domingo, 13 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Dias

Originalmente publicado no dia 21 e janeiro deste ano, o melancólico texto "Dias" leva a quarta posição no especial do Dilemas Cotidianos.

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Há dias em que o espírito e o ânimo estão em sacrossanto silêncio. São dias que não fazem muito sentido, em que tudo é uma reflexão, uma busca triste e solitária de diagnósticos. É como se tudo parasse, como se o mundo fosse pequeno demais, como se o sono pudesse ser a fuga, a resposta. Há dias em que não se tem vontade de viver. Dias nulos. Dias que são desnecessários. Dias que são desgastantes.
As nuvens, a brisa, o barulho dos pássaros, tudo é cenário de uma melancolia conformada, de uma dor introspectiva, de uma mágoa anestesiada. Não se pode nascer de novo. Não se pode fazer nada pra melhorar. Há dias em que o corpo se atira nas cordas, em que os gritos desistem de gritar, em que o desespero resolve recolher-se e fuçar apenas o interior de um ser humano desistente e derrubado. Há dias em que as lágrimas cansam de correr do olho para os poros de um rosto descontente. Há dias em que a respiração é lenta, o aperto no peito não inspira nada.
Há dias em que existir é um fardo. Há dias em que o burro empaca e já não mais tem força para puxar a carga. E nesses dias, chicotadas ou oferendas, punições ou bonificações, socos ou beijos, nada disso nos faz mover um músculo. Há dias em que toda a decisão é de recolher-se consigo mesmo.
Há dias em que tudo que se faz é errante, sem norte, sem lógica. Compartilhar o quê? Compartilhar dores? Compartilhar sofrimentos? Não há o que se possa ser compartilhado. Há dias em que nada ameniza as horas. Há dias em que o anseio de viver esvai-se no horizonte como um navio que vai sumindo, e sumindo, e sumindo no mar. Há dias em que adormecer é a mais sábia decisão. Apenas peço que alguém me acorde quando a realidade for menos dolorosa que meus pesadelos.

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