terça-feira, 8 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: Moldados

A nona posição do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos trata de questões como liberdade e protagonismo individual, cultura política e liberdade de um ponto de vista filosófico. Fiquem com o texto "Moldados", originalmente publicado em 3 de abril deste ano.

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Somos socialmente moldados. Alguns podem se chocar ao ler isso. Claro, estou radicalizando aquilo que penso ao expressar tal opinião. Mas a realidade é que estamos muito mais próximos do que a sociedade quer do que daquilo que nós mesmos queremos. Uns são mais determinados pelos seus respectivos contextos, outros menos. Porém, o fato é que em alguma medida somos aquilo que o mundo quer que sejamos. Sempre.
Alguém pode se escandalizar. Afinal, somos livres para fazer escolhas, ora bolas! Talvez sejamos livres para escolher. Livres para escolher dentre opções que escolheram para nós. Somente nestes termos. Para alguns, essa liberdade minimalista pode ser chamada de liberdade. Para mim, não. Tal perspectiva é perigosa porque impõe limites arbitrários. Qualquer margem de ação, considerada nestes parâmetros, pode ser chamada de liberdade. Afinal, o prisioneiro é livre para transitar dentro de sua cela.
Sou um adepto da teoria da cultura política. Como pode, pois então, um culturalista não acreditar no protagonismo individual? Quanta heresia! Pois bem, acendam a fogueira, pois sou um herege. Convicto. É possível que se faça uma confusão mental entre protagonismo individual e protagonismo cidadão. Um culturalista que se preze não pode crer, honestamente, no primeiro. Por definição, cultura é diferente de indivíduo. Cultura é coletiva e coercitiva. Se acreditamos que, por exemplo, somente via uma mudança cultural as pessoas podem se tornar mais participativas, estamos retirando o foco do indivíduo e transferindo-o para uma espécie de "estrutura cultural". Logo, qualquer intenção de combinar protagonismo individual e cultura política me parece uma falácia. Ou uma grande maçaroca conceitual. Protagonismo cidadão, por outro lado, é, este sim, congruente com uma perspectiva culturalista. Cidadão é uma espécie de sujeito médio socialmente adequado, um ente que consegue se incorporar às esferas de decisão, não sendo, assim, um corpo estranho à sociedade em que vive e suas normas culturais e institucionais. Dou um doce para quem conseguir me convencer que o protagonismo individual é coadunável com o protagonismo cidadão, ou mesmo que os dois sejam a mesma coisa.
A liberdade num sentido maximalista, o único que eu consigo atrelar a esta expressão, ainda não passa de utopia. Não consigo vislumbrar caminhos pelos quais ela possa ser alcançada, e nem tenho tal pretensão. Mas nem por isso vou rebaixar o conceito de liberdade para uma percepção de senso comum limitada e medíocre. Talvez o primeiro, mínimo, ínfimo, microscópico passo para uma liberdade verdadeira seja termos a consciência de que não somos livres. Derrubemos, pois, os dogmas que nos acomodam em uma vida fantasiosa, que nos torna prisioneiros de ilusões, miragens e sensações de uma liberdade que ainda não foi descoberta pelo ser humano. A primeira atitude para construirmos uma casa de tijolos é destruir a casa de palha, por mais que tenhamos morado nela durante toda a vida.

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