segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Quando a tecnologia se torna perversa

O caso da professora demitida graças a um vídeo em que ela aparece dançando na internet traz à tona um questionamento muito sério: a liberalização tecnológica vigente não está indo longe demais?

Não quero aqui colocar a tecnologia como um mal em si mesmo, porque, de fato, não o é. O que questiono é a forma absolutamente desregrada com que essas ferramentas são utilizadas. O caso da referida professora é emblemático. Um vídeo publicado no You Tube, que não foi feito por ela, e em que ela figura em um ambiente não-profissional, provavelmente tenha arruinado a carreira da mulher.

O grande (e múltiplo) olho expõe as pessoas de forma absurda e arbitrária. Não cabe aqui qualquer juízo de valor a respeito do duvidoso gosto musical da moça. Isso não tem nada a ver com a raiz filosófica da questão. Importa é refletir sobre a espantosa supressão do livre arbítrio das pessoas. A professorinha tem o direito de ir à festa que lhe der na telha e dançar a música que quiser. A tecnologia passa a ser, então, incrivelmente perversa. Divertir-se foi o grande pecado cometido por ela? A tecnologia, nesse caso, constrange e obriga as pessoas a adotarem posturas que podem não ser exatamente as suas.

Todas as pessoas passam a ser, em maior ou menor medida, pessoas públicas. A escolha, a alternativa do anonimato, diluem-se em um ambiente em que tudo é olho, tudo é câmera. Vivemos um desastroso show de Truman.

Uma coisa me parece certa: a tecnologização exacerbada possui uma faceta absurdamente cruel. Todos veem-se espreitados, vigiados, e, em meio a essa paranoia nem tão conspiratória assim, autolimitam-se, perdendo muito daquilo que é talvez o mais prezado valor humano: a liberdade. A tecnologia desenfreada e ilimitada nos torna prisioneiros de atos superficiais de um ser público permanente, e, por isso mesmo, quase insuportável.

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