quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Já era

Já era. Hoje aconteceu o óbvio. O Inter perdeu, merecidamente, para o não mais que mediano time da Universidad do Chile. O colorado não quis ganhar. Quem quer ganhar, não põe time misto pra decidir vaga em competição continental. Quem quer ganhar, não escala um meio campo com três primeiros volantes.

Da partida de hoje, salvam-se as almas de Sorondo e Guiñazu. Somente, e tão somente estes dois. O resto, recolhe tudo e joga no lixo. Culpa deles? Não necessariamente. A culpa é de quem fez essa meleca toda, esse Deus-nos-acuda que liquida o time coletivamente e faz as individualidades naufragarem tal qual um Titenic, digo, um Titanic, depois de tocar um iceberg no meio do oceano. Leonardo Di Caprio pra centroavante!

Algumas afirmações tem que ser feitas. Lauro, nos confrontos com a Universidad, tomou dois gols defensáveis. Mas ainda tem crédito. Marcelo Cordeiro... É Marcelo Cordeiro. Talvez eu já tenha dito isso antes, mas não custa nada enfatizar novamente. Nunca será mais do que Marcelo Cordeiro. Nasceu Marcelo Cordeiro e morrerá Marcelo Cordeiro. Maycon é o símbolo maior da verdadeira paçoca mental que apossou a cabeça do tio Adenor. Quando Maycon, o velho e limitadíííííííííííííssimo Maycon vira solução tática, é sinal que a coisa tá feia. Mais feia que a Susan Boyle chupando manga. Andrezinho foi tecnicamente ridículo. Ri-dí-cu-lo. E o ataque, liderado pelo Alecbrahimovic, não assustaria nem uma zaga de Ediglê e Rafael Santos.

Está dito tudo? Não, não está. Tenho mais cinco coisas importantíssimas a dizer. Em primeiro lugar, Bolívar não é lateral direito. Em segundo lugar, Bolívar não é lateral direito. Em terceiro lugar, Bolívar não é lateral direito. Em quarto lugar, Bolívar não é lateral direito. E em quinto lugar, o Inter não pega nem vaga na Libertadores.

Desprezo

Noticia-se que o Inter deve ir a campo hoje à noite contra a Universidad do Chile com time misto, praticamente reserva. Confesso: não consigo entender tal postura. Não condiz com a principal característica colorada dos últimos anos, a de valorizar as competições internacionais, de ter uma sede incessante de títulos.

O Inter despreza a Copa Sul-Americana, sua única possibilidade atual de título. Sim, porque levando em consideração a completa falta de organização e sequência da equipe, ninguém vai me fazer acreditar no título do Brasileirão. Para conquistar o certame nacional, o Inter precisa engatilhar uma bela sequência de vitórias associada a consecutivos fracassos de seus adversários. Para isso, seria necessário, no mínimo dos mínimos, o colorado ter uma escalação racional e definida. Não tem. E São Paulo e Palmeiras teriam que fazer cagadas em proporção industrial. Dificilmente farão.

Reitero o que sempre disse: o Internacional tem o melhor elenco do Brasil. Mesmo faltando lateral direito, mesmo com as saídas de Nilmar e Magrão, o elenco colorado é fortíssimo. Mas Tite não conseguiu transformar este belo elenco num time. Sem um time, sem uma espinha dorsal, o Inter não vai conquistar vitórias em sequência. Nunca vi um time ganhar cinco, seis jogos seguidos, mudando de escalação freneticamente como Adenor Bachi vem fazendo. Seria, no mínimo, uma aberração.

A Sul-Americana seria muito mais palpável de conquistar a essas alturas dos acontecimentos. Mata-mata não exige a mesma regularidade que os pontos corridos. Em mata-mata, ganhando de dois aqui e perdendo de um lá, passamos, vivos como qualquer outra equipe. Mas o Inter não quer a Sul-Americana. Não está nem um pouco focado, trata a competição continental como um incômodo. Por isso, atrevo-me a afirmar: será eliminado esta noite. Espero estar errado. Mas esta é uma tendência cabal no confronto com a equipe chilena.

E aí, amigos, nos restará, melancolicamente, repetir o patético gesto sobre o qual tripudiamos sobre a vizinhança no ano passado: comemorar vaga em campeonato do próximo ano. Infelizmente, o Inter sozinho fez com que o outrora promissor ano do centenário se tornasse um ano muito menos significativo do que poderia ser. Ao que tudo indica, esta noite será escrita mais uma triste página desse 2009, que transformou um lindo e sensual sonho com a Aline Morais num horrendo pesadelo com o Zé Mayer. Tudo o que quero, por hora, é acordar logo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

No meio da calçada

Não se sabe ao certo seu nome. Não se sabe ao certo quem ele é. Não se sabe onde nasceu. Não se sabe o que o levou até ali. Não se sabe há quanto tempo ele está daquele jeito, naquele lugar.

Ele está lá, bem no centro, e despercebido no meio da frenética multidão. Dentre tantas e tantas vidas, lá está a dele. Dentre tantos e tantos pensamentos, desejos, anseios, sonhos, lá estão os dele, talvez singelos, tão ridiculamente simples que possivelmente sequer consigamos imaginar.

Ali, no meio da calçada está ele, deitado, meio apático, com sua velha caixa de sapatos à espera de alguma moeda de cinco ou dez centavos. À espera, quem sabe, de um pouco de esperança, alguma dignidade para aquela vida que se arrasta pelo chão.

Ele já não chora, seu rosto já não mais expressa qualquer tipo de emoção. Seu rosto cansado apenas transparece cansaço, desgaste. Sua face é o retrato de uma sofrida continuação, a passagem de minutos, horas, dias, meses, anos...

Não se sabe como, não se sabe por que, mas ele se prorroga. Continua lá, impassível, dia após dia, com sua velha caixa de caixa de sapatos com meia dúzia de moedas de cinco ou dez centavos. Talvez haja pessoas de espírito baixo que defendam que aquele homem se entregou à alternativa mais cômoda, mais fácil, agindo racionalmente. Não preciso, entretanto, ser nenhum gênio para afirmar que não, ele não gosta de estar ali. Está naquele ponto, daquele jeito, porque foi varrido da sociedade. Está ali porque ali residem os limites que a vida lhe impôs.

Sua existência se resume a uma interminável e inglória espera. Desde há muito tempo, sempre e sempre, eis ele lá, no meio da calçada, sobrevivendo, continuando, esperando o seu dia chegar. Até hoje, em seus, sei lá, sessenta, setenta anos, esse dia não chegou. Infelizmente, é muito provável que jamais chegue.

domingo, 27 de setembro de 2009

Mais longe

O empate entre Inter e Flamengo ontem era esperado. Afinal, o juiz autorizou a partida na verdadeira piscina que virou o gramado do Beira-Rio, depois das fortes chuvas que se abatem no Rio Grande do Sul desde a madrugada de sábado. E, naquelas circunstâncias, só um lance fortuito poderia tirar o zero do placar.

É impossível fazer qualquer análise do jogo. Jogou-se no Gigante um esporte bastante parecido com futebol. Mas, definitivamente, não era futebol. Pena que a tabela não quer nem saber de condições climáticas e outros quetais. E ela, a fria tabela, distancia cada vez mais o Inter de qualquer esperança de título brasileiro.

Não o jogo de hoje, mas o conjunto da obra remeteu o Inter a esta situação quase melancólica. Os menos culpados são os jogadores, a grande maioria de grande capacidade. Quem vem errando, e feio, é a direção e o treinador.

A direção, só para citar um exemplo, não conseguiu se dar conta da obviedade mais óbvia desde os primórdios da humanidade: o Inter não tem lateral-direito. E assim, capenga, mandou o time para o Brasileirão. O treinador Tite, por sua vez, não faz ideia do que quer do time colorado. Faltando doze rodadas para o fim do campeonato, não tem padrão tático, não tem esquema, não tem nada.

É triste, mais isso é o que temos. Demitir Adenor Bacchi, a essa altura dos acontecimentos, não resolveria nada. Reforços não mais estão disponíveis. Assim estamos, assim vamos. Contentemo-nos com a vaga na Libertadores, se a mesma vier. Eis a nossa frustrante realidade.

Desânimo

Tudo o que sinto em relação ao jogo de logo mais entre Inter e Flamengo é desânimo. Gostaria de dizer algo diferente. Gostaria de estar com o coração cheio de esperança. Mas não estou. Sinto-me desgostoso e pessimista.

