terça-feira, 5 de maio de 2009

Desculpas

Caminhava eu pela rua, passando por uma escola, quando em uma aula de educação física, a professora dava uma bronca num moleque que havia jogado a bola numa colega. Dizia ela, aos gritos "Pede desculpa pra ela! Pede!" Passei a pensar: isso é realmente eficaz?
Fui criado de uma forma bem peculiar. Minha mãe, quando não conseguia me fazer obedecer algo, em casos extremos, recorria a meu pai, que simplesmente dizia com voz grave e ameaçadora: "Bruno, TU VAI fazer." Confesso, obedecia com o rabinho entre as pernas. Mas, de fato, isso contribui para a educação de uma criança? Tenho minhas dúvidas. Claro, teoria e prática são coisas completamente diferentes. Aqui, falo apenas do ponto de vista do que penso, do que imagino, do que acredito. Não sou pai e não posso, de forma alguma, dar um ponto de vista mais empírico de explicação daquilo que digo.
Acredito que a verdadeira educação tem de ser muito mais didática do que gritos, tons ameaçadores ou cintadas na bunda (observação, por justiça: nunca, nem sequer uma vez na minha vida, apanhei dos meus pais). Educação é interação, é convencimento. Não falo aqui de educação na dimensão do conhecimento; nessa dimensão, tenho sérias restrições a métodos excessivamente interativos. Falo, isso sim, da educação de casa, da educação para a vida. Aí sim, é importante uma interação pais-filhos. Para realmente criar pessoas que façam as coisas certas ou esperáveis, é necessário convencê-las do certo. É indispensável que as crianças achem que o certo é certo.
Aí pergunto: uma professora mandar uma criança pedir desculpas à outra é realmente uma atitude eficaz? Como um paliativo, como algo momentâneo, funciona. A criança pede desculpa, dá dedinho, faz o diabo a quatro. Mas, e na vida? Ela vai julgar com mais exatidão, por exemplo, o ato de agredir a outros? O enfoque passa do ato da agressão para o ato de pedir desculpa. Agrida-se, ora pois. E depois, peça-se deculpas. Não é uma estruturação de pensamento plausível para aquele moleque, que ainda está formando sua personalidade e seu caráter? Bom, fica então a reflexão. Educar por meio de coerção pura, sem permitir à criança uma reflexão sobre seus atos, ou tentar convencê-la do que é certo e do que é errado?
Acredito que é importante a interação e a reflexão da criança. Nessas fases é que os valores mais intrínsecos e de caráter são internalizados. Impedir a construção mental da criança sobre suas atitudes tende a criar um vazio de valores e de formação de personalidade. Isso não quer dizer que uma criança que é criada por meio de coerção vá, necessariamente, ser um mau-caráter, uma pessoa que não sabe diferenciar certo e errado. Seria demasiadamente determinista. Pode-se, sim, a posteriori, formar o sistema de valores das pessoas, embora com dificuldades muito mais difíceis de superar.
No meu caso, formei meus valores sem maiores dificuldades porque as atitudes coercitivas vinham como último recurso: basicamente fui educado, na maior acepção da palavra, pela minha mãe. E esta sim, sempre dialogou bastante e exercitou minhas reflexões acerca de meus atos. Talvez a minha experiência individual, de convivência com os dois métodos, sirva minimamente para dizer que, a longo prazo, o que realmente funciona é a conversa, o obedecer por acreditar, e não o obedecer mecânico. Felizmente o primeiro prevaleceu na minha infância.

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