quarta-feira, 29 de abril de 2009

Quanto vale?

Assistir ao filme "Quanto vale ou é por quilo?" suscita algumas indicações do comportamento humano que são constrangedoramente verdadeiras. Em linhas gerais, a película traça um paralelo entre o período escravista e a contemporaneidade, mostrando que determinadas estruturas permanecem, apesar de possuírem uma "capa" um tanto diferente.
A mim chamou a atenção, de forma mais forte, o enfoque que foi dado em relação à linha de ação principalmente das entidades, associações ou Ongs. Fica bastante claro aquilo que permeia qualquer ação, por mais altruísta que seja: a vontade individual. Particularmente a mim, tal enfoque e a constatação a ele pertinente não causam nenhum tipo de espanto ou surpresa. Por mais altruístas, solidários, cooperativos que sejamos, somente o somos por um motivo: satisfazer a nós mesmos. Mesmo quem ajuda com a maior das boas vontades, o faz para sentir prazer individual. E nada há de condenável nisso. Quando queremos mudar o mundo, queremos mudá-lo para nós, para aquilo que nós, enquanto indivíduos, achamos correto.
É óbvio que há escalas. Uma pessoa mais altruísta, é sim, menos individualista, embora jamais, sob nenhuma circunstância, vá deixar de ser individualista. É lógico que o prazer em ajudar o próximo é mais revestido de nobreza do que o prazer de satisfazer-se egoísticamente. Mas ambos são prazeres do indivíduo. Não há como fugir disso. Em última análise, todas as atitudes que temos, todas as posturas que tomamos, e todas as ideias que defendemos possuem uma única finalidade: satisfazer a nós mesmos.
Aqui não vai nenhuma carga negativa sobre o ser humano. Não é ruim ser individualista. Todos nós somos. Inevitavelmente. É uma característica inerente à humanidade. Há individualismos mais ou menos altruístas, mais ou menos solidários, mais ou menos coletivistas. Mas todos são tipos da mesma coisa: o individualismo.
As grandes ações coletivas não são algo maior, que se sobrepõe aos sujeitos, de forma alguma. Elas são apenas uma grande convergência de interesses individuais. É daí, do indivíduo, da coletividade de indivíduos, que provém todo o tipo de força que emana da sociedade ou que envolve uma coletividade transformadora. Valorize-se, pois o indivíduo, e tudo de bom que dele possa vir. Destruí-lo é destruir a força mais vital e essencial da humanidade. É destruir a conservação e ao mesmo tempo destruir a capacidade transformadora. Óbvio que para a convivência civilizada é fundamental um conjunto de normas que regulem e minimamente padronizem a ação humana. Mas tal conjunto de normas deve ser apenas uma base sobre a qual o homem possa florescer em toda a sua riqueza. Sem indivíduos, teríamos uma sociedade vegetativa, sem vida, sem vontades. Sem indivíduos, não haveria nenhum motivo minimamente plausível para nenhuma ação. Sem indivíduos, as já rarefeitas justificativas da vida deixariam de existir.

terça-feira, 28 de abril de 2009

João Pedro

João Pedro caminhava. Chovia, chovia muito naquele dia. João não tinha guarda-chuva. João não tinha nada. Ele apenas caminhava. Passeava debaixo da água que encharcava seu corpo e a rua. Era fim de tarde, e tudo estava escuro, e um tanto melancólico. Pessoas corriam com suas capas e guarda-chuvas. Elas queriam o aconchego do lar. Tão quente lar. Refúgio. Descanso. Sobrevida.
Mas João Pedro continuava a caminhar. Observava os movimentos que o rodeavam. Aquilo tudo possuía uma certa beleza. Triste beleza. João andava. Ainda que o mundo fosse uma carranca, João permanecia no seu passo atrás de passo. Uma mulher morena caminhava frontalmente, meio bonita, meio sem graça, ela que tinha uma sombrinha florida, em verde e branco. Ficou a moça espantada com o tipo de atitude de João. Caminhar assim, com simplicidade, sem maiores proteções, em meio àquela espécie de dilúvio. O que havia com ele? O que havia nele?
Ela cumprimentou João, abraçou-o calorosamente. Apresentou-se. Vanessa era seu nome. João Pedro, um tanto assustado, tentou se afastar. Em vão. Vanessa fez questão de acalmá-lo. E passaram, então, a caminhar lado a lado, sob a sombrinha de Vanessa. Conversaram cerca de uma hora.
Após isso, Vanessa despediu-se, beijou o rosto de João Pedro, e foi embora, prometendo algum dia, sabe-se lá como, revê-lo. Para João aquele dia foi importante. Sentiu-se alguém. Sentiu-se preenchido de significado. Tantos e tantos dias chuvosos haviam passado, e João sempre ali, andando, e vendo um monte de gente que não lhe percebia, buscando freneticamente o conforto de seus lares. Para João não havia lar. Não havia guarda-chuva. Não havia nada. Mas havia alguém para quem ele havia existido durante uma hora. Havia Vanessa.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Baden Baden

Costumo, de vez em quando, ir até o Baden Baden, um pequeno bar que fica numa galeria do centro de Porto Alegre, para comer uma ala minuta no almoço. Antigamente, o local se chamava Comilão. Pois bem, a ala minuta de lá é excelente. Por isso, há um tanto de tempo sou assíduo frequentador do local. Sobrou uma graninha, estou lá devorando mais uma ala minuta.
Entretanto, ultimamente minhas vontades de devorar ala minutas foram espantosamente reforçadas. Há uma loirinha, uma linda loirinha trabalhando lá. Não sei o nome dela. Talvez eu tenha ouvido uma vez, talvez seja Priscila. Mas não tenho nenhuma certeza. Em suma, não sei o nome da moça. No máximo, imagino, muito vagamente. Ela usa um discretíssimo piercing em seu nariz. Lindo nariz. Lindo rosto. Lindo sorriso. Acho que ela tem cerca de um metro e meio. É bem baixinha. Deliciosamente baixinha. Tem um belo corpo também, como não? A loirinha do Baden Baden é um espetáculo. Que mulher! Eu fico sentado, esperando o almoço, às vezes ela que me serve. Sempre torço para que ela me sirva. E eu observo cada passo dela, tentando evitar que ela perceba. Ou não. Confesso, chego a me sentir um pouco incomodado quando ela atende outros homens. Coisa minha. Mais uma dessas besteiras de uma mente um tanto insana.
Aquela mulher é quase um sonho de consumo. Daquelas que fariam eu largar tudo na vida, somente por ela. Ela é um espetáculo. Pagaria até mais por aquela ala minuta, apenas pelo simples prazer de contemplá-la. Sinto-me como uma espécie de Arturo Bandini. Não sabe de quem se trata? Pergunte ao pó. A menina loira do Baden Baden é minha garçonete preferida. A melhor de todas. A melhor de Porto Alegre. A melhor do Rio Grande. A melhor do Brasil, do mundo, da galáxia, do universo.
Claro, ela nunca saberá da minha existência. Acho que jamais saberá meu nome, sequer. Assim é a vida. Há pessoas que fazem apenas parte da paisagem, por mais bela que possa ser essa paisagem. A loirinha do Baden Baden é isso. É minha admiração meio romântica, meio platônica. É o resgate de um pouco daquele espírito das paixões infantis, em que um simples olhar ou sorriso do objeto de nossos suspiros é motivo para uma alegria que provoca uma erupção que brota do peito para cada canto de nosso corpo, arrepiando cada pêlo do mesmo. A loirinha do Baden Baden é um pouco da retomada da doçura e da ternura que ainda residem em mim. Ela representa algo que estava esquecido dentro do meu ser e que é absolutamente desejável. Por mais idiota que isso possa parecer.

domingo, 26 de abril de 2009

Expectativas

É inegável que todas as expectativas que reinam sobre o time do Inter nesse ano de 2009 são fantasticamente positivas. Não só pela aura maravilhosa criada pelo centenário mais comemorado e bem realizado da história do futebol brasileiro. Mas também por tudo o que o Inter vem sendo em campo. Não há dúvidas, estamos quase em maio e o Inter fez uma pré-temporada de luxo. Os objetivos colorados vão muito além do Gauchão e de goleadas de início de ano.
Entretanto, é fato que tudo que o Inter mostrou até agora sugere uma temporada extremamente bem-sucedida, com títulos nacionais e internacionais. Tem Recopa, tem Sulamericana, tem Copa Suruga Bank, tem Copa do Brasil, tem Brasileirão... É muita disputa. É muita taça em jogo. E tudo parece estar perfeitamente coadunado para que o Inter ganhe grandes títulos em seu centenário. Não pode se perder no meio desse caminho. Mas esse ano é especial. E o Inter está sendo um triturador de adversários. Fracos, é verdade. Tá fazendo, afinal, o que deve ser feito. E que nenhum outro clube brasileiro está fazendo.
Trazendo um lateral direito de primeira grandeza, Sorondo se recuperando plenamente de sua lesão, e passando a janela de meio de ano sem maiores traumas, não tenho dúvidas: o Inter tem tudo para ser campeão brasileiro. No mínimo. No mais modesto mínimo. Essas goleadas maravilhosas, esse futebol cintilante praticado pelo Inter não podem nos anestesiar. São meios para um fim maior. E o grupo do Inter está numa ascendente. Por isso mesmo, comparar com o grupo do ano passado, que também passou por um momento parecido, é um equívoco. Aquele grupo, com Fernandão, Iarley e cia. estava passando por seu último brilho. O Gauchão de 2008 foi uma despedida cinematográfica. Depois já não havia mais o que conquistar.
Por outro lado, o Inter 2009, de D'alessandro, Nilmar, Taison, Magrão e Guiñazu é uma safra que está em seu ápice. Depois de um início histórico no segundo semestre de 2008, esse elenco tem uma fome por mais. Este grupo quer mais. Este grupo ainda tem páginas a escrever na história do Inter. E, mantendo o nível de atuação e determinação que está mostrando, dividindo cada bola como se fosse a última da vida, e tramando cada ataque como se fosse um lance decisivo aos 45 minutos do segundo tempo de uma final de campeonato, não há como ser diferente: vai escrevê-las.

sábado, 25 de abril de 2009

Fumo

Tem gente por aí querendo proibir o fumo em locais abertos, na Europa, nos Estados Unidos e na Oceania. Uma ideia que é, na minha modesta opinião, estúpida. Quem sabe aumenta-se o leque e opções dos traficantes? Quanto mais diversificado o comércio, tanto melhor... Em um panorama em que o mundo devia caminhar para avanços, liberando a maconha, por exemplo, algumas pessoas adotam uma posição retrógrada e absurda.
É engraçadíssimo como os patronos da saúde vem a público defender apaixonadamente o "direito" a uma vida saudável. Cada um leva a vida que quer, do jeito que quer. Cada um sabe o que lhe apetece. O que é prazer para alguns, não é necessariamente prazer para outros. Isso se chama livre arbítrio. A pessoa prejudica apenas a si mesma. Há ampla divulgação dos malefícios do tabaco. Obrigar as pessoas a não fumar é ridículo. A vida é um valor relativo. Ninguém pode obrigar ninguém a pensar que viver mais é melhor. Entramos naquela velha história de viver 10 anos a 100 ou viver 100 anos a 10. Cada um, cada um.
Esse tipo de aberração não pode acontecer. Abre precedentes perigosos. É uma questão filosófica. Se tudo o que prejudica a saúde for proibido, cuidado! Daqui a pouco vão querer proibir a cerveja e o churrasco! Já vivemos numa sociedade impositora, cheia de mecanismos coercitivos velados. Mas a ditadura das atitudes não vê limites. Legisle-se, pois, o que os senhores da verdade, os papas do bem viver, acham certo. Claro, isso ainda não passa de uma ideia. Mas, somente o fato de determinado grupo pensar em transformar a proibição do fumo em lei, é preocupante. Seria um absurdo retrocesso.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Tempestades e bonanças

Não deixa de ser impressionante verificarmos como a vida é imprevisível, o quanto tudo pode virar, a forma como as marés mudam. Tudo vai da tempestade à bonança, e da bonança à tempestade. O que muda é a duração de um e de outro.
Essa imprevisibilidade não deixa de conferir certa graça à arte de viver. Talvez o que torne os bons momentos, de fato, bons, seja exatamente o fato de provarmos um pouco da tristeza. Só sabemos que o doce é doce quando conhecemos o amargo. E vice-versa.
A beleza da redenção humana reside exatamente na capacidade de superar adversidades e passar por cima de derrotas atordoantes. As alegrias não tem a menor graça quando não possuem parâmetro. É a dádiva da comparabilidade. Entre tudo e com a gente mesmo. E o que há de ruim sempre passa. De um jeito ou de outro, mais cedo ou mais tarde, fazemos a nossa cicatrização.
E o ar, quase que do nada, volta a encher os pulmões. O sol volta, sabe-se lá por que, a apresentar um brilho especial, que havíamos perdido em nossa gaveta dos esquecimentos. Não sei exatamente qual o motivo disso. Só sei que estou, neste momento, tomado por um otimismo que beira ao irracional. Uma luz, um cheiro, um som. Não faço idéia do que seja. Mas alguma coisa faz despertar dentro de mim uma esperança e uma vontade de viver e de vencer maravilhosas.
Sinto-me positivamente possuído. Algo de inigualavelmente bom invade o meu ser. E não preciso de explicações para isso. Basta curtir, observar o entorno, e viver, viver, viver. As dores, as angústias, as amarguras, tudo o que tem tornado a vida um caos, é jogado em algum canto. Até quando? Até amanhã? Atè mês que vem? Até daqui a 30 anos? Não sei. Por isso, o sentido prático do meu espírito me diz que não devo pensar nisso. Apenas inflarei o peito e prosseguirei. Simples assim.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Desespero

Ontem, o Inter fez mais uma vítima, tocando 5 a 0 no esfrangalhado Guarani de Campinas, e jogando, mais uma vez, um futebol próximo à perfeição. Determinados setores da imprensa transparecem um certo desespero com o momento vivido pelo Inter. Existe um despeito, um recalque latente, proveniente de alguns coraçõezinhos tricolores. E a parte azul da imprensa somente faz revelar o ódio e a angústia da torcida gremista perante a superioridade avassaladora do Inter. Tentam desmerecer, sem lá muito sucesso, o que o Inter vem fazendo, chamando de fracos os adversários colorados, chamando o Gauchão de Ruralito, dizendo que Copa do Brasil é uma porcaria, lembrando repentinamente a eliminação colorada na Libertadores de 2007 como um "vexame histórico", comparando o time colorado com LDU e Once Caldas, e desmerecendo a Sul-Americana como competição que time grande não quer ganhar. Enfim, estão desesperadamente atirando para absolutamente todos os lados.
Numa hora dessas, em que tanta bobagem vem sendo dita, permito-me colocar os pingos nos devidos is. É importante colocar ordem na casa, pois o lado azul da força tem por hábito repetir mentiras e balelas até que todos as tenham internalizado. Então, como diria Jack, vamos por partes. Vou até separar em tópicos, assim, ó: a, b (de "b" a tricolagem entende bem, é ou não é, cara-pálida?), c, d... Em cada tópico responderei a uma das besteiras atualmente propagadas. Então, vamos lá:
a. Adversários do Inter são fracos. Sim, realmente são fracos. Todos os times que o Inter pegou no ano são inexpressivos. Mas, cá entre nós: jogamos o mesmo campeonatos estadual, nénão? Vai ver, fortes são o Aurora e o Boyacá Chicó... Vai gostar assim de um mundo paralelo lá em Punta del Este...
b. Gauchão é ruralito. Só há uma pergunta que atormenta minha cabeça, e que não me deixa dormir em paz: o que o Grêmio ganhou nos últimos 8 anos, à exceção do Ruralito?
c. Copa do Brasil é uma porcaria. Concordo. É um torneiozinho que só serve como trampolim para jogar Libertadores. Propícia para conquistas de times pequenos, vide Santo André, Paulista, Grêmio, Juventude, Criciúma... Mas, nesse sentido, reformulo a questão do tópico anterior, que cria uma situação mais constrangedora para os coperos y peleadores: o que o Grêmio ganhou, nos últimos 13 anos, que não seja essa porcaria de Copa do Brasil e o Ruralito? Daqui a 2 anos acho que vai ter baile de debutante por aí...
d. "Vexame histórico" na Libertadores 2007. Óbvio que não foi boa a campanha do Inter na Libertadores daquele ano. Mas foi, por exemplo, a mesma do tricolor da Azenha em seu respectivo grupo. Detalhe: O Grêmio fez 10 pontos num grupo contra Tolima e Cúcuta. O Inter fez 10 pontos num grupo que tinha também Velez Sarsfield e Nacional de Montevidéu. Tirem suas próprias conclusões...
e. Inter, LDU e Once Caldas. Tanto o time equatoriano quanto o colombiano foram campeões da Libertadores. E só. O Inter ganhou Libertadores, Recopa, Copa Sulamericana, Mundial FIFA e Copa Dubai. Bem igualzinho, né?
f. Times grandes desprezam a Sulamericana. Para isso, basta uma pequena pesquisa no You Tube, procurando imagens das finais da Copa Sulamericana de 2004 e 2005, anos em que o Boca Juniors foi campeão do certame. Prestem atenção em como a Bombonera tava vazia, em como a torcida tava desanimada, na atitude blasé dos atletas do time argentino ao comemorarem o título. Claro, isso tudo na visão do Fantástico Mundo Tricolor. Aquele mesmo, em que ganhar do Náutico um título de segunda divisão é motivo de orgulho e até de dvd e livro...
Acredito que tudo esteja bem esclarecido nessa altura do campeonato. É bom de vez em quando fazer uma faxininha, colocar cada coisinha em seu devido lugar, bonitinho. É um dever que supera inclusive o coloradismo. É um dever cívico. Para o bem da verdade. E, assim, podemos continuar a vida. Torcemos, afinal, por dois times campeões do mundo. Com uma pequena diferença, claro. O Inter é campeão do mundo. Já o Grêmio é campeão do mundo*. Mas deixa pra lá... Eu quero paz e amor.
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* Título relativo à Copa Toyota, jogo amistoso promovido pela referida fabricante de veículos, disputado entre os campeões de dois dos cinco continentes do mundo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Acabou o verão