E como poderia ser diferente? Começamos o ano do centenário colorado cheios da mais doce expectativa. Haveria de ser um grande ano. Haveria de ser mais um ano redentor. E tudo começou maravilhosamente bem. O colorado conquistou o Gauchão passeando, avançou na Copa do Brasil, e, com time reserva, liderava com folga o Brasileirão. Então, perdemos a Recopa de forma constrangedora, e ficamos com o amargo vice da Copa do Brasil. Veio o título da Copa Suruga Bank, seguido de um brilhareco no Brasileirão, com a vinda de bons reforços. E o Inter voltou a derrapar feio.

Estamos praticamente em outubro do tão aguardado e aclamado centenário, e o Inter tem um Gauchão e uma Copa Suruga. E pior: não tem escalação definida, a equipe não tem a menor Justificarorganização, inexiste qualquer mecânica de jogo, e o treinador está mais perdido que uma criança de 2 anos largada no meio da Andradas. As chances de título brasileiro se esvaem, o colorado marca passo no certame nacional, e já na primeira fase em que participa da Sul-Americana está em desvantagem para jogar no Chile.

Dado esse cenário, e as perspectivas por ele gerado, há como se estar minimamente otimista? A resposta é óbvia. Mas, por incrível que pareça, a inexplicável paixão colorada, esse sentimento doido que domina cada célula do meu corpo, faz com que uma vitória hoje, magra ou suada que seja, um indício qualquer de poder de indignação desse time, uma lamparina no fim do túnel, mudem todo o panorama. Aí, o Inter volta a ser forte. Aí, o Inter volta a estar vivo. Aí, de alguma forma, tiramos força do fundo da alma pra acreditar que o centenário pode ter um final verdadeiramente feliz.

Mas tem que começar hoje. Apesar de Tite, apesar do 3-5-2, apesar do 4-4-2, apesar do "equilíbrio", apesar da falta de um lateral direito de verdade, apesar do salto 15 do Sandro, apesar da crise técnica dos argentinos, apesar do Palmeiras, apesar do Flamengo, apesar da chuva, tem que ser hoje. De hoje não pode passar.

sábado, 26 de setembro de 2009

Zelaya

O golpe dos militares hondurenhos, tirando à força e contra a vontade do povo do país o presidente Manuel Zelaya, e toda a truculência, incluído aí o cercamento da embaixada brasileira, onde o mesmo se encontra, é um acontecimento lamentável para o contexto latino-americano.

Em tempos que são pautados por uma perspectiva democrática, que inclui a busca inclusive por um aprofundamento e uma radicalização da democracia, esse tipo de evento é absolutamente preocupante. Honduras é um caso que serve como um sinal de alerta. A ameaça autoritária ainda se faz presente no contexto do continente. Vejo esse tipo de atentado institucional realmente com muita preocupação.

Alguns setores da imprensa, cinicamente, tentam inverter o jogo no imaginário de seus espectadores, colocando Zelaya como golpista, quando este apenas iria promover um plebiscito que previa uma série de reformas constitucionais, dentre as quais se encontraria a questão da reeleição. As elites se deleitam com o discurso hipócrita deste tipo de jornalismo pseudo-democrata, o mesmo que defende incluir toda a população pobre num único pacote que formaria a escória absoluta, mantida apenas para reproduzir ideologias e continuar fornecendo mão-de-obra barata para enriquecer as classes dominantes. O mesmo que criminaliza movimentos sociais legítimos. O mesmo que debocha, dia após dia, e de forma velada, dos seus telespectadores.

Todos aqueles que defendem a democracia e que acham que os nefastos tempos autoritários na América Latina, marcado por torturas, assassinatos e opressão de diversas ordens devem ficar marcados apenas como um triste capítulo da história de nossos países, se solidarizam ao povo de Honduras e a Manuel Zelaya. Que a soberania popular prevaleça.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Fantasmas

Eis eu, Éverton, novamente aqui com minhas lamúrias. Repercutindo comigo mesmo o que aconteceu. Ela sempre ressurge. E com ela, todos aqueles fantasmas. É como um fenômeno inelutável. Ela sempre reaparece. Mais bela do que nunca. Mais ela do que nunca. E cada vez menos minha. Cada vez mais longínqua e platônica.

Não há mais o que fazer em relação a Alice. Fiz tudo que podia para esquecê-la, mas sua mera existência me perturba. Quando a vejo, por mais que tente demonstrar frieza, distância, desmorono por dentro. Quanto mais forte tento transparecer, mais se evidencia minha fraqueza em meus olhos. A ferida não cicatriza. No máximo, forma uma casca superficial. Mas não desaparece, e volta a sangrar, sempre e sempre, desde o primeiro dia que a vi.

Tento seguir, e sigo. Com a alma surrada, espezinhada. Ela continua existindo. Alice vive dentro de mim. Alice enraizou-se no meu coração, e não consigo arrancá-la, por mais que lute, por mais que me esforce. Ainda a desejo, por mais que minta para mim mesmo que não. Ainda a amo, por mais que, ao vê-la, finja ser ela uma amiga qualquer. Faço tudo que posso para reavivar minhas memórias daquilo que de pior ela fez. Faço tudo para tentar explicar para mim mesmo que, sempre que a ela coube fazer escolhas, eu jamais fui prioridade. Ela sempre colocou qualquer coisa, qualquer um, à minha frente. Fui tão somente um prêmio de consolação, um brinde sem graça, uma amostra grátis, um brinquedinho que empoeira no fundo de alguma gaveta do quarto dela.

E de que adianta tudo isso, se quando a vejo tudo que sinto é vontade de tê-la? De que adianta tudo isso, se quando ela surge aos meus olhos meu coração dispara e remeto minhas lembranças aos seus mais doces e puros beijos? De que adianta tudo isso se estou aqui assim de novo?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Gostinho de quero mais

O empate com a Universidad do Chile foi o tipo de resultado que foi ruim, mas foi bom. Em termos estratégicos, para a continuidade da competição, foi horroroso. Mas quando se leva em consideração que saímos perdendo, e o goleiro Miguel Pinto nasceu com o fiofó virado pra lua, o empate foi menos trágico do que uma derrota que chegou a estar eminente, vistas as dificuldades de a equipe colorada colocar a redonda na caixinha durante o jogo.

O Inter começou o jogo no aclamado 3-5-2. Não conseguia criar nada até certa altura do primeiro tempo. Quando passou a arrematar ao gol de Pinto, La U abriu o marcador, em uma falha grotesca de Lauro, depois de um contra-ataque iniciado em erro de passe de Guiñazu, que passa por sua pior fase desde que chegou ao colorado, em meados de 2007.

Tite, então, agiu. Quando erra, critico. Quando acerta, elogio. E ontem, Tite acertou em cheio quando mexeu, retomando o 4-4-2, colocando Andrezinho, que mudou completamente a rotação da meia cancha. No segundo tempo, Taison entrou no lugar de um lamentável Alecsandro, e jogou muita bola juntamente com Edu. A vida da defesa chilena foi um verdadeiro inferno com a movimentação colorada na segunda etapa. Miguel Pinto pegou muito, a redonda definitivamente não tava a fim de adentrar a meta da equipe da Universidad. Mesmo assim, Kléber marcou o gol, na base do abafa, e o empate, apesar do gostinho de quero mais pela montanha de gols perdidos, não foi de todo mau.

Agora, resta ao colorado voltar suas atenções para o Brasileirão. O Palmeiras venceu o Cruzeiro e abriu 4 pontos para o Inter. Por hora, o alvirrubro deve se concentrar em primeiro se consolidar no G4, pois há times se aproximando perigosamente na tabela. O título, infelizmente, fica em um segundo plano por enquanto. Quando a diferença voltar a diminuir, voltemos, pois, a pensar no tetra. Por enquanto, o melhor que o elenco do Inter tem a fazer é baixar a cabeça e trabalhar para vencer o Flamengo. Como diria Fernando Carvalho, "está na hora de pensar jogo a jogo".

Começo da caminhada em busca do bi

Hoje o Internacional estreia na Copa Sul-Americana 2009 contra a Universidad do Chile, no Beira-Rio. O time colorado vai a campo com força máxima, iniciando a caminhada pelo bicampeonato da competição. E não haveria de ser diferente.

A Sul-Americana é, sim, importantíssima. Inclusive, eu sempre defendi essa competição como mais importante que o Brasileirão. É um torneio continental, de projeção internacional., capaz de fazer o nome do clube repercutir mundo afora. Talvez nesse ano o colorado priorize vez ou outra as partidas do certame nacional. Nesse caso, muito mais pelo longo jejum colorado de títulos brasileiros, tal decisão se justifica. Mas só em casos em que seja impossível conciliar as duas competições. Quando puder, o Inter tem que colocar o que tem de melhor na Copa Sul-Americana. Sempre.

