quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Subverter a subversão

Infelizmente, a esquerda como um todo parece perder muito de seu conteúdo e significação. Entre meia dúzia de idealizadores com boas intenções estão muitos, e muitos, e muitos esquerdóides oportunistas. Tudo o que se vê é aparelhamento. Algumas organizações, travestidas de forças anti-sistêmicas, são o que de mais sistêmico pode haver. São sistemas-partes de um sistema-todo, que com suas políticas muitas vezes mesquinhas e vazias de substância verdadeiramente criativa e revolucionária, só fazem legitimá-lo. Suas simples existências caricatas e pseudo-marginalizadas dão a impressão de uma inclusão inexistente.

Ser "subversivo" se tornou cômodo e um tanto irresponsável. Um chá das cinco, brincando de fazer política revolucionária. Mesmo alguns anarquistas adotam comportamentos sistêmicos em termos de organicidades internas, criando uma lógica à margem da lógica, mas pertencente ao mesmo eixo. No contexto atual, não há espaço para a subversão coletiva. Mesmo os exemplos mundialmente conhecidos constituem-se, dia após dia, como parte do sistema maior.

Hoje a revolução popular está morta. Não há levante de natureza coletiva que seja capaz de gerar mudanças nas raízes do sistema. A longo prazo, esse tipo de perspectiva pode ressuscitar, claro que sim. No panorama atual, entretanto, inexiste. E esses movimentos passam a adquirir como única finalidade séria a sua própria subsistência.

Dado esse contexto, só há uma forma verdadeira de subverter. É subverter a subversão. É ir além do sistema, mesmo que coexistindo com o mesmo. Não há como subverter o mundo por meio de falsas subversões. A genuína subversão nos dias de hoje é do átomo para o próprio átomo. É individual e egoísta. Subverter é dominar a si mesmo, e recriar-se com autonomia dos sistemas-partes que o sistema-todo oferece fingindo não oferecer. A verdadeira revolução extrapola o mundo por ser tão independente quanto possível dele. Ela é interior, acima de tudo. Sua especificidade consiste em não ser institucionalizável. Mudanças institucionalizadas não passam de reprodução com acabamento mais adequado à retroalimentação do sistema-todo.

Isso não quer dizer que esse tipo de subversão não possa servir-se de meios institucionais para sua realização. Ela só não pode ser um sistema em si mesmo. Nessa hora, o que resta é tão somente fazer escolhas bem pontuais, sempre paliativas, mas algumas vezes necessárias: ou se tenta conseguir um resultado pequeno que seja, mas palpável; ou se produz um círculo vicioso do discurso vazio para a ausência de prática efetiva, e daí para o discurso vazio criando uma profecia auto-realizada. Ou se faz o pouco possível, ou se sonha (ou se finge sonhar) com o muito impossível. Isso porque a reversão de tudo tem que ser prioritariamente a reversão de nossa existência, naquilo que de mais profundo há nela. Isso, pelo menos por hora, é o que há de mais subversivo a se fazer.

Nenhum comentário: