segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Renascimentos

A graça da vida reside na sua irregularidade. Fosse tudo regular e dentro do esperado, sempre, e viver seria uma interminável modorra. Mesmo que as coisas fossem regulares para o bem (ou aquilo que se reputa ser o mesmo), perderiam a graça. O bom, o agradável, tornar-se-ia chato, indesejável, intragável. A presença e a ausência somente são sentidos quando se tem bem presente aquilo que representa seus opostos simétricos.
Um pedaço de nós, e nem sempre o mesmo, constantemente morre e renasce diferente, talvez melhorado, talvez piorado. Mas nos renovamos. Mesmo que pelas mais tortas vias. E de pedaços em pedaços, de micromudança em micromudança, quando nos damos conta, não somos mais absolutamente nada do que um dia fomos.
Tal fenômeno é inelutável. Somos permanente mudança. Somos, sim e sim, e constantemente, morte de nós mesmos. Somos o renascer de nossas próprias almas, valores e amores. Somos outra coisa, um pouquinho ou um poucão diferentes a cada segundo. Somos, acima de tudo, renovação.
De alguma forma, tudo reinicia. Novamente reinicia, e sabe-se-lá como, com toda a energia renovada, quase como num passe de mágica. Viver é isso, afinal. É lidar com nossas mortes e nossas ressurreições, aprendendo a sempre tirar o que há de melhor nesses períodos cortantes.
Heráclito estava certo.

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