Parece que o verão 2009 acabou. A temperatura baixou. As roupas das mulheres ficaram mais comportadas. A gripe se faz presente em cada centímetro do meu corpo. Antigamente, tinha pavor do verão. Afinal, ficava derretendo sem nenhuma possibilidade de defesa. O melhor do verão era a praia, um monte de areia e sal grudando no corpo, e uma sensação de inhaca permanente. Já o inverno sempre permitiu uma defesa mais tranquila. Bastava encasacar-se todo, dormir enrolado em dois edredons, e tava tudo resolvido.
Alguns anos e infecções de garganta depois, mudei um pouco minha opinião em relação à dicotomia verão-inverno. O grude da praia continua o mesmo. A insuportabilidade do calor também. Mas o verão tem muitas belezas a oferecer. Faltava ver isso, o lado bom da estação mais quente do ano. Sainhas, coxinhas, blusinhas, tudo serve como um maravilhoso colírio aos olhos masculinos.
O inverno, por sua vez, é uma estação carrancuda. Não mais se notam as virtudes femininas. Todos os talentos físicos das moças são escondidos. Fico triste com isso. Esse tipo de coisa me faz perder o sono. Todo aquele ritmo de festa, aquela coisa caliente, contagiante, se esvai melancolicamente pelo ar. Os espirros tomam conta da vida. Entre uns atchins e outros, resta providenciar um lugar quentinho, um parzinho legal, um edredonzinho. É o que há de bom no mar de tristezas que se transforma o ambiente de belos corpos ocultos. Tentemos, pois, desocultá-los.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Susan Boyle

O fenômeno que se tornou a aparição do talento de Susan Boyle, uma dona de casa britânica, não muito privilegiada pela natureza no quesito "beleza & outros atributos físicos" não deixa de ser reveladora da superficialidade analítica do ser humano. Afinal de contas, tratava-se de um programa que levava em conta o talento artístico das pessoas.
Ora bolas, a mulher foi ridicularizada ao adentrar o palco. Qual o talento artístico estava em voga, ali? O talento de ter nascido bonita? O talento de fazer cirurgias plásticas ou manter a forma em uma academia? O que, afinal, estava na pauta? Boyle cantou e deu um show. Deixou os imbecis que faziam parte do corpo de jurados boquiabertos. Susan Boyle, afinal, mostrou-se exímia cantora. Onde entra a tal beleza nisso tudo? O que houve de tão absurdo, tão espantoso? Uma mulher, que possui cordas vocais, cantou bem. É isso. Simples assim.
Talvez essa superficialidade de uma sociedade esquizofrênica na busca desenfreada dos atributos físicos dos seres humanos em direção a uma padronização patética e empobrecedora seja o que propicie o verdadeiro lixo cultural que invade nossas televisões, rádios e revistas. Sociedade desumanizadora de sorrisos plásticos e rostos de pedra, como diria Priscila Leone.
O pior disso tudo é que se criou um clima não de pura admiração ao talento de Susan Boyle. Ela virou exemplo de uma espécie de "freak show". Algo como "Nossa, apesar de feia ela canta bem!" Como se uma coisa tivesse algo a ver com a outra. Não há autocrítica da sociedade ao render-se ao talento da britânica. Há, isso sim, reforço da mentalidade dominante. Ao tratar-se tão diferenciadamente o caso de Susan Boyle, engrossa-se o caldo de quem pensa na exceção que confirma a regra. Não há relação de reconhecimento. Há relação de estranheza, de algo que se configura como novo, inesperado, bizarro. Susan Boyle é vista quase como uma aberração. Isso não é bom. É simplesmente lamentável.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Entre o orgulho e a irritação

A goleada de 8 a 1 sobre o Caxias, na tarde de ontem, que consagrou o Inter como Campeão Gaúcho de 2009, num cômputo geral, foi maravilhosa. Olhando o todo, realmente, 8 a 1 numa decisão é sensacional, e nós colorados, somos privilegiados. Entretanto, o jogo de ontem teve dois tempos distintos.
O primeiro tempo foi brilhante, prefeito, de orgulhar qualquer um que ame o vermelho e o branco do maior clube do Rio Grande do Sul. O Inter tocou sete no Caxias com a naturalidade com que se escova os dentes pela manhã. O time vermelho teve ímpeto, força, gana, buscou gols o tempo todo. E massacrou o Caxias. Já no segundo tempo, o Inter parou. Diminuir o ritmo é uma coisa. Parar de jogar, é outra. O Inter teve um inexplicável surto de benevolência. Deixou o Caxias fazer um gol, e foi fazer o seu naquela etapa do jogo só depois dos 40. Jamais aceitarei aquela postura do Inter. Fiquei abolutamente irritado em ver aquele Inter burocrático, sem qualquer ambição, esperando o jogo acabar. O colorado não quis jogar no segundo tempo. Por isso, limitarei minhas análises ao primeiro tempo.
O sistema defensivo jogou sério, os zagueiros Índio e Álvaro não deram brechas, e o setor não teve maiores problemas. O Inter amassou, e por isso permitiu inclusive muitos avanços dos laterais. Bolívar fez sua melhor partida nessa sua segunda passagem pelo clube. Apoiou com boa qualidade e foi seguro na marcação. Kléber foi o Kléber do Santos e da seleção. Foi presença constante no setor ofensivo, fez muitas combinações de jogadas, ultrapassagens, e presenteou os atacantes com cruzamentos preciosos, sendo uma das muitas grandes figuras do jogo.
O meio-campo foi brilhante. Sandro é uma afirmação. Joga demais. Muito em breve será titular da seleção. Marca demais, comete pouquíssimas faltas, e acerta 97% dos passes. El Cholo Guiñazu é um monstro. Jogou o que sempre joga. Muito. Fez até gol! E com categoria! E Magrão, então? O maloqueiro do nosso meio de campo foi o grande nome da partida. Nunca será o craque do Inter. Mas sempre será indispensável. É um jogador com alma. Magrão encarnou o coloradismo em seu corpo. Sua titularidade não pode ser questionada. Fez dois gols, sendo que o segundo foi uma obra de arte. Magrão é gana por vitórias garantida. É, junto com Guiñazu, o centro da indignação colorada, aquela indignação positiva, de quem se recusa terminantemente a perder qualquer jogo, de final de Mundial Interclubes a amistoso de pré-temporada contra o Ortopé no campo da Associação Geremia.
Por fim, o trio camarada que eu havia ressaltado ontem: D'alessandro, Taison e Nilmar. D'ale é um extra-classe. Que jogador de bola! Um gigante em todas as decisões de que participa. D'alessandro não teme porrada. D'alessandro não teme cara feia. D'alessandro é a grande referência técnica deste Inter candidato a tudo que dispute. Taison é a jóia rara. Deixou o dele. Deu um gol para D'ale. Disse "podia ser meu, mas fica de presente pra ti". Taison voa em campo. Inferniza qualquer defesa junto com Nilmar, de disposição ímpar dentro da partida. Até naquele segundo tempo modorrento, de abdicação ao futebol, o atacante voltava até o meio campo para buscar a bola, como quem diz "que palhaçada é essa? Vamo lá, gurizada, vamo fazer mais."
O Inter, enquanto jogou, foi perfeito. Coroa uma campanha absoluta em si mesma, invicta, com uma goleada histórica. Que poderia, é verdade, ser mais histórica ainda. Podia ser 9, 10, 11 a 0. Sem maiores incomodações. Mas foi só 8. Pelo menos, igualou a marca do ano passado, contra o Juventude. E que fique o registro: o simpático time do Caxias jogou uma partida leal na mais perfeita acepção da palavra. Não deu uma porrada. Perdeu apenas devido à superioridade técnica gritante do Inter. A nós, colorados, cabe comemorar mais um feito relevante deste clube que vive a brilhar. Mais duas taças no armário. Mais uma conquista para a única torcida destas plagas que comemora títulos em todas as esferas, do estado ao mundo. E pensar que ainda temos Copa do Brasil, Brasileirão, Copa Suruga, Recopa, e Copa Sulamericana para disputar neste ano...

