sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Trogloditas

É absolutamente inaceitável o comportamento adotado pelos estudantes da Uniban, de São Bernardo do Campo, São Paulo, ao quase lincharem uma estudante por ela ter ido à aula com "trajes inadequados". O que aconteceu nessa universidade é incrivelmente surreal.

Primeiramente, recapitulemos o ocorrido. A menina foi à universidade com um vestido rosa, muito curto, e causou verdadeiro alvoroço. A polícia teve que ser chamada para tirá-la do ambiente hostil. Sob urros de "Puta! Puta! Puta!", a moça saiu em estado de choque, quase que chorando.

Achar uma roupa vulgar, insinuante demais, é uma coisa. Fazer uma verdadeira revolução para tirá-la do ambiente de aula, é outra completamente diferente. Ela tem o direito de se vestir como quiser. Vive num país livre e democrático. Não estava nua, nem em trajes íntimos. Não estava infringindo nenhuma lei.

Esse mesmo tipo de gente retardada que fez esse papel ridículo e lamentável, é aquele que coloca calouros nas universidades expostos à humilhação e ao constrangimento público, em rituais animalescos. Esses mesmos puritanos são aqueles que nas recepções de bixos, n vezes se aproveitam de situações impostas à força para, inocentemente, passar tinta e outras coisas nas calouras mais bem apessoadas, em locais "estratégicos", como seios e nádegas.

Essa mesma energia tal gentalha não tem para se informar politicamente, reivindicar direitos cidadãos, tentar fazer do mundo alguma coisa de realmente melhor. Enquanto a moça do vestido rosa é "exonerada" de uma sala de aula, Sarneys, Collors e Calheiros refestelam-se nos tronos do poder. Na era do You Tube, grandes questões são pequenas. Não são marcadas nos "favoritos". O que realmente muda a vida é a prisão do glorioso Zina, o chip do Pedro, ou um bando de zé manés expulsando uma pessoa de um campus universitário.

Ninguém se preocupa mais com os verdadeiros problemas e a profundidade do caos que vivemos dia após dia, a supressão de valores humanos, a privatização da esfera pública, a destruição do planeta. O grande lance é o vazio e a inutilidade. Quanto mais rasteiro e superficial, maior o ibope e a popularidade. A vida está sendo redimensionada para alienar cada vez mais as massas. A realidade que importa se paraleliza a uma realidade intrigantemente virtual e estéril de sentido. Eis, caros amigos, a aclamada pós-modernidade.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Vai pra puta que te pariu, Inter

Foda-se essa merda de campeonato. O Inter é incompetente, e pela sua incompetência, vai perder essa bosta de título. O colorado se puxou pra não ganhar. E não vai ganhar. Vai pra puta que te pariu, Inter.

Cansei. Cansei de torcer pelo pseudo-centroavante Alecbrahimovic. Cansei de ter um jogador emocionalmente desequilibrado tal qual um Bolívar frequentando a minha zaga. Cansei de ver essa merda, pedir, e pedir, e implorar, pra não levar a taça da J-League 2009! Chamem o Oita Trinita! Ainda há uma esperança!

Ser colorado cansa. Ganhamos essa merda de Libertadores, ganhamos essa porcaria de Mundial, mas pra quê? Para, solenemente, prorrogarmos esse pesadelo? Para continuramos ambicionando ser algo? Foda-se. Cansei. Tô cheio de Brahma na cabeça e irracional. Mais do que nunca.

Ei, Inter, vai tomar no cu. Seu filho da puta, só me faz sofrer. Seu desgraçado, saia daqui, e pra já. Vai pra puta que te pariu, de novo, e de novo, e de novo. Te odeio. E te amo. Você não vale nada, mas eu gosto de você. Seu cafajeste desgraçado. Te amo, seu monte de bosta! Pegue suas tralhas e só tente voltar no fim de semana, quando eu estiver de cabeça fria.

Subverter a subversão

Infelizmente, a esquerda como um todo parece perder muito de seu conteúdo e significação. Entre meia dúzia de idealizadores com boas intenções estão muitos, e muitos, e muitos esquerdóides oportunistas. Tudo o que se vê é aparelhamento. Algumas organizações, travestidas de forças anti-sistêmicas, são o que de mais sistêmico pode haver. São sistemas-partes de um sistema-todo, que com suas políticas muitas vezes mesquinhas e vazias de substância verdadeiramente criativa e revolucionária, só fazem legitimá-lo. Suas simples existências caricatas e pseudo-marginalizadas dão a impressão de uma inclusão inexistente.

Ser "subversivo" se tornou cômodo e um tanto irresponsável. Um chá das cinco, brincando de fazer política revolucionária. Mesmo alguns anarquistas adotam comportamentos sistêmicos em termos de organicidades internas, criando uma lógica à margem da lógica, mas pertencente ao mesmo eixo. No contexto atual, não há espaço para a subversão coletiva. Mesmo os exemplos mundialmente conhecidos constituem-se, dia após dia, como parte do sistema maior.

Hoje a revolução popular está morta. Não há levante de natureza coletiva que seja capaz de gerar mudanças nas raízes do sistema. A longo prazo, esse tipo de perspectiva pode ressuscitar, claro que sim. No panorama atual, entretanto, inexiste. E esses movimentos passam a adquirir como única finalidade séria a sua própria subsistência.

Dado esse contexto, só há uma forma verdadeira de subverter. É subverter a subversão. É ir além do sistema, mesmo que coexistindo com o mesmo. Não há como subverter o mundo por meio de falsas subversões. A genuína subversão nos dias de hoje é do átomo para o próprio átomo. É individual e egoísta. Subverter é dominar a si mesmo, e recriar-se com autonomia dos sistemas-partes que o sistema-todo oferece fingindo não oferecer. A verdadeira revolução extrapola o mundo por ser tão independente quanto possível dele. Ela é interior, acima de tudo. Sua especificidade consiste em não ser institucionalizável. Mudanças institucionalizadas não passam de reprodução com acabamento mais adequado à retroalimentação do sistema-todo.

Isso não quer dizer que esse tipo de subversão não possa servir-se de meios institucionais para sua realização. Ela só não pode ser um sistema em si mesmo. Nessa hora, o que resta é tão somente fazer escolhas bem pontuais, sempre paliativas, mas algumas vezes necessárias: ou se tenta conseguir um resultado pequeno que seja, mas palpável; ou se produz um círculo vicioso do discurso vazio para a ausência de prática efetiva, e daí para o discurso vazio criando uma profecia auto-realizada. Ou se faz o pouco possível, ou se sonha (ou se finge sonhar) com o muito impossível. Isso porque a reversão de tudo tem que ser prioritariamente a reversão de nossa existência, naquilo que de mais profundo há nela. Isso, pelo menos por hora, é o que há de mais subversivo a se fazer.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A realidade e as projeções

Um dos piores choques que um ser humano pode sofrer é se dar conta de sua pequenez. Afinal, projetamos tudo, imaginamos possibilidades, planejamos friamente os caminhos a percorrer, e, do nada, vamos do universal ao microscópico. Ora, somos exatamente microscópicos.

Não podemos controlar o mundo. Mal e mal conseguimos controlar a nós mesmos, aos nossos sonhos sempre vãos e inúteis. O que está morto, está morto. E o que não nasceu, jamais existiu. É tão fácil. É tão simples. Porém, presunçosamente estamos a todo momento fazendo cálculos e mapeando atitudes. Não percebemos que nada, absolutamente nada está em nossa margem de ação. E tudo, absolutamente tudo que está ao alcance de nossas mãos é puro acaso, puro existir fortuito e aleatório. A realidade, definitivamente, não nos pertence.

Não há objetivo que nos complete. Não há objetivo que não seja inelutavelmente subjetivo. Geralmente, não queremos o que podemos. De que adianta contemplar a bela imagem desenhada no quadro da parede se lá, naquela paisagem, não podemos nos fazer presentes? Sonho é dor e vácuo. Querer é sofrer. Isso é tão óbvio quanto a modorra do amanhã.

