sábado, 18 de julho de 2009

Alice

Chamo-me Éverton. Sou um homem comum, com uma vida comum, com uma casa comum. Com horas, minutos e segundos comuns. Tudo seria tão mais comum não fossem dois, três dias, talvez um mês, talvez menos, em que estive ao lado de uma mulher chamada Alice. Agora lembro-me dela, ouço em algum lugar, dentro ou fora de mim, a bela "Elephunt Gun", que tanto me recorda aquela mulher e nossos momentos.

Alice, rápida e marcante como um furacão misterioso e devastador, mudou toda a estrutura da minha existência. Todinha. Divido-me em antes e depois de Alice. Ela e seu país das maravilhas me fizeram provar o melhor e o pior, o mais doce e o mais amargo que o paladar de uma vida humana pode provar.

Alice, de certa forma, desaparecera. Efeito tal qual ao de um anestésico paliativo, disfarçador de uma espécie de cancro emocional que somente faz crescer e agravar-se. Desaparecimento exercido pela força de uma natureza desconhecida. Pela força do orgulho próprio. Talvez ela brinque e faça graça de tudo o que passei e de tudo o que senti. Certa feita, no desespero de reacender uma chama que jamais havia sido acesa, disse para Alice que ela era a ausência que mais presente se fazia. O vácuo mais doloroso. O devir que nunca veio, mas já foi, e talvez jamais deveria ter sido.

Alice, com "a", com "b", com "c", com "n", com qualquer diferença que seja, existe. Somente em mim. Somente em um mundo paralelo, absurdo e alucinógeno do qual tento fugir dia após dia, minuto após minuto. Mantenho-me em meu vão esconderijo, em meu inútil fechamento, em uma mentirosa frieza. Alice é o pesadelo com mais jeito de sonho. E o sonho com mais jeito de pesadelo. Alice é um comprimido que me leva a outras dimensões, de sorrisos misturados com as mais angustiantes lágrimas. Alice é meu país doce e sombrio.

Alice matou um pedaço de mim, que apodrece, apodrece, e não posso amputar. Alice, em algum tempo, em algum espaço, ri e escarnece de mim. Brinca, brinca, brinca, e finge que nada sabe. Alice é o sonho de outubro, o pesadelo de novembro, e a redenção e esperança inútil de um pós-natal dezembrino.

Alice está me matando. De novo. E parece se deleitar com isso.

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