domingo, 19 de abril de 2009

Mais uma final em nossas vidas

Ontem joguei minha primeira partida junto ao time da Borracharia 32 Horas, a convite do amigo Rafael. Na posição de goleiro, meu ofício. Apesar da completa falta de ritmo, provocada por 3 anos de absoluta inatividade futebolística, fiz algumas defesas, tomei um ou outro gol meio esquisito, mas valeu, o saldo foi positivo. E jogar num ambiente legal, com aquele clima de amizade, parceria, camaradagem, é sempre algo prazeroso.
E é exatamente esse tipo de clima de camaradagem que pode ser fator decisivo na decisão da Taça Fábio Koff, e também do Gauchão, que pode levar o colorado a mais um título. Quando vejo Nilmar e Taison jogando juntos, vejo acima de tudo dois amigos, dois camaradas, somados a D'alessandro. O sistema ofensivo do Inter joga com gosto. Os jogadores conhecem uns aos outros e transparecem que gostam de jogar juntos, gostam de trocar passes, vislumbrar o posicionamento do companheiro, exercer a sincronia da movimentação de um ataque mortífero.
É lógico que para que haja toda essa fluidez ofensiva o time precisa de uma boa sustentação do meio e da defesa. E isso é dado com sobras por Sandro, Magrão e El Cholo Loco Guiñazu. A pegada dos três no meio, somada a uma defesa que, apesar de alguns sustos na bola aérea, vem dando uma resposta no mínimo razoável, permite que o Inter jogue por música no ataque, brincando de jogar bola e meter gols. A chave do sucesso do colorado nessa temporada provavelmente seja exatamente o equilíbrio entre um sistema defensivo mais carrancudo, sério, tático, com a descontração ofensiva de D'ale, Taison e Nilmar. E, se mesmo assim, a coisa apertar, há Alecsandro, um centroavante de ofício, no banco, para resolver a parada. Ainda tá problemático? Pois bem, coloquem Andrezinho ou Giuliano pra soltar o meio campo e a cachorrada pra cima da defesa adversária. É exatamente essa gama de opções que o Inter tem, tanto para a formação inicial quanto para mudar qualquer panorama adverso, que faz do maior clube do Rio Grande do Sul indiscutível favorito a qualquer título que dispute na temporada de 2009.
E hoje temos mais uma final em nossas vidas. O primeiro título do Inter pós 100 anos aproxima-se de maneira inapelável. Costumo ser ponderado. Respeito muito o valoroso time do Caxias. Mas o Inter será campeão hoje. Está escrito nas estrelas. É quase o cumprimento de uma formalidade. Desde que o time entre em campo para jogar sério, a todo vapor. Final é final, e se o Caxias aí está, sendo melhor que Grêmio e Juventude, por exemplo, é porque tem virtudes que o fizeram ser melhor que estes times. Mas o Inter tem o dever de manter a doce rotina de levantar taças em cima de taças, obsessivamente. Essa é a essência de um time vencedor. Quando o Inter perder essa fome, e passar a comemorar participações em um ou outro campeonato, ficarei preocupado. Neste momento, meu time estará perdendo o diferencial dos vencedores. Neste momento meu time estará abandonando o papel de protagonista para ser um conformado e medíocre coadjuvante. Que este momento nunca chegue para o Sport Club Internacional.

sábado, 18 de abril de 2009

Soluções

Encontrar soluções para tudo que nos abate é impossível. Mas há problemas que são cristalinos e óbvios. Basta um certo tempo de auto-reflexão e pontuamos o que de ruim tem acontecido. Simples. Ridículo de tão simples. Porém, esse auto-diagnóstico é superficial. Conhecer a doença não implica, necessariamente, em conhecer a cura.
Aí, nossas diferentes hipóteses e premissas começam a se confrontar, até chegarem em um ponto de atrito e desgaste próximos do insuportável. Iniciamos a contagem regressiva de um tempo indefinido para nossa auto-destruição. Não há como saber quando o cume chegará. Só sabemos que vai chegar. Antes disso, vamos nos desconstruindo paulatinamente, até que nada, absolutamente nada, faça sentido. A mente perde o controle. Depois, o corpo.
Muito provavelmente a única saída, ou se não a única, pelo menos a mais simples, seja criarmos nosso próprio mundo mental. Fazer de conta que tudo que queremos existe, e tudo que não queremos inexiste. Se uma dor é permanentemente causada por um mesmo motivo, e esse mesmo motivo é constituído por nossas razões e sentimentos, a fórmula é simples: implodamos todas as nossas razões e sentimentos. É uma saída pragmática e melancólica. Isso porque o que há de bom, se algo de realmente bom há nisso tudo, também é destruído junto. Paciência. Não existe uma forma de sermos e não sermos a todo momento, e a nosso bel-prazer. Ou somos, ou não somos. Pelo menos para mim, posicionado de minha total incompetência e inabilidade para lidar com o que penso e sinto, vejo assim.
Sinto como se nesse momento estivessem ocorrendo, ininterruptamente, pequenas explosões dentro de mim. Ou transformo tudo isso numa grandiosa e derradeira explosão, ou fico esperando que estas micro-explosões cessem, em alguma hora. Não tenho dinamites o suficiente para meu momento nuclear. Agarro-me, sem muita firmeza, a uma expetativa totalmente completamente incerta e angustiante. Mas a vida em si mesma é incerteza e angústia. Talvez eu deva simplesmente fechar os olhos e esperar o tempo passar. Talvez tudo seja uma questão de ponto de vista. Nada como a agressividade dos fatos para despertar nosso senso de orgulho e amor próprio.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

(Ir) racionalidade humana

Não sei até que ponto nós, seres humanos, somos racionais. Sinceramente. Não sei até que medida ser racional é racional. Talvez o absurdo existencial que vivo seja extremamente datado e localizável no Google Earth. O fato é que me sinto enojado com a forma como as coisas humanas funcionam.
É óbvio que ser racional não implica perfeição. Muito antes pelo contrário, pode ser diametralmente o oposto. A racionalidade levada a certos patamares é enlouquecedora. O ser humano, ou melhor, alguns muitos seres humanos, vem se transformando num imenso vazio de manias, frescuras e superficialidades. As pessoas apodrecem-se por dentro em nome da pompa e da circunstância de uma imagem ideal, hipócrita e mesquinha. É evidente a incongruência do ser humano no que tange três diferentes elementos: discurso, prática e vontades. Numa perspectiva freudiana, a grosso modo, seriam o superego, o ego e o id. Mas prefiro chamar de discurso, prática e vontades. Dentre estas três dimensões a prática seria a mais maleável, a mais flexível. Não é por acaso que nela residem e nela se evidenciam todas as contradições humanas. É na prática que confrontamos eu e eu. É por isso que nela vou me deter. A prática possui moldes sociais, digamos, de primeiro e segundo graus. O primeiro é o da civilidade. É o saber conviver com os outros mediante normas sociais mais ou menos flexíveis. Esse grau é, a meu ver, indispensável. O segundo grau é o mais contraditório. Até mesmo porque relaciona-se intimamente com o primeiro. Trata-se da decodificação das normas por parte dos indivíduos. Ou seja, a interpretação das mesmas em situações em que a prática oferece uma margem de ação mais ampla e diversificada. Atingindo um certo nível-limite, é humano e desejável. Ultrapassado este limite, torna-se mecânico. Anti-humano. Irracional. Aí, nesse ponto, as normas já não mais se ligam à realidade que as originaram. Tornam-se normas individuais. Tornam-se normas doentias. Talvez nem sequer sejam mais normas.
Transformamo-nos, pois, em um bando de gente esquizofrênica. Cada um com suas próprias regras. Resumimos nossas vontades a apenas uma: manutenção social do nosso discurso. A satisfação humana se rebaixa. Empobrece. Se deteriora. A sociedade promove, numa contra-indicação desse panorama, uma homogeneização de heterogeneidades. Ninguém se entende de fato. Apesar disso, todos fingem que se entendem, pelo menos dentro de determinados grupos. E tudo o que tais grupos fazem é unificar a linguagem dos desentendimentos, sem, no entanto, eliminá-los. Parece-me que a única coisa a ser entendida, por hora, é que nada pode ser entendido. Nem este texto.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O novo T10