A verdadeira liberdade talvez seja tão mais simples e tão mais complexa do que jamais seríamos capazes de imaginar. O ato de liberdade não exige anseio, revolta, mudança. É o oposto simétrico disso. Libertar-se é aceitar passivamente as nossas limitações. Libertar-se é deixar de desejar. É atirar-se no imenso nada que constitui a finalidade em si mesma de cada existência individual.

Não alcancei esse nível ainda. O quadro continua lá, estático na parede. Aquela paisagem, que é a simples soma de pinceladas feitas com precisão e cores bem escolhidas, continua sendo uma significação pulsante. Ela é vida absoluta em minha retina. Ainda sou um fraco, um tolo, um sonhador. Ainda acredito em Papai Noel, coelhinho da páscoa, políticos, boitatá, saci pererê e amor. Ainda estou mergulhado em crenças idiotas e obsoletas. Ainda estou admirando aquela soma de pinceladas como se fosse uma paisagem viva. Como se eu pudesse, algum dia, estar lá.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

D'ale, d'ale ô!

É começo de um Gre-Nal que tem tudo para ser tenso. Vida ou morte para as ambições das duas equipes dentro do campeonato. D'alessandro recolhe a bola próximo ao meio-campo. Lá longe está a goleira do Gigantinho, protegida pelo melhor goleiro em atividade no futebol brasileiro. Os laterais se apresentam, Alecsandro embola-se pelo meio e Taison tenta aparecer desvencilhado de marcadores. São muitas as opções. O que El cabezón fará, afinal?
D'alessandro, exatamente por ser D'alessandro, chuta. Fosse um Andrezinho da vida, daria um passe burocrático para o lado. Mas era D'alessandro. E ele desconhece improbabilidades futebolísticas. Simplesmente joga. Simplesmente faz. Tanto faz se o goleiro adversário é Van der Sar ou Gatti. Tanto faz se o zagueiro adversário é Cannavaro ou Odvan. Tanto faz se o time adversário é o Manchester United ou o Grêmio. Qué mierda le importa?
O chute entrou. É D'alessandro. Só podia ser ele. Não espere dele simpatia, sorrisos, entrevistas faustônicas. Também não queira que D'ale seja o bom moço que une todo o grupo de jogadores. Não, definitivamente ele não será isso. Não espere razão de D'alessandro, ele é, acima de tudo, emoção. Não queira que ele seja lúcido. D'alessandro é louco, mesmo. Não espere que ele corra igual e se mate em campo tal qual um Guiñazu. Ele tem que estar a fim. Tem que estar com sangue nos olhos. Tem que estar com estádio lotado.
D'alessandro não tem vocação para anjo ou santo. Ele é um adorável anti-herói. O caubói fora-da-lei colorado. El cabezón não quer ser mais um. Quer ser, e é, apenas ele, com seus defeitos e virtudes. D'ale não foi feito para fazer sorrir. D'ale não sabe ser populista. D'ale é um renegado do inferno que veio a Porto Alegre ser uma espécie de vingador alvirrubro. Sua arma, o pé esquerdo. Sua bala, a bola Nike, venenosa, que quica sorrateiramente à frente do ótimo Victor.
Missão cumprida. Quinto Gre-Nal do ano, quarta vitória colorada. O Internacional venceu 80% dos clássicos jogados no ano de seu centenário. Tudo está em seu lugar. O time colorado, apesar de todos os tropeços e equívocos, briga pelo título. A vizinhança, mais uma vez terá que se contentar em comemorar vagas. Agora, na outrora desdenhada Copa Sul-Americana, vejam só que ironia do destino. A vida é assim mesmo. A nós colorados, somente resta cantar por aí: d'ale, d'ale, d'ale, d'ale, d'ale ô, d'ale, d'ale ô, colorado eu sou, ôô...

domingo, 25 de outubro de 2009

Passa por hoje

Confesso que não estava nem um pouco empolgado com o Gre-Nal de logo mais durante a semana. Me parece daqueles jogos que o Inter só tem a perder. A fase é ruim, o time não tem sequer um esboço de sistema tático, e a barca só tende a afundar contra o time do Grêmio.

Mas na sexta-feira senti uma atmosfera absolutamente diferente. O mais puro cheiro de Gre-Nal estava no ar. Pessoas em todos os cantos falando do jogo, camisas de Grêmio e Inter desfilando pra lá e pra cá, esse era o cenário. Associando isso à derrota de um risível Palmeiras diante do Santo André, passei a sentir o clássico correndo em minhas veias, mais do que nunca. E, se o time colorado ainda quiser sonhar com a taça, terá que somar três pontos no centenário confronto. O Brasileirão passa inevitavelmente pela partida de hoje.

Convenhamos, o Inter tem se superado às avessas no NABASileirão 2009. Fez tudo o que podia pra perdê-lo. Se esforçou para se colocar em situação delicada. Tem sido ridículo no segundo turno. Mas ainda assim, o campeonato quer que o Inter seja campeão. Os demais times conseguem ser tão incompetentes quanto o colorado. E, eis que ganhando hoje, o gigante alvirrubro ficará a apenas dois pontos do líder.

Torcerei fervorosa e apaixonadamente no jogo de logo mais. O Inter é muito mais do que qualquer eventual incompetência. O Inter não é Vitorio Píffero, Fernando Carvalho ou Mário Sérgio. O Inter não sou eu, nem você, nem Fernandão, nem Falcão. O Inter transcende indivíduos e merecimentos pontuais. O Inter é um clube gigante e uma torcida apaixonada. É pelo clube, por essa torcida inigualável que estarei cheio de fé roendo unhas, arrancando cabelos e berrando hoje às quatro da tarde.

É hora de buscar o título. Na marra. Apesar deles. Se a taça vier, ela pertencerá ao Sport Club Internacional e à sua torcida. Por mais vencedores que sejam os atuais dirigentes, o fato é que eles fizeram tudo que estava ao seu alcance para o colorado não ser campeão. Por incrível que pareça, não conseguiram. Se o Inter, no dia seis de dezembro de 2009, for campeão, por favor, senhores Vitório Píffero e Fernando Carvalho: não comemorem. Vocês não merecem.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ônibus

Ônibus lotado, sete horas da manhã. Ali dentro, diversas almas, conduzidas por um motorista e fiscalizadas pelo cobrador, encaminham-se para variados destinos e atividades. Se se tirasse uma fotografia de todos os pensamentos e sentimentos naquele ambiente, teríamos a mais caótica das imagens.

Rosana estava feliz. Primeiro dia no emprego, ansiedade a todo vapor, mas, acima de tudo, a perspectiva de um contracheque, desconhecido há mais de um ano. Juninho, moleque de doze anos, pensava em Paola, seu amor platônico da semana. Parece que ela perguntou as horas para ele ontem, vejam só! Jorge olhava a bunda de Valquíria, que estava de pé, um pouco à frente. Estava sob o efeito hipnótico daquele par de nádegas sufocado por uma calça suplex absolutamente provocativa e malvada. Ô, meu Deus, que beleza!

Vanusa dormia com a cabeça recostada na janela. Sonhava com hinos. Era evangélica, afinal. Gustavo imaginava o jogo do Inter no fim de semana. Bárbara projetava mentalmente o capítulo de logo mais da novela das oito. Tales era todo amor, estava nas nuvens, pois após o trabalho teria um romântico jantar à luz de velas com Rodrigo. Cá entre nós: eca. Márcia visitaria o pai, em estado terminal de um câncer no estômago. Como não podia deixar de ser, estava angustiada, disfarçando lágrimas que teimavam inundar seus globos oculares. Adriano e Cláudio conversavam sobre o novo Windows, seus recursos e limitações.

