terça-feira, 12 de maio de 2009

Graúna e Imperial

Era uma vez dois times de futebol de uma rua no bairro de Passo das Almas, em alguma cidade brasileira. Eram dois times de futebol amador. O primeiro, fundado cerca de seis meses antes, chamava-se Graúna; o segundo, Imperial. Cada um ficava de um lado da rua Dorotéia. Desde a primeira partida entre os dois, sempre nutriram grande rivalidade. Disputavam os torneios de vizinhos da rua ferrenhamente. Tornaram-se as duas grandes potências da rua Dorotéia, tornaram-se hegemônicos naquela rua, naquele pedaço de chão.
O primeiro a dar passos maiores foi o Imperial. Conquistou o tricampeonato do bairro! Do bairro! Ah, foi uma transcendência sem precedentes. Poucos anos passaram, e o Graúna equilibrou a situação em termos de conquistas. Levou um Campeonato do Passo das Almas, e logo depois, conquistou o Campeonato da Cidade e o Campeonato Estadual. A partir dali, ocorreram tempos gloriosos do Graúna. Alguns anos depois, o Graúna ganhou ainda mais um Campeonato do Bairro e um Campeonato da Cidade.
A tais conquistas, somou-se um egocentrismo e uma arrogância jamais vistos em todo o bairro Passo das Almas, por parte dos graunenses. Passaram a se achar maiores que o Imperial. Passaram a se achar o maior time do estado. Arrotavam superioridade, por aqui e por lá. E os torcedores do Imperial sofriam calados. Foram frios e tristes aqueles anos, em que o time fracassava não poucas vezes até mesmo nos torneiozinhos da rua Dorotéia. Até um time de gurizinhos, que jamais ganhou nada na vida, chamado Jibóia, passou a "se criar" em cima do Imperial.
Alguma coisa haveria de ser feita para reerguer o Imperial. Um cara chamado Fábio Conceição assumiu o time, sua gestão, com o intuito de reaver a auto-estima perdida. E, aos poucos, com Fábio Conceição em seu comando, o Imperial retomou a hegemonia, primeiro em sua rua. Voltou a conquistar o torneio da rua Dorotéia em sequência. Importante começo. Depois, o time foi roubado num Campeonato do Bairro. Um absurdo! Um dirigente da Associação de Moradores resolveu, do nada, anular um monte de jogo daquela competição, graças a uma acusação de que Seu Pedro, que apitava os jogos, teria recebido algumas cervejas para manipular um ou outro jogo. Tal manipulação não foi verificada com maior profundidade, e simplisticamente, anulou-se aquela penca de jogos. E, na balada normal do campeonato, o Imperial teria sido tetracampeão do bairro. Não foi o que aconteceu, e o Camelos conquistou o Campeonato de Passo das Almas.
Mas o vice-campeonato do bairro rendeu ao Imperial, pelo menos, a chance de participar do Campeonato da Cidade, que o time jamais havia ganho. O Graúna já havia ganho duas vezes tal competição. Era importante, pois, o Imperial lutar por aquela conquista. E assim foi. O Imperial conquistou o Campeonato da Cidade. No mesmo ano, então, jogou o estadual. E ganhou também! Era a redenção do Imperial, que passou a conquistar todos os títulos que disputava. Tornou-se o primeiro time de Passo das Almas a ser campeão de todos os títulos existentes no futebol amador. Os graunenses apenas observavam, recalcados. Ver o Imperial dar volta olímpica atrás de volta olímpica violentava a megalomania graunense.
Hoje em dia, dizem que o Imperial está com um belíssimo time. Conquistou o título da rua goleando a todos, e fiquei sabendo que está com tudo para ganhar mais um Campeonato do Bairro. O Graúna, parece que está disputando, com um time bem mais ou menos, o Campeonato da Cidade. Dizem que esse é o grande alimento moral dos graunenses: jogar o Campeonato da Cidade. Uma coisa meio propaganda de pomada: o importante é participar. Um amigo meu de Passo das Almas me relatou que os graunenses apegaram-se a um mundo paralelo. Criaram mitos do tipo de que nunca falecem, ou coisa parecida. Continuam afirmando-se os reis da cocada preta por aquelas bandas. Mas apenas, na prática, na realidade, observam, desdenhosamente, e chorando por dentro, o sucesso do Imperial. Melancólicos dias vivem os graunenses... Tadinhos...

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