A partida desta noite servirá não só para se tentar encaminhar a classificação à próxima etapa da Sul-Americana. Servirá também para reabilitar o ainda titubeante time colorado. Assim como a Copa Suruga fez bem ao Inter, fazendo-o retomar as boas atuações no Campeonato Brasileiro, a competição continental pode ter efeito semelhante. O time colorado ainda parece inseguro quanto à sua real força, e, saindo-se com sucesso nos confrontos sempre fumacentos do torneio da Conmebol, ganhará mais força, mais confiança para buscar o Tetra Brasileiro.

Então, pra cima deles, colorado!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um certo Gurizinho

Pelas bandas do meu condomínio tem um cachorro que virou, acho que há mais de um ano, um ilustre morador. "Batizado" pela minha madrinha de Gurizinho, nome pelo qual nossa família o chama, ele se tornou uma presença mais do que constante.

Saio de casa, volto pra casa, e lá está ele, cachorro bonito, às vezes meio maluco e encrenqueiro, mas, indubitavelmente, lá está ele, andando ou recostado pelo chão do condomínio. Não sou o que se poderia chamar de "fã número 1 dos animais". Embora não tenha absolutamente nada contra, dificilmente me apego a qualquer animal que seja.

Mas assumo, com o tal do Gurizinho, é diferente. Peguei um certo afeto por aquele cão. Gosto dele. Gosto da companhia dele pela rua nas manhãs, me sinto bem quando o vejo na volta. Ele vai me acompanhando, assim como faz com uma penca de gente do condomínio, andando sempre à frente, e olhando toda hora pra trás, tentando ver se estamos acompanhando, se estamos em segurança. Ontem mesmo, chegando em casa à noite, visualizei o cachorro e já o chamei, e assim foi, ele me acompanhando até o portão do prédio, e depois de entrar, eu apenas fitava o Gurizinho me olhando, talvez com um pouco de carinho, talvez com um pouco de amizade, genuína amizade canina, desinteressada, verdadeira, cordial.

Gurizinho não é nada meu. Não é meu cachorro, desconheço suas origens, não faço a menor ideia de sua idade, até mesmo porque não entendo bulhufas de cães. Mas adquiri afeição por ele. Não esperava me apegar àquele vira-latas. Mas me apeguei ao danado. Nem consigo mais imaginar os arredores de minha casa sem a leal presença de Gurizinho. Que coisa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma noite, o frio e o vinho

Ele e ela andavam juntos por aqueles dias. Ela tinha seu amor, que não era ele. Mas eram muito amigos, ele e ela, e o amor dela se fazia ausente. Ele, no caso o amor dela, estava displicente, nem se dava mais ao trabalho de estar perto dela.
Ora, ela então, quase que por consequência, passou a conviver muito mais com ele, com aquele ele, do que com o outro ele, o ele dela. Trocavam bilhetes durante o dia, combinavam o programa daquela noite. Ela o convidou para beber um vinho no bar, logo após os compromissos do dia. Ele prontamente aceitou. Diga-se de passagem, nada havia de excepcional nisso. Ele e ela estavam já se habituando a, vez por outra, sair e beber um pouco, mesmo na ausência do amor dela. E assim foi. E assim foram.
Sentaram-se na mesa costumeira do bar pra lá de habitual, quase ritualístico. Estava frio. Bastante frio. Pediram o já tradicional vinho, daqueles bem baratos, de 5 reais. Tinto. Suave. Bebericavam, conversavam sobre as mesmas coisas de sempre. Iam adquirindo, é bem verdade, ao longo dos últimos dias, uma estranha intimidade. Estranha, perigosa, talvez inesperada intimidade.
Os goles desciam, se acumulavam, e, vejam só, conversando sobre o amor dela, sobre algumas angústias e amarguras proporcionadas pelo amor dela, toda uma atmosfera esquisita cercou, penetrou cada centímetro quadrado daquele ambiente. Uma lágrima caiu do olho dela. Ele, com a mão no rosto dela, tratou de secar. Se olharam agudamente. Num gesto de afago, ele beijou sua branca face.
Continuaram a se olhar, ele e ela. Estavam sentados lado a lado naquela mesa. No limite que permitia se olharem frontalmente e estarem fisicamente próximos. Ela, fitando-o, acariciava o rosto dele com sua mão direita. Lógico, ele estranhava deveras, sabia que ali algo estava muito errado. Mas ali estavam, e não havia muito o que fazer, o álcool também o fazia seguir aquele instinto um tanto pecaminoso e absolutamente agradável.
As coisas continuavam acontecendo kafkianamente, como se aquele dia, ou melhor, aquela noite, fosse um evento desvinculado de suas existências cronológicas, completamente descolado da realidade. Como que se eles pairassem sobre o tempo. Ela o abraçou, fortemente, e ele sentia o perfume dela mais próximo e traiçoeiro do que nunca. Ela, depois daquele abraço, pegou a mão dele, e assim ficaram, de mãos dadas, bebendo, copo a copo, os goles daquele vinho.
Antes de irem embora do bar, ela se levantou para ir ao banheiro. Na volta, ele já de pé, ela deu outro abraço, outro abraço forte, colando seu corpo ao dele, sem falar uma palavra sequer. Pagaram a conta e se foram. Ainda sentaram num banquinho na rua. Ficaram ali, abraçados, ela colocando a cabeça sobre o peito dele. Ele limitava-se a dizer, um tanto atordoado: -Que bobagem estamos fazendo? O que é isso que está acontecendo?- Ela nada falava. Apenas se entregava àquele momento, até que passou a olhá-lo novamente, e enquadrou a cabeça suave, mas determinadamente, para beijá-lo. Iriam se beijar. Mas, como que seguindo um último pingo de juízo e bom senso em sua cabeça cheia de álcool, ele ficou parado, e o beijo não aconteceu de fato. Ficaram abraçados mais um pouco, ele, ela, a noite fria e as angústias e incertezas que somente esses momentos trazem à mente.
Ele a conduziu em segurança até o ônibus que a levaria para casa. E se foi. Assim, sem saber ao certo que raios aconteceram naquela noite. Sem ter a menor noção do que era pra ser ou do que realmente foi. E se aquele beijo tivesse acontecido de fato? Teria havido alguma espécie de hecatombe? Quem seria ele, e quem seria ela, hoje?
Não se sabe. Nunca se saberá.

domingo, 20 de setembro de 2009

Tinha que ganhar

Quero muito queimar a língua. Mas a derrota de ontem, na minha modesta opinião, sepultou as chances de título do Inter no Brasileirão. O time colorado vem se superando no dom de ser incompetente. Com a bolinha que vem apresentando em campo, não merece o título. Não tem tarimba vencedora. Ontem, tinha que ganhar. Acabou perdendo de forma constrangedora.

Contra o Vitória, depois de um primeiro tempo muito bom, em que Viáfara pegou até pensamento, o time colorado naufragou solenemente na etapa final. Foi deprimente. Algumas coisas estão erradas. Muito erradas, por sinal. O meio de campo foi uma maçaroca, e foi por ali que o Inter perdeu o jogo, sobrecarregando o sistema defensivo e deixando o ataque abandonado aos leões. Sandro estava pensando na cotação do dolar, na morte do Patrick Swayze, no chip do Pedro, sei lá. Mas no jogo, não estava focado. D'alessandro foi uma nulidade. Guiñazu corria alucinadamente. Andrezinho foi a única peça participativa e minimamente lúcida do setor. No ataque, Alecsandro não foi suficientemente abastecido, e Taison se esforçou, lutou, correu, finalizou: mas é uma usina pra acender uma lâmpada.

Esse Campeonato Brasileiro era pra ser do Inter. O elenco, mesmo com uma defecção ou outra, é o melhor do certame. Mas as limitações do bom treinador Tite estão escancaradas. Estamos quase em outubro, e Adenor Bacchi não conseguiu fazer deste ótimo grupo de jogadores um time confiável. E as chances vão se esvaindo, se afastando, sem o time nos dar uma mínima expectativa de uma reação, da possibilidade de uma arrancada gloriosa.