A linha T10 passou a ser operada, a partir do dia 13 de abril, segunda-feira, por outros consórcios (Unibus e STS), saindo das mãos (ou garras) da Carris. Não peguei suficientemente o ônibus nessa nova era para afirmar se melhorou ou piorou, até mesmo porque a mudança recém está em sua primeira semana. Mas pelo menos aparentemente melhorou. Pode ser puro e simples efeito psicológico. Ainda me falta pegar tal linha naqueles horários mais danados. Aí é que o bicho pega. Aí é que eu quero ver.
Espero, e aí creio que esteja falando em nome do restante dos usuários do T10, que haja mais respeito com os passageiros, por parte de Unibus e STS. E, fique claro, não me refiro a recursos humanos. Tanto os motoristas quanto os cobradores da Carris, de forma geral, são extremamente competentes e atenciosos para com os usuários. Mas, convenhamos, o desrespeito da Carris e sua política junto à linha T10 sempre foi evidente. Os usuários das demais linhas universitárias operadas pela empresa também sofrem bastante. Entretanto, o caso da referida linha sempre foi o mais gritante.
Tudo começa pela periodicidade. Durante o dia, nos horários "normais", os 20 minutos de espaçamento são bastante razoáveis. Porém, nos horários de pico, beiram ao absurdo. Mais do que isso, os ônibus em piores condições eram destinados à linha T10. Logo, não eram pouco frequentes as quebras. E então, os 20 minutos viravam 40. O ônibus, que já vinha escandalosamente lotado, virava uma distribuição seres vivos/área de dar inveja aos galináceos de aviários de produção em escala industrial.
Sinceramente, não sei se vai melhorar muito a partir de agora. Sou um pouco cético em relação a empresários da área de transporte coletivo. Afinal, são os mesmos que aumentam desavergonhadamente o valor das passagens em todo início de ano. Mas torço de verdade para que o serviço prestado pela linha e seus novos consórcios dê um salto de qualidade. Afinal de contas, os usuários do T10 são tão seres humanos quanto os usuários do Auxiliadora. Os moradores das zonas suburbanas são tão gente quanto as pessoas das áreas nobres da cidade. Adequar as linhas às respectivas demandas e necessidades das diferentes áreas de Porto Alegre seria um bom começo, um tanto racionalizável e coerente. Mas não corresponde aos interesses das empresas. Deixo isso, então, para quem acredita em coelhinho da páscoa e imortalidade...

Manipulações

Até que ponto estaríamos, nós, submissos ao mundo do trabalho? Nota-se, progressivamente, um direcionamento do ensino e da escolarização para o mundo do trabalho. É fato. Hoje em dia, tornou-se romântico, quase utópico, o pensamento que leva em conta a educação enquanto esfera de um verdadeiro desenvolvimento intelectual, artístico, crítico.
Diante das exigências de um mercado de trabalho extremamente competitivo gerado pelo sistema capitalista, o conhecimento torna-se mercadoria, e é mercantilizado mesmo na dimensão do conteúdo. "O que você quer ser quando crescer?" deixou de ser uma pergunta ingênua, com expectativa de resposta ingênua. Ela é carregada de significado. Existe uma robotização do ser humano. E isso não é nenhum devaneio marxista. Basta vermos como realmente a sociedade ocidental vem se comportando. As pessoas, principalmente da classe trabalhadora, trabalham para viver e vivem para trabalhar. Não há fuga. Não há tempo. O tempo que sobra para o sujeito, estraçalhado pela atividade laboriosa, é usado para o descanso em si, e para o esvaziamento do cérebro via televisão comercial. Esvaziamento? Será mesmo esvaziamento? Pior é que não é. No momento de descanso, em que o indivíduo está vulnerável, esgotado, todo o já escasso filtro crítico vai por água abaixo. Não há momento melhor para entrarem em cena novelas com pessoas ricas, bem-sucedidas, ou se não ricas e bem-sucedidas, ao menos pobres e felizes. Insuportavelmente felizes. E todo pobre infeliz com sua condição de classe, quando posto em cena, é um personagem caricato, ambicioso, que não valoriza nada além da dimensão material. Tsc, tsc, tsc... Mas não importa: tudo acaba em um bom samba! As novelas dizem "trabalhe e seja rico; caso não seja possível enriquecer com seu trabalho, pelo menos seja um pobre conformado e feliz, afinal moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza." É ou não é, Marcos Palmeira?
E todo o potencial crítico do sujeito vai pelo ralo, não por culpa do indivíduo, que simplesmente é esmagado por toda essa estrutura, mas sim, graças a um sistema perverso baseado na ganância, na homogeneização social, e na supressão do indivíduo enquanto tal, em troca de um individualismo superficial pautado por padrões arbitrários. E a massa fica um tanto entregue, nocauteada e manipulada sem perceber. E a massa ri. E as classes dominantes gargalham. Menos mal que ainda há setores da população que estão despertos. Constituem-se numa espécie de semente teimosa em solo infértil, capaz, porém, de fazer algo acontecer, em algum momento. Provavelmente ainda falte algum tempo para isso. Talvez nem mesmo venha a ocorrer. Mas a existência desses setores mantém a classe trabalhadora em seu coma profundo. Há, pois, esperança de vida.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Perguntas e respostas

Como seria tudo hoje, se algo, uma fração que fosse da realidade, tivesse sido diferente? Provavelmente seria tudo igual. Mas poderia ser diferente! E quantas e quantas vezes ficamos absolutamente submersos em nossas imaginações? Batemos à porta da paranóia. Talvez tudo pudesse ter sido pior. E por que não foi? Os motivos que evitaram pequenas tragédias não teriam sido tão trágicos quanto?
O exercício mental permanente limita-se a criar conjunturas que criam novas perguntas. São interrogações criando mais interrogações, em proporção geométrica. A ausência de respostas é incômoda. Talvez seja inerente ao ser humano o desejo de ter as soluções para todas as suas perguntas. Queremos sempre a visão ampla de todo o horizonte, à frente, atrás, à direita e à esquerda. Alguns alcançam suas respostas. Contentam-se com soluções mais simplórias e menos complexas.
Sinto-me inquieto. Tento construir minha visão do todo, passo a passo. Mas são tantos os passos que esqueço o caminho da volta. São tantos os passos que me vejo preso, outra vez, à mesma teia. Sinto que a única chance de compreender a minha vida seria se eu pudesse estar em todos os tempos e em todos os lugares. Talvez, nem assim. Talvez a esta fórmula eu devesse agregar a onisciência. Talvez, somente sendo Deus eu poderia criar minha própria razão e meus próprios caminhos.
É penoso para qualquer ser humano estar parado observando um lugar estranho em que nada faz nenhum sentido. Sinto-me assim a quase todo momento. A única coisa que me alivia é saber que há dias excepcionais. Dias em que nada precisa de resposta. Dias em que tudo faz sentido por si mesmo, sem precisar de qualquer explicação que ultrapasse a própria existência. Faz tempo que não tenho um dia desses. Lembro-me do último, um dos poucos grandes dias de minha vida, foi em dezembro, dia 26 eu acho, logo após o natal. De lá para cá, nada. De tão raros que são esses dias, há grande probabilidade de que eu não mais venha a ter um dia desses. Fico, assim, condenado à dolorosa busca por respostas fugidias, que se conectam e desconectam numa velocidade que minha mente não consegue acompanhar. Minhas únicas horas de paz são minhas horas de sono. E olha lá...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Marcas

