terça-feira, 28 de abril de 2009

João Pedro

João Pedro caminhava. Chovia, chovia muito naquele dia. João não tinha guarda-chuva. João não tinha nada. Ele apenas caminhava. Passeava debaixo da água que encharcava seu corpo e a rua. Era fim de tarde, e tudo estava escuro, e um tanto melancólico. Pessoas corriam com suas capas e guarda-chuvas. Elas queriam o aconchego do lar. Tão quente lar. Refúgio. Descanso. Sobrevida.
Mas João Pedro continuava a caminhar. Observava os movimentos que o rodeavam. Aquilo tudo possuía uma certa beleza. Triste beleza. João andava. Ainda que o mundo fosse uma carranca, João permanecia no seu passo atrás de passo. Uma mulher morena caminhava frontalmente, meio bonita, meio sem graça, ela que tinha uma sombrinha florida, em verde e branco. Ficou a moça espantada com o tipo de atitude de João. Caminhar assim, com simplicidade, sem maiores proteções, em meio àquela espécie de dilúvio. O que havia com ele? O que havia nele?
Ela cumprimentou João, abraçou-o calorosamente. Apresentou-se. Vanessa era seu nome. João Pedro, um tanto assustado, tentou se afastar. Em vão. Vanessa fez questão de acalmá-lo. E passaram, então, a caminhar lado a lado, sob a sombrinha de Vanessa. Conversaram cerca de uma hora.
Após isso, Vanessa despediu-se, beijou o rosto de João Pedro, e foi embora, prometendo algum dia, sabe-se lá como, revê-lo. Para João aquele dia foi importante. Sentiu-se alguém. Sentiu-se preenchido de significado. Tantos e tantos dias chuvosos haviam passado, e João sempre ali, andando, e vendo um monte de gente que não lhe percebia, buscando freneticamente o conforto de seus lares. Para João não havia lar. Não havia guarda-chuva. Não havia nada. Mas havia alguém para quem ele havia existido durante uma hora. Havia Vanessa.

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