quarta-feira, 15 de abril de 2009

Manipulações

Até que ponto estaríamos, nós, submissos ao mundo do trabalho? Nota-se, progressivamente, um direcionamento do ensino e da escolarização para o mundo do trabalho. É fato. Hoje em dia, tornou-se romântico, quase utópico, o pensamento que leva em conta a educação enquanto esfera de um verdadeiro desenvolvimento intelectual, artístico, crítico.
Diante das exigências de um mercado de trabalho extremamente competitivo gerado pelo sistema capitalista, o conhecimento torna-se mercadoria, e é mercantilizado mesmo na dimensão do conteúdo. "O que você quer ser quando crescer?" deixou de ser uma pergunta ingênua, com expectativa de resposta ingênua. Ela é carregada de significado. Existe uma robotização do ser humano. E isso não é nenhum devaneio marxista. Basta vermos como realmente a sociedade ocidental vem se comportando. As pessoas, principalmente da classe trabalhadora, trabalham para viver e vivem para trabalhar. Não há fuga. Não há tempo. O tempo que sobra para o sujeito, estraçalhado pela atividade laboriosa, é usado para o descanso em si, e para o esvaziamento do cérebro via televisão comercial. Esvaziamento? Será mesmo esvaziamento? Pior é que não é. No momento de descanso, em que o indivíduo está vulnerável, esgotado, todo o já escasso filtro crítico vai por água abaixo. Não há momento melhor para entrarem em cena novelas com pessoas ricas, bem-sucedidas, ou se não ricas e bem-sucedidas, ao menos pobres e felizes. Insuportavelmente felizes. E todo pobre infeliz com sua condição de classe, quando posto em cena, é um personagem caricato, ambicioso, que não valoriza nada além da dimensão material. Tsc, tsc, tsc... Mas não importa: tudo acaba em um bom samba! As novelas dizem "trabalhe e seja rico; caso não seja possível enriquecer com seu trabalho, pelo menos seja um pobre conformado e feliz, afinal moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza." É ou não é, Marcos Palmeira?
E todo o potencial crítico do sujeito vai pelo ralo, não por culpa do indivíduo, que simplesmente é esmagado por toda essa estrutura, mas sim, graças a um sistema perverso baseado na ganância, na homogeneização social, e na supressão do indivíduo enquanto tal, em troca de um individualismo superficial pautado por padrões arbitrários. E a massa fica um tanto entregue, nocauteada e manipulada sem perceber. E a massa ri. E as classes dominantes gargalham. Menos mal que ainda há setores da população que estão despertos. Constituem-se numa espécie de semente teimosa em solo infértil, capaz, porém, de fazer algo acontecer, em algum momento. Provavelmente ainda falte algum tempo para isso. Talvez nem mesmo venha a ocorrer. Mas a existência desses setores mantém a classe trabalhadora em seu coma profundo. Há, pois, esperança de vida.

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