sexta-feira, 17 de abril de 2009

(Ir) racionalidade humana

Não sei até que ponto nós, seres humanos, somos racionais. Sinceramente. Não sei até que medida ser racional é racional. Talvez o absurdo existencial que vivo seja extremamente datado e localizável no Google Earth. O fato é que me sinto enojado com a forma como as coisas humanas funcionam.
É óbvio que ser racional não implica perfeição. Muito antes pelo contrário, pode ser diametralmente o oposto. A racionalidade levada a certos patamares é enlouquecedora. O ser humano, ou melhor, alguns muitos seres humanos, vem se transformando num imenso vazio de manias, frescuras e superficialidades. As pessoas apodrecem-se por dentro em nome da pompa e da circunstância de uma imagem ideal, hipócrita e mesquinha. É evidente a incongruência do ser humano no que tange três diferentes elementos: discurso, prática e vontades. Numa perspectiva freudiana, a grosso modo, seriam o superego, o ego e o id. Mas prefiro chamar de discurso, prática e vontades. Dentre estas três dimensões a prática seria a mais maleável, a mais flexível. Não é por acaso que nela residem e nela se evidenciam todas as contradições humanas. É na prática que confrontamos eu e eu. É por isso que nela vou me deter. A prática possui moldes sociais, digamos, de primeiro e segundo graus. O primeiro é o da civilidade. É o saber conviver com os outros mediante normas sociais mais ou menos flexíveis. Esse grau é, a meu ver, indispensável. O segundo grau é o mais contraditório. Até mesmo porque relaciona-se intimamente com o primeiro. Trata-se da decodificação das normas por parte dos indivíduos. Ou seja, a interpretação das mesmas em situações em que a prática oferece uma margem de ação mais ampla e diversificada. Atingindo um certo nível-limite, é humano e desejável. Ultrapassado este limite, torna-se mecânico. Anti-humano. Irracional. Aí, nesse ponto, as normas já não mais se ligam à realidade que as originaram. Tornam-se normas individuais. Tornam-se normas doentias. Talvez nem sequer sejam mais normas.
Transformamo-nos, pois, em um bando de gente esquizofrênica. Cada um com suas próprias regras. Resumimos nossas vontades a apenas uma: manutenção social do nosso discurso. A satisfação humana se rebaixa. Empobrece. Se deteriora. A sociedade promove, numa contra-indicação desse panorama, uma homogeneização de heterogeneidades. Ninguém se entende de fato. Apesar disso, todos fingem que se entendem, pelo menos dentro de determinados grupos. E tudo o que tais grupos fazem é unificar a linguagem dos desentendimentos, sem, no entanto, eliminá-los. Parece-me que a única coisa a ser entendida, por hora, é que nada pode ser entendido. Nem este texto.

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