domingo, 18 de outubro de 2009

Racional

Às vezes penso como seria a existência se desprovida de devaneios e irracionalidades, e tenho quase certeza de que a vida seria muito melhor se fosse tão somente comandada pela razão. A inexistência das emoções tornaria tudo mais tranquilo, previsível. Viver seria mais ameno. Simplesmente, se fariam as escolhas óbvias, lógicas.

As emoções, os sentimentos, são os grandes entraves do dia a dia. É a partir de sensações irracionais que hesitamos ou mergulhamos numa piscina sem água. Ah, e como cansa mergulhar em piscinas sem água! A cabeça dói. As emoções, afinal, criam miragens, ilusões de ótica que, quando confrontadas com a realidade concreta, às vezes tarde demais, com o estrago já feito, quebram todo um jogo de imagens como se ali residissem quadros ou espelhos enganosos.

Fossemos pura razão, e nada disso aconteceria. Veríamos o que existe. Não sofreríamos nem criaríamos qualquer expectativa sobre o que não existe ou já provou ser um erro. A razão pura, utópica razão pura, tornaria a existência fácil ao extremo, sem angústias, sem expectativas, somente permeada pelo que é, como se realmente existisse uma realidade pura fora de nossas percepções.

Por outro lado, a racionalidade em estado puro tornaria a vida completamente automatizada, mecânica, robotizada. Qual seria, afinal, a graça do mundo se não sentíssemos nada? Os sentimentos nos tornam vivos. Se penso, logo existo, conforme postulou Descartes, não é menos verdade que se sinto, logo vivo. O amor, o ódio, as paixões, os ciúmes bobos, tudo isso nos preenche de alguma forma.

Talvez não haja beleza maior na vida do que pensar numa pessoa e ficar imaginando se ela também pensa em nós. Ou acordar com o coração disparado num dia qualquer pelo simples fato de que vamos ver aquele alguém especial. Ou ainda dar o mais apaixonado dos beijos depois da gagueira, das palavras fugidias, do suor gelado nas mãos, do medo do não que parece tão óbvio e predestinado.

Viver é mais do que pensar. É, acima de tudo sentir. Amar loucamente. Delirar numa realidade paralela, próxima por centímetros, distante por anos-luz. Sofrer, se assim tiver que ser. Mas jamais perder a capacidade de sonhar, querer, desejar.

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