quarta-feira, 8 de abril de 2009

Insônia

Ele deita. São 22 horas. Nada mais tem a fazer. Guarda suas vontades para o dia posterior, na segunda gaveta, debaixo das camisas e em cima das meias. Antes de dormir, porém, levanta e come algumas bolachas Maria com um copo de leite. Bebe de uma vez só, quase que num único gole. Escova os dentes e volta para a cama. A noite não passa. É como se ela abraçasse aquele homem. É como se ela estrangulasse aquele homem.
A televisão fica ligada, e ele se vira, apenas ouvindo os tiros e dublagens "versão brasileira: Herbert Richards". A tv ligada carrega o significado de uma companhia. A única de que dispõe aquele homem. As horas passam, o incômodo aumenta. O sono não vem. O homem fecha os olhos para imaginar coisas boas. Imaginar uma vida ideal, com tudo o que ele quer. Mas ele não sabe o que quer. Seus pensamentos são desorganizados, meio desfocados, perdem-se no meio de uma triste neblina.
Como seria bom para ele poder dormir. Há dias não conseguia ter um sono minimamente reconfortante. Pega o controle e desliga a televisão. Revira-se na cama de casal. Pra lá e pra cá. Pra cá e pra lá. Reza e chora, clama por piedade divina. Ela disse que voltaria. Há seis dias. Talvez ela tivesse se enganado de dia. Aquela cama de casal tinha companhia semana passada. Não podia agora ter mudado. Onde estava ela? Ela ficou de buscá-lo. Mas não vinha, não vinha nunca! E ele aguardava, dia após dia, a chegada daquela dama de preto, que não acontecia. Até ela, que nunca havia esquecido ninguém, e que não haveria de esquecer ninguém, certeira que era, e por vezes até visitante inesperada, parecia tê-lo esquecido, logo ele que a esperava dia após dia. Até ela parecia desprezar-lhe, sordidamente.

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