sexta-feira, 27 de março de 2009

Por vós esperamos

O filme "Nós que aqui estamos por vós esperamos" é marcante. Trata-se de um filme sobre a história do século XX. Porém, passa longe de uma ótica positivista de abordagem. Ali, grandes e pequenos nomes da história recente da humanidade se confundem. Esse tipo de enfoque é especialmente interessante, porque nele nos vemos como sujeitos, talvez até mesmo agentes, da história.
A história não é feita pelos indivíduos, ela parece se sobrepor, transcender essa dimensão, ser maior, não tangível. Porém, o filme mostra como a história é movimentada pelos indivíduos, dentro de seus respectivos contextos. É a coletividade de particularidades que faz as coisas acontecerem. Antes de qualquer coisa, somos sujeitos históricos. Não há como flutuarmos sobre os períodos históricos que vivemos. Estamos inevitavelmente inseridos neles. De certa forma, somos a história. Existem indivíduos com mais ou menos poder de movimentação e transformação histórica, disso não se duvida. Mas sem as massas, a história não existe.
Nesse sentido, a modernidade entra com seus paradoxos e contradições. A massificação parece fazer contraponto a um individualismo exarcebado. Creio que não há contraponto, não há excludência. Há, isso sim, complementação. O fenômeno que ocorre é uma massificação ou uniformização de indivíduos atomizados, fragmentados. Dito de outra forma, verifica-se uma massificação do individualismo. Todos parecem buscar o bem-estar próprio e dos mais próximos, de maneira desconfiada em relação aos outros, configurando um familismo amoral outrora definido por Banfield. Existe uma crença generalizada de independência e autonomia, que esconde a crescente uniformidade social. O admirável mundo novo está aí. Podemos contemplá-lo ou modificá-lo. Tal nível de massificação é reversível, à medida que não adotemos a perspectiva de história linear. Caso contrário, estamos condenados aos nossos futuros códigos de barras controladores de desvios ao padrão de atitude de uma coletividade de seres humanos sem autonomia, enganados como robôs que pensam estar vivos e donos de seus destinos, e que até mesmo pensam que pensam.
O mais perturbador é que tudo se torna mais veloz e líquido, como diria Bauman. O tempo para reação e decodificação dos símbolos modernos é progressivamente suprimido. O que é já deixa de ser a partir do momento em que é. Utilizando a expressão de Marx: "tudo o que é sólido se desmancha no ar". A velocidade e a fugacidade das informações provenientes da globalização impede uma percepção minimamente refinada do que é verdade e do que é mentira. A verdade do minuto anterior torna-se uma ridícula e patética anedota, porque tudo é simplesmente despejado, sem reflexão, sem peneiras. E nós, sujeitos históricos, fazemos uma história dentre tantas existentes, com uma montagem própria, com um ajuntamento quase que aleatório das memórias, daquilo que escolhemos, ou que nos escolhe, para a montagem de nosso livreto.
A tendência é de que esse acúmulo de choques nos torne sujeitos blasé, tal qual na perspectiva de Simmel. Trata-se da perda de nossas percepções do que é ou não importante, em última análise, do que é ou não histórico. O bizarro já não mais o é. Acostumamo-nos a todo tipo de fenômeno outrora espantoso, que, por sua repetição, já não é mais decodificado. Os choques, por mais diferentes que sejam, tornam-se uma grande e abrangente categoria, menos peneirada, mais embrutecida. A velocidade torna-se inércia. Ficamos meio apatetados, vendo tudo acontecer, fazendo parte cenograficamente, violentados por uma multiplicidade de tempos simultâneos e atordoantes.

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