Lauro reproduzia em sua cabeça "Territorial Pissings", do Nirvana. Ah, o bom, velho, morto, cada vez mais vivo e atual Kurt! Éverton torcia para que surgisse alguma desculpa esfarrapada que fosse para, pelo menos naquele dia, não dar de cara com as fuças insuportavelmente falsas de seu colega de trabalho Ronaldo. Rubens lia um livro de Roberto Shinyashiki de como ser um vencedor no mundo competitivo contemporâneo. Sim, há quem goste desse tipo de lorota, digo, obra. Tiago olha a garota sentada ao seu lado e pensa consigo mesmo: ah, se ela me desse bola!

Opa, falta apenas uma parada e eu aqui, diletando, caramba! Ainda tenho que desbravar a condução lotada até a porta ao fundo. E puxar a cordinha. Motorista, pare o ônibus que eu quero descer!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Três letras, muitas palavras, tudo e nada a declarar

Vozes se misturam à dor de cabeça.
Dor na mente.
Espírito dormente.
Eis a modorra, a repetição.

Sou um monte de cacos disformes.
Uma imagem desfigurada, todos e ninguém.
Estou à procura do pote de ouro, do mapa de onde eu mesmo estou escondido.
Aqui é muito distante.

Me multiplico, como se pudesse me fazer onipresente.
Me disperso por aí como se fosse a transcendência vã de um amor inocente.
Sou culpado, confesso, espero o escárnio.
Só me resta, afinal, o aguardo angustiado de meus auto-flagelos.

Fatalisticamente, olho para seu rosto, sua boca.
Seu olhar é a mais cortante das lâminas.
Ela é um sonho e uma realidade próxima, distante.
Suas palavras dirigidas a mim, minha existência para ela, são o prêmio maior de todos.

Ela surge de novo.
De novo.
De novo.
Anorexia que não podia ter voltado.
Não podia...

Não há lição behaviorista que me faça evitar o mesmo erro.
Não consigo me vacinar.
Ela está mais forte e corrosiva.
Talvez, como nunca eu tenha visto antes.
Certamente, como não havia sentido, reprise inédita.

Meus versos com seu nome estão guardados.
Talvez em algum dia novembrino, talvez não.
Uma hora qualquer pode ser adequada.
Ou não.

Vinda de alguma estrela que ainda desconheço, ela só faz brilhar dentro de mim.
Irônico o destino que me faz cair de novo, do mesmo jeito.
Irônico o destino que nada ensina.
Irônico eu mesmo, embebido de realidade.

Ora, sua presença me incomoda e me engrandece.
É o estômago que parece esgaçar quando outros olhos a miram.
Engulo a seco.
Por todos os lados, temores, resguardos, meus resmungos inaudíveis.

Tento me redirecionar.
Juro que tento.
Mas ela é inevitável.
Justo agora, preciso do que não posso ter.

Não quero dizer mais nada.
Apenas, me recolho.
Assim sempre foi.
Assim talvez continue sendo.

Todos os cálculos são inexatos, e a inexatidão me acovarda.
Se outrora não foi, porque logo agora será?
Outrora tentei?
Não sei, realmente não sei...

Direita raivosa

A direita, por via do Partido Progressista (que, de progressista tem pouco, muito pouco), está em uma empreitada raivosa contra o esquerdismo e a juventude lutadora. Banhada em um discurso cínico, estereotipador e nojento, afirmam as brilhantes mentes jovens do partido do Maluf, em sua campanha veiculada no Rio Grande do Sul: jovem não tem que andar de camisa do Che Guevara! Quem disse que jovem tem que ser de esquerda? Jovem tem que ganhar dinheiro e ser empresário!

Em outra linha da mesma campanha, o pessoal mais "coroa" se remete às mais reacionárias ideias do tipo: tem que colocar bandido na cadeia! Tem que reprimir todos! Viva a propriedade e a família! E sempre querendo o bem do próximo (tsc, tsc, tsc...).

A direita brasileira está em crise extrema. Em nível de Rio Grande, isso se agrava pelo fiasco do governo de Yeda, e o cagaço pela possibilidade de impeachment que inclusive adquiriu respaldo popular. O lado reaça está tão atordoado que partiu para essa tática agressiva, direta, autodeclarada. E isso é bom. Afinal de contas, chega desse bando de gente reacionária se travestir de neutralidade. Os seus interesses são suficientemente claros. Não sejamos hipócritas: eles tentam se grudar no ideário fragilizado e nebuloso de setores não tão esclarecidos da sociedade apelando para valores distorcidos em suas lógicas internas. Trazem palavras de difuso apego popular para incutir a ilusão do inexistente valor de "liberdade".

Os jovens empresários e "empreendedores" que eles querem são os filhos das elites. Filho de pobre tem que trabalhar duro, quieto, e sem baderna. Ah, o sonho dourado reacionário. Povo oprimido, calado e feliz!

Lamento dizer essa imensa novidade, mas a "liberdade" que eles querem é a liberdade de explorar a classe trabalhadora sem fiscalizações de um Estado inconveniente. A liberdade que eles querem é a liberdade dos filhinhos de papai poderem esmagar os filhos de operários em processos seletivos nas melhores universidades "em pé de igualdade". Conveniente, muito conveniente liberdade, por sinal.

A sociedade tem duas propostas básicas, que variam historicamente, tomam novos formatos, mas não fogem de um processo lógico: os ricos defendem um Estado mínimo, que dê a liberdade absoluta para uma competição entre desiguais e consequente acirramento da lacuna entre elites e classes populares; os esquerdistas acreditam que o Estado tem, sim, que se fazer presente na busca do bem da maioria, regular a economia, evitar concorrências desleais e zelar o possível pela igualdade de oportunidades, numa dimensão mais ampla.

Cada classe defende aquilo que melhor lhe convém. As elites querem mais, e para isso, tem de esmagar ainda mais o populacho. Os pobres também querem mais. Querem escolas que capacitem efetivamente seus filhos, querem condições decentes de saúde e distribuição de renda equitativa. Os pobres querem, acima de tudo, mais dignidade. Acirrando a competição desenfreada entre lados assimétricos é que isso não vai acontecer. Tenham certeza.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Gilberto

Gilberto está andando pela rua. Empresário bem-sucedido, boa aparência, terno e gravata italianos. Vive para e pelo trabalho, pelo dinheiro, um dinheiro o qual ele quase não usufrui, pois não tem com quem compartilhar quase nada, não tinha o sagrado tempo para compartilhar nem entre ele e ele.

Tudo que compartilha são enfadonhas e intermináveis reuniões de negócios, mesas retangulares gigantescas preenchidas de homens iguais, de óculos, gravatas, rostos interessados e interesseiros. Nas happy hours, o assunto mais radical é falar sobre a variação da bolsa de Nova Iorque e a cotação do Euro.

Gilberto caminha e pensa: não há mais o que querer. Tudo o que o dinheiro pudesse comprar, qualquer anseio de ordem material, estava automaticamente suprido. Tinha dinheiro até para não se preocupar com mais nada. Estava, ora pois, realizado.

Mesmo assim, algo o incomoda. Talvez bobeira ou falta do que pensar. Talvez um surto de loucura passageiro. Gilberto, mesmo assim, começa a pensar em tudo de forma tão angustiante que seu coração dispara.

Gilberto, um agora perturbado Gilberto, reflete sobre o sentido do que está acontecendo. Sobre o sentido de estar ali, ou mesmo de ser Gilberto, o bem-sucedido empresário de boa aparência, e terno e gravata italianos. Tinha sexo ao bel prazer. Mas jamais teve tempo para amar ou deixar ser amado. Tinha colegas para beber um gole de uísque escocês com muito gelo, mas não tinha amigos para tomar uma cerveja bem gelada no boteco da esquina. Tinha tudo por fora, e nada por dentro. Não que não quisesse ter. Simplesmente não tinha. Foi negligente consigo mesmo, com seu coração, com sua alma.