A nossa vida é feita de marcas. Em certa medida, somos exatamente aquilo que nossas marcas nos ensinaram a ser. Somos produto de nossa própria vivência. Por isso, é um tanto covarde qualquer tentativa de impor uma fórmula de vida pronta para qualquer ser humano, universal. Ninguém pode dizer a outro como se deve viver. Claro, existe um padrão, um tipo humano médio, do qual nos afastamos mais ou menos, de acordo com nossas experiências e personalidades. Mas qualquer tentativa de estabelecer um caminho unívoco me parece bastante inconsistente.
Tudo que vivemos deixa marcas. Umas são marcas de travesseiro, um amassado que não ultrapassa nossa pele. Outras são cortes, de variadas profundidades, uns com cicatrização quase instantânea, outros que deixam uma discreta cicatriz, porém visível, para todo o sempre. Há ainda as queimaduras, deixando vestígios grosseiros do que se passou.
Eu tenho as minhas marcas, e todas elas me influenciam, me guiam por aí. Há aquelas que já cicatrizaram, mas se fazem presentes, cujo corte por vezes até mesmo volta a se abrir. Mas nada que fuja ao controle. Há, porém, marcas que ainda me perturbam. Por mais que eu tente tratá-las, não consigo. São marcas que ardem, ardem, ardem. Elas provem, incrivelmente, de experiências positivas. São doces lembranças que poderiam, ainda, ser realidade. Elas poderiam, concretamente, ainda fazer parte do mundo real. Elas já foram, ora, parte do mundo real.
E é exatamente isso que mais dói. Ver que certos momentos passaram na cronologia arbitrária de um tempo em linha reta. Mas ainda são presentes. Ainda poderiam ser retomadas, e seriam a retomada de algo que já existiu, de algo que não é sonho, de algo que não é utopia. Mas os dias passam e as marcas permanecem ali, ardendo, doendo na mente, doendo no peito. E a vida é uma menina travessa. Ela é debochada. Ela dá o gostinho fugaz de uma alegria para retirar em seguida, gargalhando. Mas, afinal, que justiça poder-se-ia esperar da vida? Ela é um quebra-cabeças de peças malfeitas. Ela é um quebra-cabeças com peças faltantes. Talvez o grande segredo seja querer somente o que está ao alcance de nossas mãos. Mas isso exige predominância total e irrestrita da razão. Seria a felicidade racionalizável? Não, definitivamente não acredito nessa hipótese. Por isso permaneço aqui, inerte, prisioneiro. Esperando chamarem a minha senha. Esperando minhas migalhas. Esperando minha felicidade.

domingo, 12 de abril de 2009

Páscoa

Mais uma páscoa em nossas vidas. Chocolates na geladeira. Umas geladeiras com mais chocolates, outras com menos. É a crise. Mas não posso reclamar. O coelhinho até que foi bem generoso comigo. No fim das contas, vai dar pra ganhar uns quilinhos. Fomentado o comércio de chocolates, hoje é dia de comida caprichada na mesa. É dia também de semifinal de Taça Fábio Koff.
O melhor presente que o coelhinho pode trazer no dia de hoje é uma bela vitória colorada sobre a Ulbra. Mal ou bem, o Inter está meio ferido com aquele gol sofrido no finzinho em Campinas. Hoje é dia de reafirmação colorada. Sobrou para a Ulbra.
Para o Inter, aliás, hoje não é apenas a semifinal da Taça Fábio Koff. É a semifinal do próprio Gauchão. E, ganhando, estaremos em nossa final de Gauchão, um privilégio que só nós temos. É como se tivéssemos a chance de disputar uma final, perder (toc, toc, toc), e jogar uma segunda final, começando do zero. Acredito no título ainda nesse turno. Mesmo com os problemas defensivos que vem apresentando, o Inter está sobrando em relação ao restante dos times. Só uma grande tragédia nos tiraria o trigésimo nono título gaúcho. Que a cestinha venha cheia de gols neste domingo!

sábado, 11 de abril de 2009

Playboy

Não levou nem uma semana. Leio no site do Terra que Priscila, uma das gostosonas do Big Brother, fechou contrato com a Playboy. É o BBB, sempre fornecendo carne pro açougue da Playboy. Claro, a mais famosa revista masculina do mundo faz a festa da macharada. Já fez a minha festa muitas vezes na adolescência. É uma instituição da adolescência.
Hoje em dia, com tudo digitalizado, as coisas ficam bem mais fáceis. A Playboy se desmistificou. Antes ela era de relativamente difícil acesso.
- Bah, tu nem sabe, comprei a Playboy da fulana!
- Sério? Nossa! Me empresta por uns dias?
- Tá bom, tá bom... Só não vai me grudar as páginas...
Hoje em dia a Playboy se democratizou. Entre os navegadores, claro. O povão ainda não possui tal facilidade de acesso. Mas, mesmo assim, a democratização da revista é evidente. Para desgraça da mesma, que está fadada a vender cada vez menos. A não ser que crie um fato novo. Não sejamos hipócritas, todos, inclusive eu, vão querer ver a Priscila peladinha. Sem pagar nada! Cuidado apenas para não pegar um cavalo de tróia por aí. A moça, que para meu espanto, li que é jornalista (teria ela cursado por correio?), evidentemente posaria para a Playboy. Era tão certo quanto dois e dois são quatro. Ou vinte e dois. Bem, o que importa é que a moça de bons atributos físicos vai fazer a alegria da marmanjada, colocar uma bela duma grana no bolso (ou na poupança, quem sabe? Grande poupança...), e fazer o que aparentemente mais gosta e tem o dom para fazer: mostrar o corpo para quem quiser ver, sem preconceitos de cor, idade, renda ou etnia.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Pés

Os pés são uma caso à parte na anatomia humana. Pelo menos pra mim. Tem gente que tem verdadeiro fetiche por pés. Eu não. Detesto pés. Embora os considere indispensáveis. O pé é, para mim, a parte mais feia e desagradável do corpo humano. Quem nunca viu um belo pé com as unhas podres, ou joanetes daquelas de fazer do sujeito um candidato potencial ao elenco de Arquivo X?
Não existem pés bonitos. Existem pés menos feios. Mas tais pés exigem um trabalho excessivo da natureza. Em geral, os pés são feios, das mais diversas maneiras. Ou possuem unhas enterradas. Ou possuem dedos excessivamente magros e longos. Ou possuem dedos excessivamente gordinhos. Ah, esses últimos... Quando os vejo, sinto uma vontade quase irresistível de pisar. Isso é o mais próximo de fetiche que tenho em relação a pés. Isso sem contar a maldita invenção humana chamada sandália. Chinelos, tudo bem, são para se usar bem informalmente, em casa (sim, há sempre os que os utilizam em ambientes não muito apropriados, de forma, digamos, "alternativa"). Mas as sandálias são um negócio triste. Dependendo da sandália, ela deixa o pé, que já não é algo exatamente bonito, uma coisa mais horrorosa do que já é. Sandália não embeleza o pé. Nunca. No mínimo conserva o grau de feiura. Esse é o tipo que eu ainda aceito, embora não goste.
Nada como um bom tênis, ou um belo sapato fechado. Esses sapatinhos rasteiros e fechados que as mulheres vem usando ultimamente são belíssimos. E me poupam da dolorosa desmistificação de ver o pé das moças. Se há alguma desmistificação a ser feita, que seja na cama, onde o que menos importa são os pés. Escondam, pois, seus pés, moças desse mundo. Mostrem apenas se vocês "se garantem" em relação à não-feiura dos mesmos. É até uma contradição das mulheres, que zelam por esconder seus defeitinhos, saírem por aí mostrando seus pés, que são um defeito em si mesmo. Ou vocês acham bonito ter pés feios?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Taison mais dez

