segunda-feira, 13 de abril de 2009

Marcas

A nossa vida é feita de marcas. Em certa medida, somos exatamente aquilo que nossas marcas nos ensinaram a ser. Somos produto de nossa própria vivência. Por isso, é um tanto covarde qualquer tentativa de impor uma fórmula de vida pronta para qualquer ser humano, universal. Ninguém pode dizer a outro como se deve viver. Claro, existe um padrão, um tipo humano médio, do qual nos afastamos mais ou menos, de acordo com nossas experiências e personalidades. Mas qualquer tentativa de estabelecer um caminho unívoco me parece bastante inconsistente.
Tudo que vivemos deixa marcas. Umas são marcas de travesseiro, um amassado que não ultrapassa nossa pele. Outras são cortes, de variadas profundidades, uns com cicatrização quase instantânea, outros que deixam uma discreta cicatriz, porém visível, para todo o sempre. Há ainda as queimaduras, deixando vestígios grosseiros do que se passou.
Eu tenho as minhas marcas, e todas elas me influenciam, me guiam por aí. Há aquelas que já cicatrizaram, mas se fazem presentes, cujo corte por vezes até mesmo volta a se abrir. Mas nada que fuja ao controle. Há, porém, marcas que ainda me perturbam. Por mais que eu tente tratá-las, não consigo. São marcas que ardem, ardem, ardem. Elas provem, incrivelmente, de experiências positivas. São doces lembranças que poderiam, ainda, ser realidade. Elas poderiam, concretamente, ainda fazer parte do mundo real. Elas já foram, ora, parte do mundo real.
E é exatamente isso que mais dói. Ver que certos momentos passaram na cronologia arbitrária de um tempo em linha reta. Mas ainda são presentes. Ainda poderiam ser retomadas, e seriam a retomada de algo que já existiu, de algo que não é sonho, de algo que não é utopia. Mas os dias passam e as marcas permanecem ali, ardendo, doendo na mente, doendo no peito. E a vida é uma menina travessa. Ela é debochada. Ela dá o gostinho fugaz de uma alegria para retirar em seguida, gargalhando. Mas, afinal, que justiça poder-se-ia esperar da vida? Ela é um quebra-cabeças de peças malfeitas. Ela é um quebra-cabeças com peças faltantes. Talvez o grande segredo seja querer somente o que está ao alcance de nossas mãos. Mas isso exige predominância total e irrestrita da razão. Seria a felicidade racionalizável? Não, definitivamente não acredito nessa hipótese. Por isso permaneço aqui, inerte, prisioneiro. Esperando chamarem a minha senha. Esperando minhas migalhas. Esperando minha felicidade.

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