção e o "jeitinho", infelizmente, estão não só institucionalizados no Brasil, como arraigados e quase naturalizados na cultura do cidadão comum. A moral coletiva, a cidadania, que talvez jamais tenha efetivamente existido em nosso país, em que até a independência foi realizada por meio de conchavos elitistas, está soterrada.

Ah, o caso não deu em nada. O delegado entendeu que "não houve flagrante" de racismo no referido caso. Ô, beleza. Mas não tem problema. Em fevereiro, ali, batendo na porta, já tem carnaval. Viva a cultura brasileira. Ô esquindô, esquindô!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Meios e fins

Juro que não são poucas as vezes em que penso, e reflito, reflito, reflito, sobre o que, afinal, tornou a atual sociedade ocidental tão absurdamente vazia. Talvez seja mania de cientista social que acredita poder compreender tudo por meio de um caminho lógico. Mas o fato é que isso me intriga, de verdade. O que faz estarmos envolvidos por tanto lixo? É o pós-modernismo? É algum tipo de decadência moral? É o estabelecimento de um modelo desenfreadamente competitivo e atomista? Acredito que é um pouco disso tudo. Resumir as explicações a isto ou aquilo seria de um ingênuo reducionismo. O que ocorre é a famosa "constelação de fatores". O estabelecimento de n motivos que associados de uma ou outra maneira, deram nesse mundo kafkianamente desprovido de sentido. Por isso, simplesmente me darei ao luxo de devanear. Não quero desenhar nenhum modelo teórico. Apenas me proponho a refletir, mesmo que compartimentadamente, sobre alguns desses potenciais motivos. Não quero obter respostas, e sei que não vou obtê-las mesmo. Quero, talvez, modestamente, e tão somente isso, sofisticar um pouco minhas inquietações. Comecemos pelo tão... Tão sei-lá-o-quê que é o tal pós-modernismo.

O pós-modernismo é uma praga dos dias de hoje, daquelas que grudam tal qual uma nojenta sanguessuga no todo das relações sociais. É, talvez, uma praga que há de se agravar nos próximos anos, décadas, talvez séculos. Não sou muito otimista quanto a acreditar realmente na possibilidade de destruição desse contexto amoral. O pós-modernismo é barbárie travestida de novidade e liberalidade. É a regra do tudo pode. Como se se pudesse desvincular todas as coisas de outras matrizes que fazem algumas coisas "poderem" mais que outras.

O pós-modernismo se retro-alimenta. Talvez seja um efeito colateral da moderna sociedade capitalista e neoliberal, que se sustenta através do agravamento de um individualismo exacerbado, que afasta progressivamente os sujeitos de qualquer perspectiva de coletividade e senso de todo. O tecido social se fragmentou, e está em melancólica decomposição. O todo social, que pela própria lógica capitalista já não é dos mais orgânicos, torna-se mais e mais inorgânico e incompatível em seu próprio funcionamento. As peças são progrssivamente mais hostis entre si.

O ser humano possui um imenso potencial para fazer coisas belíssimas. Mas também possui uma facilidade extraordinariamente incrível de se mediocrizar e se nivelar cada vez de forma mais rasteira. Em meio à verdadeira decadência moral verificada no ocidente, e agravada nos países de terceiro mundo, graças às dramáticas lacunas existentes entre os diferentes estratos sociais, perdem-se os valores, perdem-se as bases. Perdem-se, ora pois, as referências.

Chegamos, então, a este nojento "vale-tudo-que-sou-mais-malandro" vivido nos dias de hoje. O ser humano se desvalorizou deveras. Aqui, não quero, de forma alguma, fazer apologia a qualquer tipo de autoritarismo ou mecanismo de imposições que restrinjam a liberdade individual. A liberdade individual é fundamental e necessária. É de uma riqueza potencial inigualável. Apenas acredito, e disso não abro mão, que para se viver em sociedade é necessário, sim ou sim, estabelecer parâmetros comportamentais. Há que se ter algum tipo de base para se definir, de alguma forma, o que é certo ou não, o que é moral ou não, mesmo que o certo e o moral não existam por si só, flutuando num céu de brigadeiro. Eis a arte de ser racional, pombas. É saber discernir, dentro dos mais variados contextos da vida coletiva, o que vale e o que não vale.

Acatar o discurso fácil, besta, imbecil e burro de que tudo é imposição hierárquica e, por isso mesmo, nada deve ser recriminado como errado, é assinar o atestado final de irracionalização do Homem. É assumir que não temos capacidade de chegar a consensos e viver civilizadamente, com normas que sejam mais ou menos aceitas de maneira comum. Chamem-me de chato, retrógrado, conservador, o que quer que seja. Mas não vou deixar de defender que precisamos, sim, retomar valores morais e padrões mínimos de convivência. Não só nas poltronas mais macias ocupadas por corpos envolvidos pelos mais luxuosos tecidos. Há que se ter moral, também, no baixo clero, meus amigos caras-pálidas. E tenho dito.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Da falta absoluta de inspiração ao Jornal Nacional

Estou naqueles dias em que simplesmente inexistem ideias para escrever um texto minimamente interessante. Vasculho sites, leio notícias de todo o tipo, mas nada parece me instigar suficientemente. Recorro à livre associação. Estou escrevendo sem a mínima noção de como vai terminar esse texto. Aliás, não estou escrevendo. Estou conversando. Enchendo linguiça. Vamos ver no que essa bagaça vai dar. Perdoem esse imenso vazio, caros leitores.