É Taison e mais dez. Até algum tempo atrás eu defendia que, para uma eventual entrada de Alecsandro, o guri de Pelotas fosse para o banco, transformando-se num décimo segundo jogador, uma espécie de amuleto colorado. Revi minha posição. Taison tem que ser o mais titular dos titulares do Inter. Em 2009, é o principal jogador de um Inter em franca ascensão. Ele tá jogando demais. Dribla, passa, chuta, é dono de espantosa velocidade. Só não cabeceia. Soubesse cabecear, também, não seria Taison. Seria Pelé.
A boa fase de Taison inspira algo diferente para nós, colorados. Claro, temos outros craques como Nilmar e D'alessandro, que podem fazer a diferença a qualquer momento. Mas Taison está especialmente iluminado. Passa por uma fase muito semehante à que Alex passava em 2008. É o Midas colorado. Tudo que ele toca vira ouro. Isso passa uma confinaça muito especial. Aquela coisa de estarmos num jogo encardido, complicado, e podermos pensar "Mas o Taison tá em campo. A qualquer hora pode resolver"
Entretanto, também ficaram preocupações do jogo de ontem. Lauro definitivamente não está bem no gol do Inter. Não está comprometendo (ainda), mas já não passa segurança, sai estabanadamente do gol, solta bolas esquisitas, enfim, voltou a ser o velho Lauro de guerra, aquele que critiquei duramente quando foi contratado pelo Inter. Mas ainda tem créditos pelo que fez na Sul-Americana do ano passado. Assim como Álvaro, que está tendo atuações horrorosas na zaga do Inter. O zagueirão não está ganhando uma bola aérea, está lerdo, pesado, tropeça sozinho. É bom jogador, mas passa por uma fase medonha. Sorondo, quando voltar, e tomara que volte definitivamente, vai resolver o problema da bola aérea. Caso contrário, o Inter terá que ir ao mercado contratar um companheiro para Índio. Danilo Silva ainda é uma aposta, assim como Danny Moraes. Não dá pra depositar todas as fichas neles. A defesa preocupa sim, e preocupa o fato que as falhas vem saindo "na urina", porque o Inter até agora só enfrentou adversários inexpressivos no ano. Quando pegar time grande, a coisa pode se complicar. Por isso, é melhor prevenir do que remediar.
De qualquer maneira, valeu a vitória em Campinas. Por mais estraçalhado que esteja, o Guarani é um clube tradicional, campeão brasileiro, e, mais do que isso, um time que historicamente complicou a vida do Inter. Por isso, a vitória no Brinco de Ouro da Princesa é importante e tem o seu valor. Em mata-mata, qualquer vantagem é vantagem, principalmente quando se joga fora dos seus domínios. O Inter, o clube de todas as copas, sabe disso. E não vai decepcionar.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Insônia

Ele deita. São 22 horas. Nada mais tem a fazer. Guarda suas vontades para o dia posterior, na segunda gaveta, debaixo das camisas e em cima das meias. Antes de dormir, porém, levanta e come algumas bolachas Maria com um copo de leite. Bebe de uma vez só, quase que num único gole. Escova os dentes e volta para a cama. A noite não passa. É como se ela abraçasse aquele homem. É como se ela estrangulasse aquele homem.
A televisão fica ligada, e ele se vira, apenas ouvindo os tiros e dublagens "versão brasileira: Herbert Richards". A tv ligada carrega o significado de uma companhia. A única de que dispõe aquele homem. As horas passam, o incômodo aumenta. O sono não vem. O homem fecha os olhos para imaginar coisas boas. Imaginar uma vida ideal, com tudo o que ele quer. Mas ele não sabe o que quer. Seus pensamentos são desorganizados, meio desfocados, perdem-se no meio de uma triste neblina.
Como seria bom para ele poder dormir. Há dias não conseguia ter um sono minimamente reconfortante. Pega o controle e desliga a televisão. Revira-se na cama de casal. Pra lá e pra cá. Pra cá e pra lá. Reza e chora, clama por piedade divina. Ela disse que voltaria. Há seis dias. Talvez ela tivesse se enganado de dia. Aquela cama de casal tinha companhia semana passada. Não podia agora ter mudado. Onde estava ela? Ela ficou de buscá-lo. Mas não vinha, não vinha nunca! E ele aguardava, dia após dia, a chegada daquela dama de preto, que não acontecia. Até ela, que nunca havia esquecido ninguém, e que não haveria de esquecer ninguém, certeira que era, e por vezes até visitante inesperada, parecia tê-lo esquecido, logo ele que a esperava dia após dia. Até ela parecia desprezar-lhe, sordidamente.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O bobo

O bobo é aquele que acorda todos os dias esperando que o universo conspire a seu favor. O bobo é aquele que acredita nos sentimentos e em alguma nobreza humana. O bobo é aquele que passa esperançoso de que o amanhã pode ser diferente. O bobo é aquele que olha sem querer, sem poder, para aquilo que o mundo não lhe oferece. Ah, o bobo...
O mesmo bobo que acha que dinheiro não é nada na vida. Bobo, bobo, e bobo, que não vê que dinheiro e status são, sim, tudo na vida. A vida mostra para o bobo toda a sua bobice, mas ele continua assim, bobo. E o bobo acredita na honestidade. O bobo acredita que, ao ser sincero nas relações humanas, um dia vai se dar bem. O bobo não percebe a maldade do mundo. O bobo pisa fora de sua porta esboçando um sorriso largo de quem vai ter um dia feliz. O bobo, bobo que é, acredita que todos tem o direito de serem felizes. O bobo não vê que a felicidade é um privilégio que tem na etiqueta um preço que ele não pode pagar.
E o bobo continua. O bobo também chora. O bobo vive dando de cabeça na parede. Bobo e tonto. Bobo e tolo. Acima de tudo, bobo. Cada lágrima do bobo precede uma expectativa que apenas seus pulmões bobos respiram, que só seus olhos bobos antevêem, e que tão somente seu coração bobo sente. É essa a essência do bobo. Merece uns tabefes na cara pra deixar de ser bobo. Mas o bobo não cansa de apanhar da vida. Apanhar, levantar, e bobamente repetir os erros. Repetir os erros e bobamente submergir em suas imaginações bobas. Mas o bobo não consegue deixar de ser bobo. O bobo continua bobo. Por mais que doa ser bobo. E para sempre ele será bobo. Quando não mais for bobo, não mais será nada. Ora, quanta bobagem!

domingo, 5 de abril de 2009

Previsível

Não adianta. Gre-Nal está ficando cada vez mais previsível. É um samba de uma nota só. Os times entram em campo, o Grêmio sua sangue, cria chances, e o Inter vai lá, com sua qualidade visivelmente superior, faz os gols de maneira quase blasé, o jogo termina, e Celso Roth e os dirigentes do imortal-copero-peleador-argentino-de-boutique-que-não-ganha-títulos-e-comemora-vagas-para-competições-que-não-ganha falam um monte de bobagem.
Quem ouve Roth falando pensa que se trata de um treinador multicampeão, tipo Ferguson ou Mourinho, e que o Grêmio é o Manchester ou a Inter de Milão. Quem ouve Roth e os dirigentes gremistas pensa que o tricolor da Azenha está por cima da carne seca. Isso me lembra o mundo animal, aqueles bichinhos que comem carniça e ficam rindo. Como é que se chamam? Ah, isso, as hienas. O Grêmio não ganha nada importante há horas. Fato. A não ser que considerem Gauchão importante. Mas, não, o imortal não cairia nessa contradição, de considerar nessa contagem o estadual, esse título tão incômodo, que eles não queriam ganhar por estarem na Libertadores jogando contra potências mundiais como Aurora e Boyacá Chicó.
Acabo de ouvir, enquanto escrevo este texto, que Celso Roth caiu... Oh, ele caiu... O treinador que após o jogo de hoje disse que importante era Libertadores e que ironicamente parabenizou o Inter pela vitória no Gauchão está fora da Libertadores, vejam só! Desejo boa sorte a Celso Roth, esse gênio que o Grêmio não soube compreender. E ao clube que contratá-lo. Do fundo do coração.

