terça-feira, 21 de julho de 2009

Imaginação fértil

Sou um homem de imaginação fértil. Ou um paranóico mesmo. Podem escolher a nomenclatura que julgarem mais adequada. Mas, realmente, as construções mentais por mim realizadas ganham o peculiar aspecto da paranoia. Talvez as duas coisas se confundam. Talvez não.

As pessoas tendem a ver o paranóico, ou aquele dotado com imaginação fértil, como um doido varrido, um sujeito que simplesmente imagina, do nada, coisas que inexistem. Não percebem que essa paranoia, essa loucura, é muito mais complexa do que possam pensar. O paranóico é um gênio às avessas. É o dono de uma criatividade indesejável, um tanto danosa.

As imaginações férteis de um paranóico nada possuem de absurdas. Elas são construídas por uma série de encaixes. Menos óbvios. Mas, nem por isso, menos perfeitos que os encaixes normais. São, isso sim, absolutamente factíveis quando vistos isoladamente. O que os torna malucos é o seu conjunto. O todo é um espetacular ridículo e viajante.

Entretanto, tão bem um pensamento paranóico é constituído, a partir de tantos e tantos enclaves consistentes, tão perfeitamente transmutáveis em realidade, que o pensador passa a crê-lo, como ninguém talvez possa entender. A grande e incompreensível fantasia de um absurdo pensado nada mais é do que o encadeamento de micro potenciais verdades, uma levando a outra verdade potencial, cada vez mais distanciada fisica e logicamente da "realidade real", mas a ela conectada por uma série de elos criados pelo sujeito.

O paranóico é um ser imaginativo e bem fundamentado, cheio de razões interiores. Nada é imaginado por imaginar. Eu, como bom paranóico que sou, vivo antevendo coisas, criando minhas próprias proteções contra um devir que apenas eu sou capaz de visualizar. Cá estou novamente, criando armaduras e escudos contra todos os malefícios que se insurgem, de dentro de mim para a realidade, estranha e distorcida realidade.

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