quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Gilberto

Gilberto está andando pela rua. Empresário bem-sucedido, boa aparência, terno e gravata italianos. Vive para e pelo trabalho, pelo dinheiro, um dinheiro o qual ele quase não usufrui, pois não tem com quem compartilhar quase nada, não tinha o sagrado tempo para compartilhar nem entre ele e ele.

Tudo que compartilha são enfadonhas e intermináveis reuniões de negócios, mesas retangulares gigantescas preenchidas de homens iguais, de óculos, gravatas, rostos interessados e interesseiros. Nas happy hours, o assunto mais radical é falar sobre a variação da bolsa de Nova Iorque e a cotação do Euro.

Gilberto caminha e pensa: não há mais o que querer. Tudo o que o dinheiro pudesse comprar, qualquer anseio de ordem material, estava automaticamente suprido. Tinha dinheiro até para não se preocupar com mais nada. Estava, ora pois, realizado.

Mesmo assim, algo o incomoda. Talvez bobeira ou falta do que pensar. Talvez um surto de loucura passageiro. Gilberto, mesmo assim, começa a pensar em tudo de forma tão angustiante que seu coração dispara.

Gilberto, um agora perturbado Gilberto, reflete sobre o sentido do que está acontecendo. Sobre o sentido de estar ali, ou mesmo de ser Gilberto, o bem-sucedido empresário de boa aparência, e terno e gravata italianos. Tinha sexo ao bel prazer. Mas jamais teve tempo para amar ou deixar ser amado. Tinha colegas para beber um gole de uísque escocês com muito gelo, mas não tinha amigos para tomar uma cerveja bem gelada no boteco da esquina. Tinha tudo por fora, e nada por dentro. Não que não quisesse ter. Simplesmente não tinha. Foi negligente consigo mesmo, com seu coração, com sua alma.

De repente, tudo se apagou. No meio da rua. Do nada e do tudo. E tudo aquilo foi para... nada. Tarde demais para qualquer coisa. Viveu, produziu e ganhou muito, e muito, e muito. O suficiente até para não se preocupar com mais nada. E agora, não se preocupava mesmo. O terno e a gravata italianos refestelavam-se no mesmo chão cuspido e urinado pelos mendigos. O corpo que tinha sexo ao seu bel prazer estava, nesse momento, sem vida. O coração que jamais havia amado, agora estava parado, tal qual um relógio fuleiro de cinco reais esquecido em alguma caixa de tranqueiras inúteis, fedorentas e empoeiradas.

Gilberto, o empresário bem-sucedido de boa aparência, no mesmo chão cuspido e urinado pelos mendigos, estava cercado de gente interessada nele, e não no que é dele. Gilberto, o empresário bem-sucedido de boa aparência, e terno e gravata italianos, finalmente causava comoção em alguma alma que não queria nada em troca, e, com sinceridade, sem saber sequer quem ele era, estendia um plástico preto sobre seu corpo, simplesmente para que ele pudesse descansar em paz.

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