De repente, tudo se apagou. No meio da rua. Do nada e do tudo. E tudo aquilo foi para... nada. Tarde demais para qualquer coisa. Viveu, produziu e ganhou muito, e muito, e muito. O suficiente até para não se preocupar com mais nada. E agora, não se preocupava mesmo. O terno e a gravata italianos refestelavam-se no mesmo chão cuspido e urinado pelos mendigos. O corpo que tinha sexo ao seu bel prazer estava, nesse momento, sem vida. O coração que jamais havia amado, agora estava parado, tal qual um relógio fuleiro de cinco reais esquecido em alguma caixa de tranqueiras inúteis, fedorentas e empoeiradas.

Gilberto, o empresário bem-sucedido de boa aparência, no mesmo chão cuspido e urinado pelos mendigos, estava cercado de gente interessada nele, e não no que é dele. Gilberto, o empresário bem-sucedido de boa aparência, e terno e gravata italianos, finalmente causava comoção em alguma alma que não queria nada em troca, e, com sinceridade, sem saber sequer quem ele era, estendia um plástico preto sobre seu corpo, simplesmente para que ele pudesse descansar em paz.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Questionamentos e incertezas

Seria tão melhor se eu pudesse despejar tudo o que sinto. Seria tão melhor se minha liberdade não limitasse as demais liberdades, e se as liberdades de outrem não me limitassem. Seria tão melhor se eu pudesse genuinamente sonhar. Seria, sim, muito melhor, se estes centímetros não fossem anos-luz.

Sinto vontade de seguir forte, e cada vez mais forte. Fazer as coisas que eu quero acontecerem. Simples assim. Como se o mundo estivesse em minhas mãos. Como se tudo o que sinto vontade de ter estivesse ao meu alcance.

Tudo pode ser melhor, isso eu sei. Mas pode ser suficientemente melhor? Vale a pena, afinal, lutar para no fim das contas conservar uma incompletude perturbadora? Qual o potencial que eu tenho? Qual é a minha capacidade de realizar? Não sei. Não faço a menor ideia. Pode ser tudo. Pode ser nada. Pode ser pouco. Pode ser muito.

Até que ponto sou o dono do meu mundo? Ou do mundo todo? Em que medida sou centro ou periferia do universo? E quando tudo acabar, será que realmente vai acabar? Será que tudo o que sinto, o que sou, o que me compõe, é feito justamente para nada? Para ter o mesmo final de uma formiga esmagada por um All Star?

É uma absurda maluquice pensar ou projetar todas essas coisas. Tenho plena consciência disso. Mas, dane-se, sou maluco mesmo. Essa maluquice é uma dádiva dolorosa. Tudo parece cansativo. E só em mim mesmo, naquilo que sinto e penso, é que encontro reconforto. Sou, ao mesmo tempo, um micróbio desprezível e todas as coisas mais grandiosas e importantes. Sou puro conflito e incerteza interior.

O certo, o errado, o ser, o não ser, o concreto, o abstrato, tudo se mistura e só faz me confundir. Quero enlouquecidamente acertar. Mas não quero, diante de nenhuma circunstância, errar. Eu gostaria de saber ler a realidade que me cerca. E nesse sentido, sou um analfabeto absoluto. Procuro por mim mesmo em cada canto, em cada aposento dentro de meu corpo, de minha alma, do meu coração. Mas não me encontro. Me sinto uma besta inútil. Vejo as pessoas à minha volta e, salvo uma ou outra exceção, viver parece tão fácil!

O que haveria, então, de tão errado nisso tudo? Eu ou o esmagador restante? O restante existe mesmo? Não é tudo uma alucinação? Estou mergulhado em um mundo que não passa de ilusão, afinal? Não sei. Gostaria de saber. E sei que provavelmente eu nunca vá saber.

domingo, 18 de outubro de 2009

Racional

Às vezes penso como seria a existência se desprovida de devaneios e irracionalidades, e tenho quase certeza de que a vida seria muito melhor se fosse tão somente comandada pela razão. A inexistência das emoções tornaria tudo mais tranquilo, previsível. Viver seria mais ameno. Simplesmente, se fariam as escolhas óbvias, lógicas.

As emoções, os sentimentos, são os grandes entraves do dia a dia. É a partir de sensações irracionais que hesitamos ou mergulhamos numa piscina sem água. Ah, e como cansa mergulhar em piscinas sem água! A cabeça dói. As emoções, afinal, criam miragens, ilusões de ótica que, quando confrontadas com a realidade concreta, às vezes tarde demais, com o estrago já feito, quebram todo um jogo de imagens como se ali residissem quadros ou espelhos enganosos.

Fossemos pura razão, e nada disso aconteceria. Veríamos o que existe. Não sofreríamos nem criaríamos qualquer expectativa sobre o que não existe ou já provou ser um erro. A razão pura, utópica razão pura, tornaria a existência fácil ao extremo, sem angústias, sem expectativas, somente permeada pelo que é, como se realmente existisse uma realidade pura fora de nossas percepções.

Por outro lado, a racionalidade em estado puro tornaria a vida completamente automatizada, mecânica, robotizada. Qual seria, afinal, a graça do mundo se não sentíssemos nada? Os sentimentos nos tornam vivos. Se penso, logo existo, conforme postulou Descartes, não é menos verdade que se sinto, logo vivo. O amor, o ódio, as paixões, os ciúmes bobos, tudo isso nos preenche de alguma forma.

Talvez não haja beleza maior na vida do que pensar numa pessoa e ficar imaginando se ela também pensa em nós. Ou acordar com o coração disparado num dia qualquer pelo simples fato de que vamos ver aquele alguém especial. Ou ainda dar o mais apaixonado dos beijos depois da gagueira, das palavras fugidias, do suor gelado nas mãos, do medo do não que parece tão óbvio e predestinado.

Viver é mais do que pensar. É, acima de tudo sentir. Amar loucamente. Delirar numa realidade paralela, próxima por centímetros, distante por anos-luz. Sofrer, se assim tiver que ser. Mas jamais perder a capacidade de sonhar, querer, desejar.

sábado, 17 de outubro de 2009

Esquerda(s)

Às vezes me pego pensando o contexto político brasileiro e a forma como as diferentes forças de esquerda o encaram, e fico bastante incomodado. A esquerda brasileira é cada vez mais fragmentada e autodestrutiva. Infelizmente.

Já fui um esquerdista mais ortodoxo. Daqueles que se recusam a ver qualquer avanço social que um governo democrático alcance, e buscam minar tudo e todos com uma finalidade "revolucionária". De alguma forma, com o passar do tempo fui me tornando mais flexível. Alguns poderão me chamar de acomodado. Pra mim, sou menos ranzinza, mais otimista, talvez.

Afirmar que a esquerda é autodestrutiva não quer dizer que eu defenda uma pseudo-uniformidade no terreno esquerdista nacional. A adoção de tais mecanismos seria ingênua e artificial. Mas acredito, isso sim, que ser plural não quer dizer ser fragmentado. Debates teóricos e de métodos para a mudança da lógica da sociedade são sempre bem-vindos. Quando realizados de forma ampla, aberta, sincera, construtiva, com o objetivo de se alcançar consensos, servem para engrandecer e fortalecer a ação da esquerda.

O grande problema é que, não poucas vezes, vemos os diferentes setores da esquerda cruzando fogo entre si, ao passo que a direita, tangencialmnte, se resguarda para um traiçoeiro bote (2010 tá quase aí). As esquerdas brasileiras, de forma geral, agem carangueijisticamente. Um partido tenta levar o outro para o fundo da panela. Claro, tudo em nome de uma "tática revolucionária".

Ao invés de se privilegiar os pontos de consenso entre as esquerdas, nota-se uma priorização aos dissensos. Principalmente dos setores mais ortodoxos. Eis uma lógica que me parece absolutamente contra-revolucionária. Ao invés de se dar passos em união, buscando progressivamente pontos em comum, e rompendo, se necessário, posteriormente a um primeiro estabelecimento hegemônico esquerdista, se faz o contrário. Primeiro, abre-se fogo com os irmãos (mesmo que distantes), para depois se buscar a mudança social. Dessa forma, se dissolvem os laços internos, e acaba por se perder toda a força de enfrentamento com as elites e de transformação da realidade concreta.

