segunda-feira, 11 de maio de 2009

A obra de Nilmar

Era uma tarde de domingo normal, mais uma estreia de dois grandes clubes em mais um Campeonato Brasileiro. Inter e Corinthians, frente a frente, mediriam forças. E hoje essa coluna simplesmente se destinaria a traçar alguns comentários a respeito da partida de ontem, partida importante, busca de um objetivo prioritário na temporada colorada, mas um jogo normal. Algumas coisas seriam certamente abordadas. Mas nenhuma delas prevalece. Absolutamente nada que se diga é sobressalente a um fato, a onze segundos pertencentes àquele jogo de 90 minutos. Taison fez uma partida ridícula? Guiñazu e Magrão foram muito menos do que costumam ser no meio-de-campo colorado? A dupla de zaga foi segura? Bolívar provou não ser nem sombra do que o Inter precisa para a sua lateral direita para o certame? Desculpem-me, mas nada disso merece um tratamento depois daqueles onze segundos mágicos.
Aqueles onze segundos em que um atacante franzino pega uma pelota, domina, e vai passando, a dribles, por praticamente um time inteiro, são eternos. Nilmar fez história. Fez aquele que provavelmente tenha sido o gol mais bonito de toda a centenária existência do Inter. Diante de nossos olhos, vimos uma obra-prima. Um gol quase sobrenatural. Um quadro. A perfeição absoluta do jogo de futebol. Sim, porque ao contrário do que alguns apregoam, futebol é mais do que botinada, bico e carrinho. Esses componentes são componentes de competição, e, afinal, todos queremos um time competitivo, vencedor. Mas a essência do futebol transcende a mera competitividade.
O gol de Nilmar ultrapassa a barreira do simples ganhar e perder. É uma peça rara, que deve simplesmente ser apreciada em si mesma, e por si mesma. É a síntese de tudo o que deve caracterizar os craques, num só lance. A velocidade ultrassônica de um atacante que destrói todo um time rival em poucos segundos. A habilidade de quem dribla sete jogadores corintianos com a simplicidade de quem joga uma pelada na pracinha. A força de quem passou por trombadas e botinadas e mantém-se de pé, driblando, brincando de jogar bola. A técnica de quem, depois de tudo isso, finaliza com a perfeição e a beleza de um balé do Lago dos Cisnes de Tchaikovski, num toque leve, preciso, cirúrgico, colocando carinhosamente a querida de couro no único espaço que poderia haver entre toda a impulsão e esticar de mãos do goleiro adversário e a trave esquerda daquela goleira do Pacaembu.
Eis a obra de Nilmar, tudo que a compõe, e o significado que carrega consigo. Não vi Da Vinci pintar a Mona Lisa ou A Última Ceia. Não vi Michelangelo com sua sensibilidade retratar A Criação do Homem na Capela Sisitina. Não presenciei Beethoven compondo sua Quinta Sinfonia. Não estive perto Kafka quando este escrevia A Metamorfose. Mas estive em frente à televisão enquanto Nilmar fazia aquele gol na tarde do dia 10 de maio de 2009, aos nove minutos daquele Inter e Corinthians. Eu vi aquilo que será lembrado para todo o sempre, junto com tudo de mais belo que o ser humano é capaz de produzir.

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