O Inter está fazendo tudo que pode para não ser Campeão Brasileiro. Infelizmente, parece que vai conseguir.

sábado, 19 de setembro de 2009

Tem que ganhar

Se o Inter ainda tem alguma ambição de ser campeão brasileiro (coisa que começo a duvidar, principalmente com a venda de Magrão e o consequente enfraquecimento do plantel), tem uma obrigação absoluta neste final de tarde: ganhar do Vitória no Barradão. Historicamente, o time colorado tem imensas dificuldades quando joga por lá, mas vistas as atuais circunstâncias, até mesmo um empate seria praticamente catastrófico. Tem que ganhar.Justificar
E quem colocou o Inter nessa situação foi o próprio Inter. O Campeonato Brasileiro, tal qual uma teteia rebolando colada em um cara num baile funk, refestela-se para o colorado, que refuga, olha pros lados, finge que não é com ele. Quer maior exemplo do que a derrota em casa para um desmantelado Cruzeiro, quando um empate, um mísero e sem graça empate levaria o alvirrubro para a liderança da competição?

Às vezes, parece que o Inter padece de certo medo de ser líder, receio de ser campeão brasileiro, o que é uma tremenda bobagem para um clube que foi Campeão do Mundo Fifa há menos de três anos atrás. Como se, ao ser líder, o time colorado virasse mais alvo, como se o centro das atenções pudesse diminuir os jogadores colorados. Mas temos, afinal, um time extremamente maduro e experiente, que certamente tem capacidade de "aguentar o tirão". Não há que se temer a glória.

O time colorado tem que deixar de lado essa síndrome anos 90 que parece tomar conta da equipe em certos jogos-chave deste ano, e impor aquilo que pode, se postar como o maior e mais qualificado postulante ao Campeonato Brasileiro, que ele é, de fato. O jogo de hoje é difícil? É. O Vitória vai vir pra cima? Vai. Mas o Inter tem que readquirir a ideia de sua real força, passar por cima disso tudo e sair do Barradão com os três pontos. Quem quer ser campeão, tem que superar tais adversidades, principalmente quando se trata de um adversário que não é nenhum bicho papão. As possibilidades de título passam diretamente pela partida de hoje.

Por isso, repito: tem que ganhar.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Entre uma onda e o Capítão Nascimento

Ontem tive a oportunidade de assistir a um excelente filme alemão, chamado "A Onda". Nele, um professor secundarista tem a missão de ensinar aos seus alunos sobre autocracia, ou seja, o modelo autoritário comandado por um ou mais indivíduos, como o nazi-fascismo, por exemplo.
Justificar
Então, o referido professor resolve implantar, durante uma semana, um modelo autocrático em sala de aula, liderado por ele, utilizando um método de ensino mais interativo. Acontece que as coisas simplesmente fogem do controle, a turma "assimila demais" a ideia e passa a se organizar fortemente, inclusive na vida corriqueira, tomando uma dimensão absurda, com proporções assutadoras.

Esse filme mostra de forma brilhante como ainda se faz presente e perigosa a tentação ditatorial, para criar uma uniformidade social muitas vezes artificial, mesmo a um custo extremamente alto. E nem precisamos ir muito longe para verificar tal fenômeno. O filme "Tropa de Elite", talvez o mais mal interpretado da história do cinema mundial pelos seus expectadores, é um exemplo claro.

Num filme que é uma crítica a todo um sistema, passando pela hipocrisia de uma classe média-alta, pela corrupção policial e por métodos de tortura absurdos, inaceitáveis e truculentos, Capitão Nascimento virou ídolo, virou ícone dos maniqueístas de plantão. Eis o perigo totalitário, simplista, de uma purificação que jamais existirá sem a erradicação de toda a raiz do problema: um sistema social excludente baseado numa lógica de soma zero.

Tal perspectiva chora de tão pobre. A propagação da criminalidade não se dá pelo tipo de punição: se dá pela impunidade. Nenhum bandido rouba ou mata pensando em ser pego, nem pra prisão de 30 anos (que é uma espécie de pena de morte, ora pois), nem para sentar numa cadeira elétrica. Mantendo-se a impunidade, mantém-se a criminalidade, seja qual for o método punitivo.

E, não sejamos tolos ou hipócritas: bandido pobre, ainda que mais próximo e mais claramente visível, ainda é muito menos nocivo do que os bandidos de colarinho branco, esses sim, desestruturadores do país, homens que roubam milhões e matam muito mais, desviando dinheiro que poderia estar salvando vidas na área da saúde, matando fome de mais famílias pobres e mesmo incrementando o aparato de segurança em nossas cidades e estados.

Eliminar por eliminar, usando métodos fascistas, sem atacar a verdadeira e mais profunda raíz do problema é como, já diria o ditado, tratar câncer com aspirina. O mundo é muito mais complexo do que parece.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Reflexões de um fim de tarde frio

Muitas coisas estão acontecendo dentro de mim, mesmo. É difícil determinar em que escala estou mudando. Mas sei que estou. Tenho que, afinal de contas, me adequar à minha própria realidade.

O mundo vai girando, as ondas vão e vem como numa versão qualquer de um Lulu Santos. E se, de alguma maneira, eu não me movimentar, não der minhas braçadas, vou me afogar.

Talvez tudo ficasse muito mais simples e claro se eu visse as pessoas exatamente como aquilo que elas são, em última análise: pedaços inúteis de carne. Massas orgânicas que pensam e falam. Talvez eu devesse encarar definitivamente a crueza da vida. Ela nada mais é do que uma continuidade não muito lógica. E para conferir algum sentido a tudo isso, inventamos objetivos, adotamos valores que tornam a existência um pouco mais suportável.

Assim, tudo vai continuando. Sem saber exatamente através de que perspectiva, por meio de qual ótica eu devo seguir andando. Mas sabendo que devo seguir, de um jeito ou de outro, pelo chão batido ou pelo asfalto. Devo seguir.

Temos que ser um pouco egoístas mesmo, como praticamente todos são. Se o mundo não para por mim, por que vou eu parar por ele? A vida vai me oferecendo suas novas hipóteses e as mesmas velhas esperanças, talvez um pouco mais acordado, talvez muito menos imaginativo, provavelmente mais, e cada vez mais, pragmático. Continuo jogando e fazendo escolhas. Assim tem que ser. Assim será.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 1ª posição: O bobo

O grande campeão do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos é o texto "O bobo", originalmente publicado no dia 7 de abril deste ano.

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O bobo é aquele que acorda todos os dias esperando que o universo conspire a seu favor. O bobo é aquele que acredita nos sentimentos e em alguma nobreza humana. O bobo é aquele que passa esperançoso de que o amanhã pode ser diferente. O bobo é aquele que olha sem querer, sem poder, para aquilo que o mundo não lhe oferece. Ah, o bobo...
O mesmo bobo que acha que dinheiro não é nada na vida. Bobo, bobo, e bobo, que não vê que dinheiro e status são, sim, tudo na vida. A vida mostra para o bobo toda a sua bobice, mas ele continua assim, bobo. E o bobo acredita na honestidade. O bobo acredita que, ao ser sincero nas relações humanas, um dia vai se dar bem. O bobo não percebe a maldade do mundo. O bobo pisa fora de sua porta esboçando um sorriso largo de quem vai ter um dia feliz. O bobo, bobo que é, acredita que todos tem o direito de serem felizes. O bobo não vê que a felicidade é um privilégio que tem na etiqueta um preço que ele não pode pagar.
E o bobo continua. O bobo também chora. O bobo vive dando de cabeça na parede. Bobo e tonto. Bobo e tolo. Acima de tudo, bobo. Cada lágrima do bobo precede uma expectativa que apenas seus pulmões bobos respiram, que só seus olhos bobos antevêem, e que tão somente seu coração bobo sente. É essa a essência do bobo. Merece uns tabefes na cara pra deixar de ser bobo. Mas o bobo não cansa de apanhar da vida. Apanhar, levantar, e bobamente repetir os erros. Repetir os erros e bobamente submergir em suas imaginações bobas. Mas o bobo não consegue deixar de ser bobo. O bobo continua bobo. Por mais que doa ser bobo. E para sempre ele será bobo. Quando não mais for bobo, não mais será nada. Ora, quanta bobagem!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 2ª posição: A última curva

A segunda posição do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos trata da frustrante e dramática perda do título mundial de Fórmula 1 de 2008 de Felipe Massa para Lewis Hamilton, em uma ultrapassagem do inglês sobre Timo Glock nos últimos metros da corrida em Interlagos.