Ah, estava lendo um relato de um ex-repórter da Rede Globo, Marco Aurélio Mello (mais em http://www.fazendomedia.com/?p=1378 e http://maureliomello.blogspot.com/2009/10/voces-pediram-entao-ai-vai-mais-uma-da.html) dizendo que certa feita tinha pronta uma reportagem muito forte, bombástica, relatando pesquisas que associam o uso do álcool à violência, e a problemas de saúde pública para colocar no ar no Jornal Nacional. A editoria, muito sã (tsc, tsc, tsc), "colocou no freezer", para não correr o risco de prejudicar as empresas de cerveja, então responsáveis pelas maiores cotas de veiculação de comerciais da grade da emissora. Eureka! Já estou mergulhado num assunto! Beleza! Vamos que vamos!

Pois bem. Sou suspeito para falar de álcool, cerveja e outros quetais. Gosto duma birita que só eu. Não tenho, aqui, responsabilidade jornalística. Escrevo sobre o que quero, quando quero, e do jeito que quero. Não pretendo, e nem me iludo com a presunção de qualquer tipo de neutralidade. Por isso, não vou entrar no mérito da questão. Sou amigo da brejola e ponto final. Sei que não é das coisas mais saudáveis. Mas é um desses prazeres mundanos dos quais muitas vezes somos inelutavelmente reféns, e sem maiores remorsos.

Mas tenho que falar, isso sim, da mercantilização da notícia. E isso, exatamente isso, é grave. Gravíssimo. O caso relatado pelo ex-jornalista da Globo é mais um desses exemplos que cansamos de ver, ou ver e fingir que não vemos, de que as grandes empresas jornalísticas são cada vez mais empresas e cada vez menos jornalísticas. Defendem interesses específicos e tem por fim não a informação pura (esqueçam tal utopia; troquem essa expressão por "jornalismo honesto e romântico, mais próximo quanto possível do interesse da maioria". É a esse sentido ético que me refiro), mas a informação mais ilimitada e neutra dentro da limitação e das parcialidades previstas pelas corporações e mercados cujos interesses defendem por serem a fonte de seu objetivo final: o lucro. Paradoxo por si só, heinhô Batista?

Lógico que o William Cruela Bonner não é um cara malvadão-que-acorda-todos-os-dias-pensando-em-derrubar-Lula-e-a-classe-trabalhadora-muahaha. Mas está, inevitavelmente, a serviço de toda uma estrutura organizacional que depende de um sistema econômico. Está a serviço de uma... Empresa! Empresa essa que, dentro do jogo, e com todo o potencial oferecido pela liberdade de competição, defende seus próprios interesses e busca blindar ao máximo o sistema que lhe brinda as maiores oportunidades de otimizar receitas. A Globo, e qualquer empresa dentro da lógica capitalista, busca primeiro "o dela". Depois, pensa em crianças e esperanças. Claro, com algum abatimento de imposto!

Às vezes até me comovo com um certo humanismo da direita, que quer dar o máximo possível aos explorados, sem mexer na sua fatia do bolo, é óbvio. Pena que o "máximo possível" é menos, muito menos, do que o mínimo necessário. Acredito que, apesar da incongruência inerente ao marco teórico do livre mercado e da exploração do homem pelo homem, há direitistas bem intencionados. Afinal, eles sustentam que pode haver uma sociedade justa em meio a uma competição desenfreada entre desiguais. Sustentam também a gravidez sem penetração (Ave, Maria!). E também que se pode acender velas no vácuo. E dar risadas enlouquecidas vendo o Zorra Total. E que a Susan Boyle concorra (e ganhe!) o Miss Universo. Ora bolas, o mundo não está perdido! Viva!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vinte para as onze

Esqueçam o que de mais santificadamente certo e o que de mais diabolicamente errado foi feito. Sou a morte do que não presta e a vida do que não existe. Sou a controvérsia mais racional. A verdade mais límpida. Mas sou, também, poluição. Certeza entre ser e não ser, sem nenhuma questão.

Sou o plágio mais original. Sou pureza, sujeira, arrependimento e verdade. E elas, as verdades, podem doer, mas são fantasticamente reais. Não sou suprassumo ou infravioleta. Sou a hipótese confirmada que a ciência não sabe explicar. Simplesmente sou. Simplesmente sou eu. Eu. Eu. Sou a mediocridade mais genial de que se tem notícia. Não tenho vocação para ser "um". Sou "o". Simples como dizer o que se pensa.

Sou cansaço, estafa, matança. Sou um formigueiro exposto e frágil. Sou força vital una e insuportável. Sou dor aguda e crueza absoluta. Sou vergonha transparente, e orgulho por si só. Sou Heráclito, Parmênides, dialética absurda e real. Como ser diferente?

Sou suave morbidez. Quero continuar e largar tudo o que não existe. O amor, o ódio e a mágoa, são tudo e o mesmo. Sou cicatriz que sangra. E sangra. E sangra. E sangra.

O medo, a coragem, a embriaguez, o grito convicto e o choro desesperado de minhas entranhas, tudo se mistura. Queimo no mais ardio fogo do inferno ciente de que fiz o que devia ser feito. O amanhã é escondido, incerto, promissor e desgraçado.

Sinto-me deslocado no tempo e no espaço. Sinto-me indesejável invitabilidade. Sou dor e anestésico. Lucidez é suicídio. A virtude é um atentado à moral estabelecida. Choro sem ombro. Não há colo nem à direita, nem à esquerda. Me importo com tudo que não importa.

Sou pequeno e mesquinho. Mas sou humanamente verdadeiro. Existir é morrer, e não existe essência sem seu oposto simétrico. Quero fazer emergir toda a força oculta e inexistente. Quero ser tudo que não é, jamais foi, e nunca vai ser. Quero a fórmula mágica que ninguém inventou.