segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma noite, o frio e o vinho

Ele e ela andavam juntos por aqueles dias. Ela tinha seu amor, que não era ele. Mas eram muito amigos, ele e ela, e o amor dela se fazia ausente. Ele, no caso o amor dela, estava displicente, nem se dava mais ao trabalho de estar perto dela.
Ora, ela então, quase que por consequência, passou a conviver muito mais com ele, com aquele ele, do que com o outro ele, o ele dela. Trocavam bilhetes durante o dia, combinavam o programa daquela noite. Ela o convidou para beber um vinho no bar, logo após os compromissos do dia. Ele prontamente aceitou. Diga-se de passagem, nada havia de excepcional nisso. Ele e ela estavam já se habituando a, vez por outra, sair e beber um pouco, mesmo na ausência do amor dela. E assim foi. E assim foram.
Sentaram-se na mesa costumeira do bar pra lá de habitual, quase ritualístico. Estava frio. Bastante frio. Pediram o já tradicional vinho, daqueles bem baratos, de 5 reais. Tinto. Suave. Bebericavam, conversavam sobre as mesmas coisas de sempre. Iam adquirindo, é bem verdade, ao longo dos últimos dias, uma estranha intimidade. Estranha, perigosa, talvez inesperada intimidade.
Os goles desciam, se acumulavam, e, vejam só, conversando sobre o amor dela, sobre algumas angústias e amarguras proporcionadas pelo amor dela, toda uma atmosfera esquisita cercou, penetrou cada centímetro quadrado daquele ambiente. Uma lágrima caiu do olho dela. Ele, com a mão no rosto dela, tratou de secar. Se olharam agudamente. Num gesto de afago, ele beijou sua branca face.
Continuaram a se olhar, ele e ela. Estavam sentados lado a lado naquela mesa. No limite que permitia se olharem frontalmente e estarem fisicamente próximos. Ela, fitando-o, acariciava o rosto dele com sua mão direita. Lógico, ele estranhava deveras, sabia que ali algo estava muito errado. Mas ali estavam, e não havia muito o que fazer, o álcool também o fazia seguir aquele instinto um tanto pecaminoso e absolutamente agradável.
As coisas continuavam acontecendo kafkianamente, como se aquele dia, ou melhor, aquela noite, fosse um evento desvinculado de suas existências cronológicas, completamente descolado da realidade. Como que se eles pairassem sobre o tempo. Ela o abraçou, fortemente, e ele sentia o perfume dela mais próximo e traiçoeiro do que nunca. Ela, depois daquele abraço, pegou a mão dele, e assim ficaram, de mãos dadas, bebendo, copo a copo, os goles daquele vinho.
Antes de irem embora do bar, ela se levantou para ir ao banheiro. Na volta, ele já de pé, ela deu outro abraço, outro abraço forte, colando seu corpo ao dele, sem falar uma palavra sequer. Pagaram a conta e se foram. Ainda sentaram num banquinho na rua. Ficaram ali, abraçados, ela colocando a cabeça sobre o peito dele. Ele limitava-se a dizer, um tanto atordoado: -Que bobagem estamos fazendo? O que é isso que está acontecendo?- Ela nada falava. Apenas se entregava àquele momento, até que passou a olhá-lo novamente, e enquadrou a cabeça suave, mas determinadamente, para beijá-lo. Iriam se beijar. Mas, como que seguindo um último pingo de juízo e bom senso em sua cabeça cheia de álcool, ele ficou parado, e o beijo não aconteceu de fato. Ficaram abraçados mais um pouco, ele, ela, a noite fria e as angústias e incertezas que somente esses momentos trazem à mente.
Ele a conduziu em segurança até o ônibus que a levaria para casa. E se foi. Assim, sem saber ao certo que raios aconteceram naquela noite. Sem ter a menor noção do que era pra ser ou do que realmente foi. E se aquele beijo tivesse acontecido de fato? Teria havido alguma espécie de hecatombe? Quem seria ele, e quem seria ela, hoje?
Não se sabe. Nunca se saberá.

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