sábado, 12 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Sobre a revolta

A quinta colocação do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos é uma reflexão sobre o sentimento de revolta, tão importante para a transformação humana. O texto foi originalmente publicado no dia 8 de outubro de 2008.

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A vida nos propõe soluções comportamentais para tudo o que passamos. Situações boas, ruins, divertidas, constrangedoras, sempre têm um cardápio de ações possíveis. Um cardápio menos amplo, de ações desejáveis ou corretas. Nas horas boas, pouco é necessário pensar. O que está bom, está bom, não há o que mudar. Ainda assim, algumas pessoas conseguem "defecar no órgão genital masculino". Mas demanda esforço. Na maioria das vezes, o que fazemos nos bons momentos possui uma espécie de auto-justificação. E grosso modo, a alegria e a espontaneidade são os comportamentos mais corretos. Ver a vida de modo positivo, em um sentido de aceitação contemplativa, é o melhor a se fazer.
Os mesmos comportamentos, porém, são insuficientes quando as situações são insatisfatórias. Quando as coisas vão mal, de que adianta contemplar? Claro, teoria é uma coisa e prática é outra. Às vezes chegamos a um estado de espírito tão rebaixado, que reagir torna-se impossível. Mas a mudança da realidade em si, só se dá através de rupturas. Ou ao menos tentativas de rupturas. Às vezes, para alcançar o mínimo devemos mirar o máximo. Mesmo que a ruptura em si não se concretize, alguma coisa estará mexida, alguma mudança fora realizada, alguma estrutura, de alguma parte, sofrerá algum abalo.
O sentimento de revolta é necessário para seres humanos reverterem suas insatisfações. Se as coisas estão ruins, a única forma de revertê-las é nos revoltando. E revolta não deve ser vista com uma conotação preconceituosa e negativa. A revolta é o meio pelo qual buscamos forças para sair do fundo do poço. Ela pode sim ser positiva. A partir de uma revolta podemos ter reação. É uma fonte de energia. Muitas vezes sofremos de síndrome de vira-latas. Achamos que podia estar pior. Realmente podia. Não devemos fechar os olhos para isso e sermos ingratos. Mas sempre queremos mais. É característico do ser humano querer mais, sempre mais, sempre muito mais. Alguns têm menos, e só se revoltando podem tentar mudar. Alguns têm mais, e para esses conseguirem mais, a revolta não é necessariamente o caminho. Para estes, existem caminhos mais amenos. Porém, para os insatisfeitos, só a revolta possui poder transformador. Revoltar-se não significa necessariamente virar-se contra, desistir ou confrontar algo. Significa, muito antes disso, puxar, por um sentimento forte, a transformação. Talvez, a transformação do próprio objeto de revolta, e não necessariamente sua destruição.
Buscar força nos momentos ruins é fundamental. Puxar, de alguma gaveta esquecida de nossa alma, nossa reação, é indispensável quando tudo parece obstaculizar nossas alegrias. Revoltar-se é preciso, diversas vezes. Revoltar-se é desistir de morrer. É optar por viver. Revoltar-se é buscar a felicidade a todo custo. Por mais que nossos objetivos pareçam distantes, devemos nos revoltar contra essa distância, que muitas vezes é imposta. Querer a todo custo. Buscar a todo custo. Ir até o fim. Ir até o fundo do poço, se necessário. Mas trazer o que queremos, orgulhosamente. Ou orgulhosamente voltarmos sabendo que tudo, absolutamente tudo o que podia ser feito, foi feito.

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