Qual lado, hoje, se desenha como mais utópico? Aquele que busca penetração via democracia burguesa, ocupando terrenos negligenciados, trabalhando por dentro do sistema para de alguma forma corroê-lo, ou transformá-lo criando condições apropriadas para uma sociedade menos desigual e, assim, mais politizada? Ou aquele que acha que, isolado, com sua metralhadora giratória, incutirá automaticamente nas mentes operárias o ideal revolucionário? Esta é a reflexão que proponho.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Silvio Joselito Santos

Silvio Santos anda um tanto, digamos, serelepe. Depois dos episódios polêmicos envolvendo Maísa, agora foi a vez da Carla Perez ser publicamente constrangida pelo veterano comunicador. Depois de algumas respostas não muito brilhantes da ex-apresentadora/ex-dançarina/ex-cantora (!!!)/ex-capa da Playboy/ex- mulher do Alexandre Pires, Silvio Santos, com todo o espírito de porco que Deus lhe deu, tascou a pergunta: "Carla Perez, não queria perguntar publicamente, mas vou perguntar: você tem ensino fundamental?" Seguiu-se uma estrondosa explosão de risadas da plateia.

Não quero aqui fazer nenhum tipo de defesa à pessoa de Carla Perez. Ela representa a mulher objeto, completamente alienada e incapaz de qualquer exercício intelectual. Ela é o protótipo das mulheres-fruta dos dias de hoje. Figuras como Carla Perez servem tão somente para ruborizar as mulheres com capacidade de pensar. Além disso, Carla Perez não pode ser caracterizada exatamente como uma "pessoa legal". Quando apresentava no mesmo SBT, certa feita ela mesma deu um esporro histórico na sua produção, num momento de descabida arrogância. Façamos, também, um acordo: ela deve ter recebido um cachê muito bom para estar naquele circo, do qual ela era o espetáculo mais engraçado. O que está em pauta é o caráter humano, emocional, psicossocial do acontecido.

Silvio Santos foi, sim, extremamente deselegante. Não é de hoje que ele trata pessoas como animais bizarros para simplesmente alavancar audiência. Mas, ultimamente o homem do baú anda se superando. Não precisa ser nenhum Einstein para se perceber que Carla Perez é culturalmente limitadíssima. Mas é o tipo de coisa que se pensa, mas não se fala. Não vejo motivos para uma atitude capaz de magoar outro ser humano de forma tão cortante. O apresentador pegou no "ponto fraco" de Carla Perez. Esse tipo de brincadeira é vil ao extremo. Bate no fundo da alma de uma pessoa ouvir algo a respeito de uma limitação que ela tem, que foi estabelecida em suas origens sócio-econômicas, e da qual é difícil se libertar.

O manda-chuva do SBT parece viver uma era pós-ética. Talvez por saber que já está mais pra lá do que pra cá, Silvio Santos ligou o foda-se e virou quase um João Gordo de terno e gravata. Cá entre nós, João Gordo hoje em dia é um gentleman perto do Silvio Joselito Santos. O patrão do Lombardi hoje parece mais um moleque de 10 anos de idade, que sai falando sem pensar, rindo da cara de todo mundo e zombando dos defeitos de quem quer que apareça em sua frente. Triste e patético, para dizer o mínimo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Professor

Uma das profissões mais nobres, senão "a" mais nobre, sem dúvida nenhuma, é a de professor. Assim como a medicina, ela ultrapassa a categoria de profissão: é, acima de qualquer coisa, uma missão.

Quando pensamos em professores dos níveis fundamental e médio, do ensino público, principalmente, é possível vislumbrar o quão delicado é o ofício. Lida-se com crianças, pré-adolescentes, adolescentes, muitos deles cheios de problemas pessoais e familiares, que veem, assim, a escola como nada mais que uma válvula de escape, um passatempo fundamentado em si só e apenas por si só. Lida-se com uma absurda falta de perspectivas, principalmente quando levamos em consideração as classes populares.

Sem perspectivas mais concretas de futuro, os alunos acabam por perder a motivação pelo ato de estudar. Distanciam-se, pois então, da dimensão educativa da escola. Quando a frequentam, passam a fazê-lo somente para relacionar-se socialmente e prestar contas de onde estavam durante o dia para os pais.

Eis o grande drama, o imenso dilema em que o professor se encontra no ensino público obrigatório no país. Os conflitos sociais repercutem diretamente na escola. A escola, por sua vez, muitas vezes não possui sequer a infraestrutura básica para acolher crianças e adolescentes neste panorama. No meio dessa série de conflitos e contradições, de lá e de cá, encontram-se os professores, responsáveis nesse tipo de cenário não apenas por transmitir conteúdos, mas também por terem um tantinho de assistentes sociais. É aí que começa um círculo vicioso cruel.

Sem estrutura, os professores acabam tendo de apelar para uma uniformização de tratamento. A escola pública brasileira não está pronta para abrigar a reprodução dos conflitos sociais dentro dela. Uniformizando o tratamento, o ensino torna-se desinteressante. Obrigatório no pior sentido da palavra. O professor e a escola, então, deslegitimam-se. Grosso modo, na educação pública brasileira, professores fingem que ensinam e alunos fingem que aprendem (às vezes, nem isso). Isso mesmo com todo o esforço sobre-humano que muitos professores empreendem de fato.

Por isso, há sim que se ficar de pé e aplaudir os professores do nosso país. São heróis. A maioria deles ganha uma merreca para socializar quem muitas vezes, por toda uma série de circunstâncias socialmente estabelecidas, não está disposto a ser socializado. Alguma coisa da essência escolar pública do Brasil deve ser modificada. Aprender deve ser transformado num ato prazeroso. Há também mudanças muito profundas a serem realizadas nas estruturas sociais, sem sombra de dúvidas. Pelo menos, o esqueleto do sistema de crenças das pessoas tem de ser modificado. Qual o caminho mais óbvio para isso? A educação, ora pois pois.

O professor se vira, faz o que pode, desgasta-se. Mas há de se criar uma base, uma infraestrutura que permita à escola mais do que preencher o tempo de crianças. O motor para a mudança social é a educação. Mas não há aí uma via de mão única. Educação e condições sócio-econômicas se retroalimentam. A sociedade tem que dar sua contrapartida. O Estado tem que parar de fingir que não é com ele. É, sim, também, com o Estado. É, sim, também, com os pais.

Essas relações tem de ser consideradas dentro de sua inescapável complexidade. Cabe aos governos, nas suas diferentes esferas, planejar e adotar práticas e políticas capazes de abarcar a série de fatores implicados no contexto social brasileiro, criar as condições para que a escola se configure como um ente verdadeiramente socializador.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Despertar

A noite de sono não foi lá essas coisas. Como haveria de ser, se tanto ele vinha dormindo de dia? Lógico, pois, que não sobraria um sono pesado ao cair do sol. O motor da geladeira, estragado, também não ajudava muito. Roncava tal qual uma britadeira. Exagero, talvez um pouco menos.

Os pássaros faziam o favor de acordá-lo. Pareciam alvoroçados. Era cedo demais para levantar da cama. E tarde demais para buscar um último resquício de sono verdadeiro. Contentava-se ele, então, a simplesmente ficar deitado, esperando o toque sempre certeiro do despertador. Debaixo dos cobertores revirava-se, pra esquerda, pra direita, pra esquerda de novo, e assim sucessivamente. Alguma inquietação apertava-lhe o peito.

Alguns raios de sol penetravam os buraquinhos da persiana. Que bom! Sol! As expectativas acinzentadas ganhavam o colorido de um belo dia de céu azul. E, dali a pouco, provavelmente nem tão pouco assim, o trim-trim do despertador avisava: "agora é com você". Ficou um tempo mais na cama, alertando a alma calmamente, ouvindo o silêncio, imaginando a hora da estrela. Finalmente, levantou-se.

