terça-feira, 25 de agosto de 2009

Refeição

Já é noite. Paulo chega em casa. Mais um dia havia se passado. Estafante. Os pés, calejados, doíam após a caminhada que durou um dia inteiro. Cansado, vai ao banho, que alivia um pouco do cansaço físico. O trabalho levava-o até o limite de cada múscuo do corpo, diariamente.

Após o banho, Paulo liga a televisão e senta-se à mesa, à espera do jantar. Joana, sua esposa, termina o que ainda havia por fazer na cozinha. Os filhos de Paulo e Joana, Pedro e Manoela, o primeiro com 8, a segunda com 5 anos, sentam-se. Joana então serve aquilo que tem de servir. Duas colheradas de arroz em cada prato. Este é o jantar daquela família. Nada mais do que isso. Apesar de todo o desgaste e entrega diária de Paulo, nada mais do que isso.

O ambiente na mesa é silencioso. Não porque houvesse algo de novo. Sempre era assim. Tão somente escuta-se, mas não se ouve de fato, a televisão. Também já não havia ali o silêncio de uma tristeza surpreendente. Toda a dor estava de um jeito ou de outro, contida, internalizada para Paulo, Joana, Pedro e Manoela. Era uma tristeza latejante, quieta. Era uma tristeza conformada, quase transformada em apatia para as crianças e a esposa de Paulo. Mas não para ele, embora ele também se mantivesse silencioso. Nele, aquela dor era um tanto mais aguda.

Paulo observa as inocentes fisionomias de suas crianças, comendo até com certo gosto aqueles escassos grãos de arroz, e fitando a mulher guerreira que lhe acompanhara durante toda a vida, seus olhos um tanto cansados, abatidos, surrados por uma vivência sempre um tanto difícil, privada de toda a dignidade que um ser humano deveria ter. Joana era uma supermulher. Uma companheira na mais completa acepção da palavra.

Paulo, o incansável trabalhador de todos dias e horas, olhava o cenário, tomado por uma angústia fatalista. Impotente por saber que faz tudo o que pode dia após dia, e que esse tudo não significa praticamente nada no frio cálculo monetário que faz o mundo girar. Paulo abaixa a cabeça, como quem ora, para na verdade esconder de filhos e esposa a lágrima que corre inevitável, temperando o arroz de seu prato. Amargurado, tinha que manter-se forte, esconder aquele momento de fragilidade de sua família. Afinal, amanhã seria mais um dia de luta, e ele tinha que parecer sempre o lutador indestrutível, o pai de família forte, másculo, digno, merecedor inconteste do respeito de sua mulher e de suas crianças.

E na tv, naquele momento, a figura de Sarney discursando sobre inocências e corruptelas, fazia o pano de fundo daquela cena tão singela.

Eis o país do futuro. Um futuro que nunca chega. Um futuro que nunca se torna presente.

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