terça-feira, 13 de outubro de 2009

Despertar

A noite de sono não foi lá essas coisas. Como haveria de ser, se tanto ele vinha dormindo de dia? Lógico, pois, que não sobraria um sono pesado ao cair do sol. O motor da geladeira, estragado, também não ajudava muito. Roncava tal qual uma britadeira. Exagero, talvez um pouco menos.

Os pássaros faziam o favor de acordá-lo. Pareciam alvoroçados. Era cedo demais para levantar da cama. E tarde demais para buscar um último resquício de sono verdadeiro. Contentava-se ele, então, a simplesmente ficar deitado, esperando o toque sempre certeiro do despertador. Debaixo dos cobertores revirava-se, pra esquerda, pra direita, pra esquerda de novo, e assim sucessivamente. Alguma inquietação apertava-lhe o peito.

Alguns raios de sol penetravam os buraquinhos da persiana. Que bom! Sol! As expectativas acinzentadas ganhavam o colorido de um belo dia de céu azul. E, dali a pouco, provavelmente nem tão pouco assim, o trim-trim do despertador avisava: "agora é com você". Ficou um tempo mais na cama, alertando a alma calmamente, ouvindo o silêncio, imaginando a hora da estrela. Finalmente, levantou-se.

A primeira coisa que ele fazia era ligar o aparelho de som com seu disco favorito. Assim foi. Dirigiu-se ao banheiro, onde escovou os dentes, mais lentamente que o habitual. Cortou as unhas das mãos, e depois fez a barba. Cuidadosa e milimetricamente. Escolheu, então, com certo capricho, a roupa do dia. Era, sim, um dia diferente. Por isso, cada ação era cercada por um carinho todo especial.

Tomou seu banho, vestiu-se, perfumou-se. Dobrou a dose usual de perfume, diga-se de passagem. Era o merecimento daquele dia, que tão recompensador haveria de ser. Todos tem, afinal, direito ao seu próprio momento, por mais singelo que este seja. Fitava-se, minutos e mais minutos, em frente ao espelho. Auto-analisava seus traços, harmonias e desarmonias. Tinha, contida dentro de si, uma felicidade prestes a florescer. Era simples questão de horas. Somente faltava esperar o tempo, implacável, acolhedor e, acima de tudo, previsível tempo. E o tempo passou, passou, passou...

Lá está ele, agora, sozinho e na mesa do bar. Flertando o copo de cerveja já um pouco quente e sem gás. Mais um dia acordou, estufou no peito uma nova esperança, e saiu de casa, de cabeça erguida. Mais uma vez estava lá. Mais uma vez vazia. Mais uma vez pra nada.

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