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Os deuses da velocidade aprontaram das suas ontem. Foram brincalhões e cruéis com Felipe Massa. Nas últimas voltas, Massa conquistava o mundial. Na última curva, Massa perdeu o mundial. Foi dolorido. Dolorido demais. O improvável quase aconteceu. Quase. Porque lá, na última curva de Interlagos, nosso sonho foi soterrado. Estávamos emocionados. E como não estaríamos? Estávamos diante do mais impossível. Delirávamos com Vettel. Mas, quiseram os deuses da velocidade que o delírio fosse trucidado e destruído ali, na última curva de Interlagos. Choramos. Sim, choramos por dentro. Era melhor que tudo aquilo nem tivesse acontecido. Era melhor que Hamilton tivesse ficado numa tranqüila segunda ou terceira posição. Mas os deuses da velocidade tiveram seu dia de Joselito. Riram da nossa cara. Escarneceram da nossa dor. E presenciamos a vitória mais dolorida da história da Fórmula 1. Não merecíamos isso. A última curva. Aquela última curva. A sepultura da alegria de uma nação que não consegue comemorar nada fora do esporte. A sepultura de um sonho abortado. Perdemos com Massa.
De uma coisa, não resta dúvida: foi a decisão de título mais eletrizante da história da Fórmula 1. Esse ano propiciou momentos ímpares na categoria. Mas o de ontem foi mais. Não se poderia ser cardíaco. Hamilton ganhou. Mas Massa é o grande vencedor. Às vezes, esses momentos trágicos possuem sua grandeza exatamente por serem trágicos. É aquela história que sempre vamos lembrar. Com dor. As lágrimas desses momentos lavam a alma. Lavam as páginas da história. Dão uma moldura dourada aos momentos. A dramaticidade da derrota lhe dá um ar mais charmoso do que de qualquer vitória fácil e sem graça, emoldurada como um porta-retrato chinfrin ganho em um amigo secreto na firma. Foi algo grandioso. Não foi humano. Foi uma crueldade divina. Crueldade inesquecível. A corrida de ontem foi mitologia pura, mitologia de deuses gregos brincando com os sonhos humanos. Vivenciamos o toque do transcedental em uma curva. Estática? Parada? Imparcial? Não! Definitivamente não! Aquela última curva estava viva. Ela foi tocada e foi uma traidora da nação. Fez um complô com as divindades, e deu o título a Hamilton, grande piloto, diga-se de passagem. Mas, contou sim, com aquela última curva, enfeitiçada pelos deuses da velocidade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 3ª posição: "Carinhosa"

Chegamos ao pódio do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos. A terceira posição vai para o texto "Carinhosa", originalmente publicado em maio deste ano.
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Estou eu olhando o site Globo.com e me deparo com uma reportagem falando sobre os cumprimentos "carinhosos" de Carolina Dieckmann junto a seus amigos: com um beijo na boca. É impressão minha ou o mundo tá acabando? Beijo na boca é mais do que pura e simples amizade. Pode não ser o compromisso de um amor eterno. Mas tem um significado que vai além da amizade. Ou não? Vai ver, tô louco...E, se realmente há esse tipo de tratamento, para o mundo que eu quero descer (nossa, o fim do acento diferencial é feio pra caramba, ridículo, mas, paciência...). O que é parâmetro, então, para relação homem-mulher? Qualquer hora dessas, vai ter mulher recebendo os amigos com um boquetezinho na porta. Sabe como é, carinho de amigo, coisa sem maldade... Dependendo do grau de intimidade com os amigos, pode rolar até uma penetração vaginal ou anal. Mas tudo com muita amizade...Algumas libertinagens dos dias de hoje são "meio completamente nojentas". É a cultura mtvística. Não entendam isso como um discurso reacionário ou conservador. Mas algumas coisas tem de ser conservadas. Alguns elementos são delimitadores. Beijo na boca sempre foi uma referência. É verdade, veio se diluindo e perdendo significado com o tempo. Mesmo assim, não pode passar do limite amigo x mais-que-amigo. Que coisa mais louca, afinal! É a perda absoluta de parâmetros e padrões, que são absolutamente necessários.Os atos entre as pessoas, os gestos, tudo isso não é uma banalidade. É a partir de tais atos e gestos que as pessoas fazem suas sinalizações, umas para as outras. Se se perde isso, perde-se toda e qualquer organização mental, perde-se toda a capacidade de se tomar uma atitude minimamente coerente. É como se o governo decidisse, de uma hora pra outra, que de vez em quando o sinal verde quer dizer "pare", outras vezes quer dizer "siga"; que o sinal vermelho pode significar "atenção" ou "siga" ou até mesmo, quem diria, "pare"! É o caos completo e absoluto. As relações humanas, afinal, são cada vez mais caóticas e absurdas. Viva o desregramento doentio de uma sociedade em que vale tudo! E, contrariando o jogador e filósofo Gil, vale tudo, INCLUSIVE dar o cu. Eu, felizmente, tô fora dessa... Prefiro continuar sendo um quadradão, daqueles do tempo em que chamar mulher de cachorra era ofensa...

domingo, 13 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 4ª posição: Dias

Originalmente publicado no dia 21 e janeiro deste ano, o melancólico texto "Dias" leva a quarta posição no especial do Dilemas Cotidianos.

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Há dias em que o espírito e o ânimo estão em sacrossanto silêncio. São dias que não fazem muito sentido, em que tudo é uma reflexão, uma busca triste e solitária de diagnósticos. É como se tudo parasse, como se o mundo fosse pequeno demais, como se o sono pudesse ser a fuga, a resposta. Há dias em que não se tem vontade de viver. Dias nulos. Dias que são desnecessários. Dias que são desgastantes.
As nuvens, a brisa, o barulho dos pássaros, tudo é cenário de uma melancolia conformada, de uma dor introspectiva, de uma mágoa anestesiada. Não se pode nascer de novo. Não se pode fazer nada pra melhorar. Há dias em que o corpo se atira nas cordas, em que os gritos desistem de gritar, em que o desespero resolve recolher-se e fuçar apenas o interior de um ser humano desistente e derrubado. Há dias em que as lágrimas cansam de correr do olho para os poros de um rosto descontente. Há dias em que a respiração é lenta, o aperto no peito não inspira nada.
Há dias em que existir é um fardo. Há dias em que o burro empaca e já não mais tem força para puxar a carga. E nesses dias, chicotadas ou oferendas, punições ou bonificações, socos ou beijos, nada disso nos faz mover um músculo. Há dias em que toda a decisão é de recolher-se consigo mesmo.
Há dias em que tudo que se faz é errante, sem norte, sem lógica. Compartilhar o quê? Compartilhar dores? Compartilhar sofrimentos? Não há o que se possa ser compartilhado. Há dias em que nada ameniza as horas. Há dias em que o anseio de viver esvai-se no horizonte como um navio que vai sumindo, e sumindo, e sumindo no mar. Há dias em que adormecer é a mais sábia decisão. Apenas peço que alguém me acorde quando a realidade for menos dolorosa que meus pesadelos.

sábado, 12 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 5ª posição: Sobre a revolta

A quinta colocação do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos é uma reflexão sobre o sentimento de revolta, tão importante para a transformação humana. O texto foi originalmente publicado no dia 8 de outubro de 2008.

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A vida nos propõe soluções comportamentais para tudo o que passamos. Situações boas, ruins, divertidas, constrangedoras, sempre têm um cardápio de ações possíveis. Um cardápio menos amplo, de ações desejáveis ou corretas. Nas horas boas, pouco é necessário pensar. O que está bom, está bom, não há o que mudar. Ainda assim, algumas pessoas conseguem "defecar no órgão genital masculino". Mas demanda esforço. Na maioria das vezes, o que fazemos nos bons momentos possui uma espécie de auto-justificação. E grosso modo, a alegria e a espontaneidade são os comportamentos mais corretos. Ver a vida de modo positivo, em um sentido de aceitação contemplativa, é o melhor a se fazer.
Os mesmos comportamentos, porém, são insuficientes quando as situações são insatisfatórias. Quando as coisas vão mal, de que adianta contemplar? Claro, teoria é uma coisa e prática é outra. Às vezes chegamos a um estado de espírito tão rebaixado, que reagir torna-se impossível. Mas a mudança da realidade em si, só se dá através de rupturas. Ou ao menos tentativas de rupturas. Às vezes, para alcançar o mínimo devemos mirar o máximo. Mesmo que a ruptura em si não se concretize, alguma coisa estará mexida, alguma mudança fora realizada, alguma estrutura, de alguma parte, sofrerá algum abalo.
O sentimento de revolta é necessário para seres humanos reverterem suas insatisfações. Se as coisas estão ruins, a única forma de revertê-las é nos revoltando. E revolta não deve ser vista com uma conotação preconceituosa e negativa. A revolta é o meio pelo qual buscamos forças para sair do fundo do poço. Ela pode sim ser positiva. A partir de uma revolta podemos ter reação. É uma fonte de energia. Muitas vezes sofremos de síndrome de vira-latas. Achamos que podia estar pior. Realmente podia. Não devemos fechar os olhos para isso e sermos ingratos. Mas sempre queremos mais. É característico do ser humano querer mais, sempre mais, sempre muito mais. Alguns têm menos, e só se revoltando podem tentar mudar. Alguns têm mais, e para esses conseguirem mais, a revolta não é necessariamente o caminho. Para estes, existem caminhos mais amenos. Porém, para os insatisfeitos, só a revolta possui poder transformador. Revoltar-se não significa necessariamente virar-se contra, desistir ou confrontar algo. Significa, muito antes disso, puxar, por um sentimento forte, a transformação. Talvez, a transformação do próprio objeto de revolta, e não necessariamente sua destruição.
Buscar força nos momentos ruins é fundamental. Puxar, de alguma gaveta esquecida de nossa alma, nossa reação, é indispensável quando tudo parece obstaculizar nossas alegrias. Revoltar-se é preciso, diversas vezes. Revoltar-se é desistir de morrer. É optar por viver. Revoltar-se é buscar a felicidade a todo custo. Por mais que nossos objetivos pareçam distantes, devemos nos revoltar contra essa distância, que muitas vezes é imposta. Querer a todo custo. Buscar a todo custo. Ir até o fim. Ir até o fundo do poço, se necessário. Mas trazer o que queremos, orgulhosamente. Ou orgulhosamente voltarmos sabendo que tudo, absolutamente tudo o que podia ser feito, foi feito.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 6ª posição: Orkut

