sábado, 6 de junho de 2009

Lacunas

Quando passamos por eventos que são grandiosos em nossas vidas, quando eles acabam, invariavelmente fica uma lacuna. Isso tem, obviamente, um lado bom. Afinal, é a nossa história, é a nossa vida, é a nossa memória, é o nosso ser. Entretanto, o efeito colateral é aquela dorzinha que persiste. Aquela marca que, vez por outra, volta a aparecer, volta a ser sentida, volta a ser lembrada. E aí, a distância se dissolve. Revivemos tudo aquilo que hoje se encontra naquela marquinha quase que imperceptível aos nossos olhos.
A verdade é que tudo que vivemos permanece em nós, de um jeito ou de outro. Não existe delete. No máximo, uma lixeira que jamais podemos esvaziar. Algumas coisas ficam como experiência positiva, tornam-se elemento virtuoso na continuação da nossa vida. Outras, simplesmente voltam a latejar do nada, quando não esperamos, absolutamente contra a nossa vontade. Talvez isso tenha a ver com o fato de elas serem meio recentes. Não devem ter sido absorvidas e digeridas por completo. Não devem ter sido, por conseqüência, ainda canalizadas como algo positivo, como uma experiência dos erros que nunca mais devamos cometer.
Do que é bom, ficam as boas sensações em si. É automático. Como lembrar do dia em que o Inter foi campeão mundial. Já aquilo que foi negativo, ruim, destrutivo, aquilo que foi permeado pela desumanização humana, pelo egoísmo, pela mentira absurda que a posteriori revela-se escandalosa aos nossos olhos, tem de ser canalizado, processado, para que se extraiam lições, aprendizados, novas linhas de ação para o futuro. Em suma, e grosseiramente: devem servir para que deixemos de ser trouxas. Algumas coisas ainda não foram suficientemente digeridas por mim. Ainda me irritam, me incomodam, de vez em quando me perturbam. Algumas cenas, algumas palavras, alguns momentos, algumas sensações enganosas, alguns momentos de redenção e mãos dadas, de pseudo-ressurreição, ainda encontram-se presentes. Mas um dia vão cicatrizar. Um dia tem de cicatrizar...

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