O meu centenário

4 de abril de 2009. Acordo pela manhã com um objetivo marcado em minha agenda. Ir ao dentista. Sim, era o centenário colorado. Mas o dentista estava marcado. Escovei os dentes, tomei meu banho e saí. Desci do ônibus no centro, já vendo algumas pessoas dispersas com a camisa colorada. Eu também vestia meu manto.
Caminhava pela Andradas, matava tempo pois era muito cedo para a minha consulta. E resolvi ir até a Borges. Lá, vi um grupo de colorados, acho que uns vinte, cantando e rumando à marcha do centenário. Incorporei-me ao movimento. Pensei comigo mesmo "caminho até certo ponto e volto". Ledo engano. O coração colorado batia mais forte a cada passo. Resolvi ser irresponsável. Dane-se o dentista. Pago a consulta e pronto.
Chegamos à praça Spor Club Internacional. Fogos, muita gente, e um carro de som com Manuela D'ávila, Kenny Braga, Gaúcho do Beira-Rio, Píffero. Também estava lá o prefeito gremista José Fogaça. Foi ferozmente vaiado. Constrangido, acenava ao povo sob gritos de "Ei, Fogaça, vai tomar no c*". Quando falou ao microfone, ouviu pedidos para que vestisse o manto. Talvez meio eleitoreiramente, e para evitar uma saia justa mais atrevida ainda, vestiu o boné do Inter. Acalmaram-se os ânimos. Eu ligava para meu amigo Rafael, que também estava no evento, tentando marcar um ponto em que pudéssemos nos encontrar. Em vão. Eu não entendia nada que ele falava. Acredito que ele também não entendia nada que eu falava. Ficou assim mesmo.
O carro de som partiu, então, seguido por uma romaria de 30 mil colorados. O sol estava infernal. Comprei o primeiro latão de cerveja do dia. Bebericava e cantava. Encontrei a certa altura Luiza, amiga e colega de trabalho. Cumprimentamo-nos, fizemos uma breve comunhão colorada. E mantivemo-nos em nossos respectivos ritmos, dispersando-nos.
A caminhada seguiu com muitas cantorias e gritos. Ajudei, em certo momento, a carregar um bandeirão. Pesado. Mas valia, aquilo tudo valia. Cada gota de suor era devidamente paga pelo prazer de estar vivendo aquele momento. No finzinho do Marinha, quase no Beira-Rio, comprei meu segundo latão.
Adentrei o estádio. primeiramente sentei logo abaixo da aba da maior e melhor torcida do Rio Grande. Em seguida, abertos os portões que davam acesso a outros locais do Gigante, rumei ao lado oposto, com cadeiras que ficavam à sombra. Logo desisti e me mandei para trás da goleira, na arquibancada superior. Era torrado pelo sol. Mas ao menos estava de frente para o palco. O show do Ataque colorado foi sensacional, tocando hits da Popular e músicas como a que homenageia o ídolo Guiñazu, além do Hino Rio Grandense e do Hino do Inter, com participações especiais de Rafael Malenotti, Neto Fagundes e Armandinho.
Na sequência, na parte final da festa, já com pessoas indo embora, a Imperadores tomou conta do espetáculo. Tocou o samba campeão do carnaval, em homenagem ao clube do povo, enquanto eu bebia mais uma cerveja para me refrescar debaixo daquele sol de início de tarde. Entre outros sambas, animou o final de festa. E fui embora. Tive um centenário inesquecível. Assim como tantos momentos que o Inter já me proporcionou. Saí com uma certeza. O Inter é um fenômeno. Disparadamente o maior clube do sul do Brasil. Um dos maiores do Brasil, da América e do Mundo. Um mobilizador popular de força sem precedentes. Maravilhoso o bolo de aniversário. Saboroso, de lamber os dedos, e isso nada vai tirar. Mas hoje temos a cerejinha. Talvez não faça tanta diferença. Mas daria um gostinho especial.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Moldados

Somos socialmente moldados. Alguns podem se chocar ao ler isso. Claro, estou radicalizando aquilo que penso ao expressar tal opinião. Mas a realidade é que estamos muito mais próximos do que a sociedade quer do que daquilo que nós mesmos queremos. Uns são mais determinados pelos seus respectivos contextos, outros menos. Porém, o fato é que em alguma medida somos aquilo que o mundo quer que sejamos. Sempre.
Alguém pode se escandalizar. Afinal, somos livres para fazer escolhas, ora bolas! Talvez sejamos livres para escolher. Livres para escolher dentre opções que escolheram para nós. Somente nestes termos. Para alguns, essa liberdade minimalista pode ser chamada de liberdade. Para mim, não. Tal perspectiva é perigosa porque impõe limites arbitrários. Qualquer margem de ação, considerada nestes parâmetros, pode ser chamada de liberdade. Afinal, o prisioneiro é livre para transitar dentro de sua cela.
Sou um adepto da teoria da cultura política. Como pode, pois então, um culturalista não acreditar no protagonismo individual? Quanta heresia! Pois bem, acendam a fogueira, pois sou um herege. Convicto. É possível que se faça uma confusão mental entre protagonismo individual e protagonismo cidadão. Um culturalista que se preze não pode crer, honestamente, no primeiro. Por definição, cultura é diferente de indivíduo. Cultura é coletiva e coercitiva. Se acreditamos que, por exemplo, somente via uma mudança cultural as pessoas podem se tornar mais participativas, estamos retirando o foco do indivíduo e transferindo-o para uma espécie de "estrutura cultural". Logo, qualquer intenção de combinar protagonismo individual e cultura política me parece uma falácia. Ou uma grande maçaroca conceitual. Protagonismo cidadão, por outro lado, é, este sim, congruente com uma perspectiva culturalista. Cidadão é uma espécie de sujeito médio socialmente adequado, um ente que consegue se incorporar às esferas de decisão, não sendo, assim, um corpo estranho à sociedade em que vive e suas normas culturais e institucionais. Dou um doce para quem conseguir me convencer que o protagonismo individual é coadunável com o protagonismo cidadão, ou mesmo que os dois sejam a mesma coisa.
A liberdade num sentido maximalista, o único que eu consigo atrelar a esta expressão, ainda não passa de utopia. Não consigo vislumbrar caminhos pelos quais ela possa ser alcançada, e nem tenho tal pretensão. Mas nem por isso vou rebaixar o conceito de liberdade para uma percepção de senso comum limitada e medíocre. Talvez o primeiro, mínimo, ínfimo, microscópico passo para uma liberdade verdadeira seja termos a consciência de que não somos livres. Derrubemos, pois, os dogmas que nos acomodam em uma vida fantasiosa, que nos torna prisioneiros de ilusões, miragens e sensações de uma liberdade que ainda não foi descoberta pelo ser humano. A primeira atitude para construirmos uma casa de tijolos é destruir a casa de palha, por mais que tenhamos morado nela durante toda a vida.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Unidade das esquerdas

De encher os olhos a união das esquerdas no ato que marcou o dia 30 de março, reunindo estudantes e trabalhadores à frente do Palácio Piratini, construindo um coro uníssono de "fora Yeda". A sociedade brasileira vem se caracterizando ultimamente por uma preocupante fragmentação da esquerda. Exatamente por isso, o ato serve como um alento.JustificarÉ lógico que há visões diferentes em relação a meios para o mesmo fim. Existe a via revolucionária, a via reformista, a via democratista. Pode-se discordar sobre o ponto final, sobre os termos, mas, de fato, todos estes segmentos querem uma maior qualidade de vida, com um Estado atuante e eficiente na prestação de serviços básicos, tais como educação, saúde, segurança e habitação. Os movimentos não precisam se adorar em cima de um morango açucarado. Porém, somente com unidade, com o estabelecimento de uma pauta comum, pode-se tornar as lutas da classe trabalhadora minimamente eficazes.
Não deixa de ser até mesmo emocionante ver num mesmo ato, numa mesma caminhada, numa mesma perspectiva, bandeiras do PSTU, do PSOL, do PT, do PC do B, da Conlutas, da CUT, da UNE... São diferentes forças, diferentes métodos, mas com finalidade semelhante: a transformação social no sentido de tornar o contexto mais humano, erradicar a pobreza, tornar a distribuição de renda mais equânime e acabar com os absurdos níveis de exploração das elites sobre a massa de trabalhadores.
Talvez tudo isso seja uma grande utopia. Talvez Fukuyama esteja certo, e o mercado tenha se tornado dono de todos os destinos ad infinitum, dando cabo na História. Porém, as massas tem a obrigação de pressionar, de desafiar a inevitabilidade de um futuro sombrio. E para as massas serem massa, é necessária a unidade vista no ato do dia 30 de março de 2009, colocando do mesmo lado da trincheira os esquerdistas, os semi-esquerdistas, os quase semi-esquerdistas, e até mesmo os aspirantes a esquerdistas. Enquanto existir uma pauta em comum e interesses minimamente congruentes, a esquerda deve se manter em unidade.