Empresas acessando perfil de potenciais candidatos a empregos no Orkut? Eis o real absurdo abordado na sexta posição do especial do Dilemas Cotidianos.

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Li uma notícia fantástica e ao mesmo tempo estarrecedora no site globo.com. Algumas empresas acessam o Orkut e blogs para verificar o perfil de candidatos. Incrível! Genial! Não bastasse isso, eles ainda "orientam" sobre o que seria um bom perfil: profissional, com qualidades e competências, sem opiniões pessoais que possam causar danos à imagem. Mais, eles definem o que se deve escrever em blogs! Meu Deus!
As empresas, principalmente as maiores, se acham donas do mundo. Que cargas d'água um perfil de Orkut pode interferir na competência de um sujeito? Gostar de tomar umas biritas, como é o meu caso, ou não gostar de segunda-feira, como também é o meu caso, não me faz menos competente do que alguém que está numa comunidade "eu amo meu chefinho querido". Talvez essas empresas desconheçam a palavra profissionalismo, que elas tanto apregoam. Ser bom profisisonal é não beber? Ou é ser um baba-ovo? Ser profissional é simplesmente saber das suas obrigações e cumpri-las, simples assim. Agora, o que o cara faz fora do serviço, se enche a cara, se fica vagando pelas ruas, é problema dele. A empresa só tem o direito de se preocupar com isso a partir do momento em que esses atos interfiram, efetivamente, no desempenho do profissional.
Isso sem contar que a confiabilidade de sites do tipo Orkut é mais ou menos a mesma de deixar um gato cuidando do aquário. Hoje mesmo tive que fazer uma faxina nas minhas comunidades! Elas aparecem, ou são mudadas ao bel-prazer de moderadores ou de hackers, não sei ao certo. Tinha comunidade do Santos! Pior, tinha uma comunidade "Eu já dei o cu/buceta". Nem preciso responder que não sou torcedor do Santos, e muito menos que eu tenha dado o meu, digamos, anel. Respeito quem o faz, mas a minha praia é outra.
Enfim, esses absurdos se proliferam, e algumas empresas abusam do poder de barganha que é oferecer um emprego num país com altos índices de desempregados, querendo interferir na vida pessoal dos sujeitos, covardemente. E se não é interferência, e é simples questão da imagem que o candidato passa, querem interferir na liberdade de expressão das pessoas, querem que elas escondam seus gostos ou preferências. Algo do tipo, "pode fazer, desde que eu não saiba". Meio ridículo. Eu continuo adorando minhas biritas, continuo detestando segunda-feira, e isso jamais vai interferir no meu profissionalismo, nem no de muitas e muitas pessoas. Mas, que fique claro, eu nunca dei o cu!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 7ª posição: Os anjinhos do Parque São Jorge

A sétima posição do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos foi um texto que tratou de colocar as coisas exatamente no seu lugar quando, depois da final da Copa do Brasil deste ano, setores da imprensa tentaram colocar o Inter como vilão antidesportivo depois de ter sido amplamente prejudicado pela arbitragem nas partidas decisivas da competição, culminando com deboches ridículos de jogadores de meia pataca do Corinthians. Fiquem com "Os anjinhos do Parque São Jorge", originalmente publicado em 3 de julho deste ano.

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Ontem, ao final do jogo que sacramentou a eliminação gremista da Libertadores, o narrador/brinquedo assassino Luis Roberto proferiu, cheio de razão, algo como: o Grêmio foi eliminado, mas hoje se viu uma conduta desportiva. Como quem sugere que o Inter, na noite anterior, tivesse sido antidesportivo.
Todos sabemos que o Inter tocou numa ferida da Globo. Corinthians e Flamengo são as teteias da grade de programação futebolística da emissora. Por isso, os brados de Luis Roberto. Vai ver, atitude legal é uma torcida imitando macacos quando um jogador aquecia. Ah, mas o Cruzeiro não tem o poder midiático de um Coringão ou de um Mengão. Então, deixa pra lá.
Quanto ao jogo da quarta, realmente, o Inter foi incrivelmente antidesportivo. O Corinthians de São Paulo é um time de anjinhos, coitadinhos que foram maltratados pelos malvados jogadores colorados. Fair Play mesmo é o elef..., digo, centroavante Ronaldo mostrar o dedo médio para a torcida colorada. Seria muita apelação fazer qualquer piada contra o jogador de mais peso no futebol tupiniquim, a respeito de imaginar ele fazendo a festa com os travecos da Farrapos. Por isso, não vou, por mais que me provoquem, entrar nessa onda e sugerir que ele adoraria dar umas voltinhas em algum drivin com uns travecos bem pauzudos. Não mesmo. Eu não seria capaz dessa maldade.
Atitude desportiva deve ter sido a declaração do babaca do Felipe chamando o colorado de chororado, desrespeitando a instituição Internacional. Esse cara tem algum recalque, algo quase psicossexual, contra o Inter. Ele adora falar do colorado. Acho que ele se preocupa mais com o Inter do que com o time dele. Taí um goleirinho que eu jamais quero ver jogando no meu clube. Até mesmo porque ele tem uma urucubaca danada naquele corpo: todo time em que ele joga é rebaixado de divisão. E como o meu clube jamais frequentou o submundo do futebol, quero esse cara e sua pecha perdedora bem longes do Internacional.
Jogo limpo é o Cristian matando tempo no chão. Jogadorzinho medíocre. Mal-educado acima de tudo. Assim como o palhaço do André Santos, rindo debochadamente em sua saída de campo. Realmente, esse Corinthians é um exemplo de boa conduta dentro de campo (fora de campo, nem vou falar nada). São os anjinhos do Parque São Jorge.
Certo mesmo tá o D'ale. Tem horas em que um jogo de futebol é mais do que um jogo de futebol; há momentos em que se precisa mais do que jogadores em campo: precisa-se de homens, com brios, com dignidade, com orgulho próprio. D'alessandro defendeu o time dele. Defendeu a torcida dele, que estava sendo desrespeitada por um bando de imbecis que fardavam preto e branco. Na praça, surgem críticas moralistinhas ao D'ale. Inclusive de torcedores do Inter. Bom mesmo era o Alex, que sempre desaparecia na hora da pomada. Fique claro, tenho muita gratidão a ele, fez muito pelo Inter. Mas a verdade é que, quando chegavam os momentos de se ter e estrela, ele sucumbia. Não se tinha notícias de Alex em campo. Isso é fato.
Valorizem D'alessandro. Não cometam essa injustiça com alguém que simplesmente encarnou a paixão vermelha, que por ter sangue correndo nas veias não aceitou o imenso deboche corintiano que tinha virado o jogo no Gigante. Queiram D'alessandro, aplaudam D'alessandro. E quem não o fizer, que não venha nem se queixar quando se pegar tendo que esperar por grandes brilhaturas de Andrezinho ou Giuliano em um jogo decisivo de campeonato. Para alguns, bom mesmo sempre vai ser quem está fora. Lamentavelmente.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 8ª posição: Dois times

O texto que aparece na oitava colocação do especial do Dilemas Cotidianos trata da rivalidade Gre-Nal, e foi escrito logo após a vitória do Inter sobre o arquirrival em Erechim, em Fevereiro deste ano.