A primeira coisa que ele fazia era ligar o aparelho de som com seu disco favorito. Assim foi. Dirigiu-se ao banheiro, onde escovou os dentes, mais lentamente que o habitual. Cortou as unhas das mãos, e depois fez a barba. Cuidadosa e milimetricamente. Escolheu, então, com certo capricho, a roupa do dia. Era, sim, um dia diferente. Por isso, cada ação era cercada por um carinho todo especial.

Tomou seu banho, vestiu-se, perfumou-se. Dobrou a dose usual de perfume, diga-se de passagem. Era o merecimento daquele dia, que tão recompensador haveria de ser. Todos tem, afinal, direito ao seu próprio momento, por mais singelo que este seja. Fitava-se, minutos e mais minutos, em frente ao espelho. Auto-analisava seus traços, harmonias e desarmonias. Tinha, contida dentro de si, uma felicidade prestes a florescer. Era simples questão de horas. Somente faltava esperar o tempo, implacável, acolhedor e, acima de tudo, previsível tempo. E o tempo passou, passou, passou...

Lá está ele, agora, sozinho e na mesa do bar. Flertando o copo de cerveja já um pouco quente e sem gás. Mais um dia acordou, estufou no peito uma nova esperança, e saiu de casa, de cabeça erguida. Mais uma vez estava lá. Mais uma vez vazia. Mais uma vez pra nada.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Recordações de infância

Em dia das crianças, é praticamente inevitável: uma série de recordações vem à cabeça. Momentos muitas vezes singelos, bobos, mas que compuseram a nossa vida emergem de volta, mais vivos do que nunca. Na infância se constrói muito do que somos. E talvez sejam exatamente as coisas mais simples as que mais marcam, pelo menos no sentido positivo.

Me lembro perfeitamente da minha motinho amarela. Adorava. Depois, com bicicleta, não me dei muito bem. Mas a motinho, ah, era uma companheira inseparável. E quando alguém que não eu subia nela, eu era corroído por um ciúme absurdo. Como se ela tivesse sido arrancada de mim. Como se, talvez, eu nunca mais pudesse andar nela.

Minha infância tinha os desenhos do SBT. Todas as manhãs, Dennis, o Pimentinha, Pica-Pau, Ursinhos Carinhosos, Ducktails, Cavalo de Fogo (não, não era um cavalo alcoólatra)... Minha infância tinha Vovó Mafalda. Confesso, não simpatizava muito com ela. Não sofro da síndrome de Ronaldo, e portanto, a mim parecia muito estranho aquela "vovózinha" falando com voz grave.

Infância de tanta coisa gostosa, afinal (não falo nem de Angélica, nem de Xuxa). Minha avó era uma cozinheira de mão cheia. Adorava quando ela fazia espinafre com farinha. Me sentia o Popeye. Talvez pelo fato de não vir naquelas latinhas, talvez tão somente por isso, meus músculos não tinham aquelas doideiras do marinheiro, e eu não conseguia levantar o sofá da sala com o dedo mindinho. Tudo bem. Nada mais que uma frustração infantil. Ainda por cima, eu era especialmente felizardo, porque meu pai trabalhava na Lacesa (que depois virou Parmalat), e trazia iogurte praticamente todos os dias. Eu amava principalmente aquelas sobremesas de chocolate. Fui um danetólatra. Era demais!

Havia os gibis. Adoráveis gibis. Certa feita, fui internado com uma crise de bronquite no Hospital Conceição. Fiquei no leito ao lado do meu primo Cesar, que sofria de asma, e também estava internado. Tomei as injeções mais doloridas da minha vida naquela noite. Tudo que pedi para minha mãe trazer de casa eram uns gibis do Chaves. E ficamos, eu e Cesar, lendo as historinhas durante a noite. Tenho a nítida impressão de não ter pregado os olhos até o amanhecer. Mas não tenho certeza.

Não posso esquecer dos inspiradores heróis japoneses: Jaspion, Changeman, Spielvan, Jiraiya, Jiban. Todos eles povoaram a minha criancice de maneira intocável. Eu tinha o uniforme completo do Changeman azul. Ele teve um desfecho, digamos, conflituoso. Certa vez, estávamos reunidos na sala de casa, e meu primo comia pipocas numa bacia. Só ele, porque eu, particularmente, nunca fui muito fã de pipoca. Pra mim parece algo como isopor com sal. E meu primo pisou em minha máscara plástica do uniforme, que estava no chão. Não posso dizer que foi com má-intenção. Provavelmente não tenha sido. Mas fiquei tomado por uma raiva incontrolável, e tive um momento Chilavert. Puxei um catarrão daqueles, não do fundo da garganta, mas do fundo da alma, e cuspi, impiedosamente, na bacia de pipocas. Fiquei eu sem minha máscara dos Changeman. E ele, sem as pipocas. Zero a zero, bola ao centro.

Não sei se a infância é a melhor fase da vida. Não passei por todas ainda pra fazer tal afirmação. Mas, com certeza, é a fase mais despreocupada. Mais pura. Em que todas apreensões dizem respeito ao que vai acontecer no próximo episódio do nosso seriado favorito, ou a quantas unidades de Stickadinho a mãe vai trazer de noite do centro. Ser criança é ser genuíno. É ser pura essência. Sejamos, pois, um pouco crianças no nosso dia a dia. Busquemos, pelo menos um pouquinho, o que de maior há na vida: as coisas pequenas. São elas que são verdadeiramente importantes.

domingo, 11 de outubro de 2009

Turbilhão

Sinto-me angustiado, apreensivo. Preocupado, ao mesmo tempo, com tudo e com nada. Talvez, com não-sei-o-quê. Estou, nesse exato momento, sem reação. No meio de um turbilhão de pensamentos, sentimentos, temores, esperanças, todos eles controversos entre si. Estou perdido entre uma vontade louca de ser feliz e um medo incrível de perder o que ainda nem cheguei a conquistar.Justificar
Meu corpo está imóvel. Inerte. Travado como se eu fosse, de alguma forma, tragado pelas minhas projeções. Sempre as mais amargas projeções. Como se a alegria jamais pudesse enraizar-se dentro do meu ser. Como se eu fosse proibido de me sentir bem. Como se, lá no meio da balinha, ao invés de chocolate houvesse cocô. Como se qualquer bonança fosse tão somente prelúdio das piores tempestades.

Preciso, urgentemente, de certezas na minha vida. As interrogações me incomodam. Elas me corroem. Mas, afinal, o que é a existência se não constante e interminável interrogação? Vivo num labirinto de espelhos, de vários tipos, formas, tamanhos, e em cada um vejo a mesma e simultaneamente oposta imagem. Não consigo discernir as ilusões óticas do meu verdadeiro eu. Sou, talvez, incapaz de distinguir o real do não real. Ou até mesmo do dólar.

Ah, certezas, onde estão vocês? Apareçam logo! Por mais que não existam, apareçam mesmo assim! Sejam provisórias, se for o caso. Só peço que não me avisem. Apenas sejam. Ao menos, dentro de mim. Quero deitar a cabeça no travesseiro e poder me apegar um pouco à realidade concreta.

Necessito de algo que me permita mais ser e ter do que estar e querer. Preciso mais de Parmênides, menos de Heráclito. Mais do que transbordar amor, quero amar de fato e de direito. Quero amar e poder dizer que amo, sem pudores, sem bloqueios, sem receios de qualquer natureza. Quero fazer, e não apenas idealizar, o mundo que quero para mim. Mas como fazer isso se estou fadado a ser o meu próprio universo? O que fazer se não poderei, jamais, trocar de canal? O que fazer se o medo da tristeza constrange minhas esperanças e possíveis arrojos em busca da felicidade e de uma, provavelmente utópica, plenitude? Preciso me reerguer.

