terça-feira, 29 de setembro de 2009

No meio da calçada

Não se sabe ao certo seu nome. Não se sabe ao certo quem ele é. Não se sabe onde nasceu. Não se sabe o que o levou até ali. Não se sabe há quanto tempo ele está daquele jeito, naquele lugar.

Ele está lá, bem no centro, e despercebido no meio da frenética multidão. Dentre tantas e tantas vidas, lá está a dele. Dentre tantos e tantos pensamentos, desejos, anseios, sonhos, lá estão os dele, talvez singelos, tão ridiculamente simples que possivelmente sequer consigamos imaginar.

Ali, no meio da calçada está ele, deitado, meio apático, com sua velha caixa de sapatos à espera de alguma moeda de cinco ou dez centavos. À espera, quem sabe, de um pouco de esperança, alguma dignidade para aquela vida que se arrasta pelo chão.

Ele já não chora, seu rosto já não mais expressa qualquer tipo de emoção. Seu rosto cansado apenas transparece cansaço, desgaste. Sua face é o retrato de uma sofrida continuação, a passagem de minutos, horas, dias, meses, anos...

Não se sabe como, não se sabe por que, mas ele se prorroga. Continua lá, impassível, dia após dia, com sua velha caixa de caixa de sapatos com meia dúzia de moedas de cinco ou dez centavos. Talvez haja pessoas de espírito baixo que defendam que aquele homem se entregou à alternativa mais cômoda, mais fácil, agindo racionalmente. Não preciso, entretanto, ser nenhum gênio para afirmar que não, ele não gosta de estar ali. Está naquele ponto, daquele jeito, porque foi varrido da sociedade. Está ali porque ali residem os limites que a vida lhe impôs.

Sua existência se resume a uma interminável e inglória espera. Desde há muito tempo, sempre e sempre, eis ele lá, no meio da calçada, sobrevivendo, continuando, esperando o seu dia chegar. Até hoje, em seus, sei lá, sessenta, setenta anos, esse dia não chegou. Infelizmente, é muito provável que jamais chegue.

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