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Há dois times que dividem o Rio Grande do Sul, e sua capital, Porto Alegre. Desde 1909, encontram-se pelos gramados da vida. Renegados por um time, os jovens ousados irmãos Poppe resolveram montar seu próprio time. E estava escrito nas estrelas: o maior rival haveria de ser aquele que os renegara. Assim foi. O primeiro duelo proporcionou um 10 a 0 esperado. Nada surpreendente. Seria estranho se um time que jogava há 6 anos junto tivesse algum tipo de problema pra vencer o recém criado rival, inexperiente e ainda aprendendo o jogo da bola. JustificarCom o passar dos anos, aquele time vermelho e branco começou a se afirmar no cenário do futebol gaúcho. Veio o rolo compressor, que marcou época. Depois os áureos anos 70, mandando no futebol brasileiro, tri-campeão. Ali, começava a surgir um certo recalque tricolor, que até então não era absolutamente nada em nível nacional, e via o vizinho brilhando em todas as capas, em todas as manchetes.
Os anos 80 reservaram algumas viradas. Claro, houve Gre-Nal do Século, houve Taça Joan Gamper conquistada em confrontos contra o Barcelona e o Manchester, em pleno Nou Camp. Mas a década foi mais azul. O time da Azenha conquistou um título brasileiro, uma Libertadores, e uma Copa Intercontinental. Foi o estopim da criação de um monstro. A arrogância e a vaidade tricolores foram acesas. Tantas surras nas décadas anteriores foi compensada com um "se achar" meio ridículo, meio patético, por parte do tricolor.
Nos anos 90, mais títulos tricolores proliferavam, depois de uma passagem constrangedora pelo submundo da Segunda Divisão nacional, enquanto o colorado amargava uma fase de vacas magras, vacas anoréxicas, em que tudo que se comemorou foram alguns Gauchões e uma insossa Copa do Brasil, copa propícia para conquistas de times pequenos, e que não tem a dimensão do Sport Club Internacional. E o ego tricolor inflava, e inflava, e inflava. Tamanho ego gerava um pisar nos outros sem precedentes. Não era fácil ser colorado nos anos 90. E, como se o mar de rosas fosse perdurar ad infinitum, o time da Azenha arrotava uma superioridade desproporcional aos fatos históricos.
Aqui se faz, aqui se paga. Nos anos 2000, começou um calvário sem precedentes para o time tricolor. Foi rebaixado fiasquentamente, lanterna confirmado e carimbado com rodadas de antecedência. Depois tentaram transformar a vergonha da passagem por uma Série B em algo épico. E o colorado retomava o crescimento, reconquistava a hegemonnia regional, voltava a figurar em competições sul-americanas, teve um vice campeonato brasileiro que só foi vice graças a uma manobra escandalosamente descarada. E em 2006, o colorado conquistou América, conquistou Mundo. 2007 reservou uma Recopa Sul-Americana, depois em 2008 veio uma Copa Dubai, e ainda uma Copa Sul-Americana. E os confrontos diretos dos dois reservam surras, e surras, e mais surras aplicadas pelo lado vermelho. E os azuis penam, sofrem, choram, esperneiam, e não abrem mão de sua empáfia característica e ridícula. Mas eles sabem, no fundo, a dor que sentem. Eles sentem o orgulho ferido, arranhado, dilacerado, embora tentem externar uma grandeza e uma superioridade que eles próprios, nos recôncavos da alma, sabem inexistir, e, até pelo contrário, vem sendo provada dia após dia no campo, ser objeto de pertença do colorado. E o colorado, humilde, não sai por aí autoafirmando-se contra eles. Não nos importa sermos maiores do que eles. Já faz algum tempo que abandonamos esse parâmetro. Queremos ser os maiores, simples assim. Sem humilhar ninguém, sem pisar em ninguém. Apenas curtindo nossas alegrias e rindo, gostosamente, dos rostinhos frustradinhos de setores tricolores, do tipo mamãe-não-deixa-eles-ganharem-de-novo-porque-somos-imortais-e-nada-pode-ser-maior-aiiiinhê. Afinal, ganhamos, mais uma vez.



terça-feira, 8 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 9ª posição: Moldados

A nona posição do especial de 1 ano do Dilemas Cotidianos trata de questões como liberdade e protagonismo individual, cultura política e liberdade de um ponto de vista filosófico. Fiquem com o texto "Moldados", originalmente publicado em 3 de abril deste ano.

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Somos socialmente moldados. Alguns podem se chocar ao ler isso. Claro, estou radicalizando aquilo que penso ao expressar tal opinião. Mas a realidade é que estamos muito mais próximos do que a sociedade quer do que daquilo que nós mesmos queremos. Uns são mais determinados pelos seus respectivos contextos, outros menos. Porém, o fato é que em alguma medida somos aquilo que o mundo quer que sejamos. Sempre.
Alguém pode se escandalizar. Afinal, somos livres para fazer escolhas, ora bolas! Talvez sejamos livres para escolher. Livres para escolher dentre opções que escolheram para nós. Somente nestes termos. Para alguns, essa liberdade minimalista pode ser chamada de liberdade. Para mim, não. Tal perspectiva é perigosa porque impõe limites arbitrários. Qualquer margem de ação, considerada nestes parâmetros, pode ser chamada de liberdade. Afinal, o prisioneiro é livre para transitar dentro de sua cela.
Sou um adepto da teoria da cultura política. Como pode, pois então, um culturalista não acreditar no protagonismo individual? Quanta heresia! Pois bem, acendam a fogueira, pois sou um herege. Convicto. É possível que se faça uma confusão mental entre protagonismo individual e protagonismo cidadão. Um culturalista que se preze não pode crer, honestamente, no primeiro. Por definição, cultura é diferente de indivíduo. Cultura é coletiva e coercitiva. Se acreditamos que, por exemplo, somente via uma mudança cultural as pessoas podem se tornar mais participativas, estamos retirando o foco do indivíduo e transferindo-o para uma espécie de "estrutura cultural". Logo, qualquer intenção de combinar protagonismo individual e cultura política me parece uma falácia. Ou uma grande maçaroca conceitual. Protagonismo cidadão, por outro lado, é, este sim, congruente com uma perspectiva culturalista. Cidadão é uma espécie de sujeito médio socialmente adequado, um ente que consegue se incorporar às esferas de decisão, não sendo, assim, um corpo estranho à sociedade em que vive e suas normas culturais e institucionais. Dou um doce para quem conseguir me convencer que o protagonismo individual é coadunável com o protagonismo cidadão, ou mesmo que os dois sejam a mesma coisa.
A liberdade num sentido maximalista, o único que eu consigo atrelar a esta expressão, ainda não passa de utopia. Não consigo vislumbrar caminhos pelos quais ela possa ser alcançada, e nem tenho tal pretensão. Mas nem por isso vou rebaixar o conceito de liberdade para uma percepção de senso comum limitada e medíocre. Talvez o primeiro, mínimo, ínfimo, microscópico passo para uma liberdade verdadeira seja termos a consciência de que não somos livres. Derrubemos, pois, os dogmas que nos acomodam em uma vida fantasiosa, que nos torna prisioneiros de ilusões, miragens e sensações de uma liberdade que ainda não foi descoberta pelo ser humano. A primeira atitude para construirmos uma casa de tijolos é destruir a casa de palha, por mais que tenhamos morado nela durante toda a vida.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos- 10ª posição: Confusões de uma sociedade em que tudo e nada se confundem

A décima posição deste especial do Dilemas Cotidianos surge aqui muito mais pelo valor histórico do que pela qualidade ou conteúdo do texto em si: trata-se do primeiro texto da história do DC, escrito em 6 de setembro de 2008.