Preciso do amanhã. E é pra ontem.

sábado, 10 de outubro de 2009

Notícias que (ainda) chocam

Não é nenhuma novidade que a violência vem sendo progressivamente banalizada, principalmente nas grandes metrópoles. Entretanto, notícias de certa natureza não deixam de chocar, causar espanto, e até mesmo um tanto de horror. O assassinato de um funcionário público de 50 anos em São Paulo, após buzinar para um carro que o fechou, quase provocando um acidente, se enquadra exatamente nisso.

O apodrecimento de determinados valores morais (aqueles mínimos para a convivência civilizada, como o respeito à vida, por exemplo) aparece como gerador desse tipo de estupidez. Não encontro outro termo pra definir esse tipo de ato: matar uma pessoa depois de uma buzinada! Acabar com uma vida, desestruturar uma penca de vidas que deviam rodear a convivência do homem, por causa de uma porcaria de um "fom-fom". Isso só pode ser chamado de estupidez. ES-TU-PI-DEZ.

Palmas para os pós-modernos. Clap, clap, clap. Viva o vale-tudo. Viva o "nada é, nada está, nada foi, tudo pode ser". Eis que estamos, ao invés de mais livres, mais vigiados. Mais auto-vigiados. Exatamente por tudo ser válido, nada pode ser feito, uma vez que não se pode adotar nenhum parâmetro, nenhuma referência em relação aos atos alheios. Somos, pois então, prisioneiros da incerteza.

Tudo fica, no constante desmanche das estruturas morais de convivência, atemporal, amoral e relativizado a um absurdo sem precedentes. Aqui, a discussão não é nem em relação à moldura jurídica: existem leis destinadas a regular, ainda que sem grande eficiência, o caos instaurado. O que se discute é a completa desproporcionalidade gerada por esse contexto autodestrutivo, nascido, sem dúvida nenhuma, no marco de um sanguinário capitalismo competitivo ao extremo, baseado num "quem pode mais, chora menos", que acaba por se reproduzir no cotidiano. Esta lógica fragmenta, mais do que isso, atomiza esquizofrenicamente, e de forma aparentemente irreversível, a sociedade ocidental.

Ô, se Durkheim estivesse vendo tudo isso...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pessoas especiais

Se há alguma coisa de fundamental na vida, mais do que qualquer outra coisa, mais do que dinheiro, pão ou água, é ter pessoas especiais à nossa volta. Essa é uma dádiva maravilhosa, uma espécie de alimento espiritual, algo que até mesmo transcende alguns aspectos da existência.

Afinal de contas, são essas pessoas que fazem tudo ter sentido. São aquelas que sabemos que, mesmo a quilômetros de distância, estão junto a nós, de alguma maneira. Isso porque elas fazem parte da nossa essência. E nós, talvez também façamos um pouco parte da essência delas.

As pessoas especiais são aquelas que nos dão um imenso prazer pelo simples fato de vê-las. Pelo simples fato de existirem. São as pessoas com quem verdadeiramente podemos contar, aquelas que estarão do nosso lado com chuva ou com trovoadas. Tomando uma cerveja discontraidamente e ou dando um abraço aconchegante nos nossos momentos de fraqueza. Comendo uma deliciosa lasanha ou o pão que o diabo amassou.

Essas pessoas talvez nem imaginem o bem que me fazem. O quanto elas tem, sim, uma importância ímpar. O quanto, exatamente por saber que elas acordam todos os dias, me fazem acordar também, levantar, respirar fundo, e seguir. Encarar tudo como tudo deve ser encarado. E saber que, por mais que tudo fique escuro e nebuloso, por mais que eu erre, por mais que eu faça cagadas inacreditáveis, elas estarão lá, me aguentando, me dando energia para continuar sempre, e sempre, e sempre.

Felizes são aqueles que tem pessoas especiais à sua volta. Feliz, ora bolas, sou eu.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nova atitude

A vitória colorada ontem, como era de se esperar, não foi brilhante. Não é de uma hora para outra que Mário Sérgio dará padrão de jogo à equipe. Mas se viu, isso sim, uma mudança de atitude muito forte da equipe. O Inter foi mais determinado do que vinha sendo. O Inter foi mais objetivo do que vinha sendo. E, assim, ganhou.

Tecnicamente, o time esteve cambaleante. A defesa vacilou algumas vezes, e o meio de campo ainda carece de organicidade. Mas dois jogadores fizeram a diferença. Dois jogadores que vinham igualmente mal. Dois jogadores que desequilibraram de formas diferentes.

D'alessandro foi tudo o que sabe, tudo o que pode. É craque. Jogou quase como um atacante, cumprindo papel semelhante ao que Alex cumpria no ano passado. E, talvez animado com a chegada de um novo treinador, jogou demais. Esteve ligadíssimo o tempo todo, fez gol de falta, criou uma penca de jogadas ofensivas. Não passou nem perto do D'ale dispersivo, preguiçoso, de má vontade dos últimos tempos. Se o despertar de D'alessandro não for um espasmo, e perdurar para o resto do campeonato, sem dúvida nenhuma, o Inter ganhará vida nova no Brasileirão.

Alecsandro, sozinho no ataque, pelo menos no papel, fez o que se espera de um centroavante. Marcou presença na área, trombou, finalizou, errou, acertou, e foi premiado com dois gols. Esse é o ofício do camisa nove. Centroavante não é pago pra jogar bem. É pago pra fazer gols. É isso, nada mais do que isso, que se exige desta figura. Alecsandro, quando é Alecsandro, é decisivo. Alecsandro, quando é Alecbrahimovic, é patético. Que continue, ora pois, sendo Alecsandro.

A principal, e talvez única, missão da noite de ontem, foi cumprida. O Inter ganhou do Náutico. Não importa se teve problemas defensivos, se não teve o outrora propalado equilíbrio adenorbacchiano. Ganhou. Simples assim. E o momento exige exatamente isso. Vitória atrás de vitória. Três pontos atrás de três pontos. O cenário atual clama por pragmatismo. Esqueçamos, por hora, o bom futebol. Exijamos, somente e tão somente, resultados. Jogar bem é vencer. É disso que o Inter mais precisa. O Inter venceu. Logo, jogou bem.

Retomada

Hoje à noite, no Beira-Rio, começa a "Era Mário Sérgio" no comando do Inter. Acima de tudo, o jogo contra o Náutico deve marcar uma retomada. É óbvio que não se verá grandes brilhaturas táticas, uma mecânica de jogo irretocável, um time que encha os olhos do início ao fim do jogo. Tudo o que se pode esperar e exigir é uma nova postura da equipe. Ah, uma nova postura...Justificar
A postura hesitante, até mesmo covarde dessa equipe sob o comando de Tite, terá que ser trocada por uma postura mais arrojada, não porra-louca, mas de determinação, de busca intensa pela vitória. O Inter dos últimos meses parecia conformado, indolente, como se nada dependesse da atitude dos jogadores que entravam em campo. Mário Sérgio já deu mostras que não vai aceitar palhaçadas e panelas no vestiário. Cortou Sorondo que, diz-se, estava contaminando negativamente o ambiente entre os atletas. E, pelo que conhecemos do novo treinador, cortará quem mais estiver fora de uma conduta aceitável no relacionamento interno.

E o elenco, o que quer, afinal? Bom, se quer conquistar uma vaga na Libertadores e ter um fim de ano minimamente digno, o time colorado tem que voltar a ter dimensionadas para si mesmo sua capacidade e sua qualidade. Não basta entrar em campo. Tem que jogar. Tem que se doar. Tem que se movimentar. Tem que lutar.

