sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Entre uma onda e o Capítão Nascimento

Ontem tive a oportunidade de assistir a um excelente filme alemão, chamado "A Onda". Nele, um professor secundarista tem a missão de ensinar aos seus alunos sobre autocracia, ou seja, o modelo autoritário comandado por um ou mais indivíduos, como o nazi-fascismo, por exemplo.
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Então, o referido professor resolve implantar, durante uma semana, um modelo autocrático em sala de aula, liderado por ele, utilizando um método de ensino mais interativo. Acontece que as coisas simplesmente fogem do controle, a turma "assimila demais" a ideia e passa a se organizar fortemente, inclusive na vida corriqueira, tomando uma dimensão absurda, com proporções assutadoras.

Esse filme mostra de forma brilhante como ainda se faz presente e perigosa a tentação ditatorial, para criar uma uniformidade social muitas vezes artificial, mesmo a um custo extremamente alto. E nem precisamos ir muito longe para verificar tal fenômeno. O filme "Tropa de Elite", talvez o mais mal interpretado da história do cinema mundial pelos seus expectadores, é um exemplo claro.

Num filme que é uma crítica a todo um sistema, passando pela hipocrisia de uma classe média-alta, pela corrupção policial e por métodos de tortura absurdos, inaceitáveis e truculentos, Capitão Nascimento virou ídolo, virou ícone dos maniqueístas de plantão. Eis o perigo totalitário, simplista, de uma purificação que jamais existirá sem a erradicação de toda a raiz do problema: um sistema social excludente baseado numa lógica de soma zero.

Tal perspectiva chora de tão pobre. A propagação da criminalidade não se dá pelo tipo de punição: se dá pela impunidade. Nenhum bandido rouba ou mata pensando em ser pego, nem pra prisão de 30 anos (que é uma espécie de pena de morte, ora pois), nem para sentar numa cadeira elétrica. Mantendo-se a impunidade, mantém-se a criminalidade, seja qual for o método punitivo.

E, não sejamos tolos ou hipócritas: bandido pobre, ainda que mais próximo e mais claramente visível, ainda é muito menos nocivo do que os bandidos de colarinho branco, esses sim, desestruturadores do país, homens que roubam milhões e matam muito mais, desviando dinheiro que poderia estar salvando vidas na área da saúde, matando fome de mais famílias pobres e mesmo incrementando o aparato de segurança em nossas cidades e estados.

Eliminar por eliminar, usando métodos fascistas, sem atacar a verdadeira e mais profunda raíz do problema é como, já diria o ditado, tratar câncer com aspirina. O mundo é muito mais complexo do que parece.

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