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Olá a todos os navegadores deste novo blog, que se for um, hoje, já será uma honra para mim.
Inicialmente, quero falar sobre algo que me incomoda profundamente na sociedade atual: o que é que realmente vale em termos de relacionamentos homem x mulher?
Sim, porque devo ser um sujeito muito retrógrado e conservador. Hoje, algumas mulheres (e homens) não vêem nada demais em andar de braços dados, darem sorrisos enigmáticos, dentre uma série de outras coisas. A dificuldade que eu encontro é definir, afinal, o que que realmente vale? Hoje em dia, nada nos dá a certeza da existência de um sentimento, qualquer que ele seja! Que me desculpem os pós-modernos, mas creio que um pouco de uniformidade iria bem! Seria bem mais fácil, para homens e mulheres, que os sujeitos agissem como realmente querem agir. Mulheres, se vocês gostam de um cara, demonstrem que gostam! E se não gostam, não fiquem enganando e fazendo joguinhos que a nada conduzem! Nesse sentido, nós homens somos bem mais previsíveis. Se demonstramos gostar de alguém, tnham certeza, realmente gostamos, ou pelo menos queremos um relacionamento. Nossos cérebros não funcionam com essa complexidade toda, em que a pessoa abraça, beija, dá mãozinha, pra depois dizer: "que ridículo, aquele cara pensou que eu tava dando mole pra ele!"
Só digo uma coisa: é dose.
Grande abraço.

domingo, 6 de setembro de 2009

1 ano de Dilemas Cotidianos

Hoje, 6 de setembro, o Dilemas Cotidianos completa um ano de existência. Se eu disser que essa data não significa nada pra mim, serei um mentiroso. O DC hoje faz parte da minha vida. Sinto um imenso prazer em escrever neste espaço. É meu hobby mais delicioso.

Nem em todos os dias escrevi textos brilhantes. Logicamente, estou longe disso, embora alguns dos textos tenham sido sim, em minha modesta opinião, muito bons, memoráveis até. Mas acima de tudo fica que, dia após dia, escrevi com o coração e a alma. Despi muito do que sou exatamente aqui, neste espaço, que me dá a liberdade de mostrar exatamente o que sou e penso, sobre muitas coisas.

O Dilemas Cotidianos tem em sua origem uma proposta simples: ser o MEU espaço, onde escrevo aquilo que EU penso, sem maiores frescuras e regramentos desnecessários. Acredito ter conquistado um time de leitores qualificado. E é exatamente isso o que quero. Se há alguma meta, a primeira delas é a qualidade dos leitores. Conquistada a qualidade, aí sim, partimos para a quantidade. Qualitativamente, ainda há muito o que buscar. A primeira meta ainda não foi alcançada em sua plenitude. Há quilômetros, muitos deles, que o DC ainda tem que percorrer.

Onde chegará o Dilemas Cotidianos? Sinceramente, não sei. Embora tenha em mente algumas idealizações, embora queira cada vez agregar mais bons leitores, mais qualidade e mais quantidade ao blog, não posso aqui fazer qualquer projeção. Tenho e assumo um, somente um único e despretensioso compromisso diário: escrever o que quero e penso, tirar cada palavra do fundo de minha alma. O crescimento que o DC terá, será pura e simplesmente produto daquilo que ele é, sem pirotecnias e artifícios, quaisquer que sejam.

A partir de amanhã, como parte das comemorações de um ano do Dilemas Cotidianos, será apresentado um Top 10 dos textos do DC. Serão republicados aqueles textos que tiveram maior significado nessa trajetória do blog. Muitas emoções, tristezas, alegrias, alguns amadurecimentos de minha personalidade permearam este ano de existência do DC. E é tudo isso que vocês, caros leitores, terão a oportunidade de reviver a partir de amanhã. Espero que gostem.

Parabéns para nós!

sábado, 5 de setembro de 2009

Novelas e notícias

Não é de hoje que se sabe que as novelas brasileiras servem como manipulador ideológico das massas. Isto é nítido como uma tv em high definition. As novelas geram verdadeiros fatos sociais, e com todo o seu poder, moldam, em grande medida, o comportamento do povo brasileiro.

E todo esse esquema manipulatório ganhará, na nova novela das oito, requintes de crueldade. "Viver a vida" de Manoel Carlos será gravada com possibilidades inclusive de intervenções ao vivo, sempre repercutindo as notícias do Jornal Nacional, segundo o jornalista Luiz Carlos Azenha publicou no site Fazendo Media (www.fazendomedia.com).

O glorioso Maneco já é notoriamente caracterizado por escrever novelas insossas e elitistas, daquelas de Reginas Duartes e romances melacueca ao melhor estilo água com açúcar, com um alto teor de defesa de classe, do tipo "os ricos também amam". E com essa inovação um tanto perversa, aumenta ainda mais a margem de manobra dos telespectadores. A novela será o reforço subliminar do Jornal Nacional. Já é hoje, não tenha dúvidas. Mas será, a partir de agora, mais potente, reforçando ideias recentes, saídas do forno, mais diretamente, de maneira mais letal.

William Bonner é o Bebeto e Manoel Carlos, o Romário, na hora e lugar certos, pronto pra, dentro da área, finalizar e marcar o gol. E Galvão narra: Gooooool! Ééééééé das elites brasileiras! E os Homers do Bonner, impassivos, apenas ouvem e absorvem. Talvez Mr, Burns, ops, José Serra, levante a taça...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Existir

Existir não é exatamente uma tarefa fácil. Ela é simplória, um elemento que se configura por si mesmo. Não haveria maiores mistérios nesse tipo de empreitada. Mas o que de certa forma assusta é que o existir, pelo menos o existir humano, exige, sim, um complemento.

Nenhuma pessoa se satisfaz por simplesmente existir. Queremos que nossa existência faça algum sentido, tenha alguma relevância, nem que seja para nós mesmos. Estamos nos auto-desafiando permanentemente. Tais desafios por nós mesmos traçados não são, entretanto, retos, diretos, objetivos. As estradas são um tanto sinuosas, muitas vezes cheias de neblina que logo depois fazem surgir aos nossos olhos os mesmos caminhos, os mesmos trajetos, as mesmas árvores e o mesmo lago ao redor.

Tantas são as tortuosidades e descaminhos, que volta e meia voltamos a uma estaca zero, a um ponto em que já estivemos em algum outro momento e no qual sabemos que não deveríamos, para o nosso próprio bem, estar novamente. Mantemo-nos procurando por nós mesmos. E geralmente, sem muito sucesso.

Os déjà-vus, as repetições não só de fatos, mas de pessoas, que talvez não sejam mais as mesmas, e mesmo quando nem nós mesmos somos os mesmos de outrora, nos torna um pouco errantes, reincidentes em crimes que já cometemos contra nossa própria essência, nossos orgulhos e sentimentos.

Somos tudo tão somente para nós mesmos, e ao mesmo tempo não passamos de pó perante algo muito maior, perante a existência de um todo inalcançável. Toda a atitude, por mais gigantesca que seja, é ínfima. Somos escravos de nós mesmos, de nosso ser, de nossa existência, de tudo aquilo que vivemos e que é um pouco demais sobre os nossos ombros. Estamos entregues a um todo para o qual não somos nada, ou somos um pobre zero vírgula muitas e muitas enfadonhas casas. Mas sigamos. É tudo que nos resta.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Pra colar de vez

Chove em Porto Alegre. E bastante. Se a chuva se mantiver constante até a noite, com certeza teremos o confronto entre Inter e Atlético Mineiro em um campo encharcado. Não há drenagem que resista. Nessas condições, a necessidade de se jogar com raça triplica.

Se o jogo se der em condições de pólo aquático, as coisas se emparelham de vez. Qualquer desnível técnico entre as duas equipes vai para as cucuias. Então, o time que tiver o maior poder de superação estará mais próximo da vitória.

Mas consideremos também as condições normais de temperatura e pressão. Se a chuva ceder, e o gramado permitir o toque de bola, o componente técnico entra na pauta. E daí, amigos, o Inter tem muito mais bala na agulha do que o Atlético. Tem que igualar na determinação, é lógico. Emparelhando nesse quesito, o colorado tem bem mais time, e a vitória torna-se quase que uma consequência inevitável.

A manutenção do esquema bem sucedido de domingo é uma ótima notícia. Será um teste fundamental pra ver se aquele futebol empolgante apresentado pelo Inter contra o Goiás pode emplacar, ou se foi apenas um brilhareco. Além disso, a vitória nesta noite pode fazer o Inter colar de vez no líder Palmeiras, ficando apenas um ponto atrás do time do Palestra Itália. E aí, toda uma espécie de "aura positiva" pode tomar conta do contexto colorado, proporcionando a tão esperada sequência de vitórias e o embalo para o título. Se o colorado conseguir pegar embalo, o mesmo que São Paulo e Avaí, por exemplo, já tiveram na competição, tenho praticamente certeza: ninguém tira o tetra do Inter.

PS: O jogo desta noite marca mais um reencontro da torcida colorada com um ídolo: o Saci Renteria estará vestindo a camisa listrada do galo. Só espero que ele não não tenha nenhuma oportunidade de dançar o ruque-raque.