sábado, 17 de outubro de 2009

Esquerda(s)

Às vezes me pego pensando o contexto político brasileiro e a forma como as diferentes forças de esquerda o encaram, e fico bastante incomodado. A esquerda brasileira é cada vez mais fragmentada e autodestrutiva. Infelizmente.

Já fui um esquerdista mais ortodoxo. Daqueles que se recusam a ver qualquer avanço social que um governo democrático alcance, e buscam minar tudo e todos com uma finalidade "revolucionária". De alguma forma, com o passar do tempo fui me tornando mais flexível. Alguns poderão me chamar de acomodado. Pra mim, sou menos ranzinza, mais otimista, talvez.

Afirmar que a esquerda é autodestrutiva não quer dizer que eu defenda uma pseudo-uniformidade no terreno esquerdista nacional. A adoção de tais mecanismos seria ingênua e artificial. Mas acredito, isso sim, que ser plural não quer dizer ser fragmentado. Debates teóricos e de métodos para a mudança da lógica da sociedade são sempre bem-vindos. Quando realizados de forma ampla, aberta, sincera, construtiva, com o objetivo de se alcançar consensos, servem para engrandecer e fortalecer a ação da esquerda.

O grande problema é que, não poucas vezes, vemos os diferentes setores da esquerda cruzando fogo entre si, ao passo que a direita, tangencialmnte, se resguarda para um traiçoeiro bote (2010 tá quase aí). As esquerdas brasileiras, de forma geral, agem carangueijisticamente. Um partido tenta levar o outro para o fundo da panela. Claro, tudo em nome de uma "tática revolucionária".

Ao invés de se privilegiar os pontos de consenso entre as esquerdas, nota-se uma priorização aos dissensos. Principalmente dos setores mais ortodoxos. Eis uma lógica que me parece absolutamente contra-revolucionária. Ao invés de se dar passos em união, buscando progressivamente pontos em comum, e rompendo, se necessário, posteriormente a um primeiro estabelecimento hegemônico esquerdista, se faz o contrário. Primeiro, abre-se fogo com os irmãos (mesmo que distantes), para depois se buscar a mudança social. Dessa forma, se dissolvem os laços internos, e acaba por se perder toda a força de enfrentamento com as elites e de transformação da realidade concreta.

Qual lado, hoje, se desenha como mais utópico? Aquele que busca penetração via democracia burguesa, ocupando terrenos negligenciados, trabalhando por dentro do sistema para de alguma forma corroê-lo, ou transformá-lo criando condições apropriadas para uma sociedade menos desigual e, assim, mais politizada? Ou aquele que acha que, isolado, com sua metralhadora giratória, incutirá automaticamente nas mentes operárias o ideal revolucionário? Esta é a reflexão que proponho.

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