Convenhamos, o jogo contra o Náutico é uma barbada. Aliás, deixa eu reformular: se o Inter quiser, e fizer por onde, o jogo contra o Náutico é uma barbada. Não é desrespeito nem presunção. Muito antes pelo contrário: pressuponho que o Inter tenha que ter fome de vitória para ganhar bem, e para ter fome de vitória é indispensável que se respeite o time adversário. Entretanto, se o colorado entrar focado, minimizando erros e maximizando a concentração, tenho certeza absoluta: passa por cima do time pernambucano. E não pode ser diferente. Tudo o que esses jogadores tem de fazer é jogar o que sabem.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Efeito Twitter

A internet tem várias virtudes, que são ao mesmo tempo graves defeitos. Seu dinamismo, sua capacidade de atualização, seus tantos recursos, são o que de melhor e o que de pior ela possui.

O tempo é cada vez mais suprimido e atomizador. As pessoas online tem acesso a tudo a qualquer hora. Então, as horas de cada um tornam-se horas únicas. Cada sujeito se auto-programa. A simultaneidade, exatamente por seu excesso, acaba se auto-liquidando, e criando uma sociedade um tanto esquizofrênica, pautada por um exagero de pílulas em forma de vídeos, sons e notícias.

Dessa forma, a internet é o terreno do ser e do não ser. Já chegou o disco voador! Já se foi o disco voador! O solo da leviandade é cada vez mais fértil. Esse fenômeno culmina com o efeito Twitter. O microblog se tornou uma espécie de central de notícias e fofocas. Não são poucas as manchetes do tipo: "Fulano diz no Twitter que adora Coca-Cola com batatas fritas", ou "Ciclano tenta desfazer mal-entendido de post em microblog".

Não quero aqui dar uma de "anti-tecnologista", ou qualquer coisa do tipo. Apenas acho as ferramentas tecnológicas tem de ser facilitadoras da vida, e não a vida em si. A realidade concreta se virtualiza ao mesmo tempo que o campo virtual se concretiza numa espécie de dimensão paralela. Tudo fica de cabeça para baixo, num contexto cada vez mais propício a um individualismo exacerbado e um isolamento do sujeito em relação ao seu próprio mundo.

O excesso de inclusão acaba por excluir, por colocar verdades e mentiras, fatos e factóides, dentro de um mesmo saco. O indivíduo, imerso nesse jogo de sim, não e talvez, perde toda e qualquer referência. Esvai-se a realidade. Esvai-se uma verdadeira autonomia de pensamento, à medida que o sinal é ao mesmo tempo verde, amarelo e vermelho, confundindo e escondendo o que é no meio do que não é. Eis o lado perverso do dinamismo tecnológico.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Agora, é Mário Sérgio

A demissão de Tite era inevitável. Pena que ocorreu tarde demais para o Inter pensar em título. Ontem, o time colorado teve mais uma atuação constrangedora. Daquelas de envergonhar até o mais bonzinho e condescendente torcedor colorado. Fiasqueira, pra dizer o mínimo.

Mário Sérgio chega empolgado, falando em título. Isso é bom. Mesmo que saibamos que tudo que o Inter deve almejar, racionalmente, é a vaga na Libertadores do ano que vem. Mas a motivação do novo treinador pode dar uma nova vida ao elenco colorado.

Façamos um acordo: Mário Sérgio é um treinador tampão. Não tem temperamento para trabalhos longos. Não tem o tamanho das ambições coloradas. Mas é o que temos para o momento. E tem que rapidamente remobilizar o elenco colorado. Mais do que isso: tem que organizar um time, escalar goleiro no gol, laterais nas laterais, zagueiros na zaga, volantes na volância, meias nas meias e atacantes no ataque. Tem que trazer de volta o brilho do futebol de D'alessandro. Tem que convencer convencer Alecsandro de que ele é... Alecsandro. Tem que tirar desse elenco o máximo que ele pode dar, não só em termos técnicos, mas principalmente em capacidade de entrega e devoção em campo.

Tomara que a chegada de Mário Sérgio surta efeito de fato, para ao menos levar o Inter à Libertadores do ano que vem, e aí sim, começar o novo ano com as esperanças renovadas no coração da torcida. Podia ser bem melhor se tivesse sido antes. Podia ser Muricy, podia ser Luxemburgo, se tivesse sido antes. Poderíamos estar brigando pelo título, se tivesse sido antes. Mas vamos de Mário Sérgio. Pelo menos, caiu Tite. Antes tarde do que nunca.

sábado, 3 de outubro de 2009

Não importa

Não importa se a bolsa caiu.
Não importa se a Olimpíada de 2016 será no Rio.
Não importa se eu, a essa hora, erro uma ou mil letras na digitação.
Importa, isso sim, que falei contigo.Justificar
Não importa se o Inter perde.
Não importa se o Tite escala o Bolívar na lateral direita.
Não importa se minha garganta dói.
Importa que hoje eu existi.

Não importa se tudo é injusto.
Se chove, se neva, se faz um calor infernal.
Não importa se nada rima.
Não importa que a gramática, o Aurélio, o Luft e o Professor Paquale vão direto para o lixo.
Apenas, e só isso que importa: você.

Não importa se sou brega.
Tanto faz se sou clichê.
Não me incomodo de ser ridículo.
Desde que seja por você.
Por tudo que você foi.
Por tudo que você é.
Por tudo, tão pouco, mas tão muito, que espero que você seja.

Não importam segundos, minutos, horas dias.
Só importam aqueles segundos, minutos, horas, dias, que sejam dedicados a você.
Não importa o que aconteceu.
Não importam as prioridades certas ou erradas.
Não importa você de mãos dadas com ele, já passou.

Importa, só isso e nada mais, o que estou sentindo.
Importa, só isso e nada mais, que estou um tanto ansioso.
Importa, só isso e nada mais, que me sinto um adolescente bobo.
Importa, só isso e nada mais, que ouvi sua voz, e que tão bem me faz a sua voz.
Importa, só isso e nada mais, que amo você.
Sim, eu amo você.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Efeito retardado

Cogita-se, em caso de derrota no domingo, que o Inter demita Tite. Seria o tipo de decisão da qual não se pode, racionalmente, discordar. Tite chegou ao seu limite. Não consegue tirar mais nada do colorado.

Não sou daqueles que consideram Adenor Bacchi uma desgraça de treinador. Também não me filio às teorias conspiratórias de gremismo do técnico do Inter. Simplesmente, ele não tem mais ambiente. Chega um ponto em que tudo que um profissional faz deixa de ter efeito. É a chamada "fadiga dos metais". Tão enfadonhas entrevistas não devem variar muito no vestiário colorado. O discurso titeano não cola mais junto à torcida. Provavelmente, não cole mais junto ao grupo de jogadores.

Além de tudo isso, o tio Adenor não se ajuda. Não dá sequência a nenhum tipo de convicção. Insiste com erros óbvios. Tira da cartola coelhos pra lá de conhecidos. Daqueles que até as traves do Beira-Rio sabem que não vão solucionar nada. E assim, nesse vai-que-não-vai-que-tô-indo-mas-não fui, as perspectivas de título acabaram. O máximo que o Inter pode querer a essas alturas, é chegar à Libertadores. Pouco, muito pouco para as ambições que o colorado (pelo menos a sua torcida) tem.

Poderia ter sido diferente se as mudanças tivessem sido feitas mais cedo. Tipo, quando Muricy e Luxemburgo estavam dando sopa no mercado. Mas não foi. Especula-se o nome de Luxa para treinador do Inter na próxima temporada. Muita gente rejeita esse nome. Não é o meu caso. É bem verdade que os últimos trabalhos de Luxemburgo não passam de medianos. Mas os elencos por ele dirigidos, também não eram, assim, uma Brastemp.

No Inter, um clube estruturado, com um elenco recheado de grandes jogadores, Vanderlei Luxemburgo poderia reencontrar sua motivação profissional. Luxa é um cara extremamente vaidoso, todos sabemos. Exatamente por isso, com um grande elenco, ele iria ser o melhor que pode ser: o Luxemburgo ambicioso, presunçoso, meio mala, mas, acima de tudo, vencedor, campeão.

Comecemos a pensar, pois então, em 2010. Com um treinador de ponta, pode dar samba.